Poemas neste tema
Morte e Luto
André Joffily Abath
O Coronel Medo e o Calendário Assassino
A morte com hora marcada
evita o espanto da surpresa,
mas traz consigo a angústia,
um espanto que lateja.
Tira da vida o teatro
e a transforma em ensaio.
A peça: não foi escrita,
o autor:vive já assassinado.
Foi morto por um calendário
criado por ele mesmo,
ou melhor, por seu mandante,
o Coronel Medo.
evita o espanto da surpresa,
mas traz consigo a angústia,
um espanto que lateja.
Tira da vida o teatro
e a transforma em ensaio.
A peça: não foi escrita,
o autor:vive já assassinado.
Foi morto por um calendário
criado por ele mesmo,
ou melhor, por seu mandante,
o Coronel Medo.
1 145
António Afonso Bernardino
Mineiro
Calção feito de remendos,
De borracha a alpercata,
Casaco de saragoça
E um capacete de lata,
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão.
Na jaula cai água forte,
Estremece o coração.
Oito horas sem ver sol,
Oito horas sem ver lua!
Debaixo das rochas negras
É que a vida continua.
O almoço é uma açorda,
Umas sopas e uns feijões,
O minério vai prò estrangeiro,
O pó fica nos pulmões.
A mulher ficou em casa
À espera de ele chegar.
Às vezes cai uma pedra,
Fica a família a chorar.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Perdeu o seu companheiro,
Nem conheceu o patrão.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Já não respira mais pó,
Foi pra dentro dum caixão.
(Aljustrel, 1995)
De borracha a alpercata,
Casaco de saragoça
E um capacete de lata,
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão.
Na jaula cai água forte,
Estremece o coração.
Oito horas sem ver sol,
Oito horas sem ver lua!
Debaixo das rochas negras
É que a vida continua.
O almoço é uma açorda,
Umas sopas e uns feijões,
O minério vai prò estrangeiro,
O pó fica nos pulmões.
A mulher ficou em casa
À espera de ele chegar.
Às vezes cai uma pedra,
Fica a família a chorar.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Perdeu o seu companheiro,
Nem conheceu o patrão.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Já não respira mais pó,
Foi pra dentro dum caixão.
(Aljustrel, 1995)
1 020
Antonio Roberval Miketen
Es Tarde para la Mañana
A Simone
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
638
Cláudio Alex
Para Ana
Conta-me o que houve...
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
810
Alexandre Marino
O Relógio Da Matriz
toda noite
quando badala
o relógio da matriz
os homens da cidade
se recolhem
para conta carneiros
e sonhar dinheiros
e morrem
a cada batida
do relógio da matriz
os mortos da cidade
então festejam
as badaladas na igreja
remoçando a terra.
quando badala
o relógio da matriz
os homens da cidade
se recolhem
para conta carneiros
e sonhar dinheiros
e morrem
a cada batida
do relógio da matriz
os mortos da cidade
então festejam
as badaladas na igreja
remoçando a terra.
1 244
Antônio Massa
Não há Vagas
Buscamos vagas
nas casas, nas mágoas
no ofício de Gente
no prato do irmão
Buscamos as vagas
nos muros, na arte
e nos arremates
de vida e de sorte
E na morte
buscamos a paz
e as chagas das vagas
das quais poucas jazem
Mas os senhores da ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno
E, ao menos, poderemos
morrer mais tranqüilos
sem enfrentar filas
nos barrancos, estradas, asilos
nas casas, nas mágoas
no ofício de Gente
no prato do irmão
Buscamos as vagas
nos muros, na arte
e nos arremates
de vida e de sorte
E na morte
buscamos a paz
e as chagas das vagas
das quais poucas jazem
Mas os senhores da ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno
E, ao menos, poderemos
morrer mais tranqüilos
sem enfrentar filas
nos barrancos, estradas, asilos
963
Aleilton Fonseca
Um Poema de Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 904
Albano Dias Martins
Trapézio
Volúvel foi o nome escolhido para a entronização da festa. Para seu ornamento, a máscara.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
968
Antônio Massa
Voar
O vero ato de voar
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
863
Antônio Massa
Réquiem
desta feita
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
825
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Poema das Vinte Horas
Vinte horas...
E te quedas jogado no meio da estrada,
Livre do corpo
Morto.
Vinte horas...
