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Poemas neste tema

Vida e Existência

Bruno de Menezes

Bruno de Menezes

Romantismo de um Poema Proletário

Não fosse a alma romântica de nossa raça,
doentia evocação ou uma simples lembrança,
eu não estaria dando vida a estas líricas palavras,
para rever agora a tua imagem sucumbida.

À maneira dos Poetas tísicos e melancólicos,
das Marílias, que aos seus amores
ofereciam violetas e madeixas,
nós repetimos a velha e sempre nova comédia...

E é por isso, que do teu antigo retrato,
onde estás exuberante e sadia,
sorrindo com os teus lábios de polpa sumarosa,
(como se não dormisses à luz dos vagalumes)
se evola para mim o mesmo sândalo de tua carne,
que era rija e colorida como a dos frutos sazonados.

É por isso, que a mecha dos teus cabelos,
negros e capitosos como sabias trazê-los,
e que deixaste como prova de tua faceirice,
parece ainda agitar-se na tua cabeça de Lindóia,
e se encrespa, como um punhado de treva,
entre os meus dedos paralisados.

Talvez seja por isso...
Ou porque não foste a terra inteiramente conquistada,
que os homens espreitavam gulosos e alucinados...

Ou porque, a tua rústica mocidade,
cheirando ao mato e ao rio,
que te viram nua, na tua infância roceira
fizeram de ti uma força jovem;
e como os braços de tantas irmãs-proletárias,
afeitos a lidar com maquinismos e teares,
também terminaste nos necrológios sem leitores...


Publicado no livro Lua Sonâmbula: poemas (1953). Poema integrante da série Poemas a Ismael Nery.

In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.339-340. (Lendo o Pará, 14
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Bruno de Menezes

Bruno de Menezes

Romantismo de um Poema Proletário

Não fosse a alma romântica de nossa raça,
doentia evocação ou uma simples lembrança,
eu não estaria dando vida a estas líricas palavras,
para rever agora a tua imagem sucumbida.

À maneira dos Poetas tísicos e melancólicos,
das Marílias, que aos seus amores
ofereciam violetas e madeixas,
nós repetimos a velha e sempre nova comédia...

E é por isso, que do teu antigo retrato,
onde estás exuberante e sadia,
sorrindo com os teus lábios de polpa sumarosa,
(como se não dormisses à luz dos vagalumes)
se evola para mim o mesmo sândalo de tua carne,
que era rija e colorida como a dos frutos sazonados.

É por isso, que a mecha dos teus cabelos,
negros e capitosos como sabias trazê-los,
e que deixaste como prova de tua faceirice,
parece ainda agitar-se na tua cabeça de Lindóia,
e se encrespa, como um punhado de treva,
entre os meus dedos paralisados.

Talvez seja por isso...
Ou porque não foste a terra inteiramente conquistada,
que os homens espreitavam gulosos e alucinados...

Ou porque, a tua rústica mocidade,
cheirando ao mato e ao rio,
que te viram nua, na tua infância roceira
fizeram de ti uma força jovem;
e como os braços de tantas irmãs-proletárias,
afeitos a lidar com maquinismos e teares,
também terminaste nos necrológios sem leitores...


Publicado no livro Lua Sonâmbula: poemas (1953). Poema integrante da série Poemas a Ismael Nery.

In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.339-340. (Lendo o Pará, 14
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Homenagem ao Itabirano

Teu aniversário, Poeta, no escuro
não se comemora. Antes, se celebra
no claro enigma das horas.

Tentas nos fugir. Em vão.
Tua poesia nos persegue
e revertida te alcança
como o sonho persegue
o sonhador fujão.

Podes te alojar — barroco e torto —
dentro de um santo de pau oco,
como aqueles que, em Minas,
ocultam a riqueza clandestina
de seu dono. Podes fingir
a indiferença do corpo
quando se refugia no sono.

