Poemas neste tema
Justiça e Igualdade
Ronaldo Cunha Lima
Conversando com meu pai
Na quietude daquela noite densa,
reclamei numa saudade a presença
do meu Pai, que há muito já morreu!...
Sorumbático e só, fiquei na sala,
sem ouvir de ninguém uma só fala:
todos dormiam entregues a Morfeu.
Continuei sozinho da vigília,
contemplando a placidez da mobília,
num silêncio quase que perfeito;
quebrando apenas com o gemer da rede,
as pancadas do relógio na parede
e o pulsar do coração dentro do peito.
De repente, coberta com um véu,
uma nuvem nascia lá do céu,
na sala onde eu estava, caí...
era algo de espanto realmente
dissipa-se a nuvem lentamente
e vai surgindo a imagem do meu pai.
Boa noite, meu filho! E se assusta?
Tenha mais um pouco de calma, porque custa
novamente voltar por este trilho:
Eu rompi os umbrais da eternidade
para, em braços de amor e de saudade,
conversar com você, filho querido!...
Tenho assistido todos os seus passos,
suas lutas, vitórias e fracassos,
em ânsias que não posso mais contê-las:
eu lhe assisto, meu filho, todo dia,
em suas vitórias choro de alegria
e as lágrimas transformam-se em estrelas.
Tenho visto também seus sofrimentos
suas angústias, dores e tormentos
e esperanças que foram já frustradas;
tenho visto, meu filho, da eternidade,
o desencanto de sua mocidade
e o pranto de suas madrugadas.
Compreendo, também, sua tristeza
ante a ânsia que traz na alma presa
de adejar cortando monte e serra;
sua ânsia de voar, cantando notas,
misturar seu vôo ao das gaivotas,
que beijam os céus sem deixar a terra.
Mas, ao lado dos atos de grandeza,
você me causa, filho, também tristeza,
em desgosto minhalma já flutua:
Ontem, porque não estava pronta a ceia,
prá sua mãe você fez cara feia,
bateu a porta e foi jantar na rua.
Você não soube, meu filho, e no entanto,
ela caiu prostrada em um pranto
soluçando seu íntimo desgosto.
Nunca mais, meu filho, isto faça,
pois para o filho não há maior desgraça
que em sua mãe deixar rugas no rosto.
Nunca mais a ofenda, nem de leve!...
O seu amor a ele aos céus eleve
e escute sempre, sempre o que ela diz.
Peça a Deus para durar sua existência
e, se assim fizer de consciência,
você, na vida, tem que ser feliz.
Conduza-se na vida com altivez,
fazendo da probidade, da honradez,
para você o seu forte brasão;
aprofunde-se, meu filho, no estudo,
fazendo da justiça o seu escudo,
amando o povo como ao seu irmão.
Continue no trabalho a que se entrega
sem temer obstáculo nem refrega,
pois com a vitória sempre você vai,
e se assim fizer, querido filho,
sua vida há de ser toda de brilho,
e honrará o nome de seu pai.
E nisso a nuvem comoventemente,
aos poucos se junta novamente,
envolvendo meu pai num denso véu;
e num olhar meigo e bem sereno,
dirige para mim um triste aceno
e vai de novo subindo para o céu!
E eu fiquei chorando de saudade,
alimentando aquela ansiedade,
sem poder abrandá-la. Que castigo!
Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia,
esperando que meu Pai rompa a distância,
prá vir de novo conversar comigo.
reclamei numa saudade a presença
do meu Pai, que há muito já morreu!...
Sorumbático e só, fiquei na sala,
sem ouvir de ninguém uma só fala:
todos dormiam entregues a Morfeu.
Continuei sozinho da vigília,
contemplando a placidez da mobília,
num silêncio quase que perfeito;
quebrando apenas com o gemer da rede,
as pancadas do relógio na parede
e o pulsar do coração dentro do peito.
De repente, coberta com um véu,
uma nuvem nascia lá do céu,
na sala onde eu estava, caí...
era algo de espanto realmente
dissipa-se a nuvem lentamente
e vai surgindo a imagem do meu pai.
Boa noite, meu filho! E se assusta?
Tenha mais um pouco de calma, porque custa
novamente voltar por este trilho:
Eu rompi os umbrais da eternidade
para, em braços de amor e de saudade,
conversar com você, filho querido!...
