Poemas neste tema
Verdade
Fernando Pessoa
I - Quando, despertos deste sono, a vida,
NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ
Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto..., e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo.
FAMA FRATERNITATIS ROSEAE CRUCIS.
I
Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,
Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.
Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adão Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,
Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De além o Abismo, Spírito Seu, Lha veda,
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.
II
Mas antes era Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.
Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.
Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;
Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.
III
Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.
Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.
Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?
...................................
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.
Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto..., e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo.
FAMA FRATERNITATIS ROSEAE CRUCIS.
I
Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,
Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.
Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adão Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,
Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De além o Abismo, Spírito Seu, Lha veda,
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.
II
Mas antes era Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.
Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.
Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;
Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.
III
Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.
Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.
Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?
...................................
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.
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Fernando Pessoa
Não: devagar.
Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
30/12/1934
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
30/12/1934
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1
Fernando Pessoa
Não basta abrir a janela
POEMAS INCONJUNTOS
I
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Abril de 1923 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
I
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Abril de 1923 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
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1
Fernando Pessoa
Leram-me hoje S. Francisco de Assis.
Leram-me hoje S.Francisco de Assis.
Leram-me e pasmei.
Como é que um homem que gostava tanto das coisas
Nunca olhava para elas, não sabia o que elas eram?
Para que havia de chamar minha irmã à água, se ela não é minha irmã?
Para a sentir melhor?
Sinto-a melhor bebendo-a do que chamando-lhe qualquer coisa.
Irmã, ou mãe, ou filha.
A água é a água e é bela por isso.
Se eu lhe chamar irmã, vejo que o não é
E que se ela é a água o melhor é chamar-lhe água;
Ou melhor, ainda, não lhe chamar coisa nenhuma,
Mas bebê-la, senti-la nos pulsos, olhar para ela
E isto sem nome nenhum.
21/05/1917
Leram-me e pasmei.
Como é que um homem que gostava tanto das coisas
Nunca olhava para elas, não sabia o que elas eram?
Para que havia de chamar minha irmã à água, se ela não é minha irmã?
Para a sentir melhor?
Sinto-a melhor bebendo-a do que chamando-lhe qualquer coisa.
Irmã, ou mãe, ou filha.
A água é a água e é bela por isso.
Se eu lhe chamar irmã, vejo que o não é
E que se ela é a água o melhor é chamar-lhe água;
Ou melhor, ainda, não lhe chamar coisa nenhuma,
Mas bebê-la, senti-la nos pulsos, olhar para ela
E isto sem nome nenhum.
21/05/1917
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1
Fernando Pessoa
Vive, dizes, no presente;
Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
19/07/1920
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
19/07/1920
1 831
1
Fernando Pessoa
02 - O meu olhar é nítido como um girassol.
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
08/03/1914
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
08/03/1914
2 518
1
Pêro Anes Marinho
Boa senhor, o que me foi miscrar
Boa senhor, o que me foi miscrar
vosco por certo soube-vos mentir:
que outra dona punhei de servir;
de tal razom me vos venho salvar:
se eu a molher hoje quero bem
senom a vós, quero morrer por en.
E, nobr'amiga, pois vos sei amar
de coraçom, devedes receber
aquesta salva que venho fazer
e nom creades quem quer profaçar:
se eu a molher hoje quero bem
senom a vós, quero morrer por en.
E, meu amor, eu vos venho rogar
que nom creades n?um dizedor
escontra mim, meu lum'e meu amor,
dos que me querem [vosco] mal buscar,
se eu a molher hoje quero bem
senom a vós, quero morrer por en.
Nem quer'eu dona por senhor tomar
senom vós, que amo e quero amar.
vosco por certo soube-vos mentir:
que outra dona punhei de servir;
de tal razom me vos venho salvar:
se eu a molher hoje quero bem
senom a vós, quero morrer por en.
E, nobr'amiga, pois vos sei amar
de coraçom, devedes receber
aquesta salva que venho fazer
e nom creades quem quer profaçar:
se eu a molher hoje quero bem
senom a vós, quero morrer por en.