Podes partir para Buenos Aires
Bombaim
ou Tapajós.
Não te deixaremos a sós,
pois ensinaste ao leitor mudo
a emoção da própria voz.

Independente de ti,
na luz renascente do dia,
como tua poesia, teu aniversário
se irradia.
Neste dia
não há vanguarda e academia,
prosa e poesia, nem à direita
e à esquerda, ideologia.
Teus versos se instalaram
nas dobras dos lençóis e cartas,
se infiltraram nos jornais,
viraram slogans, provérbios
e senhas matinais.
Não há quem te não saiba de cor.
A abelha de teus versos
segrega em nós o nosso mel melhor.

Hoje o jornaleiro
entregará na esquina
um jornal mais leve e limpo
onde a poesia abre espaço
nas guerras do dia-a-dia.
O porteiro de teu prédio
amanhecerá engalanado
como guarda da rainha,
protegendo-te do assédio
de quem quer te ver de perto.

O carteiro de tua rua
qual hércules moderno
trará pacotes, malotes
e pirâmides de afeto.

Certo, hoje não sairás à beira-mar, puro recato.
Mas as ondas, sabidas, guardarão para amanhã
as cabriolas e saltos, que brincalhonas
darão à tua passagem
— no calçadão da avenida.

Quando nasceu o poeta? Em 1902?
No ontem de Itabira? Ou depois
que alguma poetisa se iluminou
em reunião e epifania?
Como nasceu o poeta? Antes
do primeiro poema, quando ele ardia
a dor do mundo sozinho? Ou no dia
da primeira topada da crítica
com a "pedra no meio do caminho"?

Quem é esse poeta ambíguo e exilado
no umbigo do grande mundo
como um avesso Crusoé?
Qual a sua melhor máscara?
A de Carlos? O elefante de paina?
A letra K? Ou o absurdo José?

Ah, drummontanhosa criatura,
difícil esfinge de orgulho e ferro,
ostra enrodilhada no inexistente mar de Minas.

Pena que não te veja teu pai,
nesta hora nacional. Imagino-o
chegando de chapéu, com as botas dos currais
e encontrando na sala da fazenda
essa multidão de brasileiros
a louvar o filho gauche
— franzino e tímido —
num canto do salão.

Poeta, pai involuntário
de tantos poetas voluntários.
Teus descendentes literários te saúdam
e te beijam vivo
com aquele amor, que, em Minas, contido,
só se exibe diante do morto, no imaginário.

Não podemos esperar que partas em ausências
para te amar melhor. Nosso amor
se ilumina à luz de tua presença.
O amor, como a poesia, tem urgências.
Te amamos e não te ocultamos nosso gesto.
Te amamos como indivíduo — sozinhos e discretos
ou como um grande país
— com alarde e afeto.



Publicado no livro A catedral de Colônia e outros poemas (1985).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
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Olavo Bilac

Olavo Bilac

As Cartomantes

OS JORNAIS PUBLICARAM, há dias, uma longa lista de nomes de homens e de mulheres, — principalmente de mulheres, — que se dedicam ao estudo e à prática da quiromancia, da cartomancia, do sonambulismo, e não sei se também da lampadomancia, da alectoromancia, da hidromancia, e de outras das inumeráveis subciências em que se divide a grande ciência da mântica, a cujos sacerdotes Severiano de Rezende dá o nome, admiravelmente bem achado, de "Charlatas do Além".

Parece que a polícia, depois de organizar o catálogo estatístico dessa gente, vai persegui-Ia sem piedade, devassando-lhe os antros proféticos, varejando-lhe as cavernas sibilinas, vascolejando-lhe as criptas misteriosas, opondo ao Tarô o Código e à trípode de Delfos o banco dos réus.

Dir-se-á, sem maior exame, encarando a cousa pela rama, que a polícia se vai assim empenhar num simples e fácil trabalho de saneamento moral, perseguindo algumas dúzias de exploradores da credulidade pública, com o mesmo direito com que persegue os passadores do "conto do vigário" ou de notas falsas.

