Poemas neste tema
Relações e Família
Gilka Machado
Troversando
Do sucesso na subida
nunca te orgulhes demais
muito difícil na vida
é conservar o cartaz
(...)
Eu não explico a ninguém
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.
(...)
Entre nuvens no infinito,
sofro a prisão mais prisão...
Sinto-me pássaro aflito
na gaiola de um avião.
Não rias do que te digo
mas sempre na nossa alcova
eu quisera estar contigo
como escova sobre escova.
(...)
Do meu coração me espanto!
O amor só me deu pesar,
como tendo amado tanto
tenho ainda amor para dar?!...
(...)
Publicado no livro Velha poesia (1965).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.429-432
nunca te orgulhes demais
muito difícil na vida
é conservar o cartaz
(...)
Eu não explico a ninguém
pois ainda não compreendi
porque te chamo meu bem
se sofro tanto por ti.
(...)
Entre nuvens no infinito,
sofro a prisão mais prisão...
Sinto-me pássaro aflito
na gaiola de um avião.
Não rias do que te digo
mas sempre na nossa alcova
eu quisera estar contigo
como escova sobre escova.
(...)
Do meu coração me espanto!
O amor só me deu pesar,
como tendo amado tanto
tenho ainda amor para dar?!...
(...)
Publicado no livro Velha poesia (1965).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.429-432
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2
Corrêa de Araújo
Ato de Contrição
Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
1 700
2
Alice Ruiz
Drumundana
e agora maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
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Alice Ruiz
Drumundana
e agora maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
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Armando Freitas Filho
Urgente e Confidencial
Disparando por de trás
dos óculos escuros
dois tiros súbitos:
ela mata com os olhos.
O olhar não erra o alvo
não abarca o mar
mas apenas as pedras
onde ele bate e quebra.
Não usa as mãos
nem a alma do corpo
que ficou em outro lugar —
marmórea.
Só um pouco da voz, sem volta
em palavras finais
poupando lágrimas no espelho
monalisa e incólume.
2 fev. 90
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
dos óculos escuros
dois tiros súbitos:
ela mata com os olhos.
O olhar não erra o alvo
não abarca o mar
mas apenas as pedras
onde ele bate e quebra.
Não usa as mãos
nem a alma do corpo
que ficou em outro lugar —
marmórea.
Só um pouco da voz, sem volta
em palavras finais
poupando lágrimas no espelho
monalisa e incólume.
2 fev. 90
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
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2
Maria Helena Nery Garcez
Romantismo
Venho das ruas molhadas e desertas.
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
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Aureliano Lessa
Êxtasis
Quando, após longa e pensativa pausa
— Eu te amo — dizem teus sonoros lábios,
Baixa do céu e pousa na minha alma
Uma nuvem de ofertas tão suaves;
Como de um sonho os mágicos eflúvios...
— Em êxtases me embebo, e nem meus lábios
Podem ao menos sussurar
— Eu te amo! —
A tua voz percorre as minhas veias,
Banha-me o coração, cerca minha alma.
Enleia-me a existência, e — teu escravo —
Sofro, gemo, desvairo, e quase expiro...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
— Eu te amo — dizem teus sonoros lábios,
Baixa do céu e pousa na minha alma
Uma nuvem de ofertas tão suaves;
Como de um sonho os mágicos eflúvios...
— Em êxtases me embebo, e nem meus lábios
Podem ao menos sussurar
— Eu te amo! —
A tua voz percorre as minhas veias,
Banha-me o coração, cerca minha alma.
Enleia-me a existência, e — teu escravo —
Sofro, gemo, desvairo, e quase expiro...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
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Affonso Ávila
Os Negros de Itaverava
Três negros de Itaverava,
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.
Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.
Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 179-183. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Outra Poesia.
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Cora Coralina
Ô de Casa!
(...)
Acontecia à noite, alta noite com chuva, frio ou lua clara,
passantes com cargueiros e família darem: "Ô, de casa..."
Meu avô era o primeiro a levantar, abrir a janela:
"Ô de fora... Tome chegada."
O chefe do comboio se adiantava:
"De passagem para o comércio levando cargas, a patroa perrengue,
mofina, pedia um encosto até "demanhã".
Mais, um fecho para os "alimais".
Meu avô abria a porta, franqueava a casa.
Tia Nhá-Bá, de candeia na mão, procurava a cozinha,
acompanhada de Ricarda sonolenta. Avivar o fogo, fazer café, a praxe,
Aquecer o leite. Meu avô ouvia as informações. Não especulava.