Tenho assistido todos os seus passos,
suas lutas, vitórias e fracassos,
em ânsias que não posso mais contê-las:
eu lhe assisto, meu filho, todo dia,
em suas vitórias choro de alegria
e as lágrimas transformam-se em estrelas.
Tenho visto também seus sofrimentos
suas angústias, dores e tormentos
e esperanças que foram já frustradas;
tenho visto, meu filho, da eternidade,
o desencanto de sua mocidade
e o pranto de suas madrugadas.
Compreendo, também, sua tristeza
ante a ânsia que traz na alma presa
de adejar cortando monte e serra;
sua ânsia de voar, cantando notas,
misturar seu vôo ao das gaivotas,
que beijam os céus sem deixar a terra.
Mas, ao lado dos atos de grandeza,
você me causa, filho, também tristeza,
em desgosto minhalma já flutua:
Ontem, porque não estava pronta a ceia,
prá sua mãe você fez cara feia,
bateu a porta e foi jantar na rua.
Você não soube, meu filho, e no entanto,
ela caiu prostrada em um pranto
soluçando seu íntimo desgosto.
Nunca mais, meu filho, isto faça,
pois para o filho não há maior desgraça
que em sua mãe deixar rugas no rosto.
Nunca mais a ofenda, nem de leve!...
O seu amor a ele aos céus eleve
e escute sempre, sempre o que ela diz.
Peça a Deus para durar sua existência
e, se assim fizer de consciência,
você, na vida, tem que ser feliz.
Conduza-se na vida com altivez,
fazendo da probidade, da honradez,
para você o seu forte brasão;
aprofunde-se, meu filho, no estudo,
fazendo da justiça o seu escudo,
amando o povo como ao seu irmão.
Continue no trabalho a que se entrega
sem temer obstáculo nem refrega,
pois com a vitória sempre você vai,
e se assim fizer, querido filho,
sua vida há de ser toda de brilho,
e honrará o nome de seu pai.
E nisso a nuvem comoventemente,
aos poucos se junta novamente,
envolvendo meu pai num denso véu;
e num olhar meigo e bem sereno,
dirige para mim um triste aceno
e vai de novo subindo para o céu!
E eu fiquei chorando de saudade,
alimentando aquela ansiedade,
sem poder abrandá-la. Que castigo!
Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia,
esperando que meu Pai rompa a distância,
prá vir de novo conversar comigo.
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2
William Wordsworth
O CARVALHO DE GUERNICA
O antigo
carvalho de Guernica, conta Laborde na sua descrição da Biscaia, é o monumento natural
mais venerável. Fernando e Isabel, em 1476, depois de ouvirem missa na Igreja de Santa
Maria la Antígua, dirigiram-se para essa árvore, sob a qual juraram aos biscaínos
respeitar os seus fueros. Que outro interesse esteja ligado a ele no espírito desse povo
é o que se verá do seguinte (soneto) supostamente falando ao mesmo. 1810.
Carvalho de Guernica! Árvore mais
Sagrada que em Dodona a que escondia
Uma divina voz (a fé o cria)
Dando da aérea fronde altos sinais!
Como podes florir em tempos tais?
Que esprança o Sol te traz, ou que alegria?
São-te trazidas pela maresia,
Ou por leves orvalhos matinais?
Benvindo seja o golpe que em ti caia,
E em terra alongue a tua fronde imensa,
Se nunca mais, à sua sombra densa,
Venham legisladors sentar-se ovantes,
Senhors e camponeses, como dantes,
Guardiães das liberdades da Biscaia.
carvalho de Guernica, conta Laborde na sua descrição da Biscaia, é o monumento natural
mais venerável. Fernando e Isabel, em 1476, depois de ouvirem missa na Igreja de Santa
Maria la Antígua, dirigiram-se para essa árvore, sob a qual juraram aos biscaínos
respeitar os seus fueros. Que outro interesse esteja ligado a ele no espírito desse povo
é o que se verá do seguinte (soneto) supostamente falando ao mesmo. 1810.
Carvalho de Guernica! Árvore mais
Sagrada que em Dodona a que escondia
Uma divina voz (a fé o cria)
Dando da aérea fronde altos sinais!
Como podes florir em tempos tais?
Que esprança o Sol te traz, ou que alegria?
São-te trazidas pela maresia,
Ou por leves orvalhos matinais?