Não há tal. O que a polícia vai fazer é pôr a sua mão imprudente numa tradição multissecular, numa eterna e indestrutível mentira, criada pelo medo ou pela curiosidade dos primeiros homens, e sustentada pela irremediável tolice de todos os outros que lhes sucederam e lhes hão de suceder no gozo e no sofrimento dos bens e dos males da vida. Querer destruir uma mentira, que há de viver perpetuamente, e combater uma tolice, contra a qual nunca se há de achar remédio, — é a preocupação mais vã de quantas podemos ter neste mundo vão. E desde já podemos lamentar que a polícia vá perder nesse trabalho ingrato e inútil um tempo preciosíssimo, que poderia ser benéfica e providencialmente aproveitado em outras empresas muito mais fáceis e urgentes.

A superstição é velha e eterna como a inteligência.

Que fez a inteligência, assim que desabrochou, como uma flor luminosa, no primeiro cérebro humano? Quis saber o que era ela própria, e o que era a humanidade, e o que era a Terra, e o que era o universo. E endereçou então a tudo essa grande pergunta ansiosa e dolorosa, que ainda não teve resposta...

Naturalmente, a primeira interrogação foi dirigida ao céu distante e profundo, onde os astros esplendem, na sua eterna viagem, cegando-nos com o seu brilho e intrigando-nos com o seu segredo inatingível; nasceu assim a astrologia. Depois, a pergunta foi dirigida pelo homem a si mesmo, aos seus pensamentos, aos mistérios da sua vida fisiológica: aos sonhos, às linhas da mão, à configuração da face, à faculdade da visão, à loucura, à epilepsia, ao sonambulismo. Depois, o eterno curioso interrogou os acidentes físicos do meio que o cercava: o fogo, a luz, o ar, o curso dos rios, a inquietação do oceano, as correrias das nuvens pelo céu. Passou depois a investigar todo o reino animal: e foi assim que se fundou a classe dos arúspices que procuravam ler o futuro nas entranhas dos animais, no vôo dos pássaros, no rastejar dos répteis, no canto dos galos, nos círculos que as aves de rapina traçam no céu, no grunhir dos bácoros; depois chegou a vez do reino vegetal, do reino mineral: examinavam-se a forma e a direção dos ramos, o barulho dos galhos sacudidos pelo vento, a forma e a estrutura das folhas e das flores, o peso e o brilho das pedras preciosas, o fulgor e a dureza dos metais; fundou-se uma ciência, a aleuromancia, sobre o estudo da farinha! o âmbar foi adorado como uma divindade! e milhões e milhões de cérebros arderam e estouraram no trabalho vão de criar a pedra filosofal!

Tudo foi inútil; mas a inteligência não desesperou. Não há século que não veja nascer uma nova religião; e as superstições, suas filhas, nascem todos os dias, — e às vezes nascem por si mesmas, espontaneamente, por um processo de autocriação; há ateus, ateus convencidos, inimigos e negadores de todas as religiões, e, entretanto, profundamente supersticiosos: não crêem em Jeová, nem em Brahma, nem em Júpiter, nem em Ísis, — mas crêem na fatalidade da concorrência de 13 convivas à mesa, ou na influência do mau-olhado dos jettatores, ou na ascendência nefasta dos sapatos que se deixam no chão com a sola para cima.

Há quem pense que, com o progredir da civilização, diminui o número dos supersticiosos. Completa ilusão. Nunca houve tantos supersticiosos e tantas superstições como agora. A civilização causa o naufrágio e a bancarrota das religiões, mas não aplaca esta sede de saber e esta ânsia de compreender que ainda não foram satisfeitas. Morrem e sucedem-se as religiões, mas não se altera o instinto religioso; reformam-se as superstições, mas a Superstição é eterna.

