Poemas neste tema
Amor Romântico
Armindo Trevisan
Clareira
Quando depois do amor
ela está estendida
para o céu
e as pernas
reluzem
e a boca
tem o ar
de uma bicicleta junto
a uma macieira
e seu corpo
se move
e os seios
estão no tanque
dentro da sombra
tomo-a
mil vezes
e lhe sopro na boca
o ar
que esfriou na distância
que separa
a fruteira de cristal
dos lábios
que o moldaram
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
ela está estendida
para o céu
e as pernas
reluzem
e a boca
tem o ar
de uma bicicleta junto
a uma macieira
e seu corpo
se move
e os seios
estão no tanque
dentro da sombra
tomo-a
mil vezes
e lhe sopro na boca
o ar
que esfriou na distância
que separa
a fruteira de cristal
dos lábios
que o moldaram
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
1 050
Luís Delfino
O Lago
Mulher, és como um lago em flor, que se ilumina
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.
Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.
Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.
O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.
Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.
Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.
O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
2 338
Odylo Costa Filho
Dois Sonetos para Guimarães Rosa
1. SONETO DE DIADORIM
Quem pára, quando nasce a madrugada,
para pensar que a noite já vem vindo?
O amor é coisa sempre inesperada,
brota do vivo chão, grita dormindo.
Cheiro de bois, distante cavalgada,
buritizal no sol, mato bulindo,
Riobaldo carrega, em mão fechada,
mel e morte, ar do Cão, luz do Benvindo.
Sertão é seu: veredas e brejões,
couros, águas, sossegos, chapadões...
Mas a má sina esbarra a travessia.
E hoje só Diadorim voga nos campos,
campeando estrelas, anjos, pirilampos,
pertença da Senhora da Abadia.
2. SONETO DE ACEITAÇÃO
"A fortes braços de anjos sojigado."
GUIMARÃES ROSA
A fortes braços de anjos sojigado
andei por terras que nem mesmo eu sei,
em duras sortes fui crucificado,
provei dos mares a mais crua lei.
Mas não quis me quedar enfeitiçado
e na rede em que um dia me deitei
"Eu sou feliz" estava bem gravado
em sinal do destino que aceitei.
Juntei destroços do meu ser antigo,
e na piedade do maior tormento
regrudaste pedaço por pedaço.
A saliva do amor secou no vento
e contra o mal da morte meu abrigo
foi a sombra serena do teu braço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Tempo de Lisboa e outros poemas. Pref. Manuel Bandeira. Lisboa: Livr. Morais, 1966. (Círculo de poesia, 32)
Quem pára, quando nasce a madrugada,
para pensar que a noite já vem vindo?
O amor é coisa sempre inesperada,
brota do vivo chão, grita dormindo.
Cheiro de bois, distante cavalgada,
buritizal no sol, mato bulindo,
Riobaldo carrega, em mão fechada,
mel e morte, ar do Cão, luz do Benvindo.
Sertão é seu: veredas e brejões,
couros, águas, sossegos, chapadões...
Mas a má sina esbarra a travessia.
E hoje só Diadorim voga nos campos,
campeando estrelas, anjos, pirilampos,
pertença da Senhora da Abadia.
2. SONETO DE ACEITAÇÃO
"A fortes braços de anjos sojigado."
GUIMARÃES ROSA
A fortes braços de anjos sojigado
andei por terras que nem mesmo eu sei,
em duras sortes fui crucificado,
provei dos mares a mais crua lei.
Mas não quis me quedar enfeitiçado
e na rede em que um dia me deitei
"Eu sou feliz" estava bem gravado
em sinal do destino que aceitei.
Juntei destroços do meu ser antigo,
e na piedade do maior tormento
regrudaste pedaço por pedaço.
A saliva do amor secou no vento
e contra o mal da morte meu abrigo
foi a sombra serena do teu braço.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Tempo de Lisboa e outros poemas. Pref. Manuel Bandeira. Lisboa: Livr. Morais, 1966. (Círculo de poesia, 32)
1 541
Artur de Azevedo
Desengano
A pensionista pálida que gosta
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;
Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;
Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!
Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.
1873
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;
Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;
Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!
Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.
1873
In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 193
Leila Mícollis
Poema ao Mais Recente Amor
Estar entre teus pêlos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte dos teus líquens e teus rios,
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1993. v.4, p.5
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte dos teus líquens e teus rios,
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1993. v.4, p.5
1 205
Frederico Barbosa
Av Brasil, SP, 1987
flor de farol
colhida às pressas
entre o tédio maquinal da marcha lenta
sinal
de diferença
em meio à indiferença metálica
desses corpos impessoais
na agonia
da imobilidade densa
semáforo
signo insano
ensaio de abalo sísmico
lente de aumento
no amor e na impaciência
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 2 - Geografias
colhida às pressas
entre o tédio maquinal da marcha lenta
sinal
de diferença
em meio à indiferença metálica
desses corpos impessoais
na agonia
da imobilidade densa
semáforo
signo insano
ensaio de abalo sísmico
lente de aumento
no amor e na impaciência
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 2 - Geografias
1 216
Leila Mícollis
Em Órbita
(Para o show de Tereza Tinoco)
Com você
quero todas as intimidades
de um amor escandalosamente carnudo,
sobretudo imperfeito,
que seja capaz de fazer
eles morderem a boca de despeito
e nós lambermos os beiços de prazer.
Com você
quero um amor que não precisem devassar
porque é claro e transparente;
daí ameaçar a tanta gente
pesada,
que não sabe flutuar
nem libertar-se da seriedade.
Com você
quero um amor tão à vontade
que muito mais leve que o ar
possa desafiar a lei da gravidade...
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.4
Com você
quero todas as intimidades
de um amor escandalosamente carnudo,
sobretudo imperfeito,
que seja capaz de fazer
eles morderem a boca de despeito
e nós lambermos os beiços de prazer.
Com você
quero um amor que não precisem devassar
porque é claro e transparente;
daí ameaçar a tanta gente
pesada,
que não sabe flutuar
nem libertar-se da seriedade.
Com você
quero um amor tão à vontade
que muito mais leve que o ar
possa desafiar a lei da gravidade...
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.4
1 979
Claudio Willer
Eros
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
1 069
Rubens Rodrigues Torres Filho
Desenvolturas
Nós nos queremos bem: ah que derrama,
que hemorragia de sentimentos!
Irmãos! que almas transparentes temos!
O chão nos foge sob os pés, tão leve.
Podemos nos olhar pelos avessos
que é tudo luz. O bem que nos queremos
nos santifica até aos intestinos.
Que vísceras de vidro! Que evidência!
Meu pênis se eletriza — é um travessão! Um hífen!
Um traço-de-união entre duas almas
tão juntas, tão aninhadinhas
uma na outra que dá gosto e enlevos.
Nos sabemos de cor, rosto e relevos.
Tudo nos dança: umas fosforescências
embevecidas lambem nossos beiços
e um simples esplendor nos satisfaz!
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
que hemorragia de sentimentos!
Irmãos! que almas transparentes temos!
O chão nos foge sob os pés, tão leve.
Podemos nos olhar pelos avessos
que é tudo luz. O bem que nos queremos
nos santifica até aos intestinos.
Que vísceras de vidro! Que evidência!
Meu pênis se eletriza — é um travessão! Um hífen!
Um traço-de-união entre duas almas
tão juntas, tão aninhadinhas
uma na outra que dá gosto e enlevos.
Nos sabemos de cor, rosto e relevos.
Tudo nos dança: umas fosforescências
embevecidas lambem nossos beiços
e um simples esplendor nos satisfaz!
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 289
Frederico Barbosa
A Reconstituição de um Poema, 1986
Traços de tinta no papel cortado:
pedaços de uma mesma declaração
reiterada a cada palavra vaga,
mesmo a mais errônea e emocionada.
