Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Thiago de Mello
Poema de Quarto Centenário
Para Astrojildo Pereira
Olho longamente num jornal
que serve de correio da manhã
a fotografia do escritor
num cárcere do Rio de Janeiro.
De tanta doçura,
parece a foto de um adolescente.
Recordo que muitas vezes lhe vi
brincar no olhar um alegre passarinho,
um arabesco de amor no azul aberto,
o terno gosto da alegria humana.
Mas já está com 74 anos o escritor,
o escritor preso.
Está preso porque provou
do mundo que lhe coube,
e achou o mundo amargo
e um tanto podre.
Continuo olhando no jornal
a fotografia do grande machadiano
sentado altivo no catre,
o seu perfil sereno
e malferido
na dor da biblioteca devassada,
o olhar cravado límpido na vida
consumida na construção do amor,
esse poder imenso de canção
de amanhecer na boca anoitecida.
Queima demais a brasa desta foto:
brasa de incêndios, frágua da manhã.
É preciso fazer alguma coisa,
varar no escuro um rumo de meninos,
inventar um navio de amapolas.
aprender outra vez a soletrar,
abrir os alicerces do arco-íris,
é preciso fazer alguma coisa
para lavar a vida degradada.
(...)
Santiago do Chile, noite de ano novo, 1965
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
Olho longamente num jornal
que serve de correio da manhã
a fotografia do escritor
num cárcere do Rio de Janeiro.
De tanta doçura,
parece a foto de um adolescente.
Recordo que muitas vezes lhe vi
brincar no olhar um alegre passarinho,
um arabesco de amor no azul aberto,
o terno gosto da alegria humana.
Mas já está com 74 anos o escritor,
o escritor preso.
Está preso porque provou
do mundo que lhe coube,
e achou o mundo amargo
e um tanto podre.
Continuo olhando no jornal
a fotografia do grande machadiano
sentado altivo no catre,
o seu perfil sereno
e malferido
na dor da biblioteca devassada,
o olhar cravado límpido na vida
consumida na construção do amor,
esse poder imenso de canção
de amanhecer na boca anoitecida.
Queima demais a brasa desta foto:
brasa de incêndios, frágua da manhã.
É preciso fazer alguma coisa,
varar no escuro um rumo de meninos,
inventar um navio de amapolas.
aprender outra vez a soletrar,
abrir os alicerces do arco-íris,
é preciso fazer alguma coisa
para lavar a vida degradada.
(...)
Santiago do Chile, noite de ano novo, 1965
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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1
Thiago de Mello
Poema de Quarto Centenário
Para Astrojildo Pereira
Olho longamente num jornal
que serve de correio da manhã
a fotografia do escritor
num cárcere do Rio de Janeiro.
De tanta doçura,
parece a foto de um adolescente.
Recordo que muitas vezes lhe vi
brincar no olhar um alegre passarinho,
um arabesco de amor no azul aberto,
o terno gosto da alegria humana.
Mas já está com 74 anos o escritor,
o escritor preso.
Está preso porque provou
do mundo que lhe coube,
e achou o mundo amargo
e um tanto podre.
Continuo olhando no jornal
a fotografia do grande machadiano
sentado altivo no catre,
o seu perfil sereno
e malferido
na dor da biblioteca devassada,
o olhar cravado límpido na vida
consumida na construção do amor,
esse poder imenso de canção
de amanhecer na boca anoitecida.
Queima demais a brasa desta foto:
brasa de incêndios, frágua da manhã.
É preciso fazer alguma coisa,
varar no escuro um rumo de meninos,
inventar um navio de amapolas.
aprender outra vez a soletrar,
abrir os alicerces do arco-íris,
é preciso fazer alguma coisa
para lavar a vida degradada.
(...)
Santiago do Chile, noite de ano novo, 1965
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
Olho longamente num jornal
que serve de correio da manhã
a fotografia do escritor
num cárcere do Rio de Janeiro.
De tanta doçura,
parece a foto de um adolescente.
Recordo que muitas vezes lhe vi
brincar no olhar um alegre passarinho,
um arabesco de amor no azul aberto,
o terno gosto da alegria humana.
Mas já está com 74 anos o escritor,
o escritor preso.
Está preso porque provou
do mundo que lhe coube,
e achou o mundo amargo
e um tanto podre.