Benvindo seja o golpe que em ti caia,
E em terra alongue a tua fronde imensa,
Se nunca mais, à sua sombra densa,
Venham legisladors sentar-se ovantes,
Senhors e camponeses, como dantes,
Guardiães das liberdades da Biscaia.
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2
Judas Isgorogota
Recebi
Recebi do Dr. Fernandes Lima,
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,
A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;
E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,
Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.
Governador perpétuo de Alagoas,
Pela graça de Deus, das almas boas
Que seguem a rota dos que estão de cima,
A importância mencionada acima
De Rs. 20$000, por que as pessoas
Das urbs, dos sertões e das lagoas
Vendem seu voto de entranhada estima;
E por cuja quantia me sujeito
A votar no Doutor; e, em testemunho,
Passo o presente, por José do Coito,
Em duplicata para um só efeito.
Maceió, Jaraguá, 12 de junho
De 1918.
1 274
2
Celso Emilio Ferreiro
Non
Si dixese que sí,
que todo está moi ben,
que o mundo está moi bon,
que cada quén é quén...
Conformidá.
Ademiración.
Calar, calar, calar,
e moita precaución.
Si dixese que acaso
as cousas son esí,
porque sí,
veleí,
e non lle demos voltas.
(Si aquíl está enriba
i aquil outro debaixo
é por culpa da vida.
Si algunhos van de porta en porta
cun saco de cinza ás costas
é porque son unhos docas).
Si dixera que sí...
Entón sería o intre
de falar seriamente
da batalla de froles
nas festas do patrón.
Pero non.
que todo está moi ben,
que o mundo está moi bon,
que cada quén é quén...
Conformidá.
Ademiración.
Calar, calar, calar,
e moita precaución.
Si dixese que acaso
as cousas son esí,
porque sí,
veleí,
e non lle demos voltas.
(Si aquíl está enriba
i aquil outro debaixo
é por culpa da vida.
Si algunhos van de porta en porta
cun saco de cinza ás costas
é porque son unhos docas).
Si dixera que sí...
Entón sería o intre
de falar seriamente
da batalla de froles
nas festas do patrón.
Pero non.
1 322
2
Salgado Maranhão
Sentença
faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
829
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 384
1
Charles Bukowski
Seja Gentil
sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
1 440
1
Charles Bukowski
Aposta Arriscada
claro, eu tinha perdido bastante sangue
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
1 073
1
Charles Bukowski
Vidas No Lixo
o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.
é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.
é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
1 507
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.
temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.
agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.
768
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Veste Dos Fariseus
Era um Cristo sem poder
Sem espada e sem riqueza
Seus amigos o negavam
Antes do galo cantar
A polícia o perseguia
Guiada por Fariseus
O poder lavou as mãos
Daquele sangue inocente
Crucificai-o depressa
Lhe pedia toda a gente
Guiada por Fariseus
Foi cuspido e foi julgado
No centro duma cidade
Insultos o perseguiam
E morreu desfigurado
O templo rasgou seus véus
E Pilatos seus vestidos
Rasgaram seu coração
Maria Mãe de João
João Filho de Maria
A treva caiu dos céus
Sobre a terra em pleno dia
Nem uma nódoa se via
Na veste dos Fariseus
Sem espada e sem riqueza
Seus amigos o negavam
Antes do galo cantar
A polícia o perseguia
Guiada por Fariseus
O poder lavou as mãos
Daquele sangue inocente
Crucificai-o depressa
Lhe pedia toda a gente
Guiada por Fariseus
Foi cuspido e foi julgado
No centro duma cidade
Insultos o perseguiam
E morreu desfigurado
O templo rasgou seus véus
E Pilatos seus vestidos
Rasgaram seu coração
Maria Mãe de João
João Filho de Maria
A treva caiu dos céus
Sobre a terra em pleno dia
Nem uma nódoa se via
Na veste dos Fariseus
1 034
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tu Sentado À Tua Mesa
Bebes vinho comes pão
Quem é que plantou a vinha?
Quem é que semeia o grão?
Lá no socalco da serra
Anda a cavar teu irmão
Debruçado sobre a terra
P’ra que tenhas vinho e pão
Para além daquela serra
P’ra que tenhas vinho e pão
Abrindo o corpo da terra
Dobra o corpo o teu irmão
Sua mão concha do cacho
Sua mão concha do grão
Em cada gesto que faz
Põe a vida em comunhão
Quem é que plantou a vinha?