Todos nós costumamos rir das crendices... É um riso exterior e postiço, com que mascaramos o nosso medo. É de crer que, para não perder o seu ganha-pão, os delegados de polícia, obedecendo às ordens do chefe, varejem as casas das cartomantes; muitos deles, porém, cumprirão esse dever com um certo terror. E até o chefe... quem sabe que superstições terá o chefe? a investidura de tão alto cargo não destrói dentro da alma de um homem as estratificações de preconceitos que séculos e séculos de humanidade e de fraqueza têm deposto nas almas de todos os homens.

Eu, por mim, confesso que não creio na ciência das cartomantes. Mas...

Foi há muitos anos, — há 22 ou 23 anos, se me não engano. Fui consultar Madama X, cartomante famosa, que tinha a sua trípode assentada num sobradinho da rua de São José. Não sei por que lá fui: provavelmente para rir dela... Subi uma escada íngreme, andei por um corredor escuro, bati a uma porta, entrei em uma saleta quase sem luz. E, ocupando uma vastíssima poltrona, vi a profetisa; quarentona gorda e vermelha, de mãos papudas e colo enorme estalando o corpete. Recebeu-me com um sorriso cativante, e indagou logo o que ali me levava: — tinha perdido alguma cousa? ia casar? queria conhecer o autor de alguma carta anônima?... Expliquei que não: queria conhecer o meu futuro, queria espiar por uma fresta dessa janela sempre fechada que deita para o porvir. Ela examinou, primeiro, as linhas da minha mão esquerda, palpou-me longamente as falangetas, — e, tomando o baralho, misturou as cartas, remexeu-as, estendeu-as em leque sobre a mesa, — e, antes de falar do meu futuro, começou a falar do meu passado.

Não posso aqui reproduzir tudo quanto me disse. Vinte e dois anos de vida varrem na memória da gente cousas tão sérias, que pareciam eternas!... como não hão de varrer futilidades e tolices? Lembra-me só que a anafada senhora me disse tantas cousas falsas e absurdas, que desatei a rir perdidamente.

Ela, apoplética, indignou-se. Labaredas de cólera crepitaram nos seus olhos, entre as pálpebras gordas. Mas conteve-se, antegozando a vingança: e, fixando os olhos nos meus, principiou a falar do meu futuro. Já eu não ria... O futuro!... todo o terror, toda a curiosidade, todo o sofrimento da ignorância dos meus brutíssimos avós do período mioceno despertavam na minha alma: e foi com um frio agudo na medula que eu ouvi a profecia tremenda. Combinando as revelações do Tarô com uma cerra interrupção da linha da vida na palma da minha mão, disse-me a sacerdotisa da rua de s. José: "O senhor há de morrer de morte violenta: desastre, assassinato ou suicídio!"

Paguei à cartomante, sorrindo, — com o sorriso exterior dos fortes, — e saí. Mas, ao descer a escada, vim pisando cautelosamente os degraus com medo de alguma queda. No largo da Carioca, esperei que passasse um bond que ainda vinha longe. Aproximou-se um cão: encolhi-me. Vi um andaime: afastei-me... E assim vivi alguns meses, sempre sorrindo da profecia, e sempre pensando nela. Já lá se vão 22 ou 23 anos! ainda não me assassinaram, nunca me vi a braços com um desastre sério, e nunca pensei (como espero que nunca hei de pensar) no suicídio. Mas, às vezes, —
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Olavo Bilac

Olavo Bilac

As Cartomantes

OS JORNAIS PUBLICARAM, há dias, uma longa lista de nomes de homens e de mulheres, — principalmente de mulheres, — que se dedicam ao estudo e à prática da quiromancia, da cartomancia, do sonambulismo, e não sei se também da lampadomancia, da alectoromancia, da hidromancia, e de outras das inumeráveis subciências em que se divide a grande ciência da mântica, a cujos sacerdotes Severiano de Rezende dá o nome, admiravelmente bem achado, de "Charlatas do Além".