Esse seu soneto (ainda mais um)
minha mão insegura, tola e tonta,
pronta a tramar sua própria destruição,
em momento algum logrou rasgar
Pois mesmo cega faca e inconstante,
sendo incapaz de se saber feliz,
confiar na felicidade que há,
sabe e sente que ser é diferente,
nesse mundo de triste imperfeição,
quando se ama de forma tão exata.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 4 - Aos Mesmos Sentimentos
pedaços de uma mesma declaração
reiterada a cada palavra vaga,
mesmo a mais errônea e emocionada.
Esse seu soneto (ainda mais um)
minha mão insegura, tola e tonta,
pronta a tramar sua própria destruição,
em momento algum logrou rasgar
Pois mesmo cega faca e inconstante,
sendo incapaz de se saber feliz,
confiar na felicidade que há,
sabe e sente que ser é diferente,
nesse mundo de triste imperfeição,
quando se ama de forma tão exata.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 4 - Aos Mesmos Sentimentos
1 174
Neide Archanjo
Veio negra
(...)
Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.
Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.
(Sentada
nua.
Um lenço cobre o bandó
desce pelas encostas
longas líbias escuras.
No chão os seus arreios
nos joelhos minha cabeça que descansa.
É tarde
um sol pequeno brota na janela:
meu poema e seus contornos
entre seus dedos
como os seus adornos.
Na voz uma canção nagô
falando de coisas estranhas
que devem ser de amor.
Em seu corpo esplêndido
suor e gozo
beijoim e hortelã
um silêncio roxo resplandece.
Reina Nanã.)
(...)
Poema integrante da série Sítio III.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.
Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.
(Sentada
nua.
Um lenço cobre o bandó
desce pelas encostas
longas líbias escuras.
No chão os seus arreios
nos joelhos minha cabeça que descansa.
É tarde
um sol pequeno brota na janela:
meu poema e seus contornos
entre seus dedos
como os seus adornos.
Na voz uma canção nagô
falando de coisas estranhas
que devem ser de amor.
Em seu corpo esplêndido
suor e gozo
beijoim e hortelã
um silêncio roxo resplandece.
Reina Nanã.)
(...)
Poema integrante da série Sítio III.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 069
Leila Mícollis
De Volta Para o Presente
(Parte única - soneto indivisível...)
Hipólita, Antíope ou simples colona,
temíveis perigos, feliz, desafio,
mostrando a potência do meu poderio,
dos campos, senhora, dos píncaros, dona,
pois sou tua eterna e soberba Amazona,
com arco e com flecha, inclusive no cio,
num louco galope, em fatal desvario,
por ínvios caminhos que surgem à tona...
Aquiles, Teseu, o que queres que sejas,
em mim acharás o que tanto desejas:
um misto de gozo, ternura e esplendor,
por ser a Amazona das tuas florestas,
libertas, profundas, reais, manifestas,
sem fim cavalgando os sertões deste amor.
In: MÍCCOLIS, Leila. Só se for a dois. Co-aut. Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon, 1990. p.2
Hipólita, Antíope ou simples colona,
temíveis perigos, feliz, desafio,
mostrando a potência do meu poderio,
dos campos, senhora, dos píncaros, dona,
pois sou tua eterna e soberba Amazona,
com arco e com flecha, inclusive no cio,
num louco galope, em fatal desvario,
por ínvios caminhos que surgem à tona...
Aquiles, Teseu, o que queres que sejas,
em mim acharás o que tanto desejas:
um misto de gozo, ternura e esplendor,
por ser a Amazona das tuas florestas,
libertas, profundas, reais, manifestas,
sem fim cavalgando os sertões deste amor.
In: MÍCCOLIS, Leila. Só se for a dois. Co-aut. Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon, 1990. p.2
900
Neide Archanjo
40 [Ah, esta manhã tão clara
Ah, esta manhã tão clara
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
1 128
Augusto Massi
Bicicleta
Que surpresa a manhã me reserva,
a alegre scienza de tuas pernas.
És uma imagem tão concreta:
mulher passando de bicicleta.
Circulas feito jornal silencioso,
vens de um mundo novo.
Nervo exposto do movimento,
tempestade amorosa do tempo.
Texturas de ritmo e luz,
sensualidade, trobar clus.
Passas por mim e penso:
É por mim que ela passa.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
a alegre scienza de tuas pernas.
