Poemas neste tema
Amor Romântico
Antero de Quental
Pepa
Dá-me pois olhos e lábios;
Da-me os seios, da-me os bracos;
Da-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abracos!
Empresta-me a voz ingênua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!
Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!
Presta-me a tua inocência,
Para eu ir ao ceu voar...
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!
Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Da-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;
Por que, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Nao posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!
Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Por que eu tenho um lírio douro
Há três anos por abrir,
E, se Ihe deres um riso,
Há-de cuidar que e a aurora...
E talvez que o lírio se abra,
Talvez que se abra nessa hora!
Por Alá, minha palmeira!
Quando ao sol me for deitar,
Faze sombra do meu lado...
Por que eu quero-te abracar!
Damor te requeiro, ondina,
Quando te fores a erguer,
Ver-te no espelho das fontes...
Por que eu quero-te beber!
Da-me os seios, da-me os bracos;
Da-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abracos!
Empresta-me a voz ingênua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!
Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!
Presta-me a tua inocência,
Para eu ir ao ceu voar...
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!
Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Da-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;
Por que, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Nao posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!
Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Por que eu tenho um lírio douro
Há três anos por abrir,
E, se Ihe deres um riso,
Há-de cuidar que e a aurora...
E talvez que o lírio se abra,
Talvez que se abra nessa hora!
Por Alá, minha palmeira!
Quando ao sol me for deitar,
Faze sombra do meu lado...
Por que eu quero-te abracar!
Damor te requeiro, ondina,
Quando te fores a erguer,
Ver-te no espelho das fontes...
Por que eu quero-te beber!
1 910
Paulo Silva Ribeiro
Quando o Sol Chegar
Quando o Sol Chegar
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
Quando o sol chegar
Não se esqueça nunca desta noite,
Não deixe as flores sobre a mesa,
Não se arrependa das juras feitas,
Não maldiga a pessoa, mas apenas siga a vida...
Quando o sol chegar
Não arranque os beijos dados em sua boca,
Não apague da lembrança as imagens desta noite,
Não retire o meu perfume te tua pele...
Quando o sol chegar
Não se esqueça de voltar,
Não bata a porta,
Não vá chorar,
Não vá se maldizer,
Quando o sol chegar...
834
Paula Nei
Tu és Minha
Tu és minha, afinal. Enfim te vejo
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.
Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.
Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,
Eu digo dentro de mim: — "Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!"
Sobre meus braços lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face descorada
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.
Vibra em minha alma o lúbrico desejo
De assim gozar-te, a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo.
Quando, entretanto, sinto que teu seio
Palpita, delirante, em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,
Eu digo dentro de mim: — "Se eu te manchara,
Se eu te manchara, flor, eu não te amara,
Ó branca espuma da beleza humana!"
962
Pedro Homem de Mello
Revelação
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.
Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.
Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!
Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!
Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.
Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezesseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.
Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!
Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!
1 935
Paulo Silva Ribeiro
Juras Secretas
Juras Secretas
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
1 082
Antero de Quental
Intimidade
Quando, sorrindo, vais passando, e toda
Essa gente te mira cobicosa,
Es bela - e se te nao comparo a rosa,
E que a rosa, bem ves, passou de moda...
Anda-me as vezes a cabeca a roda,
Atras de ti tambem, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidao ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.
Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!
E nao te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor...
Essa gente te mira cobicosa,
Es bela - e se te nao comparo a rosa,
E que a rosa, bem ves, passou de moda...
Anda-me as vezes a cabeca a roda,
Atras de ti tambem, flor caprichosa!
Nem pode haver, na multidao ruidosa,
Coisa mais linda, mais absurda e doida.
Mas e na intimidade e no segredo,
Quando tu coras e sorris a medo,
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor!
E nao te quero nunca tanto (ouve isto)
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor...
2 515
Domingos dos Reis Quita
Tircéia
Idílio
Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!
Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.
Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!
Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.
467
Antero de Quental
Beatrice
Nem visao, nem real: amor! amor somente!...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
3 563
Pereira da Silva
Uma Parábola
Esqueceu-me jamais essa Roseira.
Deu rosas brancas a existência inteira
E viveu, para nós, as alegrias
Das nossas noites e dos nossos dias.
Essa Roseira teve sempre rosas
Para as festas gentis ou religiosas
E nunca se esqueceu dos namorados
Ou de dar flores para os seus noivados.
Eu quero crer também que nunca houvesse
Enterramento humilde a que não desse,
Essa Roseira, a régia compostura
De suas rosas de imortal brancura.
Posso, entanto, afirmar que essa Roseira,
Porque deu flores a existência inteira,
Passou despercebida aos homens brutos
Como aos ladrões as árvores sem frutos...
Deu rosas brancas a existência inteira
E viveu, para nós, as alegrias
Das nossas noites e dos nossos dias.
Essa Roseira teve sempre rosas
Para as festas gentis ou religiosas
E nunca se esqueceu dos namorados
Ou de dar flores para os seus noivados.
Eu quero crer também que nunca houvesse
Enterramento humilde a que não desse,
Essa Roseira, a régia compostura
De suas rosas de imortal brancura.
Posso, entanto, afirmar que essa Roseira,
Porque deu flores a existência inteira,
Passou despercebida aos homens brutos
Como aos ladrões as árvores sem frutos...
909
Oscar Rosas
Visão
Tanto brilhava a luz da Lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
1 067
Paulo F. Cunha
Ah!
Ah! A lembrança da moça
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração
pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .
que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado
com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração
pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .
que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado
com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .
1 018
Paulo F. Cunha
Te Quero
Te quero , te preciso .
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
860
Pablo Simpson
VII Ainda há pouco era um desenho que te fiz
Ainda há pouco era um desenho que te fiz,
No qual o retrato - um azul de flores deste dia,
De recolhidas flores, uma a uma, quis
Pô-las furtivas do amor que te pedia.
No que trazê-las fosse então o que queria...
No que roubá-las fosse o gesto mais feliz...
Ainda há pouco era um desenho que fazia,
Onde nas flores misturava azuis-anis.
E ao misturá-los foi que certa hora vi,
Não o teu rosto, este o pintar não me permite,
Mas o cantar de um envergonhado bem-te-vi,
Que no seu canto, em que me via enternecido,
Dizia: - Ah! que dessas flores não imite
O azul, pois este a ti o havia prometido.
No qual o retrato - um azul de flores deste dia,
De recolhidas flores, uma a uma, quis
Pô-las furtivas do amor que te pedia.
No que trazê-las fosse então o que queria...
No que roubá-las fosse o gesto mais feliz...
Ainda há pouco era um desenho que fazia,
Onde nas flores misturava azuis-anis.
E ao misturá-los foi que certa hora vi,
Não o teu rosto, este o pintar não me permite,
Mas o cantar de um envergonhado bem-te-vi,
Que no seu canto, em que me via enternecido,
Dizia: - Ah! que dessas flores não imite
O azul, pois este a ti o havia prometido.
470
Paulo Henrique Góes Souza
Reminiscência
Um dia, o vento não soprará
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
913
Pedro Henrique Saraiva Leão
Não Tenho Medo de Câncer
Não tenho medo de Câncer
temo que canses de mim;
não temo ficar mudo
mas que não fales em mim
temo, que não me vejas
não que me vazem os olhos;
ser decapitado não temo
temo que não penses em mim;
não temo ficar surdo
e sim que não me ouças;
não temo o ventre da baleia
nem a cama do faquir, as brumas do passado
ou aquelas do porvir;
não temo a febre amarela,
mas não amar-me um dia
friamente, com calor
ou o marfim do teu dente, temo;
não temo as estatísticas
os riscos que corremos:
temo que não celebremos o erro certo
o incerto acerto que tecemos,
que como estátuas fiquemos
para abraços braços não tenhamos
para beijos bocas não mostremos
que não nos pertençam os sonhos que sonhamos.
temo que canses de mim;
não temo ficar mudo
mas que não fales em mim
temo, que não me vejas
não que me vazem os olhos;
ser decapitado não temo
temo que não penses em mim;
não temo ficar surdo
e sim que não me ouças;
não temo o ventre da baleia
nem a cama do faquir, as brumas do passado
ou aquelas do porvir;
não temo a febre amarela,
mas não amar-me um dia
friamente, com calor
ou o marfim do teu dente, temo;
não temo as estatísticas
os riscos que corremos:
temo que não celebremos o erro certo
o incerto acerto que tecemos,
que como estátuas fiquemos
para abraços braços não tenhamos
para beijos bocas não mostremos
que não nos pertençam os sonhos que sonhamos.
1 070
Paulo F. Cunha
Duplo
Poderia dizer que te amo
porque sofro.
Mas não , não sofro , tenho raiva.
Raiva de ti , a quem amo ?
E amorraiva ou raivamor ?
Chego a conclusão insofismável
que te amo porque tenho raiva
e , no momento em que te amo
tenho vontade de te odiar
e , no momento em que te odeio
morro de vontade de te amar
Sou duplo , amo e odeio a ti
porque sofro.
Mas não , não sofro , tenho raiva.
Raiva de ti , a quem amo ?
E amorraiva ou raivamor ?