Parece que a polícia, depois de organizar o catálogo estatístico dessa gente, vai persegui-Ia sem piedade, devassando-lhe os antros proféticos, varejando-lhe as cavernas sibilinas, vascolejando-lhe as criptas misteriosas, opondo ao Tarô o Código e à trípode de Delfos o banco dos réus.

Dir-se-á, sem maior exame, encarando a cousa pela rama, que a polícia se vai assim empenhar num simples e fácil trabalho de saneamento moral, perseguindo algumas dúzias de exploradores da credulidade pública, com o mesmo direito com que persegue os passadores do "conto do vigário" ou de notas falsas.

Não há tal. O que a polícia vai fazer é pôr a sua mão imprudente numa tradição multissecular, numa eterna e indestrutível mentira, criada pelo medo ou pela curiosidade dos primeiros homens, e sustentada pela irremediável tolice de todos os outros que lhes sucederam e lhes hão de suceder no gozo e no sofrimento dos bens e dos males da vida. Querer destruir uma mentira, que há de viver perpetuamente, e combater uma tolice, contra a qual nunca se há de achar remédio, — é a preocupação mais vã de quantas podemos ter neste mundo vão. E desde já podemos lamentar que a polícia vá perder nesse trabalho ingrato e inútil um tempo preciosíssimo, que poderia ser benéfica e providencialmente aproveitado em outras empresas muito mais fáceis e urgentes.

A superstição é velha e eterna como a inteligência.

Que fez a inteligência, assim que desabrochou, como uma flor luminosa, no primeiro cérebro humano? Quis saber o que era ela própria, e o que era a humanidade, e o que era a Terra, e o que era o universo. E endereçou então a tudo essa grande pergunta ansiosa e dolorosa, que ainda não teve resposta...

Naturalmente, a primeira interrogação foi dirigida ao céu distante e profundo, onde os astros esplendem, na sua eterna viagem, cegando-nos com o seu brilho e intrigando-nos com o seu segredo inatingível; nasceu assim a astrologia. Depois, a pergunta foi dirigida pelo homem a si mesmo, aos seus pensamentos, aos mistérios da sua vida fisiológica: aos sonhos, às linhas da mão, à configuração da face, à faculdade da visão, à loucura, à epilepsia, ao sonambulismo. Depois, o eterno curioso interrogou os acidentes físicos do meio que o cercava: o fogo, a luz, o ar, o curso dos rios, a inquietação do oceano, as correrias das nuvens pelo céu. Passou depois a investigar todo o reino animal: e foi assim que se fundou a classe dos arúspices que procuravam ler o futuro nas entranhas dos animais, no vôo dos pássaros, no rastejar dos répteis, no canto dos galos, nos círculos que as aves de rapina traçam no céu, no grunhir dos bácoros; depois chegou a vez do reino vegetal, do reino mineral: examinavam-se a forma e a direção dos ramos, o barulho dos galhos sacudidos pelo vento, a forma e a estrutura das folhas e das flores, o peso e o brilho das pedras preciosas, o fulgor e a dureza dos metais; fundou-se uma ciência, a aleuromancia, sobre o estudo da farinha! o âmbar foi adorado como uma divindade! e milhões e milhões de cérebros arderam e estouraram no trabalho vão de criar a pedra filosofal!

Tudo foi inútil; mas a inteligência não desesperou. Não há século que não veja nascer uma nova religião; e as superstições, suas filhas, nascem todos os dias, — e às vezes nascem por si mesmas, espontaneamente, por um processo de autocriação; há ateus, ateus convencidos, inimigos e negadores de todas as religiões, e, entretanto, profundamente supersticiosos: não crêem em Jeová, nem em Brahma, nem em Júpiter, nem em Ísis, — mas crêem na fatalidade da concorrência de 13 convivas à mesa, ou na influência do mau-olhado dos jettatores, ou na ascendência nefasta dos sapatos que se deixam no chão com a sola para cima.

