Poemas neste tema
Morte e Luto
Alfred Edward Housman
IF TRUTH IN HEARTS
Se o vero em peitos mortais
Movesse os altos poderes,
O grande amor que te tenho
Não deixara tu morreres.
Sim: que se um firme sentido
Um pensar puro salvara,
Podia o mundo acabar,
Que a ti ninguém enterrara.
Este longo e fundo querer
Tal desejo de agradar-te
- Ai para sempre vivias,
Se pudesse isto salvar-te.
Mas porque nada é assim,
Sê gentil ainda comigo,
Antes que partas pra onde
Não terás melhor amigo.
Movesse os altos poderes,
O grande amor que te tenho
Não deixara tu morreres.
Sim: que se um firme sentido
Um pensar puro salvara,
Podia o mundo acabar,
Que a ti ninguém enterrara.
Este longo e fundo querer
Tal desejo de agradar-te
- Ai para sempre vivias,
Se pudesse isto salvar-te.
Mas porque nada é assim,
Sê gentil ainda comigo,
Antes que partas pra onde
Não terás melhor amigo.
953
Marcial
VI, 18 - A PRISCO, EPITÁFIO DE SALONINO
Santa de Salonino dorme em terra ibérica
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.
545
Alfred Edward Housman
WITH RUE MY HEART
De mágoa o coração me pesa
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.
De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.
De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.
1 025
Alfred Edward Housman
FAREWELL TO A NAME
Adeus a um número e um nome
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
1 253
Alfred Edward Housman
SHOT? SO QUICK
Um tiro? Um fim asseado?
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
1 020
Thomas Hardy
I NEED NOT GO
Porque ainda irei
por neve sem lei
aonde bem sei
que espera silente?
Há-de aguardar
possa eu poupar
o tempo a gastar
com outra gente.
Quando eu me farte
do mundo a ser parte,
e quando mais arte
já sobre ao que sei,
tempo é de ir aonde
o cipreste a esconde,
como quem responde:
Enfim, cá voltei.
Se o dia chegar
de ninguém negar
o que eu procurar,
e ainda eu não for
(com boa medida
ao ócio atribuída
no prazer sem brida),
paciente é o amor.
Não venham ralhar-me
por meu demorar-me
e nem perguntar-me
porque me fiquei.
Cuidados me chamam,
amores me inflamam,
Ela é dos que não clamam:
atura-me, eu sei.
por neve sem lei
aonde bem sei
que espera silente?
Há-de aguardar
possa eu poupar
o tempo a gastar
com outra gente.
Quando eu me farte
do mundo a ser parte,
e quando mais arte
já sobre ao que sei,
tempo é de ir aonde
o cipreste a esconde,
como quem responde:
Enfim, cá voltei.
Se o dia chegar
de ninguém negar
o que eu procurar,
e ainda eu não for
(com boa medida
ao ócio atribuída
no prazer sem brida),
paciente é o amor.
Não venham ralhar-me
por meu demorar-me
e nem perguntar-me
porque me fiquei.
Cuidados me chamam,
amores me inflamam,
Ela é dos que não clamam:
atura-me, eu sei.
1 460
Edith Sitwell
CÂNTICO DE DIDO
O meu Sol da Morte é ao invés para as profundas
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;
Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;
Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.
1 219
Archibald Mcleish
CHARTRES
Pedras, o que me espanta
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não vos tinham construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?
Meu espanto é que suportais,
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não vos tinham construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?
Meu espanto é que suportais,
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
1 074
Bocage
À INFIDELIDADE DE NISE
De nocturno, horroroso pesadelo
Fui na mente sombria atormentado;
Inda palpito, da visão lembrado,
Esfria o sangue, irriça-se o cabelo:
Vi dum lado a Desgraça impondo o selo
As leis, que em dano meu criara o Fado;
Meus Males em tropel vi de outro lado
Ais dirigindo a corações de gelo.