E, meu amor, eu vos venho rogar
que nom creades n?um dizedor
escontra mim, meu lum'e meu amor,
dos que me querem [vosco] mal buscar,
se eu a molher hoje quero bem
senom a vós, quero morrer por en.
Nem quer'eu dona por senhor tomar
senom vós, que amo e quero amar.
658
Rui Costa
Diálogo
Não acredites: as pessoas que te falam em diálogo
querem o teu mal. Dizem que a compreensão deve
ser «cultivada» - e esperam bem sentados que te estateles ao comprido
na frente de uma esplanadazinha com vista para o tédio.
(Afasta de ti esse cálice!)
Eles querem o teu sangue mas depois não sabem o que fazer com ele,
não fazem nada com ele,
não o bebem, não o vendem, não o poluem com o teu
olhar desvairado ante o corpo aberto dela, do seu nexo tão
carente de ti.
Que a planta tem que ser regada para crescer, ah por favor –
não compres asas novas para a eterna toupeira.
A coisa verde estende as mãos para alcançar a água –
e depois cresce para o sol, incha,
porque ela usa-o e é usada por ele, e usar e ser usado é que é
o meu desejo cheio, a amizade toda e – foi assim connosco mas já não é –
a essência do amor (essa magra celulite que tu deves alcançar pelo diálogo
na demonstração diária do respeito mútuo e sabiamente partilhado!)
Ainda pensas que te darei uma definição do amor?
Dou-te apenas o que não pode ser aceite:
o meu ar luminoso e irascível!
– e nenhum deus invoco ou minimizo.
Faz o que quiseres, ou o que puderes, com o que eu te dou.
É para isso, é por isso que (o café está bom)
(e) eu gosto de ti.
querem o teu mal. Dizem que a compreensão deve
ser «cultivada» - e esperam bem sentados que te estateles ao comprido
na frente de uma esplanadazinha com vista para o tédio.
(Afasta de ti esse cálice!)
Eles querem o teu sangue mas depois não sabem o que fazer com ele,
não fazem nada com ele,
não o bebem, não o vendem, não o poluem com o teu
olhar desvairado ante o corpo aberto dela, do seu nexo tão
carente de ti.
Que a planta tem que ser regada para crescer, ah por favor –
não compres asas novas para a eterna toupeira.
A coisa verde estende as mãos para alcançar a água –
e depois cresce para o sol, incha,
porque ela usa-o e é usada por ele, e usar e ser usado é que é
o meu desejo cheio, a amizade toda e – foi assim connosco mas já não é –
a essência do amor (essa magra celulite que tu deves alcançar pelo diálogo
na demonstração diária do respeito mútuo e sabiamente partilhado!)
Ainda pensas que te darei uma definição do amor?
Dou-te apenas o que não pode ser aceite:
o meu ar luminoso e irascível!
– e nenhum deus invoco ou minimizo.
Faz o que quiseres, ou o que puderes, com o que eu te dou.
É para isso, é por isso que (o café está bom)
(e) eu gosto de ti.