Continuo olhando no jornal
a fotografia do grande machadiano
sentado altivo no catre,
o seu perfil sereno
e malferido
na dor da biblioteca devassada,
o olhar cravado límpido na vida
consumida na construção do amor,
esse poder imenso de canção
de amanhecer na boca anoitecida.
Queima demais a brasa desta foto:
brasa de incêndios, frágua da manhã.
É preciso fazer alguma coisa,
varar no escuro um rumo de meninos,
inventar um navio de amapolas.
aprender outra vez a soletrar,
abrir os alicerces do arco-íris,
é preciso fazer alguma coisa
para lavar a vida degradada.
(...)
Santiago do Chile, noite de ano novo, 1965
Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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1
Lindolf Bell
Poema Debaixo do Viaduto do Chá
Aqui no porão,
aqui neste oceano de madeira,
teias e cimento,
aqui neste escuro
onde só os corações iluminam,
de onde projetamos crescer através do teto,
aqui nos quedamos em colóquios de amor.
Aqui nesta caverna de funduras,
neste chão de frio,
aqui onde os pudores se abrem como tranças,
aqui o mundo nos plasma.
Daqui desta vala,
daqui deste céu,
daqui desembrulharemos os corações de celofane,
seremos tristes e necessários.
Ah! Os plátanos
que morrem ao longo das ruas,
de que ninguém sabe
que plátanos são.
Aqui pentear os cabelos para o baile.
Aqui cinzenta cidade pesada — câncer de lirismo,
estamos sós,
estamos inteiros.
Grande deusa de cimento,
úberos de ferro, espalmada asa,
de todos os ventos tuas janelas encabuladas,
tuas crianças de concreto,
os pássaros do acaso
com seus ninhos do acaso.
Ah! Cidade do viaduto
de onde pescamos a lua com um anzol,
das rosáceas de zinco,
das vigas enferrujadas
porque esqueceram de polir teu coração.
Aqui os ônibus arrulham
como frequentadores de praças,
de praças, de cidade,
onde estão as praças,
onde estão as praças
para lavar os rostos,
para dizer as coisas nossas
com a boca nossa áspera
oh! braços de frio
oh! sorrisos de feira.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
aqui neste oceano de madeira,
teias e cimento,
aqui neste escuro
onde só os corações iluminam,
de onde projetamos crescer através do teto,
aqui nos quedamos em colóquios de amor.
Aqui nesta caverna de funduras,
neste chão de frio,
aqui onde os pudores se abrem como tranças,
aqui o mundo nos plasma.
Daqui desta vala,
daqui deste céu,
daqui desembrulharemos os corações de celofane,
seremos tristes e necessários.
Ah! Os plátanos
que morrem ao longo das ruas,
de que ninguém sabe
que plátanos são.
Aqui pentear os cabelos para o baile.
Aqui cinzenta cidade pesada — câncer de lirismo,
estamos sós,
estamos inteiros.
Grande deusa de cimento,
úberos de ferro, espalmada asa,
de todos os ventos tuas janelas encabuladas,
tuas crianças de concreto,
os pássaros do acaso
com seus ninhos do acaso.
Ah! Cidade do viaduto
de onde pescamos a lua com um anzol,
das rosáceas de zinco,
das vigas enferrujadas
porque esqueceram de polir teu coração.
Aqui os ônibus arrulham
como frequentadores de praças,
de praças, de cidade,
onde estão as praças,
onde estão as praças
para lavar os rostos,
para dizer as coisas nossas
com a boca nossa áspera
oh! braços de frio
oh! sorrisos de feira.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
2 349
1
Junqueira Freire
O Remorso da Inocente
III
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11
NOTA: Poema composto de quatro parte
6 598
1
Marcus Accioly
A Pedra Lavrada
1 - A mão que lavra a pedra
A pedra a mão esgota,
No chão de pedra o grão
De pedra em pedra brota.
A mão sacode o grão
No chão de pedra morta,
De pedra em pedra o grão
Da própria pedra brota.
2 - A mão fecunda a pedra
Nos ossos do seu ventre,
O grão nasce do chão
Da pedra em seu deventre.
A mão conhece o chão
Onde desceu por entre
O grão que vem da pedra
Aberta, do seu ventre.