Coa pátria, mundo, e céu me vi malquisto,
Ao longe a Glória laureada, e bela,
Ouvi dizer-me: - «De te honrar desisto!» -
Tive a Morte ante mim torva, amarela;
Fúrias, Manes: - O horror não parou nisto,
Vi Nise, e o meu rival nos braços dela.
Fui na mente sombria atormentado;
Inda palpito, da visão lembrado,
Esfria o sangue, irriça-se o cabelo:
Vi dum lado a Desgraça impondo o selo
As leis, que em dano meu criara o Fado;
Meus Males em tropel vi de outro lado
Ais dirigindo a corações de gelo.
Coa pátria, mundo, e céu me vi malquisto,
Ao longe a Glória laureada, e bela,
Ouvi dizer-me: - «De te honrar desisto!» -
Tive a Morte ante mim torva, amarela;
Fúrias, Manes: - O horror não parou nisto,
Vi Nise, e o meu rival nos braços dela.
1 564
W. H. Auden
BLUES FÚNEBRES
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto - um laço no pescoço -
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz se engana.
É hora de apagar estrelas - são molestas -
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto - um laço no pescoço -
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz se engana.
É hora de apagar estrelas - são molestas -
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
2 076
Caio Valério Catulo
101
Depois de transpor muitos povos e muitos mares,
eu chego, irmão, a estas tristes exéquias
para trazer-te a derradeira oferenda fúnebre
e falar, mas em vão, à tua cinza muda,
já que a Fortuna, ai!, me separou de ti mesmo
e indignamente te arrebatou de mim.
Agora, porém, conforme à velha tradição
dos antepassados, aceita a magoada
oferenda fúnebre regada de fraterno
pranto, e para sempre, irmão, adeus e salve.
eu chego, irmão, a estas tristes exéquias
para trazer-te a derradeira oferenda fúnebre
e falar, mas em vão, à tua cinza muda,
já que a Fortuna, ai!, me separou de ti mesmo
e indignamente te arrebatou de mim.
Agora, porém, conforme à velha tradição
dos antepassados, aceita a magoada
oferenda fúnebre regada de fraterno
pranto, e para sempre, irmão, adeus e salve.
2 270
Emily Dickinson
MINHA VIDA ACABOU DUAS VEZES
Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim
Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim
Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.
(Tradução
de Manuel Bandeira)
2 071
Anónimo Francês do Século IX
A MORTE DE ROLANDO
À sombra de um pinheiro, estende-se Rolando,
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
E volta para Espanha a sua face.
Muitas coisas começa a recordar:
As terras que, barão, tem conquistado,
A doce França, os seus iguais no sangue,
O Imperador, que proteção lhe deu,
Os franceses, dos quais é tanto amado.
E contra o seu querer, chora e suspira;
De si, porém, deseja se lembrar:
Bate no peito e pede a Deus perdão:
Ó verdadeiro Pai, que nunca mentes,
Que Lázaro da morte libertaste
E, dos leões, salvaste Daniel,
A minha alma preserva do perigo,
Pelos pecados que na vida fiz!
A Deus entrega a luva da direita,
São Gabriel a toma em sua mão.
A cabeça, no braço, reclinando,
De mãos postas, chegou ao fim da vida.
lhe envia Deus seu anjo querubim
E São Miguel-Arcanjo-do-Perigo;
Juntamente com ele vem Gabriel
E a alma do conde levam para o céu.
937
Edith Sitwell
GREEN FLOWS THE RIVER OF LETHE - O
Verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...
Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!
Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.
Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.
Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.
Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -
E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...
Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!
Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.
Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.
Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.
Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -
E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...
1 275
Edmilson
Um dia é pouco
Um dia vida minha, vou tirar você desta coisinha
e te envolver na guerra de novos abraços.
Sacar do calhamaço um último pedido e me esquecer de
ter te oferecido apenas o silêncio,
me esquecer de ter adormecido frente ao contra-senso
de esconder palavras...