596
Herberto Helder
Como o Centro da Frase É o Silêncio
Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos —
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza —
temos de entrar na zoologia fabulosa com um talento bastante fabuloso
pois também somos a vítima da nossa vítima —
e ofereço à perscrutação apenas uma frase com buracos
assinalando uma cabeça escritora
assim era — dizia a própria cabeça — um queijo suíço
a fermentar como arcturus fermenta na treva celeste
e apura os volumes e a qualidade dos volumes
da luz —
desde que a atenção criou nas coisas o seu movimento
as formas ficaram sob a ameaça do seu mesmo
movimento —
o mais extraordinário dos nomes sempre esbarrou
consigo mesmo
com o poder extraordinário de ser dito —
qualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez
é lenta — basta olhar para a paisagem da escrita já antes
quando começa a abater-se pelo seu peso e o espírito
da sua culpa —
porque uma frase trabalha na sua culpa como a paisagem
trabalha na sua estação —
o merecimento a ver quem a ele chega primeiro
ao buraco do coração—ver ou ser visto —
ao buraco que transpira no meio do ouro —
se é ele o ouro ou se o ouro está em volta tremendo
como um nó vivo implantado em cheio na madeira —
e a única meditação moderna é sobre o nó
absorvendo a madeira toda — uma espécie de precipitação
convulsa da matéria para o seu abismo próprio —
e sobre a tábua despida incorporando cada nó que fica
a palpitar com a força no tecido inteiro
da tábua
e lançando na tábua a sua energia mergulhada
de nó —
porque em toda a palavra está o silêncio dessa palavra
e cada silêncio fulgura no centro da ameaça
da sua palavra —
como um buraco dentro de um buraco no ouro dentro do ouro
e
cumpre também falar do desafio do espectáculo — o teatro
dentro do teatro —
o travesti shakespeareano na dupla zona da forma e da inclinação
para o sentido enigmático —
a rapariga vestida de rapaz interpretando a função oblíqua de rapariga
perante o rapaz vestido de rapariga interpretando
a misteriosa verdade corporal de rapaz —
o que se pede à cena é apenas o delírio de uma coisa exacta
através das armadilhas —
porque a vertigem é um acesso às últimas possibilidades
de equilíbrio,
entre a verdade que é outra e a outra verdade que é
uma verdade de uma nova verdade continuamente —
outra regra do espectáculo é inventar
a forma seguinte do enigma de modo a que a frase visível
fique junto ao rapto —
empurrar o rosto para as trevas —ou retirar da dança
os pés e ficar à luz uma espécie de imobilidade —
o brilho do rosto já sem o rosto mas com toda a energia
e todo o impulso de um rosto ser o rosto teatral —
porque também a máscara era a abolição de uma falsa liberdade
do rosto —
e então não era o rosto que estava mas
a eternidade de um teorema —
a abdicação das formas que morrem de si mesmas —
um salto para o centro —
e as presenças muitas brancas enchem a cena
apenas de brancura
central implantada cega na paragem do tempo —
perder o nexo que liga as coisas porque há só uma coisa
dada por indícios —
uma centelha um sopro um vestígio um apelo uma voz —
que a metáfora seja atendida como alusão à metáfora
da metáfora
como cada coisa é a metáfora de cada coisa —
e o sistema dos símbolos se represente como o símbolo
possível de um sistema
de símbolos do símbolo que é o mundo —
o mundo apenas como a nossa paixão posta diante de si —
a paixão da paixão —
nenhuma frase é dona de si mesma —
e então o teatro que apresenta a frase não é dono de nada
mas só do recurso
de ganhar uma regra e recusar a regra ganha —
assim como a voz abdica no silêncio e o silêncio
abdica na voz para dizer apenas que é uma forma de silêncio —
um génio animal inexplicável como uma queda no escuro —
enquanto as vozes são cada vez mais astrológicas e loucas —
e desaparecemos no silêncio levando com uma grande
leveza a queimadura inteira na cabeça
1974-
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos —
o modo da idade que aqui se compara a um mapa arroteado
por um vergão de ouro
ou o medo que se aproxima da nossa delicadeza
e que tratamos com o poder da nossa delicadeza —
temos de entrar na zoologia fabulosa com um talento bastante fabuloso
pois também somos a vítima da nossa vítima —
e ofereço à perscrutação apenas uma frase com buracos
assinalando uma cabeça escritora
assim era — dizia a própria cabeça — um queijo suíço
a fermentar como arcturus fermenta na treva celeste
e apura os volumes e a qualidade dos volumes
da luz —
desde que a atenção criou nas coisas o seu movimento
as formas ficaram sob a ameaça do seu mesmo
movimento —
o mais extraordinário dos nomes sempre esbarrou