Há quem pense que, com o progredir da civilização, diminui o número dos supersticiosos. Completa ilusão. Nunca houve tantos supersticiosos e tantas superstições como agora. A civilização causa o naufrágio e a bancarrota das religiões, mas não aplaca esta sede de saber e esta ânsia de compreender que ainda não foram satisfeitas. Morrem e sucedem-se as religiões, mas não se altera o instinto religioso; reformam-se as superstições, mas a Superstição é eterna.

Todos nós costumamos rir das crendices... É um riso exterior e postiço, com que mascaramos o nosso medo. É de crer que, para não perder o seu ganha-pão, os delegados de polícia, obedecendo às ordens do chefe, varejem as casas das cartomantes; muitos deles, porém, cumprirão esse dever com um certo terror. E até o chefe... quem sabe que superstições terá o chefe? a investidura de tão alto cargo não destrói dentro da alma de um homem as estratificações de preconceitos que séculos e séculos de humanidade e de fraqueza têm deposto nas almas de todos os homens.

Eu, por mim, confesso que não creio na ciência das cartomantes. Mas...

Foi há muitos anos, — há 22 ou 23 anos, se me não engano. Fui consultar Madama X, cartomante famosa, que tinha a sua trípode assentada num sobradinho da rua de São José. Não sei por que lá fui: provavelmente para rir dela... Subi uma escada íngreme, andei por um corredor escuro, bati a uma porta, entrei em uma saleta quase sem luz. E, ocupando uma vastíssima poltrona, vi a profetisa; quarentona gorda e vermelha, de mãos papudas e colo enorme estalando o corpete. Recebeu-me com um sorriso cativante, e indagou logo o que ali me levava: — tinha perdido alguma cousa? ia casar? queria conhecer o autor de alguma carta anônima?... Expliquei que não: queria conhecer o meu futuro, queria espiar por uma fresta dessa janela sempre fechada que deita para o porvir. Ela examinou, primeiro, as linhas da minha mão esquerda, palpou-me longamente as falangetas, — e, tomando o baralho, misturou as cartas, remexeu-as, estendeu-as em leque sobre a mesa, — e, antes de falar do meu futuro, começou a falar do meu passado.

Não posso aqui reproduzir tudo quanto me disse. Vinte e dois anos de vida varrem na memória da gente cousas tão sérias, que pareciam eternas!... como não hão de varrer futilidades e tolices? Lembra-me só que a anafada senhora me disse tantas cousas falsas e absurdas, que desatei a rir perdidamente.

Ela, apoplética, indignou-se. Labaredas de cólera crepitaram nos seus olhos, entre as pálpebras gordas. Mas conteve-se, antegozando a vingança: e, fixando os olhos nos meus, principiou a falar do meu futuro. Já eu não ria... O futuro!... todo o terror, toda a curiosidade, todo o sofrimento da ignorância dos meus brutíssimos avós do período mioceno despertavam na minha alma: e foi com um frio agudo na medula que eu ouvi a profecia tremenda. Combinando as revelações do Tarô com uma cerra interrupção da linha da vida na palma da minha mão, disse-me a sacerdotisa da rua de s. José: "O senhor há de morrer de morte violenta: desastre, assassinato ou suicídio!"

Paguei à cartomante, sorrindo, — com o sorriso exterior dos fortes, — e saí. Mas, ao descer a escada, vim pisando cautelosamente os degraus com medo de alguma queda. No largo da Carioca, esperei que passasse um bond que ainda vinha longe. Aproximou-se um cão: encolhi-me. Vi um andaime: afastei-me... E assim vivi alguns meses, sempre sorrindo da profecia, e sempre pensando nela. Já lá se vão 22 ou 23 anos! ainda não me assassinaram, nunca me vi a braços com um desastre sério, e nunca pensei (como espero que nunca hei de pensar) no suicídio. Mas, às vezes, —
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Sousândrade

Sousândrade

Canto Quinto

Noite. Está reclinado o Guesa Errante,
Olhando, — as grandes selvas se aclararam
À fogueira que acesa foi distante...
— Gritam das ruínas! as soidões gritaram!