Um dia bucetinha, vou colar você na ladainha
do desejo e cobrir de beijo teu mistério.
E aquele critério de mulher com classe irá por água abaixo
quando eu retirar do cacho tua vulva esperta
e detonar prazeres pelas labaredas deste corpo em chamas...
Um dia vagabunda vou ejacular na sua tumba
e desdizer que a flor da morte é mais fecunda que a dor da vida.
Vou chorar na despedida,
mas meu coração gelado
vai zombar do teu projeto mal pensado
de suicidar-se,
e desprezar os novos ares que te acolheram
e te arrastaram deste mundo louco...
Um dia, meu amor é pouco, um dia é muito pouco...
e te envolver na guerra de novos abraços.
Sacar do calhamaço um último pedido e me esquecer de
ter te oferecido apenas o silêncio,
me esquecer de ter adormecido frente ao contra-senso
de esconder palavras...
Um dia bucetinha, vou colar você na ladainha
do desejo e cobrir de beijo teu mistério.
E aquele critério de mulher com classe irá por água abaixo
quando eu retirar do cacho tua vulva esperta
e detonar prazeres pelas labaredas deste corpo em chamas...
Um dia vagabunda vou ejacular na sua tumba
e desdizer que a flor da morte é mais fecunda que a dor da vida.
Vou chorar na despedida,
mas meu coração gelado
vai zombar do teu projeto mal pensado
de suicidar-se,
e desprezar os novos ares que te acolheram
e te arrastaram deste mundo louco...
Um dia, meu amor é pouco, um dia é muito pouco...
817
Agostina Akemi Sasaoka
Entranhas
O sorriso caiu.
Entre as pétalas de mim:
o cio.
Esperma aos farelos.
A lua bóia na taça de sangue.
Entre os sopros selvagens,
tórridos toques
(sinceros como um cadáver).
Com os dedos enfiados no vento,
quero lamber a liberdade.
Já esfacelei minhas lágrimas...
Enquanto o sol
baba sobre mim,
vou varrendo minha sombra
com restos de beijos...
A esperança dormiu.
Entre os subúrbios de mim:
a dor.
Bolhas de areia,
cacos de suor...
Há bolor nas estrelas.
Eis-me pecado!
Eis-me boca!
Pouca coisa:
alfinetes incendiados.
O amor vai pingando sobre o telhado,
amargo enquanto vocábulo:
deserto parido.
A vida é um estupro:
nasci para morrer.
Renascer das cinzas,
das sobras,
das teias...
Vou lutar até o orgasmo.
A noite
arrotou.
Assim seja,
assim sangre...
Entre a poeira de mim:
o prazer.
Caroço de paixão.
Vou morrer...
Vou morrer... Mas é só para te humilhar.
Vem...
Degola meu cheiro.
Não sou mulher,
sou distanásia.
Entre as pétalas de mim:
o cio.
Esperma aos farelos.
A lua bóia na taça de sangue.
Entre os sopros selvagens,
tórridos toques
(sinceros como um cadáver).
Com os dedos enfiados no vento,
quero lamber a liberdade.
Já esfacelei minhas lágrimas...
Enquanto o sol
baba sobre mim,
vou varrendo minha sombra
com restos de beijos...
A esperança dormiu.
Entre os subúrbios de mim:
a dor.
Bolhas de areia,
cacos de suor...
Há bolor nas estrelas.
Eis-me pecado!
Eis-me boca!
Pouca coisa:
alfinetes incendiados.
O amor vai pingando sobre o telhado,
amargo enquanto vocábulo:
deserto parido.
A vida é um estupro:
nasci para morrer.
Renascer das cinzas,
das sobras,
das teias...
Vou lutar até o orgasmo.
A noite
arrotou.
Assim seja,
assim sangre...
Entre a poeira de mim:
o prazer.
Caroço de paixão.
Vou morrer...