consigo mesmo
com o poder extraordinário de ser dito —
qualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez
é lenta — basta olhar para a paisagem da escrita já antes
quando começa a abater-se pelo seu peso e o espírito
da sua culpa —
porque uma frase trabalha na sua culpa como a paisagem
trabalha na sua estação —
o merecimento a ver quem a ele chega primeiro
ao buraco do coração—ver ou ser visto —
ao buraco que transpira no meio do ouro —
se é ele o ouro ou se o ouro está em volta tremendo
como um nó vivo implantado em cheio na madeira —
e a única meditação moderna é sobre o nó
absorvendo a madeira toda — uma espécie de precipitação
convulsa da matéria para o seu abismo próprio —
e sobre a tábua despida incorporando cada nó que fica
a palpitar com a força no tecido inteiro
da tábua
e lançando na tábua a sua energia mergulhada
de nó —
porque em toda a palavra está o silêncio dessa palavra
e cada silêncio fulgura no centro da ameaça
da sua palavra —
como um buraco dentro de um buraco no ouro dentro do ouro
e
cumpre também falar do desafio do espectáculo — o teatro
dentro do teatro —
o travesti shakespeareano na dupla zona da forma e da inclinação
para o sentido enigmático —
a rapariga vestida de rapaz interpretando a função oblíqua de rapariga
perante o rapaz vestido de rapariga interpretando
a misteriosa verdade corporal de rapaz —
o que se pede à cena é apenas o delírio de uma coisa exacta
através das armadilhas —
porque a vertigem é um acesso às últimas possibilidades
de equilíbrio,
entre a verdade que é outra e a outra verdade que é
uma verdade de uma nova verdade continuamente —
outra regra do espectáculo é inventar
a forma seguinte do enigma de modo a que a frase visível
fique junto ao rapto —
empurrar o rosto para as trevas —ou retirar da dança
os pés e ficar à luz uma espécie de imobilidade —
o brilho do rosto já sem o rosto mas com toda a energia
e todo o impulso de um rosto ser o rosto teatral —
porque também a máscara era a abolição de uma falsa liberdade
do rosto —
e então não era o rosto que estava mas
a eternidade de um teorema —
a abdicação das formas que morrem de si mesmas —
um salto para o centro —
e as presenças muitas brancas enchem a cena
apenas de brancura
central implantada cega na paragem do tempo —
perder o nexo que liga as coisas porque há só uma coisa
dada por indícios —
uma centelha um sopro um vestígio um apelo uma voz —
que a metáfora seja atendida como alusão à metáfora
da metáfora
como cada coisa é a metáfora de cada coisa —
e o sistema dos símbolos se represente como o símbolo
possível de um sistema
de símbolos do símbolo que é o mundo —
o mundo apenas como a nossa paixão posta diante de si —
a paixão da paixão —
nenhuma frase é dona de si mesma —
e então o teatro que apresenta a frase não é dono de nada
mas só do recurso
de ganhar uma regra e recusar a regra ganha —
assim como a voz abdica no silêncio e o silêncio
abdica na voz para dizer apenas que é uma forma de silêncio —
um génio animal inexplicável como uma queda no escuro —
enquanto as vozes são cada vez mais astrológicas e loucas —
e desaparecemos no silêncio levando com uma grande
leveza a queimadura inteira na cabeça
1974-
692
Herberto Helder
Que Um Punhado de Ouro Fulgure No Escuso
que um punhado de ouro fulgure no escuso do mundo,
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
995
António Ferra
Gótica de Corpete Negro
Que bem que passa aquela gótica,
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!
Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,
é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.
De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.
Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.
E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!
Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,
é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.
De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.
Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.
E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.
656
Eduardo Pitta
Gente propensa a ver a luz
Gente propensa a ver a luz por um funil
a vê-la assim em corredores,
esplendidamente ignorante das forças vitais,
de qualquer alegoria. Esse sentido
mediúnico, três vezes milenário, de fabular
a perversa mudez dos animais.
Contudo eles estão onde os encontramos.
E estão simplesmente calados.
a vê-la assim em corredores,
esplendidamente ignorante das forças vitais,
de qualquer alegoria. Esse sentido
mediúnico, três vezes milenário, de fabular
a perversa mudez dos animais.
Contudo eles estão onde os encontramos.
E estão simplesmente calados.