Oferecia acomodação, no dentro, quarto de hóspedes.
Quase sempre agradeciam. Se arrumavam ali mesmo no vasto alpendre
[coberto
Descarregavam as mulas, encostavam a carga.
Tia Nhá-Bá comparecia, oferecia bacião de banho à dona, e aos
[meninos,
quitandas.
Aceitavam ou não. Queriam, só mais, aquele encosto,
estendiam os couros, baixeiros, arreatas, se encostavam.
Meu avô franqueava o paiol. Milho à vontade para os animais de sela,
[de carga.
Eles acendiam fogo, se arranjavam naquele agasalho bondoso,
[primitivo.
Levantávamos curiosas, afoitas, ver os passantes.
Acompanhá-los ao curral, oferecer as coisas da casa.
Ajoujavam os cargueiros, remetiam as bruacas nas cangalhas.
Faziam suas despedidas, pediam a conta das despesas.
Meu avô recusava qualquer pagamento — Lei da Hospitalidade.
Os camaradas já tinham feito o almoço lá deles. Já tinha madrugado
para as restantes cinco léguas. Convidava-se a demorar mais na volta.
Despediam-se em gratidão e repouso.
Era assim no antigamente, naqueles velhos reinos de Goiás.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
Acontecia à noite, alta noite com chuva, frio ou lua clara,
passantes com cargueiros e família darem: "Ô, de casa..."
Meu avô era o primeiro a levantar, abrir a janela:
"Ô de fora... Tome chegada."
O chefe do comboio se adiantava:
"De passagem para o comércio levando cargas, a patroa perrengue,
mofina, pedia um encosto até "demanhã".
Mais, um fecho para os "alimais".
Meu avô abria a porta, franqueava a casa.
Tia Nhá-Bá, de candeia na mão, procurava a cozinha,
acompanhada de Ricarda sonolenta. Avivar o fogo, fazer café, a praxe,
Aquecer o leite. Meu avô ouvia as informações. Não especulava.
Oferecia acomodação, no dentro, quarto de hóspedes.
Quase sempre agradeciam. Se arrumavam ali mesmo no vasto alpendre
[coberto
Descarregavam as mulas, encostavam a carga.
Tia Nhá-Bá comparecia, oferecia bacião de banho à dona, e aos
[meninos,
quitandas.
Aceitavam ou não. Queriam, só mais, aquele encosto,
estendiam os couros, baixeiros, arreatas, se encostavam.
Meu avô franqueava o paiol. Milho à vontade para os animais de sela,
[de carga.
Eles acendiam fogo, se arranjavam naquele agasalho bondoso,
[primitivo.
Levantávamos curiosas, afoitas, ver os passantes.
Acompanhá-los ao curral, oferecer as coisas da casa.
Ajoujavam os cargueiros, remetiam as bruacas nas cangalhas.
Faziam suas despedidas, pediam a conta das despesas.
Meu avô recusava qualquer pagamento — Lei da Hospitalidade.
Os camaradas já tinham feito o almoço lá deles. Já tinha madrugado
para as restantes cinco léguas. Convidava-se a demorar mais na volta.
Despediam-se em gratidão e repouso.
Era assim no antigamente, naqueles velhos reinos de Goiás.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
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2
Manoel de Barros
Infância
Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.
Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.
Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.
Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.
Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Junqueira Freire
À Morte de Garrett
No doce arranco
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
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Artur de Azevedo
Uma Valsa
(...)
Valsa ditosa
Vertiginosa
Que delícia nos fazes gozar!
Débil cintura
Com mão impura
O direito nos dás de apertar!
Túmidos seios,
Cerúleos veios
Junto ao peito sentimos arfar!
Há melhor gosto
Que um lindo rosto
A' distância de um beijo fitar?
Quatro imprudentes
Lábios ardentes
Por acaso se podem tocar...
Eternas horas,
Noites e auroras,
Uma valsa devera durar!
(...)
É agora!
Lá vão,
Embora
Cansados!
Danados
Estão!
O moço
Destroço
Na trança
Causou:
O cravo
— Que agravo! —
Na dança
Roubou!
A trança
Rolou!
E todos
Tais modos
Lamentam,
Comentam:
— Audácia!
— Filáucia!
— Tunante!
— Tratante!
Já chovem
Protestos.
— Que horror! —
E o jovem,
Os restos
Beijando
Da flor,
Pulando,
Suando,
Mostrando
Furor,
Não pára,
E, a cara
Metendo,
Vai tendo
Lugar!
A triste
Resiste
Nos braços
Devassos
Do par.