Vou morrer... Mas é só para te humilhar.
Vem...
Degola meu cheiro.
Não sou mulher,
sou distanásia.
918
Cristiane Neder
Os cogumelos do Paraíso
Minha loucura
não tem complexo
nem de Édipo, nem de Electra,
nem de qualquer puro amor
que saia das artérias.
Vivo no paraíso dos cogumelos
dias tristes, dias alegres,
mas tudo é ilusão passageira,
só não passa nesta vida
a casca estrangeira.
O doce e o amargo
do sabor da tua língua
ficou no Caribe
lá nos Portos cheios de gozo
e de prostituição.
Os cogumelos do paraíso
são adubados com a maresia
e os marujos já não são mais fêmeas,
pois as fêmeas são eternos machos
depois da ceia que consome seus rabos.
Nós não temos nada,
se temos a vida
ela ainda nos deve a morte,
portanto tudo é ilusão
dias de trabalho, outros de ócio
dias de amor, outros de ódio,
e os cogumelos são adubados
para fabricar desejos,
e onde não há alucinação
não germina gente,
nem se fabrica coração.
não tem complexo
nem de Édipo, nem de Electra,
nem de qualquer puro amor
que saia das artérias.
Vivo no paraíso dos cogumelos
dias tristes, dias alegres,
mas tudo é ilusão passageira,
só não passa nesta vida
a casca estrangeira.
O doce e o amargo
do sabor da tua língua
ficou no Caribe
lá nos Portos cheios de gozo
e de prostituição.
Os cogumelos do paraíso
são adubados com a maresia
e os marujos já não são mais fêmeas,
pois as fêmeas são eternos machos
depois da ceia que consome seus rabos.
Nós não temos nada,
se temos a vida
ela ainda nos deve a morte,
portanto tudo é ilusão
dias de trabalho, outros de ócio
dias de amor, outros de ódio,
e os cogumelos são adubados
para fabricar desejos,
e onde não há alucinação
não germina gente,
nem se fabrica coração.
1 880
Levi Bucalem Ferrari
Afeto
Como demonstrar afeto no espaço contido?
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos
E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido
O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário
A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente
A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence
No espaço do contido
Obviamente
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos
E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido
O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário
A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente
A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence
No espaço do contido
Obviamente
838
António Lobo de Carvalho
Soneto IX
A um figurão mui putanheiro, que em prémio de suas laboriosas proezas teve a pica decepada
De foder sujos conos já cansado
De Almeida apodreceu o membro enorme;
Parou enfim a máquina triforme,
Que tinha imensas cricas arrombado:
Soou por toda a parte o grosso brado
Do tremendo marzapo ingente, e informe;
Mas (desgraça cruel!) em cinzas dorme,
Por amolados ferros decotado:
A ver o triste funeral correram
Mais de mil putas, que ao fatal estrago
Cobrindo os olhos com as mãos gemeram:
Temei, casadas, o venal afago:
Olhai que vis michelas concorreram
Para ficar de Nise o cono vago
De foder sujos conos já cansado
De Almeida apodreceu o membro enorme;
Parou enfim a máquina triforme,
Que tinha imensas cricas arrombado:
Soou por toda a parte o grosso brado
Do tremendo marzapo ingente, e informe;
Mas (desgraça cruel!) em cinzas dorme,
Por amolados ferros decotado:
A ver o triste funeral correram
Mais de mil putas, que ao fatal estrago
Cobrindo os olhos com as mãos gemeram:
Temei, casadas, o venal afago:
Olhai que vis michelas concorreram
Para ficar de Nise o cono vago
1 195
Rainer Maria Rilke
Minha vida
não é esta hora abrupta
em que me vês tão açodado.
Sou uma àrvore em frente do meu fundo,
sou só uma das minhas muitas bocas
e,delas,a que mais cedo se fecha.