605
Helga Moreira
Ao rimar dor com pensamento
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
1 033
Valter Hugo Mãe
modo de amar
prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo
prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade
não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade
que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,
vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro
e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo
prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade
não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade
que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,
vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro
e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos
1 010
Nuno Fernandes Torneol
De Longas Vias, Mui Longas Mentiras
"De longas vias, mui longas mentiras":
este verv'antig[o] é verdadeiro,
ca um ric'hom'achei eu mentireiro,
indo de Valedolide pera Toledo:
achei sas mentiras, entrant'a Olmedo,
e[m] sa repost[e] e seu pousadeiro.
Aquestas som as que el enviara,
sem as outras que com el [i] ficarom,
de que paga os que o aguardarom,
há gram sazom; e demais seus amigos
pagará delas, e seus enmiigos,
ca tal est el, que nunca lhi menguarom,
nem minguarám, ca mui bem as barata
de mui gram terra que tem, bem parada,
de que lhi nom tolhe nulh'home nada;
[e] gram dereit'é, ca el nunca erra:
dá-lhis mentiras, em paz e em guerra,
a seus cavaleiros, por sa soldada.
este verv'antig[o] é verdadeiro,
ca um ric'hom'achei eu mentireiro,
indo de Valedolide pera Toledo:
achei sas mentiras, entrant'a Olmedo,
e[m] sa repost[e] e seu pousadeiro.
Aquestas som as que el enviara,
sem as outras que com el [i] ficarom,
de que paga os que o aguardarom,
há gram sazom; e demais seus amigos
pagará delas, e seus enmiigos,
ca tal est el, que nunca lhi menguarom,
nem minguarám, ca mui bem as barata
de mui gram terra que tem, bem parada,
de que lhi nom tolhe nulh'home nada;
[e] gram dereit'é, ca el nunca erra:
dá-lhis mentiras, em paz e em guerra,
a seus cavaleiros, por sa soldada.
771
Fernão Garcia Esgaravunha
A Que Vos Fui, Senhor, Dizer Por Mi
A que vos fui, senhor, dizer por mi
que vos queria mao preço dar,
do que eu quer'agora a Deus rogar,
ponh'eu dela e de mi outrossi:
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
A que a gram torto me vosco miscrou
e que gram torto vos disse, senhor,
por en serei sempr'[a] Deus rogador,
de mim e dela, que m'esto buscou,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
Mais torne-se na verdade, por Deus,
(ca vos nom disse verdad', e[u] o sei!)
log'eu dela e de mim rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
que vos queria mao preço dar,
do que eu quer'agora a Deus rogar,
ponh'eu dela e de mi outrossi:
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
A que a gram torto me vosco miscrou
e que gram torto vos disse, senhor,
por en serei sempr'[a] Deus rogador,
de mim e dela, que m'esto buscou,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
Mais torne-se na verdade, por Deus,
(ca vos nom disse verdad', e[u] o sei!)
log'eu dela e de mim rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
578
Nuno Fernandes Torneol
Preguntam-Me Por Que Ando Sandeu
Preguntam-me por que ando sandeu,
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
731
Rui Queimado
Dom Estêvam, Em Grand'entençom
Dom Estêvam, em grand'entençom
foi já or'aqui por vosso preito:
oí dizer por vós que a feito
sodes cego; mais dix'eu que mui bem
oídes, cada que vos cham'alguém:
vedes como tiv'eu vossa razom!
E muitos oí eu hoj'em mal som
dizer por vós [atal]: que a feito
sodes cego; e dix'eu log'a eito
esto que sei que vos a vós avém:
que nunca vos home diz nulha rem
que nom ouçades, se Deus mi perdom.
Oí dizer por vós que há sazom
que vedes [já] quanto, pois me deito
e dormesco e dórmio bem a feito,
que assi veedes vó'lo artom;
e assanhei-m'eu e dixi por en:
- Confonda Deus quem cego chama quem
assi ouve come vó'lo sarmom.
foi já or'aqui por vosso preito:
oí dizer por vós que a feito
sodes cego; mais dix'eu que mui bem
oídes, cada que vos cham'alguém:
vedes como tiv'eu vossa razom!
