Poemas neste tema
Paixão
Gilberto Mendonça Teles
Chá das Cinco
A Jorge Amado
chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)
chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)
7 006
1
Natércia Freire
Regresso
Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
1 267
1
Mario Ribeiro Martins
Qual o Teu Nome?
Qual seria teu nome, por ventura?
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
1 078
1
Pedro Kilkerry
Ad veneris lacrimas
Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
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1
Marcia Agrau
Total
Eu te amo
Tanto amo teu olhar doce e inocente
como amo teu olhar insolente.
Amo tuas mãos suaves no afago
como amo aborrecidas no gesto de enfado.
Eu amo tua boca que geme de prazer
e amo tua boca xingando semquerer.
Eu amo teu muxoxo e amo o teu sorriso.
Tuas loucuras, teu sonho,teu juizo...
Amo teus braços me enlaçando carinhosos
e amo teus braços bradando furiosos.
Amo teus ombros fortes,protetores
onde chorei tanto minhas dores
e onde a tensão vejo acumular.
Amo tuas pernas fortes e pesadas
que cabelos escuros fazem amorenadas.
Amo teus pés de suave textura,
a marca do calção,tua eterna brancura
e amo,sobretudo, abaixo da cintura
teu falo imponente, fingindo-se inocente
que penetrando em mim,me transporta às alturas.
Eu te amo inteiramente todo,da cabeça aos pés.
E amo cá por fora e por dentro quem és
com as muitas qualidades e os defeitos teus
Que os limites que traço
vão de onde começa o desejo do abraço
até onde termina a alma, sabe Deus...
Tanto amo teu olhar doce e inocente
como amo teu olhar insolente.
Amo tuas mãos suaves no afago
como amo aborrecidas no gesto de enfado.
Eu amo tua boca que geme de prazer
e amo tua boca xingando semquerer.
Eu amo teu muxoxo e amo o teu sorriso.
Tuas loucuras, teu sonho,teu juizo...
Amo teus braços me enlaçando carinhosos
e amo teus braços bradando furiosos.
Amo teus ombros fortes,protetores
onde chorei tanto minhas dores
e onde a tensão vejo acumular.
Amo tuas pernas fortes e pesadas
que cabelos escuros fazem amorenadas.
Amo teus pés de suave textura,
a marca do calção,tua eterna brancura
e amo,sobretudo, abaixo da cintura
teu falo imponente, fingindo-se inocente
que penetrando em mim,me transporta às alturas.
Eu te amo inteiramente todo,da cabeça aos pés.
E amo cá por fora e por dentro quem és
com as muitas qualidades e os defeitos teus
Que os limites que traço
vão de onde começa o desejo do abraço
até onde termina a alma, sabe Deus...
1 144
1
Manuel da Fonseca
Estradas
Não era noite nem dia.
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.
E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.
Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
— Ó nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?
Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.
Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!
Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.
E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.
Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
— Ó nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?
Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.
Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!
Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…
2 878
1
Marcus Accioly
Érato
"por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)
1 876
1
Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
882
1
Luís Delfino
Altar sem Deus
Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
1 613
1
Lêdo Ivo
A cadela
Atraídos pelo cheiro de sangue de suas entranhas
os cachorros seguem a cadela no cio como se fossem o séquito
de uma negra rainha. E a farejam num movimento impudico
que talvez merecesse ser chamado de amor.
A cadela finge que a perseguição a incomoda
e negaceia como as mulheres requestadas.
Um odor penetrante de vida a acompanha
entre os dois sóis que limitam a passagem do dia.
À noite, quando a encerram no galpão,
os cachorros ficam do lado de fora, desolados e fiéis.
E seus ganidos na escuridão nos ensinam
que o amor é uma paixão inútil, uma porta fechada.
os cachorros seguem a cadela no cio como se fossem o séquito
de uma negra rainha. E a farejam num movimento impudico
que talvez merecesse ser chamado de amor.
A cadela finge que a perseguição a incomoda
e negaceia como as mulheres requestadas.
Um odor penetrante de vida a acompanha
entre os dois sóis que limitam a passagem do dia.
À noite, quando a encerram no galpão,
os cachorros ficam do lado de fora, desolados e fiéis.