3 - Se a chuva molha não
O grão na pedra, ovo
No ninho, pedra aberta
Que se fecha de novo.
A mão que sabe o grão
Que falta à mão do povo,
Espera o sol, a ave,
Que choca o grão, o ovo.
4 - O sol, ave-de-fogo,
Não queima o grão que choca,
Porém nascido ao sol
O grão já nasce soca.
Mas, sim ou não, o grão
Da pedra se desloca
Chocado pelo chão
Depois que a mão o choca.
5 - O grão não sabe o chão
Por isso a mão prepara
O grão para viver
Na pedra que escancara.
Se mesmo farto o grão
A safra é sempre avara,
Na pedra, o grão em flor
E fruto se escancara.
(...)
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.17-18. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 20 oitava
A pedra a mão esgota,
No chão de pedra o grão
De pedra em pedra brota.
A mão sacode o grão
No chão de pedra morta,
De pedra em pedra o grão
Da própria pedra brota.
2 - A mão fecunda a pedra
Nos ossos do seu ventre,
O grão nasce do chão
Da pedra em seu deventre.
A mão conhece o chão
Onde desceu por entre
O grão que vem da pedra
Aberta, do seu ventre.
3 - Se a chuva molha não
O grão na pedra, ovo
No ninho, pedra aberta
Que se fecha de novo.
A mão que sabe o grão
Que falta à mão do povo,
Espera o sol, a ave,
Que choca o grão, o ovo.
4 - O sol, ave-de-fogo,
Não queima o grão que choca,
Porém nascido ao sol
O grão já nasce soca.
Mas, sim ou não, o grão
Da pedra se desloca
Chocado pelo chão
Depois que a mão o choca.
5 - O grão não sabe o chão
Por isso a mão prepara
O grão para viver
Na pedra que escancara.
Se mesmo farto o grão
A safra é sempre avara,
Na pedra, o grão em flor
E fruto se escancara.
(...)
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.17-18. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 20 oitava
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1
Sérgio Milliet
São Paulo
Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
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1
Sérgio Milliet
São Paulo
Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
3 078
1
Sérgio Milliet
São Paulo
Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...
Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
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1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
(Sergipe, Rio de Janeiro e Pernambuco)
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 661
1
Eudoro Augusto
41 [um grito apenas não basta
um grito apenas não basta
para abolir todo o silêncio que cultivamos
In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981 (Capricho).
NOTA: Referência ao poema "Tecendo a Manhã", do livro A EDUCAÇÃO PELA PEDRA (1966), de João Cabral de Melo Net
para abolir todo o silêncio que cultivamos
In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981 (Capricho).
NOTA: Referência ao poema "Tecendo a Manhã", do livro A EDUCAÇÃO PELA PEDRA (1966), de João Cabral de Melo Net
1 084
1
Sílvio Romero
Balaio
(Rio Grande do Sul)
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do coração;
Moça que não tem balaio
Bota a costura no chão.
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do presidente:
Por causa deste balaio
Já mataram tanta gente!...
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio de tapeti;
Por causa deste balaio
Me degradaram daqui.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.198. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do coração;
Moça que não tem balaio
Bota a costura no chão.
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do presidente:
Por causa deste balaio
Já mataram tanta gente!...
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio de tapeti;
Por causa deste balaio
Me degradaram daqui.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.198. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 565
1
Sílvio Romero
Batatinha quando nasce
Batatinha quando nasce
Deita rama pelo chão;
Mulatinha quando deita
Bota a mão no coração.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.247. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Deita rama pelo chão;
Mulatinha quando deita
Bota a mão no coração.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.247. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
10 206
1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
Dinglin, dingues, Maria Pires?
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 626
1
Álvaro Moreyra
Mistério
Chamam certas mulheres de infelizes.
E dizem que elas são da vida alegre...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
E dizem que elas são da vida alegre...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
1 896
1
Cacaso
O Fazendeiro do Mar
Mar de mineiro é
inho
mar de mineiro é
ão
mar de mineiro é
vinho
mar de mineiro é
vão
mar de mineiro é chão
Mar de mineiro é pinho
mar de mineiro é
pão
mar de mineiro é
ninho
mar de mineiro é não
mar de mineiro é
bão
mar de mineiro é garoa
mar de mineiro é
baião
mar de mineiro é lagoa
mar de mineiro é
balão
mar de mineiro é são
Mar de mineiro é viagem
mar de mineiro é
arte
mar de mineiro é margem
(...)