E luzente na noite, para as chamas
Voa longo sibilo, serpentinos,
No ar desatando laços repentinos,
Fósfor nas bruno-lúcidas escamas,

E à fogueira lançou-se, do ar alado,
Surucucu-de-fogo! — árido ouvidos
Eram crebos funestos estalidos
Dos seus dúcteis anéis, o incêndio ateado!

Oh! quanto a chama e a cobra, tormentosas,
Uma à outra envolviam-se raivando
Por mútua antipatia! e mais lutando,
Mais, deslocando-se achas resinosas,

Em labareda as chamas se laceram,
Que ao meio delas, rúbida, convulsa,
S'esmalta a cobra e relampeia e pulsa,
Desdobrada espiral! — Emudeceram

Do Guesa os servos, que dispersos foram
E brandando e bradando amedrontados;
Grupam-se ao longo; enquanto os apagados
Incêndios vêem braseiros que descoram.

Mas, desondeando pela terra o açoite,
A cobra, em todo o orgulho de serpente,
Alça o colo; e ciciando, e lentamente,
O Guesa a vê passar través da noite;

E luminosa e qual se então se houvesse,
Vencidas chamas, acendido nelas,
Traço de luz, lhe nota as malhas belas
Do vermelhão, que às iras resplandece.

Ora apagou-se; e dum brunido umbrio,
Penetrou das ruínas na caverna:
Lá, viva tocha o crânio, vela eterna;
Os viandantes a vêem — quem nunca a viu?

Umbrosa e tarda, à do silêncio guarda,
Oh! paz e amor ao gênio bom dos lares,
Que a luz ofende, que importuna acende
Pródigo filho, a dor destes lugares!

E esta Equidade eterna, que aos céus dera
O raio serpentino, deu à terra
A serpente radiante — açoite e açoite,
Ou relâmpago, ou ação fugaz da noite.

A dor foi longa, viu-se a pausa que houve —
E continua a Guesa, tristemente
A fronte a alevantar, que tão pendente
Taciturna caía —
...........................................

Imagem - 00310001


In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Spleen e Charutos - III Vagabundo

Eat, drink and love; what can the rest avail us?
BYRON. Don Juan.


Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada....

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!..

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora, e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Branca de Neve

Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Branca de Neve

Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Branca de Neve

Eu te guardo no fundo da memória,
como guardo, num livro, aquela flor
que marca a tua delicada história,
Branca de Neve, meu primeiro amor.

Amei-te... E amei-te, figurinha aluada,
porque nunca exististe e porque sei
que o sonho é tudo — e tudo mais é nada...
E és o primeiro sonho que sonhei.

Hoje ainda beijo, comovido e tonto,
a velha mão que um dia me mostrou
aquela estampa do teu lindo conto,
princesinha encantada de Perrault!

Que fui eu afinal? — Um pobre louco
que andou, na vida, procurando em vão
sua Branca de Neve que era um pouco
do sonho e um pouco de recordação...

Procurei-a. Meus olhos esperaram
vê-la passar com flores e galões,
tal qual passaste quando te levaram,
no ataúde de vidro, os sete anões.

E encontrei a Saudade: ia alva e leve
na urna do passado que, afinal,
é como o teu caixão, Branca de Neve:
é um ataúde todo de cristal.

E parecia morta: mas vivia.
Corado do meu beijo que a roçou,
despertei-a do sono em que dormia,
como o Príncipe Azul te despertou.

Sinto-me agora mais criança ainda
do que naqueles tempos em que li
a tua história mentirosa e linda;
pois quase chego a acreditar em ti.

É que o meu caso (estranha extravagância!)
é a tua história sem tirar nem pôr...
E esta velhice é uma segunda infância,
Branca de Neve, meu primeiro amor.


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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