E seus ganidos na escuridão nos ensinam
que o amor é uma paixão inútil, uma porta fechada.
1 876
1
José Eduardo Mendes Camargo
Nossa Atração
Não sei se é cósmica,
Ou é química.
Não sei se é admiração
Ou compreensão.
Não sei se é afinidade
Ou é continuidade.
Não sei se é ternura
Ou é loucura.
Sinto até que é tesão
Temperada de paixão.
Ou é química.
Não sei se é admiração
Ou compreensão.
Não sei se é afinidade
Ou é continuidade.
Não sei se é ternura
Ou é loucura.
Sinto até que é tesão
Temperada de paixão.
811
1
Guimarães Passos
Pubescência
Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.
Seria outra alma, pensa, que a animava ?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.
Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio dágua transparente,
Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.
Seria outra alma, pensa, que a animava ?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.
Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio dágua transparente,
Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...
854
1
Elisa Lucinda
Late Ilusão
Em noite de lua cheia
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
Três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.
1 624
1
Cláudio Manuel da Costa
Soneto
Estes os olhos são da minha amada,
Que belos, que gentis e que formosos!
Não são para os mortais tão preciosos
Os doces frutos da estação dourada.
Por eles a alegria derramada
Tornam-se os campos de, prazer gostosos.
Em zéfiros suaves e mimosos
Toda esta região se vê banhada.
Vinde olhos belos, vinde, e enfim trazendo
Do rosto do meu bem as prendas belas,
Dai alívio ao mal que estou gemendo.
Mas ah! delírio meu que me atropelas!
Os olhos que eu cuidei que estava vendo,
Eram (quem crera tal!) duas estrelas.
Que belos, que gentis e que formosos!
Não são para os mortais tão preciosos
Os doces frutos da estação dourada.
Por eles a alegria derramada
Tornam-se os campos de, prazer gostosos.
Em zéfiros suaves e mimosos
Toda esta região se vê banhada.
Vinde olhos belos, vinde, e enfim trazendo
Do rosto do meu bem as prendas belas,
Dai alívio ao mal que estou gemendo.
Mas ah! delírio meu que me atropelas!
Os olhos que eu cuidei que estava vendo,
Eram (quem crera tal!) duas estrelas.
4 322
1
João de Deus de Nogueira Ramos
Sempre
Nem te vejo por entre a gelosia;
Nunca no teu olhar o meu repousa;
Nunca te posso ver, e todavia,
Eu não vejo outra cousa!
Nunca no teu olhar o meu repousa;
Nunca te posso ver, e todavia,
Eu não vejo outra cousa!
1 907
1
Castro Alves
O Laço de Fita
Não sabes, criança? Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente quenlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.
Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.
E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minhalma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!
Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.
Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.
Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
Nalcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... f ico preso
No laço de fita.
Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por croa...
Teu laço de fita.
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente quenlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.
Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.
E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minhalma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!
Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.
Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.
Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
Nalcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... f ico preso
No laço de fita.
Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por croa...
Teu laço de fita.
2 920
1
Carlos Dantas
Ofertório
DAR-TE-EI
o sol vermelho pulsante
que em meu cerne habita,
qual riacho de luz
a procura de um mar-de-prata !
o sol vermelho pulsante
que em meu cerne habita,
qual riacho de luz
a procura de um mar-de-prata !
975
1
Castro Alves
Gesso e Bronze
FOI CANOVA ou Davi... Um mestre, um escultor,
Duas estátuas fez simbolizando o amor...
Uma — pálida e fria, inda amassada em gesso
No canto da oficina ensaio sem apreço!...
Outra — prodígio darte, arrojo peregrino,
Encarnação de luz em bronze fiorentino!...
Uma noite, porém, um raio, o acaso... um nada
O incêndio arremessando à tenda profanada...
No vermelho estendal das cinzas do brasido
Viu-se o esboço de pé!... e o bronze derretido!...
Senhora, Deus também às vezes é escultor,
E gosta de esculpir nos corações o amor...
De argila ou de metal, de barro ou de alabastro
Com o limo com que faz a escuridão e o astro
Mas quando o acaso... um gesto... um riso leviano
Ateia a flama vil de um zelo ardente, insano...