O esposo,
Furioso,
A banda
Não manda
Calar!
A bela
Senhora
Desmaia:
Na sala,
Sem fala
Descai!
Descaia!
Que, embora
Sem ela,
O ovante
Dançante
Lá vai!
— Mas pare!
— Repare!
— Faz mal!
Aviso
De siso
Não val!
— Pisou-me!
— Matou-me!
— Socorro,
Que eu morro
Papai!
— Borracho
Estará?
— Eu acho
Que está!
E a banda
Tão rara,
Nefanda,
Não pára!
O amigo
Co'as pernas
Ligeiras
E eternas
Levando
Consigo
Cadeiras,
Quebrando
Sofás,
A gente
Pisando
Que frente
Lhe faz,
Não cansa
Na dança,
Zás, traz!
E lhe ouço
— Que moço!
Girando,
Gritando,
Dizer:
— Almejo,
Desejo
Dançando,
Valsando
Morrer! —
(...)
Imagem - 01140002
In: AZEVEDO, Artur. Contos em verso. Rio de Janeiro: Garnier, 1910. Poema integrante da série Contos Brasileiros
Valsa ditosa
Vertiginosa
Que delícia nos fazes gozar!
Débil cintura
Com mão impura
O direito nos dás de apertar!
Túmidos seios,
Cerúleos veios
Junto ao peito sentimos arfar!
Há melhor gosto
Que um lindo rosto
A' distância de um beijo fitar?
Quatro imprudentes
Lábios ardentes
Por acaso se podem tocar...
Eternas horas,
Noites e auroras,
Uma valsa devera durar!
(...)
É agora!
Lá vão,
Embora
Cansados!
Danados
Estão!
O moço
Destroço
Na trança
Causou:
O cravo
— Que agravo! —
Na dança
Roubou!
A trança
Rolou!
E todos
Tais modos
Lamentam,
Comentam:
— Audácia!
— Filáucia!
— Tunante!
— Tratante!
Já chovem
Protestos.
— Que horror! —
E o jovem,
Os restos
Beijando
Da flor,
Pulando,
Suando,
Mostrando
Furor,
Não pára,
E, a cara
Metendo,
Vai tendo
Lugar!
A triste
Resiste
Nos braços
Devassos
Do par.
O esposo,
Furioso,
A banda
Não manda
Calar!
A bela
Senhora
Desmaia:
Na sala,
Sem fala
Descai!
Descaia!
Que, embora
Sem ela,
O ovante
Dançante
Lá vai!
— Mas pare!
— Repare!
— Faz mal!
Aviso
De siso
Não val!
— Pisou-me!
— Matou-me!
— Socorro,
Que eu morro
Papai!
— Borracho
Estará?
— Eu acho
Que está!
E a banda
Tão rara,
Nefanda,
Não pára!
O amigo
Co'as pernas
Ligeiras
E eternas
Levando
Consigo
Cadeiras,
Quebrando
Sofás,
A gente
Pisando
Que frente
Lhe faz,
Não cansa
Na dança,
Zás, traz!
E lhe ouço
— Que moço!
Girando,
Gritando,
Dizer:
— Almejo,
Desejo
Dançando,
Valsando
Morrer! —
(...)
Imagem - 01140002
In: AZEVEDO, Artur. Contos em verso. Rio de Janeiro: Garnier, 1910. Poema integrante da série Contos Brasileiros
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Joaquim Manuel de Macedo
A Rua do Ouvidor
A Rua do Ouvidor contou diversas lojas de perfumarias, e, por conseqüência, devia ser a rua mais cheirosa, mais perfumada entre todas as da cidade do Rio de Janeiro.
E todavia não o era!...
Com efeito não havia nem há rua mais opulenta de aromas, de perfumes, de pastilhas odoríferas, de banhas e de pomadas de ótimo cheiro; mas tudo isso encerrado em vidrinhos, em frascos e em pequenas caixas bonitas que mantinham e mantêm a Rua do Ouvidor tão inodora como as outras de dia.
Atualmente de noite observa-se o mesmo fato.
Naquele tempo, porém, isto é, nos tempos do Demarais, e ainda depois, a Rua do Ouvidor, de fácil e reta comunicação com a praia, era uma das mais freqüentadas pelos condutores dos repugnantes barris, das oito horas da noite até às dez.
A esses barris asquerosos o povo deu a denominação geralmente adotada de – tigres – pelo medo explicável que todos fugiam deles.