Mar de mineiro é
arroio
mar de mineiro é
zem
mar de mineiro é
aboio
mar de mineiro é nem
mar de mineiro é
em
Mar de mineiro é
aquário
mar de mineiro é
silvério
mar de mineiro é
vário
mar de mineiro é
sério
mar de mineiro é minério
Mar de mineiro é
gerais
mar de mineiro é
campinas
mar de mineiro é
Goiás
Mar de mineiro é colinas
mar de mineiro é
minas
Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Postal.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.51-55
NOTA: Poema musicado por Miúcha. Referência ao livro FAZENDEIRO DO AR, de Carlos Drummond de Andrad
inho
mar de mineiro é
ão
mar de mineiro é
vinho
mar de mineiro é
vão
mar de mineiro é chão
Mar de mineiro é pinho
mar de mineiro é
pão
mar de mineiro é
ninho
mar de mineiro é não
mar de mineiro é
bão
mar de mineiro é garoa
mar de mineiro é
baião
mar de mineiro é lagoa
mar de mineiro é
balão
mar de mineiro é são
Mar de mineiro é viagem
mar de mineiro é
arte
mar de mineiro é margem
(...)
Mar de mineiro é
arroio
mar de mineiro é
zem
mar de mineiro é
aboio
mar de mineiro é nem
mar de mineiro é
em
Mar de mineiro é
aquário
mar de mineiro é
silvério
mar de mineiro é
vário
mar de mineiro é
sério
mar de mineiro é minério
Mar de mineiro é
gerais
mar de mineiro é
campinas
mar de mineiro é
Goiás
Mar de mineiro é colinas
mar de mineiro é
minas
Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Postal.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.51-55
NOTA: Poema musicado por Miúcha. Referência ao livro FAZENDEIRO DO AR, de Carlos Drummond de Andrad
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1
Cacaso
O Fazendeiro do Mar
Mar de mineiro é
inho
mar de mineiro é
ão
mar de mineiro é
vinho
mar de mineiro é
vão
mar de mineiro é chão
Mar de mineiro é pinho
mar de mineiro é
pão
mar de mineiro é
ninho
mar de mineiro é não
mar de mineiro é
bão
mar de mineiro é garoa
mar de mineiro é
baião
mar de mineiro é lagoa
mar de mineiro é
balão
mar de mineiro é são
Mar de mineiro é viagem
mar de mineiro é
arte
mar de mineiro é margem
(...)
Mar de mineiro é
arroio
mar de mineiro é
zem
mar de mineiro é
aboio
mar de mineiro é nem
mar de mineiro é
em
Mar de mineiro é
aquário
mar de mineiro é
silvério
mar de mineiro é
vário
mar de mineiro é
sério
mar de mineiro é minério
Mar de mineiro é
gerais
mar de mineiro é
campinas
mar de mineiro é
Goiás
Mar de mineiro é colinas
mar de mineiro é
minas
Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Postal.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.51-55
NOTA: Poema musicado por Miúcha. Referência ao livro FAZENDEIRO DO AR, de Carlos Drummond de Andrad
inho
mar de mineiro é
ão
mar de mineiro é
vinho
mar de mineiro é
vão
mar de mineiro é chão
Mar de mineiro é pinho
mar de mineiro é
pão
mar de mineiro é
ninho
mar de mineiro é não
mar de mineiro é
bão
mar de mineiro é garoa
mar de mineiro é
baião
mar de mineiro é lagoa
mar de mineiro é
balão
mar de mineiro é são
Mar de mineiro é viagem
mar de mineiro é
arte
mar de mineiro é margem
(...)
Mar de mineiro é
arroio
mar de mineiro é
zem
mar de mineiro é
aboio
mar de mineiro é nem
mar de mineiro é
em
Mar de mineiro é
aquário
mar de mineiro é
silvério
mar de mineiro é
vário
mar de mineiro é
sério
mar de mineiro é minério
Mar de mineiro é
gerais
mar de mineiro é
campinas
mar de mineiro é
Goiás
Mar de mineiro é colinas
mar de mineiro é
minas
Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Postal.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.51-55
NOTA: Poema musicado por Miúcha. