Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Olga Savary
Pedido
A Manuel Bandeira
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Caieiras, 25 de janeiro de 1954
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.
NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
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2
Paulo Leminski
uma carta uma brasa através
uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais
Poema integrante da série Caprichos e Relaxos.
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Cantadas literárias, 13
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais
Poema integrante da série Caprichos e Relaxos.
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Cantadas literárias, 13
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Lara de Lemos
Penélope
Para Lígia M. Averbuck
No tear pequeno
teço os fios
da minha vida
teço o tédio.
No tear do tempo
teço teia in-
consistente
teço o verso.
No tear do Universo
teço o verbo
solitário
teço o poema.
No tear do medo
teço o pano
derradeiro
teço o sudário.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
No tear pequeno
teço os fios
da minha vida
teço o tédio.
No tear do tempo
teço teia in-
consistente
teço o verso.
No tear do Universo
teço o verbo
solitário
teço o poema.
No tear do medo
teço o pano
derradeiro
teço o sudário.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
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2
Afrânio Peixoto
Mallarmé ou Valéry
Fiz uma charada:
Não sabia que isto é hoje
A poesia pura.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Não sabia que isto é hoje
A poesia pura.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
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2
Luiz de Miranda
Retrato da Presença de Quintana
De repente Mario nos ensina
o rumor da tarde e seus insetos
a sombra no silêncio
A vida vem do escuro
no brilho de uma maçã madura
na janela do verão
vem também a dura presença
de uma estrela deserdada
vem a luz verde do pomar
onde se inscrevem as vergamotas
o aroma gentil das romãs
o rubro amor das amoras
Vem a vida vem o Mario
com seu casaco cheio de asas
sobrevoa a casa de nossos sonhos
e circulam os anjos azuis do mar
a namorar o amargo perfil da ausência
vem a reticência de uma mão gelada
na janela azul da alma
De repente aprendemos
que as palavras sozinhas
não tecem a poesia
que só podemos tratá-las
ao calor da vida
e mesmo da melancolia
retiramos o mel da esperança
Porto Alegre, 1981
Publicado no livro Amor de amar (1986).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.17
o rumor da tarde e seus insetos
a sombra no silêncio
A vida vem do escuro
no brilho de uma maçã madura
na janela do verão
vem também a dura presença
de uma estrela deserdada
vem a luz verde do pomar
onde se inscrevem as vergamotas
o aroma gentil das romãs
o rubro amor das amoras
Vem a vida vem o Mario
com seu casaco cheio de asas
sobrevoa a casa de nossos sonhos
e circulam os anjos azuis do mar
a namorar o amargo perfil da ausência
vem a reticência de uma mão gelada
na janela azul da alma
De repente aprendemos
que as palavras sozinhas
não tecem a poesia
que só podemos tratá-las
ao calor da vida
e mesmo da melancolia
retiramos o mel da esperança
Porto Alegre, 1981
Publicado no livro Amor de amar (1986).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.17
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2
Pedro Kilkerry
É o Silêncio
É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
..........................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.
E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
..........................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.
E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
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2
Corrêa de Araújo
Carta
Quisera escrever-lhe com uma letrinha
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um "eternamente sua",
mas quem sabe se você me quererá para
sempre?
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um "eternamente sua",
mas quem sabe se você me quererá para
sempre?
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
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2
Murillo Mendes
Canção do Exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
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2
José Albano
Canção a Camões
Co'uma espada de prata e lira de ouro,
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.
Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito —
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.
Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saudosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.
(...)
Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branda e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.
(...)
Publicado no livro Canção a Camões e Ode à Língua Portuguesa (1912).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.113-115. (Série Revisões, 3)
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.
Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito —
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.
Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saudosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.
(...)
Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branda e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.
(...)
Publicado no livro Canção a Camões e Ode à Língua Portuguesa (1912).
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.113-115. (Série Revisões, 3)
NOTA: Poema composto de 7 estrofe
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Junqueira Freire
À Morte de Garrett
No doce arranco
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
4 982
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Cacaso
As Coisas
O melão melou
A casa casou
A bola bolou
A rola rolou
O mato matou
O dia adiou
A gia giou
A pia piou
O pinto pintou
O boi boiou
O gato engatou
O pato empatou
A pomba empombou
A paca empacou
O galo galou
O ralo ralou
O calo calou
O barco embarcou
A vaca avacalhou
A banana embananou
A sombra assombrou
O raio raiou
O piru pirou
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Poema integrante da série Letras.
NOTA: Música de Cláudio Nucc
A casa casou
A bola bolou
A rola rolou
O mato matou
O dia adiou
A gia giou
A pia piou
O pinto pintou
O boi boiou
O gato engatou
O pato empatou
A pomba empombou
A paca empacou
O galo galou
O ralo ralou
O calo calou
O barco embarcou
A vaca avacalhou
A banana embananou
A sombra assombrou
O raio raiou
O piru pirou
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. Poema integrante da série Letras.