Esse ruim costume do passado me traz à memória informação falsa e ridícula que li, e caso infeliz e igualmente ridículo, de que fui testemunha ocular e nasal em 1839, no meu saudoso tempo de estudante.
A informação é a seguinte:
Um francês (viajante charlatão) passou pela cidade do Rio de janeiro, e demorando-se nela alguns dias, ouviu dos patrícios da Rua do Ouvidor queixas dos incômodos tigres que freqüentes passavam ali de noite. Sábio e consciencioso observador que ra, o viajante tomou nota do ato, e poucos anos depois publicou, no seu livro de viagens, esta famosa notícia:
"Na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, feras terríveis, os trigraves, vagam, durante a noite, pelas ruas, etc.,etc.!!!"
E é assim que escreve a história!
O caso que observei foi desastroso, mas de natureza que fez rir a todos.
Pouco depois das oito horas da noite, um inglês, trajando casaca preta e gravata branca...
Entre parêntese.
Em 1839 ainda era de uso ordinário e comum a casaca; o reinado de paletó começou depois; muitos estudantes iam as aulas de casacas, e não havia senador nem deputado eu se apresentasse desacasacado nas respectivas Câmaras: o paletó tornou-se eminentemente parlamentar de 1845 em diante.
Fechou-se o parênteses.
O inglês de chapéu de patente, casaca preta e gravata branca subia pela Rua do Ouvidor, quando encontrou um negro que descia, levando à cabeça um tigre para despeja-lo no mar.
O pobre africano ainda a tempo recuou um passo, mas o inglês que na sabia recuar avançou outro; o condutor do tigre encostou-se à parede que lhe ficava à mão direita, e o inglês supondo-se desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda pronunciou a ameaçadora palavra goodemi, e sem mais tir-te nem guar-te honrou com um soco britânico a face do africano, que perdendo o equilíbrio pelo ataque e pela dor, deixou cair o tigre para diante e naturalmente de boca para baixo.
Ah! Que não sei de nojo como o conte!
O Tigre ou o barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com os eu conteúdo a casaca preta, o colete e as calças do inglês.
O negro fugiu acelerado, e a vítima de sua própria imprudência, conseguindo livrar-se do barril, que o encapelara, lançou-se a correr atrás do africano, sacudindo o chapéu em estado indizível, e bradando furioso:
– Pegue ladron! Pegue ladron!...
Mas qual – pega ladron! –: todos se arredavam de inocente e malcheiroso negro que fugia, e ainda mais o inglês, tornado tigre pela inundação que recebera.
Era geral o coro de risadas na Rua do Ouvidor.
O inglês, perdendo enfim de vista o africano, completou o caso com um remate pelo menos tão ridículo como o seu desastre. Voltando rua acima, parou em frente de numeroso grupo de gente que testemunhara a cena, e ria-se dela.
Ainda hoje o estou vendo; o inglês parou, e sempre a sacudir o chapéu olhou iroso para o grupo e disse mas disse com orgulhosa gravidade britânica:
– Amanhã faz queixa a ministro da Inglaterra, e há de ter indenização de chapéu e de casaca perdidas.
Ah! Eu creio que então a melhor das risadas que romperam foi a minha gostosa, longa e repetida risada de estudante feliz e alegrão.
É inútil dizer que não houve questão diplomática. A Inglaterra ainda não se tinha feito representar no Brasil pó Mr. Christie, o único capaz (depois do jantar) de exigir indenização do chapéu e da casaca que o patrício perdera.
Não foi este único desastres que os tigres ocasionaram, foram muitos e todos mais ou menos grotescos, e sei de um outro (além da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Carno hoje Sete de Setembro, que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor.
O namorado da estudante, meu colega e amigo; estava perdidamente apaixonado por uma viúva, viuvinha de dezoito anos, e linda como os amores.
Uma noite, a bela senhora estava à janela, e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que, aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador, lhe mostrava, levando-o ao nariz, um raminho de lindas flores, que ia enviar-lhe, quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre, e, embora não encapelado, foi quase tão infeliz como o inglês.
O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir, e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua.
O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva; amoroso, porém, como estava, dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas.
No erro; a formosa viúva, ao ver o estudante, saudou-o doce, ternamente, mas levou o lenço a boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio.
O estudante deu então solene cavaco, e não apareceu mais à bela viuvinha.
Um tigre matou aquele amor.
font size=1>MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: Tip. Perseverança, 1878. p. 99-101.
E todavia não o era!...