Sabeis o que se dá?
— O amor de gesso medra
De lodo que era há pouco enrija faz-se pedra
................................................
Mas da lava infernal o beijo libertino
Funde a estátua do amor de bronze florentino!!
Duas estátuas fez simbolizando o amor...
Uma — pálida e fria, inda amassada em gesso
No canto da oficina ensaio sem apreço!...
Outra — prodígio darte, arrojo peregrino,
Encarnação de luz em bronze fiorentino!...
Uma noite, porém, um raio, o acaso... um nada
O incêndio arremessando à tenda profanada...
No vermelho estendal das cinzas do brasido
Viu-se o esboço de pé!... e o bronze derretido!...
Senhora, Deus também às vezes é escultor,
E gosta de esculpir nos corações o amor...
De argila ou de metal, de barro ou de alabastro
Com o limo com que faz a escuridão e o astro
Mas quando o acaso... um gesto... um riso leviano
Ateia a flama vil de um zelo ardente, insano...
Sabeis o que se dá?
— O amor de gesso medra
De lodo que era há pouco enrija faz-se pedra
................................................
Mas da lava infernal o beijo libertino
Funde a estátua do amor de bronze florentino!!
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1
Marcelo Batalha
Quase Paixão
Busco um rosto por entre as vozes
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
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1
Olavo Bilac
Quando adivinha
XXXIII
Quando adivinha que vou vê-Ia, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica pálida, assusta-se, estremece,
E não sei por que foge envergonhada.
Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.
Corre, delira, multiplica os passos;
E o chão, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festa
E ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento rápido sustando
Das duas asas que a paixão lhe empresta.
Quando adivinha que vou vê-Ia, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica pálida, assusta-se, estremece,
E não sei por que foge envergonhada.
Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.
Corre, delira, multiplica os passos;
E o chão, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festa
E ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento rápido sustando
Das duas asas que a paixão lhe empresta.
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1
Bruno KKC
Uns e Outros
Uns dizem que sim
Outros dizem que vim
Uns dizem que nao
Outros dizem paixao
Uns dizem que espero
Outros dizem que quero
Uns dizem morte
Outros dizem sorte
Uns dizem lento
Outros dizem momento
Uns dizem dor
Outros dizem flor
Desejando o teu sim
Desde do instante em que vim
Para nao dizer nao
A esta paixao
Sera que tudo que espero
E com forca quero
Ira me livrar da morte
De um encontro de sorte ?
Neste lento momento de dor
Quando nasce mais uma flor...
Outros dizem que vim
Uns dizem que nao
Outros dizem paixao
Uns dizem que espero
Outros dizem que quero
Uns dizem morte
Outros dizem sorte
Uns dizem lento
Outros dizem momento
Uns dizem dor
Outros dizem flor
Desejando o teu sim
Desde do instante em que vim
Para nao dizer nao
A esta paixao
Sera que tudo que espero
E com forca quero
Ira me livrar da morte
De um encontro de sorte ?
Neste lento momento de dor
Quando nasce mais uma flor...
1 013
1
Alexandre Marino
Represa
Meu coração
é duro e forte como a represa
que segura as águas da correnteza
como eu seguro esta ferida
se vem a sede
e o amor quer inundar o meu deserto
a represa explode linda e dolorida
sem saber se é errado ou certo
minha barragem
abre-se às águas do meu canto
e a violência do amor que espuma
mata a sede e também me afoga
e a paisagem
assustada com a enchente que ressoa
não consegue vedar meu coração
por mais que a ferida doa.
é duro e forte como a represa
que segura as águas da correnteza
como eu seguro esta ferida
se vem a sede
e o amor quer inundar o meu deserto
a represa explode linda e dolorida
sem saber se é errado ou certo
minha barragem
abre-se às águas do meu canto
e a violência do amor que espuma
mata a sede e também me afoga
e a paisagem
assustada com a enchente que ressoa
não consegue vedar meu coração
por mais que a ferida doa.
2 708
1
Tamara Baroni
Carmem
Suor entre os seios umidade
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
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