A lua estática e longíqua
As estrelas, os brilhos, os sonhos
E te quedas alí
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas, vinte minutos
Vinte séculos
Eternidade.
Não verás mais o sol
Ou já chegaste ao centro dele?
Mas teu corpo jogado
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas....
Vinte amigos, vinte irmãs, vinte mães,
Vinte santos, vinte vidas, vinte mortos,
Vinte, vinte, vinte...
E no meio da estrada
Jogado o corpo morto.
E tua memória nas memórias dos que ficam.
Um momento às vinte horas
E trocaste teu corpo morto
Pela eternidade de tua alma?
Ou lembranças nos homens que ficam?
Dos que fica à espera...
À espera apenas
De suas próprias vinte horas!
E te quedas jogado no meio da estrada,
Livre do corpo
Morto.
Vinte horas...
A lua estática e longíqua
As estrelas, os brilhos, os sonhos
E te quedas alí
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas, vinte minutos
Vinte séculos
Eternidade.
Não verás mais o sol
Ou já chegaste ao centro dele?
Mas teu corpo jogado
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas....
Vinte amigos, vinte irmãs, vinte mães,
Vinte santos, vinte vidas, vinte mortos,
Vinte, vinte, vinte...
E no meio da estrada
Jogado o corpo morto.
E tua memória nas memórias dos que ficam.
Um momento às vinte horas
E trocaste teu corpo morto
Pela eternidade de tua alma?
Ou lembranças nos homens que ficam?
Dos que fica à espera...
À espera apenas
De suas próprias vinte horas!
971
Antônio Girão Barroso
As Três Pessoas
Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
1 145
Afonso Duarte
Ex-voto da Paisagem
de Coimbra ao Pôr-do-Sol
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
1 151
Adriana Lustosa
Tenho que esperar
Tenho que esperar
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
1 024
Amândio César
Par ou Pernão
Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
1 036
Giuseppe Ungaretti
À MEMÓRIA DE
Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
1 620
Antônio Brasileiro
As Chamas Passionais
Eu sou o que sonhava as mil estrelas.
As mil estrelas no peito, uma paixão de fogo
a irromper do peito. Eu sou os sonhos
dos homens, sou as galáxias dos homens
que uma noite se reconheceram.
Não me tragam essas vidas sem assombros:
porque não há sossego.
As chamas passionais — como são fortes!
Ai, como são fortes!
Não, não esperem por mim — que vou morrer,
bebendo a luz da estrela Aidebarã entre uma taça e outra
de agonias.
As mil estrelas no peito, uma paixão de fogo
a irromper do peito. Eu sou os sonhos
dos homens, sou as galáxias dos homens
que uma noite se reconheceram.
Não me tragam essas vidas sem assombros:
porque não há sossego.
As chamas passionais — como são fortes!
Ai, como são fortes!
Não, não esperem por mim — que vou morrer,
bebendo a luz da estrela Aidebarã entre uma taça e outra
de agonias.
1 094
Antônio Brasileiro
Canto de Flor e de Ódio
Em vossos campos de flores
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.
(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;
tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;
tempo do ódio conciso)
Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.
Marcharemos contra o sol!
Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.
(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;
tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;
tempo do ódio conciso)
Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.
Marcharemos contra o sol!
Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.
990
Torquato Tasso
NA MORTE DE MARGARIDA BENTIVOGLIO
Não é isto um morrer,
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.
imortal Margarida,
ma, um passa,, mais cedo a uma, outra vida;
nem dessa ignota via
dor te descore ou prema,
mas só piedade na partida extrema.
De nós penosa e pia,
de ti feliz, segura,
te despedes do mundo, ó alma pura.
1 160
Augusto de Campos
Os crentes
Não inquiriram para onde seguiam.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
1 289
Augusto de Campos
Soldado
I
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.
II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.
II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...
1 667
Alfred Edward Housman
THE SIGTH THAT HEAVES
O suspiro que erva ondula
Onde jamais te hás-de erguer,
É só do ar que ali passa
Sem de suspiros saber.
As lágrimas de diamante
Que adornam teu leito ali
São por certo da manhã -
Que chora, mas não por ti.
Onde jamais te hás-de erguer,
É só do ar que ali passa
Sem de suspiros saber.
As lágrimas de diamante
Que adornam teu leito ali
São por certo da manhã -
Que chora, mas não por ti.
1 084
Gabriela Mistral
O PENSADOR DE RODIN
Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
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