Com efeito não havia nem há rua mais opulenta de aromas, de perfumes, de pastilhas odoríferas, de banhas e de pomadas de ótimo cheiro; mas tudo isso encerrado em vidrinhos, em frascos e em pequenas caixas bonitas que mantinham e mantêm a Rua do Ouvidor tão inodora como as outras de dia.
Atualmente de noite observa-se o mesmo fato.
Naquele tempo, porém, isto é, nos tempos do Demarais, e ainda depois, a Rua do Ouvidor, de fácil e reta comunicação com a praia, era uma das mais freqüentadas pelos condutores dos repugnantes barris, das oito horas da noite até às dez.
A esses barris asquerosos o povo deu a denominação geralmente adotada de – tigres – pelo medo explicável que todos fugiam deles.
Esse ruim costume do passado me traz à memória informação falsa e ridícula que li, e caso infeliz e igualmente ridículo, de que fui testemunha ocular e nasal em 1839, no meu saudoso tempo de estudante.
A informação é a seguinte:
Um francês (viajante charlatão) passou pela cidade do Rio de janeiro, e demorando-se nela alguns dias, ouviu dos patrícios da Rua do Ouvidor queixas dos incômodos tigres que freqüentes passavam ali de noite. Sábio e consciencioso observador que ra, o viajante tomou nota do ato, e poucos anos depois publicou, no seu livro de viagens, esta famosa notícia:
"Na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, feras terríveis, os trigraves, vagam, durante a noite, pelas ruas, etc.,etc.!!!"
E é assim que escreve a história!
O caso que observei foi desastroso, mas de natureza que fez rir a todos.
Pouco depois das oito horas da noite, um inglês, trajando casaca preta e gravata branca...
Entre parêntese.
Em 1839 ainda era de uso ordinário e comum a casaca; o reinado de paletó começou depois; muitos estudantes iam as aulas de casacas, e não havia senador nem deputado eu se apresentasse desacasacado nas respectivas Câmaras: o paletó tornou-se eminentemente parlamentar de 1845 em diante.
Fechou-se o parênteses.
O inglês de chapéu de patente, casaca preta e gravata branca subia pela Rua do Ouvidor, quando encontrou um negro que descia, levando à cabeça um tigre para despeja-lo no mar.
O pobre africano ainda a tempo recuou um passo, mas o inglês que na sabia recuar avançou outro; o condutor do tigre encostou-se à parede que lhe ficava à mão direita, e o inglês supondo-se desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda pronunciou a ameaçadora palavra goodemi, e sem mais tir-te nem guar-te honrou com um soco britânico a face do africano, que perdendo o equilíbrio pelo ataque e pela dor, deixou cair o tigre para diante e naturalmente de boca para baixo.
Ah! Que não sei de nojo como o conte!
O Tigre ou o barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com os eu conteúdo a casaca preta, o colete e as calças do inglês.
O negro fugiu acelerado, e a vítima de sua própria imprudência, conseguindo livrar-se do barril, que o encapelara, lançou-se a correr atrás do africano, sacudindo o chapéu em estado indizível, e bradando furioso:
– Pegue ladron! Pegue ladron!...
Mas qual – pega ladron! –: todos se arredavam de inocente e malcheiroso negro que fugia, e ainda mais o inglês, tornado tigre pela inundação que recebera.
Era geral o coro de risadas na Rua do Ouvidor.
O inglês, perdendo enfim de vista o africano, completou o caso com um remate pelo menos tão ridículo como o seu desastre. Voltando rua acima, parou em frente de numeroso grupo de gente que testemunhara a cena, e ria-se dela.
Ainda hoje o estou vendo; o inglês parou, e sempre a sacudir o chapéu olhou iroso para o grupo e disse mas disse com orgulhosa gravidade britânica:
– Amanhã faz queixa a ministro da Inglaterra, e há de ter indenização de chapéu e de casaca perdidas.
Ah! Eu creio que então a melhor das risadas que romperam foi a minha gostosa, longa e repetida risada de estudante feliz e alegrão.
É inútil dizer que não houve questão diplomática. A Inglaterra ainda não se tinha feito representar no Brasil pó Mr. Christie, o único capaz (depois do jantar) de exigir indenização do chapéu e da casaca que o patrício perdera.
Não foi este único desastres que os tigres ocasionaram, foram muitos e todos mais ou menos grotescos, e sei de um outro (além da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Carno hoje Sete de Setembro, que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor.
O namorado da estudante, meu colega e amigo; estava perdidamente apaixonado por uma viúva, viuvinha de dezoito anos, e linda como os amores.
Uma noite, a bela senhora estava à janela, e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que, aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador, lhe mostrava, levando-o ao nariz, um raminho de lindas flores, que ia enviar-lhe, quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre, e, embora não encapelado, foi quase tão infeliz como o inglês.
O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir, e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua.
O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva; amoroso, porém, como estava, dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas.
No erro; a formosa viúva, ao ver o estudante, saudou-o doce, ternamente, mas levou o lenço a boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio.
O estudante deu então solene cavaco, e não apareceu mais à bela viuvinha.
Um tigre matou aquele amor.
font size=1>MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: Tip. Perseverança, 1878. p. 99-101.
4 035
2
Corrêa de Araújo
Carta
Quisera escrever-lhe com uma letrinha
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um "eternamente sua",
mas quem sabe se você me quererá para
sempre?
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um "eternamente sua",
mas quem sabe se você me quererá para
sempre?
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
1 315
2
Zalina Rolim
Cuidados Maternais
Expor minha filhinha ao sol ardente —
Mamãe diz que é um perigo:
Quero sentar-me ao delicioso abrigo
Deste arbusto virente.
A sombrinha de seda cor-de-rosa
Torna a luz tão suave!...
No arvoredo palpita um ninho de ave
Sob a fronde cheirosa.
Meio-dia. Um barulho de água viva
Cortando o fresco atalho
Do bosque, em fino leito de cascalho,
Marulhoso deriva.
Minha filhinha, a todo o encanto alheia,
Descansa em meus joelhos;
E nos seus lábios doces e vermelhos,
Leve sorriso ondeia.
Pesa-lhe o sono; já entreabre a custo
Os olhos sonolentos,
E adormecê-la assim exposta aos ventos,
Causa-me grande susto.
Tão melindrosa e frágil! Pobre anjinho!
Traz-me em perpétuo anseio...
Quem me dera escondê-la no meu seio
Em faixas de carinho!...
E conservá-la assim — meu sonho eterno —
No íntimo do peito,
E de amor construir-lhe o níveo leito
No coração materno!...
In: ROLIM, Zalina. Livro das crianças. Pref. Gabriel Prestes. Boston: C. F.ammett, 1897. p.15-16. (Série D. Vitalina de Queiroz). Poema integrante da série 1a. Parte: A Sinhô
Mamãe diz que é um perigo:
Quero sentar-me ao delicioso abrigo
Deste arbusto virente.
A sombrinha de seda cor-de-rosa
Torna a luz tão suave!...
No arvoredo palpita um ninho de ave
Sob a fronde cheirosa.
Meio-dia. Um barulho de água viva
Cortando o fresco atalho
Do bosque, em fino leito de cascalho,
Marulhoso deriva.
Minha filhinha, a todo o encanto alheia,
Descansa em meus joelhos;
E nos seus lábios doces e vermelhos,
Leve sorriso ondeia.
Pesa-lhe o sono; já entreabre a custo
Os olhos sonolentos,
E adormecê-la assim exposta aos ventos,
Causa-me grande susto.
Tão melindrosa e frágil! Pobre anjinho!
Traz-me em perpétuo anseio...
Quem me dera escondê-la no meu seio
Em faixas de carinho!...
E conservá-la assim — meu sonho eterno —
No íntimo do peito,
E de amor construir-lhe o níveo leito
No coração materno!...
In: ROLIM, Zalina. Livro das crianças. Pref. Gabriel Prestes. Boston: C. F.ammett, 1897. p.15-16. (Série D. Vitalina de Queiroz). Poema integrante da série 1a. Parte: A Sinhô
1 625
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Zalina Rolim
Cuidados Maternais
Expor minha filhinha ao sol ardente —
Mamãe diz que é um perigo:
Quero sentar-me ao delicioso abrigo
Deste arbusto virente.
A sombrinha de seda cor-de-rosa
Torna a luz tão suave!...
No arvoredo palpita um ninho de ave
Sob a fronde cheirosa.
Meio-dia. Um barulho de água viva
Cortando o fresco atalho
Do bosque, em fino leito de cascalho,
Marulhoso deriva.
Minha filhinha, a todo o encanto alheia,
Descansa em meus joelhos;
E nos seus lábios doces e vermelhos,
Leve sorriso ondeia.
Pesa-lhe o sono; já entreabre a custo
Os olhos sonolentos,
E adormecê-la assim exposta aos ventos,
Causa-me grande susto.
Tão melindrosa e frágil! Pobre anjinho!
Traz-me em perpétuo anseio...
Quem me dera escondê-la no meu seio
Em faixas de carinho!...
E conservá-la assim — meu sonho eterno —
No íntimo do peito,
E de amor construir-lhe o níveo leito
No coração materno!...
In: ROLIM, Zalina. Livro das crianças. Pref. Gabriel Prestes. Boston: C. F.ammett, 1897. p.15-16. (Série D. Vitalina de Queiroz). Poema integrante da série 1a. Parte: A Sinhô
Mamãe diz que é um perigo:
Quero sentar-me ao delicioso abrigo
Deste arbusto virente.
A sombrinha de seda cor-de-rosa
Torna a luz tão suave!...
No arvoredo palpita um ninho de ave
Sob a fronde cheirosa.
Meio-dia. Um barulho de água viva
Cortando o fresco atalho
Do bosque, em fino leito de cascalho,
Marulhoso deriva.
Minha filhinha, a todo o encanto alheia,
Descansa em meus joelhos;
E nos seus lábios doces e vermelhos,
Leve sorriso ondeia.
Pesa-lhe o sono; já entreabre a custo
Os olhos sonolentos,
E adormecê-la assim exposta aos ventos,
Causa-me grande susto.
Tão melindrosa e frágil! Pobre anjinho!
Traz-me em perpétuo anseio...
Quem me dera escondê-la no meu seio
Em faixas de carinho!...
E conservá-la assim — meu sonho eterno —
No íntimo do peito,
E de amor construir-lhe o níveo leito
No coração materno!...
In: ROLIM, Zalina. Livro das crianças. Pref. Gabriel Prestes. Boston: C. F.ammett, 1897. p.15-16. (Série D. Vitalina de Queiroz). Poema integrante da série 1a. Parte: A Sinhô
1 625
2
Paulo Leminski
Amor, então,
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
6 243
2
Chico Buarque
Mar e Lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
5 269
2
Augusto dos Anjos
A Louca
A Dias Paredes
Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.
Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.
Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d'amor misterioso
- O segredo d'um peito torturado -
E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.
Quando ela passa: - a veste desgrenhada,
O cabelo revolto em desalinho,
No seu olhar feroz eu adivinho
O mistério da dor que a traz penada.
Moça, tão moça e já desventurada;
Da desdita ferida pelo espinho,
Vai morta em vida assim pelo caminho,
No sudário de mágoa sepultada.
Eu sei a sua história. - Em seu passado
Houve um drama d'amor misterioso
- O segredo d'um peito torturado -
E hoje, para guardar a mágoa oculta,
Canta, soluça - coração saudoso,
Chora, gargalha, a desgraçada estulta.
5 208
2
Gabriela Mistral
A oração da mestra
Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que leve o
nome de mestra, que Tu levaste pela Terra.
Dá-me o amor único de minha escola; que nem a queimadura da
beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os instantes.
Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto.
Arranca de mim este impuro desejo de justiça que ainda me perturba, a
mesquinha insinuação de protesto que sobe de mim quando me ferem.
Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensine.
Dá-me o ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender
como elas o que não é carne de minha carne. Dá-me que alcance
a fazer de uma de minhas crianças meu verso perfeito e a deixar-lhe
cravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios não cantem mais.
Mostra-me possível teu Evangelho em meu tempo, para que não
renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.
Põe em minha escola democrática o resplendor que se discernia sobre
tua roda de meninos descalços.
Faz-me forte, ainda em meu desvalimento de mulher, e de mulher pobre;
faz-me desprezadora de todo poder que não seja puro, de toda pressão
que não seja a de tua vontade ardente sobre minha vida.
nome de mestra, que Tu levaste pela Terra.
Dá-me o amor único de minha escola; que nem a queimadura da
beleza seja capaz de roubar-lhe minha ternura de todos os instantes.
Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto.
Arranca de mim este impuro desejo de justiça que ainda me perturba, a
mesquinha insinuação de protesto que sobe de mim quando me ferem.
Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensine.
Dá-me o ser mais mãe que as mães, para poder amar e defender
como elas o que não é carne de minha carne. Dá-me que alcance
a fazer de uma de minhas crianças meu verso perfeito e a deixar-lhe
cravada minha mais penetrante melodia, para quando meus lábios não cantem mais.
Mostra-me possível teu Evangelho em meu tempo, para que não
renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.
Põe em minha escola democrática o resplendor que se discernia sobre
tua roda de meninos descalços.
Faz-me forte, ainda em meu desvalimento de mulher, e de mulher pobre;
faz-me desprezadora de todo poder que não seja puro, de toda pressão
que não seja a de tua vontade ardente sobre minha vida.