Quem é que semeia o grão?
Lá no socalco da serra
Anda a cavar teu irmão
Debruçado sobre a terra
P’ra que tenhas vinho e pão
Para além daquela serra
P’ra que tenhas vinho e pão
Abrindo o corpo da terra
Dobra o corpo o teu irmão
Sua mão concha do cacho
Sua mão concha do grão
Em cada gesto que faz
Põe a vida em comunhão
2 022
1
Carlos Drummond de Andrade
Visão 1944
Meus olhos são pequenos para ver
a massa de silêncio concentrada
por sobre a onda severa, piso oceânico
esperando a passagem dos soldados.
Meus olhos são pequenos para ver
luzir na sombra a foice da invasão
e os olhos no relógio, fascinados,
ou as unhas brotando em dedos frios.
Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.
Meus olhos são pequenos para ver
a bateria de rádio prevenindo
vultos a rastejar na praia obscura
aonde chegam pedaços de navios.
Meus olhos são pequenos para ver
o transporte de caixas de comida,
.de roupas, de remédios, de bandagens
para um porto da Itália onde se morre.
Meus olhos são pequenos para ver
o corpo pegajento das mulheres
que foram lindas, beijo cancelado
na produção de tanques e granadas.
Meus olhos são pequenos para ver
a distância da casa na Alemanha
a uma ponte na Rússia, onde retratos,
cartas, dedos de pé bóiam em sangue.
Meus olhos são pequenos para ver
uma casa sem fog'o e sem janela,
sem meninos em roda, sem talher,
sem cadeira, lampião, catre, assoalho.
Meus olhos são pequenos para ver
os milhares de casas invisíveis
na planície de neve onde se erguia
uma cidade, o amor e uma canção.
Meus olhos são pequenos para ver
as fábricas tiradas do lugar,
levadas para longe, num tapete,
funcionando com fúria e com carinho.
Meus olhos são pequenos para ver
na blusa do aviador esse botão
que balança no corpo, fita o espelho
e se desfolhará no céu de outono.
Meus olhos são pequenos para ver
o deslizar do peixe sob as minas,
e sua convivência silenciosa
com os que afundam, corpos repartidos.
349-
Meus olhos são pequenos para ver
os coqueiros rasgados e tombados
entre latas, na areia, entre formigas
incompreensivas, feias e vorazes.
Meus olhos são pequenos para ver
a fila de judeus de roupa negra,
de barba negra, prontos a seguir
para perto do muro — e o muro é branco.
Meus olhos são pequenos para ver
essa fila de carne em qualquer parte,
de querosene, sal ou de esperança
que fugiu dos mercados deste tempo.
Meus olhos são pequenos para ver
a gente do Pará e de Quebec
sem notícia dos seus e perguntando
ao sonho, aos passarinhos, às ciganas.
Meus olhos são pequenos para ver
todos os mortos, todos os feridos,
e este sinal no queixo de uma velha
que não pôde esperar a voz dos sinos.
Meus olhos são pequenos para ver
países mutilados como troncos,
proibidos de viver, mas em que a vida
lateja subterrânea e vingadora.
Meus olhos são pequenos para ver
as mãos que se hão de erguer, os gritos roucos,
os rios desatados, e os poderes
ilimitados mais que todo exército.
Meus olhos são pequenos para ver
toda essa força aguda e martelante,
a rebentar do chão e das vidraças,
ou do ar, das ruas cheias e dos becos.
Meus olhos são pequenos para ver
tudo que uma hora tem. quando madura,
tudo que cabe em ti, na tua palma,
ó povo! que no mundo te dispersas.
Meus olhos são pequenos para ver
atrás da guerra, atrás de outras derrotas,
essa imagem calada, que se aviva,
que ganha em côr, em forma e profusão.
Meus olhos são pequenos para ver
tuas sonhadas ruas, teus objetos,
e uma ordem consentida (puro canto,
vai pastoreando sonos e trabalhos).
Meus olhos são pequenos para ver
essa mensagem franca pelos mares,
entre coisas outrora envilecidas
e agora a todos, todas ofertadas.
Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo,
— mas vêem, pasmam, baixam deslumbrados.
a massa de silêncio concentrada
por sobre a onda severa, piso oceânico
esperando a passagem dos soldados.