E muitos oí eu hoj'em mal som
dizer por vós [atal]: que a feito
sodes cego; e dix'eu log'a eito
esto que sei que vos a vós avém:
que nunca vos home diz nulha rem
que nom ouçades, se Deus mi perdom.
Oí dizer por vós que há sazom
que vedes [já] quanto, pois me deito
e dormesco e dórmio bem a feito,
que assi veedes vó'lo artom;
e assanhei-m'eu e dixi por en:
- Confonda Deus quem cego chama quem
assi ouve come vó'lo sarmom.
657
Pedro Amigo de Sevilha
Um Bispo Diz Aqui, Por Si
Um bispo diz aqui, por si,
que é de Conca; mais bem sei
de mi que bispo nom achei
de Conca, des que eu naci,
que dalá fosse natural;
mais daqueste mi venha mal,
se nunca tam sem conca vi.
E nunca tal mentira oí
qual el diss'aqui ant'el-rei,
ca se meteu por qual direi:
por bispo de Conca log'i;
e dixi-lh'eu log'entom al:
- U est essa conca bispal,
de que vós falades assi?
E polo bisp'haver sabor
grande de conca [e] nõn'[a] haver,
nom lho queremos nós caber;
ca diss[e] o vesitador:
- Que bispo! Per nẽum logar
nom pode por de Conca andar
bispo, que de Conca nom for!
Vedes que bisp'e que senhor,
que vos cuida a fazer creer
que é de Conca; mais saber
podedes que é chufador,
per mim, que o fui asseitar
per um telhad', e nom vi dar
ant'el conca nem telhador.
que é de Conca; mais bem sei
de mi que bispo nom achei
de Conca, des que eu naci,
que dalá fosse natural;
mais daqueste mi venha mal,
se nunca tam sem conca vi.
E nunca tal mentira oí
qual el diss'aqui ant'el-rei,
ca se meteu por qual direi:
por bispo de Conca log'i;
e dixi-lh'eu log'entom al:
- U est essa conca bispal,
de que vós falades assi?
E polo bisp'haver sabor
grande de conca [e] nõn'[a] haver,
nom lho queremos nós caber;
ca diss[e] o vesitador:
- Que bispo! Per nẽum logar
nom pode por de Conca andar
bispo, que de Conca nom for!
Vedes que bisp'e que senhor,
que vos cuida a fazer creer
que é de Conca; mais saber
podedes que é chufador,
per mim, que o fui asseitar
per um telhad', e nom vi dar
ant'el conca nem telhador.
556
Pedro Amigo de Sevilha
Disserom-Vos, Meu Amigo
Disserom-vos, meu amigo,
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
756
Martim Anes Marinho
Ena Primeira Rua Que Cheguemos
Ena primeira rua que cheguemos,
guarnir-nos-á Dom Foam mui bem
d'um pan'estranho que todos sabemos,
d'ũa ucha pere[nal] que [i] tem;
e as calças seram de melhor pano:
feitas seram de névoa d'antano;
e nós de chufas guarnidos seremos.
E prometeu-m'el ũa bõa capa,
ca nom destas maas feitas de luito,
mais outra bõa, feita de gualdrapa,
cintada, e de nom pouco nem muito;
e ũa pena, nom destas mizcradas,
mais outra bõa, de chufas paradas;
já m'eu daqui nom irei sem a capa.
Viste'lo potro coor de mentira,
que mi antano prometeu em Janeiro,
que nunca home melhor aqui vira?
Criado foi em Castro Mentireiro.
E prometeu-m'ũas armas entom,
nom destas maas feitas de León,
mais melhores, d'Outeir'em Freixeeiro.
Com grande labor, mi deu a loriga,
e toda era de chufas viada;
e como quer que vos end'eu al diga,
nunca mi a home viu na pousada;
e [atam] cravelada de mensonha
e tam lev'era, que bem de Coronha
a trageria aqui ũa formiga.