Chego a conclusão insofismável
que te amo porque tenho raiva
e , no momento em que te amo
tenho vontade de te odiar
e , no momento em que te odeio
morro de vontade de te amar
Sou duplo , amo e odeio a ti
1 044
Pedro Henrique Saraiva Leão
Poema
estes olhos que vedes e que vos vêem
já viram olhos como eu vejo,
viram lábios mais vermelhos
(não aqui : noutros espelhos)
do que o encarnado do vosso beijo
estes olhos que ausentes me contemplam
agora, reconhecem, por certo, os de outrora
que vos olhavam olhavam, presentes,
vos olhavam da noite à aurora;
estes olhos, ora quedos, ora alados,
vezes ledos, outras tristes,
olhos de si amotinados, olhos
que cegastes pois tanto vistes,
olhos que vêem ermos, e
que se inundam de prazer, de dor,
olhos que querem ver -
estes olhos, são os mesmos, meu amor
já viram olhos como eu vejo,
viram lábios mais vermelhos
(não aqui : noutros espelhos)
do que o encarnado do vosso beijo
estes olhos que ausentes me contemplam
agora, reconhecem, por certo, os de outrora
que vos olhavam olhavam, presentes,
vos olhavam da noite à aurora;
estes olhos, ora quedos, ora alados,
vezes ledos, outras tristes,
olhos de si amotinados, olhos
que cegastes pois tanto vistes,
olhos que vêem ermos, e
que se inundam de prazer, de dor,
olhos que querem ver -
estes olhos, são os mesmos, meu amor
1 095
Paulo Henrique Góes Souza
Senhorinha
Se ao menos fosse um pequeno
Beija-flor
Voaria ao teu encontro
E, por certo, todos parariam
Para ver a perspicácia de um
Mancebo apaixonado
Que invadiria o teu jardim
Sorrateiramente
E, em teus braços, provaria
O néctar dos lábios teus...
Se ao menos fosse um galho
Caído ao chão,
Jogado ao acaso, sem chamar
Muita atenção,
Comprazer-me-ia em te olhar,
E veria tua doce face,
Que me tiraria do rosto
A expressão da solidão,
Pois tu irias aflorar
Em meu coração...
Não te quero em uma redoma
Não, longe disto!
Quero-a vivaz e graciosa
Para que todos a admirem;
Quero apenas ser o teu humilde
Jardineiro
E se r o único a te tocar,
E te sentir como mulher,
E, assim sendo,
Não mais serás senhorinha,
E te tornarás definitivamente
A senhora de meus sonhos...
Beija-flor
Voaria ao teu encontro
E, por certo, todos parariam
Para ver a perspicácia de um
Mancebo apaixonado
Que invadiria o teu jardim
Sorrateiramente
E, em teus braços, provaria
O néctar dos lábios teus...
Se ao menos fosse um galho
Caído ao chão,
Jogado ao acaso, sem chamar
Muita atenção,
Comprazer-me-ia em te olhar,
E veria tua doce face,
Que me tiraria do rosto
A expressão da solidão,
Pois tu irias aflorar
Em meu coração...
Não te quero em uma redoma
Não, longe disto!
Quero-a vivaz e graciosa
Para que todos a admirem;
Quero apenas ser o teu humilde
Jardineiro
E se r o único a te tocar,
E te sentir como mulher,
E, assim sendo,
Não mais serás senhorinha,
E te tornarás definitivamente
A senhora de meus sonhos...
967
Paulo F. Cunha
Pseudônimos
Amor tem vários pseudônimos :
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
994
Oliveira Neto
Silhueta Pagã
Não sei donde surgiu. Mas de repente
se encontrava comigo conversando.
Os olhos nos meus olhos, frente a frente,
eram dois pintassilgos namorando.
De alto porte, bonita, inteligente,
a estirpe de fidalgos demonstrando,
não podia ocultar o ser ardente
na volúpia do amor se acrisolando.
Silhueta pagã. onde passou
a natureza em si paralisou
e o povo abriu honrosa passarela.
Silenciaram todos os ruídos.
E sinto que ficou nos meus ouvidos
a sonora canção dos lábios dela.
se encontrava comigo conversando.
Os olhos nos meus olhos, frente a frente,
eram dois pintassilgos namorando.
De alto porte, bonita, inteligente,
a estirpe de fidalgos demonstrando,
não podia ocultar o ser ardente
na volúpia do amor se acrisolando.
Silhueta pagã. onde passou
a natureza em si paralisou
e o povo abriu honrosa passarela.
Silenciaram todos os ruídos.
E sinto que ficou nos meus ouvidos
a sonora canção dos lábios dela.
875
Noel Rosa
Até amanhã
Até amanha, se Deus quiser
Se não chover eu volto
Pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer
Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou dizer por despedida
Até amanha, até já, até logo
O mundo é um samba que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estrilho.
Se não chover eu volto
Pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer
Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou dizer por despedida
Até amanha, até já, até logo
O mundo é um samba que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estrilho.
1 650
Olegário Mariano
Kremme
Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
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