Meus olhos são pequenos para ver
luzir na sombra a foice da invasão
e os olhos no relógio, fascinados,
ou as unhas brotando em dedos frios.
Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.
Meus olhos são pequenos para ver
a bateria de rádio prevenindo
vultos a rastejar na praia obscura
aonde chegam pedaços de navios.
Meus olhos são pequenos para ver
o transporte de caixas de comida,
.de roupas, de remédios, de bandagens
para um porto da Itália onde se morre.
Meus olhos são pequenos para ver
o corpo pegajento das mulheres
que foram lindas, beijo cancelado
na produção de tanques e granadas.
Meus olhos são pequenos para ver
a distância da casa na Alemanha
a uma ponte na Rússia, onde retratos,
cartas, dedos de pé bóiam em sangue.
Meus olhos são pequenos para ver
uma casa sem fog'o e sem janela,
sem meninos em roda, sem talher,
sem cadeira, lampião, catre, assoalho.
Meus olhos são pequenos para ver
os milhares de casas invisíveis
na planície de neve onde se erguia
uma cidade, o amor e uma canção.
Meus olhos são pequenos para ver
as fábricas tiradas do lugar,
levadas para longe, num tapete,
funcionando com fúria e com carinho.
Meus olhos são pequenos para ver
na blusa do aviador esse botão
que balança no corpo, fita o espelho
e se desfolhará no céu de outono.
Meus olhos são pequenos para ver
o deslizar do peixe sob as minas,
e sua convivência silenciosa
com os que afundam, corpos repartidos.
349-
Meus olhos são pequenos para ver
os coqueiros rasgados e tombados
entre latas, na areia, entre formigas
incompreensivas, feias e vorazes.
Meus olhos são pequenos para ver
a fila de judeus de roupa negra,
de barba negra, prontos a seguir
para perto do muro — e o muro é branco.
Meus olhos são pequenos para ver
essa fila de carne em qualquer parte,
de querosene, sal ou de esperança
que fugiu dos mercados deste tempo.
Meus olhos são pequenos para ver
a gente do Pará e de Quebec
sem notícia dos seus e perguntando
ao sonho, aos passarinhos, às ciganas.
Meus olhos são pequenos para ver
todos os mortos, todos os feridos,
e este sinal no queixo de uma velha
que não pôde esperar a voz dos sinos.
Meus olhos são pequenos para ver
países mutilados como troncos,
proibidos de viver, mas em que a vida
lateja subterrânea e vingadora.
Meus olhos são pequenos para ver
as mãos que se hão de erguer, os gritos roucos,
os rios desatados, e os poderes
ilimitados mais que todo exército.
Meus olhos são pequenos para ver
toda essa força aguda e martelante,
a rebentar do chão e das vidraças,
ou do ar, das ruas cheias e dos becos.
Meus olhos são pequenos para ver
tudo que uma hora tem. quando madura,
tudo que cabe em ti, na tua palma,
ó povo! que no mundo te dispersas.
Meus olhos são pequenos para ver
atrás da guerra, atrás de outras derrotas,
essa imagem calada, que se aviva,
que ganha em côr, em forma e profusão.
Meus olhos são pequenos para ver
tuas sonhadas ruas, teus objetos,
e uma ordem consentida (puro canto,
vai pastoreando sonos e trabalhos).
Meus olhos são pequenos para ver
essa mensagem franca pelos mares,
entre coisas outrora envilecidas
e agora a todos, todas ofertadas.
Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo,
— mas vêem, pasmam, baixam deslumbrados.
3 978
1
Carlos Drummond de Andrade
Morte do Leiteiro
A Cyro Novais
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho .
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro. . .
Sem fazer barulho, é claro.
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada ?
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho .
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro. . .
Sem fazer barulho, é claro.
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada ?
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
2 059
1
Carlos Drummond de Andrade
Movimento da Espada
Estamos quites, irmão vingador.
Desceu a espada
e cortou o braço.
Cá está êle, molhado em rubro.
Dói o ombro, mas sobre o ombro
.tua justiça resplandece.
Já podes sorrir, tua boca
moldar-se em beijo de amor.
Beijo-te, irmão, minha dívida
está paga.
Fizemos as contas, estamos alegres.
Tua lâmina corta, mas é doce,
a carne sente, mas limpa-se.
O sol eterno brilha de novo
e seca a ferida.
Mutilado, mas quanto movimento
em mim procura ordem.