És uma imagem tão concreta:
mulher passando de bicicleta.
Circulas feito jornal silencioso,
vens de um mundo novo.
Nervo exposto do movimento,
tempestade amorosa do tempo.
Texturas de ritmo e luz,
sensualidade, trobar clus.
Passas por mim e penso:
É por mim que ela passa.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 193
Alberto de Oliveira
Confissão dos Olhos
Na sala, muita vez, junto aos que estão contigo,
Noto entrando que ao ver-me, entre surpresa e enleio
Ficas, como se acaso um sofrimento antigo
Eu te viesse acordar lá no íntimo do seio.
Por que enleio e surpresa? Olham-te, e empalideces;
Pões a vista no chão, fazes que desconheces
Estar ao pé de ti quem te perturba; acaso
Vais distraída; aqui tocas a flor de um vaso,
Ali de um velho quadro atentas na gravura;
Achegas-te à janela, olhas a tarde pura,
Voltas. De face então vês-me a estremecer. Quase
Disseste o que dizer te anseia há muito; a frase
Íntima, breve e ardente, em teu lábio purpúreo
Aflou num palpitar, fez ouvir um murmúrio,
Mas refluiu... Em torno atentos te encaravam.
Foi quando para mim teus grandes olhos voaram,
Voaram, vieram, assim como do firmamento
Duas estrelas, e a alma unindo a um pensamento
Único, em fluido a escoar dos raios de ouro em molhos,
Somem-se em mudo assombro, abismam-se em meus olhos.
E em minh'alma, lá dentro, eu sinto então, querida,
Que eles deixam cair, no ardor em que me inflamo,
Ah! e com que calor, com que sede de vida!
Letra a letra, a tremer, o teu segredo: Eu te amo!
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Noto entrando que ao ver-me, entre surpresa e enleio
Ficas, como se acaso um sofrimento antigo
Eu te viesse acordar lá no íntimo do seio.
Por que enleio e surpresa? Olham-te, e empalideces;
Pões a vista no chão, fazes que desconheces
Estar ao pé de ti quem te perturba; acaso
Vais distraída; aqui tocas a flor de um vaso,
Ali de um velho quadro atentas na gravura;
Achegas-te à janela, olhas a tarde pura,
Voltas. De face então vês-me a estremecer. Quase
Disseste o que dizer te anseia há muito; a frase
Íntima, breve e ardente, em teu lábio purpúreo
Aflou num palpitar, fez ouvir um murmúrio,
Mas refluiu... Em torno atentos te encaravam.
Foi quando para mim teus grandes olhos voaram,
Voaram, vieram, assim como do firmamento
Duas estrelas, e a alma unindo a um pensamento
Único, em fluido a escoar dos raios de ouro em molhos,
Somem-se em mudo assombro, abismam-se em meus olhos.
E em minh'alma, lá dentro, eu sinto então, querida,
Que eles deixam cair, no ardor em que me inflamo,
Ah! e com que calor, com que sede de vida!
Letra a letra, a tremer, o teu segredo: Eu te amo!
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
2 302
Alberto de Oliveira
Os Amores da Estrela
Já sob o largo pálio a tenebrosa
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
2 768
Moacyr Felix
Iniciação
— Meu pai, o que é a liberdade?
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.
— Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.
— Meu pai, o que é a liberdade?
É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)
Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
— É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.
— Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo d'água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.
— Meu pai, o que é a liberdade?
É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o braseiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para a altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
(...)