6 693
2
Paulo Setúbal
Idílio
"Vamos?" disseste... E eu disse logo: vamos!
Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,
Uma alegria esplêndida e sonora;
E tu, abrindo ao sol, como uma tenda,
Tua sombrinha de custosa renda,
Partimos ambos pela estrada afora...
Eram pastagens largas, eram roças,
Carros de bois, currais, barreadas choças,
E rústicos galpões de pau-a-pique;
Só tu, nessa bucólica simpleza,
Com teu "tailleur" de casemira inglesa,
Punhas uns tons de mundanismo chic.
E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada,
Nós, papagueando, sem sentirmos nada,
Seguíamos num sonho encantador:
É que a felicidade, como um vinho,
Fazia-nos andar pelo caminho,
Tontos de gozo e bêbedos de amor!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,
Uma alegria esplêndida e sonora;
E tu, abrindo ao sol, como uma tenda,
Tua sombrinha de custosa renda,
Partimos ambos pela estrada afora...
Eram pastagens largas, eram roças,
Carros de bois, currais, barreadas choças,
E rústicos galpões de pau-a-pique;
Só tu, nessa bucólica simpleza,
Com teu "tailleur" de casemira inglesa,
Punhas uns tons de mundanismo chic.
E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada,
Nós, papagueando, sem sentirmos nada,
Seguíamos num sonho encantador:
É que a felicidade, como um vinho,
Fazia-nos andar pelo caminho,
Tontos de gozo e bêbedos de amor!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 1964
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2
William Shakespeare
Trabalhos de Amor Perdidos
Mas o amor, primeiro aprendido em uns olhos de mulher,
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
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2
Vladimir Maiakovski
DEDUÇÃO
Não acabarão com o amor, nem as rusgas, nem a distância.
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
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Manuel Bandeira
A Canção Das Lágrimas de Pierrot
I
A sala em espelhos brilha
Com lustres de dez mil velas.
Miríades de rodelas
Multicores — maravilha! —
Torvelinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.
E rodam mais que confete,
Em farândolas quebradas,
Cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrette.
II
Pierrot entra em salto súbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decúbito.
A tez, antes melancólica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
Com tanta paixão diabólica,
Tanta, que se lhe ensangúentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essência vibra
Nas cordas que se arrebentam.
III
Seu alaúde de plátano
Milagre é que não se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
— Ai dele! e os cuidados matam-no.
Ai dele! que essa alegria,
Aquelas canções, aquele
Surto não é mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.
Fazendo à cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:
IV
— "Negaste a pele macia
"À minha linda paixão!
"E irás entregá-la um dia
"Aos feios vermes do chão...
"Fiz por ver se te podia
"Amolecer — e não pude!
"Em vão pela noite fria
"Devasto o meu alaúde...
"Minha paz, minha alegria,
"Minha coragem, roubaste-mas...
"E hoje a minh'alma sombria
"E como um poço de lástimas..."
V
Corre após a amada esquiva.
Procura o precário ensejo
De matar o seu desejo
Numa carícia furtiva.
E encontrando-o Colombina,
Se lhe dá, lesta, à socapa,
Em vez de beijo uma tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!...
Ele que estava de rastros,
Pula, e tão alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...
A sala em espelhos brilha
Com lustres de dez mil velas.
Miríades de rodelas
Multicores — maravilha! —
Torvelinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.
E rodam mais que confete,
Em farândolas quebradas,
Cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrette.
II
Pierrot entra em salto súbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decúbito.
A tez, antes melancólica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
Com tanta paixão diabólica,
Tanta, que se lhe ensangúentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essência vibra
Nas cordas que se arrebentam.
III
Seu alaúde de plátano
Milagre é que não se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
— Ai dele! e os cuidados matam-no.
Ai dele! que essa alegria,
Aquelas canções, aquele
Surto não é mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.
Fazendo à cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:
IV
— "Negaste a pele macia
"À minha linda paixão!
"E irás entregá-la um dia
"Aos feios vermes do chão...
"Fiz por ver se te podia
"Amolecer — e não pude!
"Em vão pela noite fria
"Devasto o meu alaúde...
"Minha paz, minha alegria,
"Minha coragem, roubaste-mas...
"E hoje a minh'alma sombria
"E como um poço de lástimas..."
V
Corre após a amada esquiva.
Procura o precário ensejo
De matar o seu desejo
Numa carícia furtiva.
E encontrando-o Colombina,
Se lhe dá, lesta, à socapa,
Em vez de beijo uma tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!...
Ele que estava de rastros,
Pula, e tão alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...
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