O que perdi se multiplica
e uma pobreza feita de pérolas
salva o tempo, resgata a noite.
Irmão, saber que és irmão,
na carne como nos domingos.
Rolaremos juntos pelo mar...
Agasalhado em tua vingança,
puro e imparcial como um cadáver que o ar embalsamasse,
serei carga jogada às ondas,
mas as ondas, também elas, secam,
e o sol brilha sempre.
Sobre minha mesa, sobre minha cova, como brilha o sol!
Obrigado, irmão, pelo sol que me deste,
na aparência roubando-o.
Já não posso classificar os bens preciosos.
Tudo é precioso. . .
[e tranqüilo
como olhos guardados nas pálpebras.
Desceu a espada
e cortou o braço.
Cá está êle, molhado em rubro.
Dói o ombro, mas sobre o ombro
.tua justiça resplandece.
Já podes sorrir, tua boca
moldar-se em beijo de amor.
Beijo-te, irmão, minha dívida
está paga.
Fizemos as contas, estamos alegres.
Tua lâmina corta, mas é doce,
a carne sente, mas limpa-se.
O sol eterno brilha de novo
e seca a ferida.
Mutilado, mas quanto movimento
em mim procura ordem.
O que perdi se multiplica
e uma pobreza feita de pérolas
salva o tempo, resgata a noite.
Irmão, saber que és irmão,
na carne como nos domingos.
Rolaremos juntos pelo mar...
Agasalhado em tua vingança,
puro e imparcial como um cadáver que o ar embalsamasse,
serei carga jogada às ondas,
mas as ondas, também elas, secam,
e o sol brilha sempre.
Sobre minha mesa, sobre minha cova, como brilha o sol!
Obrigado, irmão, pelo sol que me deste,
na aparência roubando-o.
Já não posso classificar os bens preciosos.
Tudo é precioso. . .
[e tranqüilo
como olhos guardados nas pálpebras.
2 412
1
Carlos Drummond de Andrade
O Rei Menino
O estandarte do Rei não é de púrpura e brocado,
é um lírio flutuante sobre o caos
onde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:
vem para evangelizar os brutos,
consolar os que choram,
exaltar os cobertos de cinza,
desentranhar o sentido exato da paz,
magnificar a justiça.
Entre Belém e Judá e Wall Street
no torvelinho de negações e equívocos,
a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,
surdos captam a melodia de anjos-cantadores,
mudos descobrem o movimento da palavra.
O Rei sem manto e sem joias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.
O Rei, criança,
permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas,
porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.
Seu sangrento destino prefixado não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.
é um lírio flutuante sobre o caos
onde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:
vem para evangelizar os brutos,
consolar os que choram,
exaltar os cobertos de cinza,
desentranhar o sentido exato da paz,
magnificar a justiça.
Entre Belém e Judá e Wall Street
no torvelinho de negações e equívocos,
a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,
surdos captam a melodia de anjos-cantadores,
mudos descobrem o movimento da palavra.
O Rei sem manto e sem joias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.
O Rei, criança,
permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas,
porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.
Seu sangrento destino prefixado não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.
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1
Carlos Drummond de Andrade
Alagados da Bahia
Casebres à flor d’água
balançam
no silêncio
o sonho de viver
o sonho de morrer.
Jenner Augusto sobre a água
sob o céu violeta
sob o céu de chumbo
lê o horóscopo das criaturas
que nos alagados
morrem sem viver.
balançam
no silêncio
o sonho de viver
o sonho de morrer.
Jenner Augusto sobre a água
sob o céu violeta
sob o céu de chumbo
lê o horóscopo das criaturas
que nos alagados
morrem sem viver.
1 355
1
Adão Ventura
Para um negro
para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
1 318
1
Carlos Drummond de Andrade
Cidade Prevista
Guardei-me para a epopeia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
1 775
1
Edmir Domingues
Canção do que fala
Valete, Dama, Rei,
Ás
A Justiça é um jogo.
Um jogo de interesses,
um jogo de paixões.
Raramente a Balança.
No entanto, quase sempre,
os azares do jogo.
A condição humana.
A ciência cultural.
Só nos resta jogá-lo
com o máximo empenho,
e toda a inteligência,
toda a força da Vida,
temperada no fogo
e no sangue e no Amor.
Não importa a Sentença.