Publicado no livro Canto para as Transformações do Homem (1964).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.4-
1 324
Sousa Caldas
Ode II [Oh! quanto és bela
Oh! quanto és bela
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
1 084
Tomás Antônio Gonzaga
Lira V
Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
3 853
Max Martins
Isto por Aquilo
Impossível não te ofertar:
O rancor da idade na carga do poema
O ronco do motor numa garrafa
Ou isto
(por aquilo
que vibrava
dentro do peito) o coração na boca
atrás do vidro a cavidade
o cavo amor roendo
o seu motor-rancor
— ruídos
Belém, maio 84
Publicado no livro 60/35 (1986).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.74. (Verso & reverso, 2
O rancor da idade na carga do poema
O ronco do motor numa garrafa
Ou isto
(por aquilo
que vibrava
dentro do peito) o coração na boca
atrás do vidro a cavidade
o cavo amor roendo
o seu motor-rancor
— ruídos
Belém, maio 84
Publicado no livro 60/35 (1986).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.74. (Verso & reverso, 2
1 237
Max Martins
Túmulo de Carmencita, 1985
Este não é o túmulo, é o poema. Aquele
outrora erguido à sombra, ao sono
de teu nome-carmen, Carmencita
Arévolo
de Vilacis, tua árvore
tua raiz, teu ventre ponderoso
pátria
(a que descubro minha
versão de não traído, não
assenhoreado)
canto
chão
jazigo
terra
que ainda aqui agora amo: abro
Tua palavra-caixa atro-vazia, muda
desistidamente muda
Soledad
Belém, fevereiro 85
Publicado no livro 60/35 (1986).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. São Paulo: CEJUP, 1992. p.77. (Verso & reverso, 2
outrora erguido à sombra, ao sono
de teu nome-carmen, Carmencita
Arévolo
de Vilacis, tua árvore
tua raiz, teu ventre ponderoso
pátria
(a que descubro minha
versão de não traído, não
assenhoreado)
canto
chão
jazigo
terra
que ainda aqui agora amo: abro
Tua palavra-caixa atro-vazia, muda
desistidamente muda
Soledad
Belém, fevereiro 85
Publicado no livro 60/35 (1986).
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. São Paulo: CEJUP, 1992. p.77. (Verso & reverso, 2
1 617
Cruz e Sousa
Asas Abertas
As asas da minh'alma estão abertas!
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.
Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.
Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.
Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
Podes te agasalhar no meu Carinho,
Abrigar-te de frios no meu Ninho
Com as tuas asas trêmulas, incertas.
Tu'alma lembra vastidões desertas
Onde tudo é gelado e é só espinho.
Mas na minh'alma encontrarás o Vinho
e as graças todas do Conforto certas.
Vem! Há em mim o eterno Amor imenso
Que vai tudo florindo e fecundando
E sobe aos céus como sagrado incenso.
Eis a minh'alma, as asas palpitando
Com a saudade de agitado lenço
O segredo dos longes procurando...
Publicado no livro Últimos sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e notas Adriano da Gama Kury. Est. liter. Julio Castañon Guimarães. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 198
2 654
Tomás Antônio Gonzaga
Lira III
Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia,
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos,
queimar as capoeiras inda novas,
servir de adubo à terra a fértil cinza,
lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
das secas folhas do cheiroso fumo;
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumes de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.
Lerás em alta voz, a imagem bela;
eu, vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo
o cansado processo.
Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
que tens quem leve à mais remota idade
a tua formosura.
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia,
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos,
queimar as capoeiras inda novas,
servir de adubo à terra a fértil cinza,
lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
das secas folhas do cheiroso fumo;
nem espremer entre as dentadas rodas
da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumes de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus consultos,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.
Lerás em alta voz, a imagem bela;
eu, vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo
o cansado processo.
Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
que tens quem leve à mais remota idade
a tua formosura.
Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
4 526
Walmir Ayala
Ciclo
III (passeio)
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
Passeamos corpo a corpo
com muitos segredos impedidos
e muitos medos, muitas águas
nos imaturos vestidos.
Muitas águas que não secam,
de prantos desprevenidos.
(Passeamos corpo a corpo,
confusos, desentendidos).
Havia entre nós a caixa
que um anjo prendia nos dedos,
por isso necessitávamos
da precaução de tais medos.
E este era o caminho certo
do meu descanso, do meu triste
coração claro e deserto
que junto às águas repartiste.
Junto àquelas mesmas águas
que te afogaram
mas não viste.
Publicado no livro Cantata (1966). Poema integrante da série Os Espinhos da Noite.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.239-242
NOTA: Poema dividido em 4 partes: I (a vinda), II (tempo), III (passeio), IV (colheita
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