Sou o silêncio
que há entre duas notas
que só a custo se acostumam uma à outra:
porque a da morte quer elevar-se-
Mas no intervalo
escuro se congraçam
ambas trémulas.
E a melodia é bela.
em que me vês tão açodado.
Sou uma àrvore em frente do meu fundo,
sou só uma das minhas muitas bocas
e,delas,a que mais cedo se fecha.
Sou o silêncio
que há entre duas notas
que só a custo se acostumam uma à outra:
porque a da morte quer elevar-se-
Mas no intervalo
escuro se congraçam
ambas trémulas.
E a melodia é bela.
1 570
Pierre de Ronsard
Ode à sa maistresse
Quand au temple nous serons
Agenouillés, nous ferons
Les devots selon la guise
De ceus qui pour loüer Dieu,
Humbles se courbent au lieu
Le plus secret de leglise.
Mais quand au lit nous serons
Entrelassés, nous ferons
Les lascifs, selon les guises
Des amans, qui librement
Pratiquent folatrement
Dans les dras cent mignardises.
Pourquoi donque, quand je veus
Ou mordre tes beaus cheveus,
Ou baiser ta bouche aimée,
Ou tatonner ton beau sein,
Contrefais-tu la nonnain
Dedans un cloistre enfermée?
Pour qui gardes-tu tes yeus,
Et ton sein delicieus,
Ta joüe & ta bouche belle?
En veus-tu baiser Pluton
La-bas, apres que Caron
Taura mise en sa nacelle?
Apres ton dernier trespas
Gresle, tu nauras là bas
Quune bouchette blesmie:
Et quand mort je te verrois
Aus ombres je navuorois
Que jadis tu fus mamie.
Ton test naura plus de peau,
Et ton visage si beau
Naura venes ny arteres,
Tu nauras plus que les dens,
Telles quon les voit dedans
Les testes des cimeteres.
Donque, tandis que tu vis,
Change, maistresse, davis,
Et ne mespargne ta bouche:
Incontinent tu mourras,
Lors tu te repentiras
De mavoir esté farouche.
Ah je meurs, ah baise moi,
Ah maistresse approche toi,
Tu fuis come fan qui tremble,
Au moins soufre que ma main
Sesbate un peu dans ton sein,
Ou plus bas si bon te semble.
Agenouillés, nous ferons
Les devots selon la guise
De ceus qui pour loüer Dieu,
Humbles se courbent au lieu
Le plus secret de leglise.
Mais quand au lit nous serons
Entrelassés, nous ferons
Les lascifs, selon les guises
Des amans, qui librement
Pratiquent folatrement
Dans les dras cent mignardises.
Pourquoi donque, quand je veus
Ou mordre tes beaus cheveus,
Ou baiser ta bouche aimée,
Ou tatonner ton beau sein,
Contrefais-tu la nonnain
Dedans un cloistre enfermée?
Pour qui gardes-tu tes yeus,
Et ton sein delicieus,
Ta joüe & ta bouche belle?
En veus-tu baiser Pluton
La-bas, apres que Caron
Taura mise en sa nacelle?
Apres ton dernier trespas
Gresle, tu nauras là bas
Quune bouchette blesmie:
Et quand mort je te verrois
Aus ombres je navuorois
Que jadis tu fus mamie.
Ton test naura plus de peau,
Et ton visage si beau
Naura venes ny arteres,
Tu nauras plus que les dens,
Telles quon les voit dedans
Les testes des cimeteres.
Donque, tandis que tu vis,
Change, maistresse, davis,
Et ne mespargne ta bouche:
Incontinent tu mourras,
Lors tu te repentiras
De mavoir esté farouche.
Ah je meurs, ah baise moi,
Ah maistresse approche toi,
Tu fuis come fan qui tremble,
Au moins soufre que ma main
Sesbate un peu dans ton sein,
Ou plus bas si bon te semble.
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Luiza Neto Jorge
A porta aporta
a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
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