Feita do inescrutável,
imune a todo oráculo.
Ás
A Justiça é um jogo.
Um jogo de interesses,
um jogo de paixões.
Raramente a Balança.
No entanto, quase sempre,
os azares do jogo.
A condição humana.
A ciência cultural.
Só nos resta jogá-lo
com o máximo empenho,
e toda a inteligência,
toda a força da Vida,
temperada no fogo
e no sangue e no Amor.
Não importa a Sentença.
Feita do inescrutável,
imune a todo oráculo.
787
1
Edmir Domingues
Canção perplexa, diante de Bob assassinado.
Há um país onde a bondade
é um passaporte (para a morte).
Onde se fala de igualdade
e se pratica a distinção.
Seu filho diz que ê irmão dos povos.
Nem mesmo é irmão do próprio irmão.
Foi Abe há tempo, após foi John,
E King, e Bob, e tantos são.
Há um país onde a bondade
só tem um prêmio • punição.
Por quê? Pergunta a voz do espanto.
Seu povo é bom, os povos são
como as crianças na pureza.
A culpa cabe à direção.
E quem dirige na verdade
essa potência de nação,
não é um homem, não são homens,
que esses estão na escravidão.
Pois são cérebros eletrônicos
hoje os heróis da usurpação,
terríveis máquinas sem alma,
sem o calor do coração,
sem a grandeza da fraqueza,
do erro e de sua redenção,
que encaram sempre a humanidade
medida em termos de equação.
Qual a esperança que nos resta
ante o poder dessa nação,
diante da Máquina insensível?
Que Deus nos guarde. . . Não sei, não.
E há um país de negros pobres
um pouco ao sul, a escuridão
fica na pele, não penetra
de sua gente o coração.
De grandes padres que hoje pregam
a verdadeira religião,
a que se encontra no Evangelho
que foi do Cristo a ensinação.
De um povo inculto e desnutrido
mas professor dessa lição:
de crença viva em liberdade,
de paciência na opressão,
da tolerância que se espalha
de litoral até sertão,
dessa igualdade só possível
depois da miscigenação,
que em voz de samba explica ao mundo
entre o compasso do violão,
que toda noite que prospera
é na verdade a anunciação
da grande aurora que, na sombra,
já vive a plena gestação.
é um passaporte (para a morte).
Onde se fala de igualdade
e se pratica a distinção.
Seu filho diz que ê irmão dos povos.
Nem mesmo é irmão do próprio irmão.
Foi Abe há tempo, após foi John,
E King, e Bob, e tantos são.
Há um país onde a bondade
só tem um prêmio • punição.
Por quê? Pergunta a voz do espanto.
Seu povo é bom, os povos são
como as crianças na pureza.
A culpa cabe à direção.
E quem dirige na verdade
essa potência de nação,
não é um homem, não são homens,
que esses estão na escravidão.
Pois são cérebros eletrônicos
hoje os heróis da usurpação,
terríveis máquinas sem alma,
sem o calor do coração,
sem a grandeza da fraqueza,
do erro e de sua redenção,
que encaram sempre a humanidade
medida em termos de equação.
Qual a esperança que nos resta
ante o poder dessa nação,
diante da Máquina insensível?
Que Deus nos guarde. . . Não sei, não.
E há um país de negros pobres
um pouco ao sul, a escuridão
fica na pele, não penetra
de sua gente o coração.
De grandes padres que hoje pregam
a verdadeira religião,
a que se encontra no Evangelho
que foi do Cristo a ensinação.
De um povo inculto e desnutrido
mas professor dessa lição:
de crença viva em liberdade,
de paciência na opressão,
da tolerância que se espalha
de litoral até sertão,
dessa igualdade só possível
depois da miscigenação,
que em voz de samba explica ao mundo
entre o compasso do violão,
que toda noite que prospera
é na verdade a anunciação
da grande aurora que, na sombra,
já vive a plena gestação.
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1
Ruy Belo
Do sono da desperta Grécia
Nenhuma voz em esparta nem no oriente
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 47 e 48 | Editorial Presença Lda., 1981
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 47 e 48 | Editorial Presença Lda., 1981
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Ruy Belo
Soneto superdesenvolvido
É tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem
Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada
E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou
Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 145 e 146 | Editorial Presença Lda., 1984
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem
Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada
E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou
Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 145 e 146 | Editorial Presença Lda., 1984
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