E prometeu-m'ũa arma preçada,
como dizem os que a conhocerom;
"gualdrapa Fariz" havia nom'a espada,
de mouros foi, nom sei u x'a perderom;
e pelo pão mi prometeu log'i
de nevoeiro, e eu lho recebi,
que me pagass', a seu poder, de nada.
[De preç'e com labor foi a loriga
que m'el mandou e de parla viada;
mais como quer que vo-lo homem diga,
nunca a mim virom teer na pousada:
bem cravelada e[ra] de zamponha,
des i tam leve, que bem de Monçonha
mi a aduria aqui ũa formiga.]
guarnir-nos-á Dom Foam mui bem
d'um pan'estranho que todos sabemos,
d'ũa ucha pere[nal] que [i] tem;
e as calças seram de melhor pano:
feitas seram de névoa d'antano;
e nós de chufas guarnidos seremos.
E prometeu-m'el ũa bõa capa,
ca nom destas maas feitas de luito,
mais outra bõa, feita de gualdrapa,
cintada, e de nom pouco nem muito;
e ũa pena, nom destas mizcradas,
mais outra bõa, de chufas paradas;
já m'eu daqui nom irei sem a capa.
Viste'lo potro coor de mentira,
que mi antano prometeu em Janeiro,
que nunca home melhor aqui vira?
Criado foi em Castro Mentireiro.
E prometeu-m'ũas armas entom,
nom destas maas feitas de León,
mais melhores, d'Outeir'em Freixeeiro.
Com grande labor, mi deu a loriga,
e toda era de chufas viada;
e como quer que vos end'eu al diga,
nunca mi a home viu na pousada;
e [atam] cravelada de mensonha
e tam lev'era, que bem de Coronha
a trageria aqui ũa formiga.
E prometeu-m'ũa arma preçada,
como dizem os que a conhocerom;
"gualdrapa Fariz" havia nom'a espada,
de mouros foi, nom sei u x'a perderom;
e pelo pão mi prometeu log'i
de nevoeiro, e eu lho recebi,
que me pagass', a seu poder, de nada.
[De preç'e com labor foi a loriga
que m'el mandou e de parla viada;
mais como quer que vo-lo homem diga,
nunca a mim virom teer na pousada:
bem cravelada e[ra] de zamponha,
des i tam leve, que bem de Monçonha
mi a aduria aqui ũa formiga.]
628
Lourenço
Quem Ama Deus, Lourenç', Am'a Verdade
- Quem ama Deus, Lourenç', am'a verdade,
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
593
João Soares Coelho
Quem Ama Deus, Lourenç', Am'a Verdade
- Quem ama Deus, Lourenç', am'a verdade,
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
579
João Soares Coelho
Dizem Que Digo Que Vos Quero Bem
Dizem que digo que vos quero bem,
senhor, e buscam-me convosco mal;
mais rog'a Deus, senhor, que pod'e val
e que o mund'e vós em poder tem:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E venh'a vós, chorando destes meus
olhos, com vergonha e com pavor,
e com coita que hei desto, senhor,
que vos disserom, e rog'assi Deus:
se o dixe, mal me leixe morrer;
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
Nom me sei en doutra guisa salvar:
mais nunca o soub'home nem molher
per mi, nem vós; e Deus, se lhe prouguer,
rog'eu assi quanto posso rogar:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E lhe faça atal coita sofrer
qual faz a mim e non'o ouso dizer!
senhor, e buscam-me convosco mal;
mais rog'a Deus, senhor, que pod'e val
e que o mund'e vós em poder tem:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E venh'a vós, chorando destes meus
olhos, com vergonha e com pavor,
e com coita que hei desto, senhor,
que vos disserom, e rog'assi Deus:
se o dixe, mal me leixe morrer;
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
Nom me sei en doutra guisa salvar:
mais nunca o soub'home nem molher
per mi, nem vós; e Deus, se lhe prouguer,
rog'eu assi quanto posso rogar:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E lhe faça atal coita sofrer
qual faz a mim e non'o ouso dizer!
678