NOTA: Música de Cláudio Nucc
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2
Paulo Leminski
LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
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Franz Kafka
Das Alegorias
Muitos se queixam de que as palavras dos sábios sejam sempre alegorias, porém inaplicáveis na vida diária, e isto é o único que possuímos. Quando o sábio diz: "Anda para ali", não quer dizer que alguém deva passar para o outro lado, o que sempre seria possível se a meta do caminho assim o justificasse, porém que se refere a um local legendário, algo que nos é desconhecido, que tampouco pode ser precisado por ele com maior exatidão e que, portanto, de nada pode servir-nos aqui. Em realidade, todas essas alegorias apenas querem significar que o inexeqüível é inexeqüível, o que já sabíamos. Mas aquilo em que cotidianamente gastamos as nossas energias, são outras coisas. A este propósito disse alguém: "Por que vos defendeis? Se obedecêsseis às alegorias, vós mesmos vos teríeis convertido em tais, com o que vos teríeis libertado da fadiga diária." Outro disse: "Aposto que isso é também uma alegoria." Disse o primeiro: "Ganhaste". Disse o segundo: "Mas por infelicidade, apenas naquilo sobre alegoria". O primeiro disse: "Em verdade, não; no que disseste da alegoria perdeste."
2 074
2
William Shakespeare
Trabalhos de Amor Perdidos
Mas o amor, primeiro aprendido em uns olhos de mulher,
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
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2
Stéphane Mallarmé
O TÚMULO DE EDGAR POE
(Tradução de Jorge de Sena)
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!
Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.
Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,
Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.
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Fernando Pessoa
Ah, já está tudo lido,
AH, JÁ ESTÁ tudo lido,
Mesmo o que falta ler!
Sonho, e ao meu ouvido
Que música vem ter?
Se escuto, nenhuma.
Se não ouço ao luar
Uma voz que é bruma
Entra em meu sonhar
E esta é a voz que canta
Se não sei ouvir...
Tudo em mim se encanta
E esquece sentir.
O que a voz canta
Para sempre agora
Na alma me fica
Se a alma me ignora.
Sinto, quero, sei que
Só há ter perdido -
E o eco de onde sonhei-me
Esquece do meu ouvido.
Mesmo o que falta ler!
Sonho, e ao meu ouvido
Que música vem ter?
Se escuto, nenhuma.
Se não ouço ao luar
Uma voz que é bruma
Entra em meu sonhar
E esta é a voz que canta
Se não sei ouvir...
Tudo em mim se encanta
E esquece sentir.
O que a voz canta
Para sempre agora
Na alma me fica
Se a alma me ignora.
Sinto, quero, sei que
Só há ter perdido -
E o eco de onde sonhei-me
Esquece do meu ouvido.
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2
Stéphane Mallarmé
BRINDE FÚNEBRE
Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!
Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.
Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.
5 010
2
Mafalda Veiga
Nós
Nós somos a forma bonita, completa, de se cantar
Nós somos a voz e a palavra que nunca vão acabar
Cantando e amando vivendo
Com toda a vontade que é possivel ter
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver
Nós somos o ser extravazado que o nosso sentir nos dá
O mito complexificado em busca do que não há
Cantando e amando e vivendo
Com toda a verdade que é possivel ter
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver
E eu canto e eu quero o que eu canto
Eu preciso de cantar para encher essa forma
Eu sou o que eu canto
É na voz que eu rebento de mim
Alguém completado na vida
Prolongado na morte que já ninguém tem
A partir do momento em que a forma bonita
Se encheu de uma essência qualquer de ser
Nós somos a dor mais profunda que existe em todo o planeta
Mas somos também a alegria melhor que se inventa
Se alguém perguntar afinal
O que é que nós somos de tão lindo assim
A resposta é tão simples
Basta olhar pra vocês e pra mim
Nós somos a voz e a palavra que nunca vão acabar
Cantando e amando vivendo
Com toda a vontade que é possivel ter
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver
Nós somos o ser extravazado que o nosso sentir nos dá
O mito complexificado em busca do que não há
Cantando e amando e vivendo
Com toda a verdade que é possivel ter
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver
E eu canto e eu quero o que eu canto
Eu preciso de cantar para encher essa forma
Eu sou o que eu canto
É na voz que eu rebento de mim
Alguém completado na vida
Prolongado na morte que já ninguém tem
A partir do momento em que a forma bonita
Se encheu de uma essência qualquer de ser
Nós somos a dor mais profunda que existe em todo o planeta
Mas somos também a alegria melhor que se inventa
Se alguém perguntar afinal
O que é que nós somos de tão lindo assim
A resposta é tão simples
Basta olhar pra vocês e pra mim
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2
Fernando Pessoa
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não
quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?...
Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não
quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?...
Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...
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2
Maria Azenha
Talvez
Talvez até a Vida seja simples
Os meus lábios são por exemplo
Feitos de vento
E a minha voz é uma cortina de fumo
Para me defender do frio
Lembrei-me um dia
De cortar os dedos
Para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!…)
Hoje tenho a convicção das dunas.
E sei que os meus cabelos
Escrevem 365 livros por ano
E
Procuro sozinha o Infinito.
Os meus lábios são por exemplo
Feitos de vento
E a minha voz é uma cortina de fumo
Para me defender do frio
Lembrei-me um dia
De cortar os dedos
Para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!…)
Hoje tenho a convicção das dunas.
E sei que os meus cabelos
Escrevem 365 livros por ano
E
Procuro sozinha o Infinito.
1 100
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Marguerite Duras
Ontem à noite
Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para
aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para
ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno.
Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.
Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba.
Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo,
o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque.
E depois comecei a escrever...
aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para
ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno.
Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.
Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba.
Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo,
o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque.
E depois comecei a escrever...
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2
Mario Benedetti
Tática e estratégia
Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és
minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti
minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos
minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és
minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti
minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos
minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.
9 354
2
Ana Cristina Cesar
Samba-canção
Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...
7 197
2
Luís de Camões
Enquanto quis Fortuna que Tivesse
Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Pera que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Pera que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,
Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.
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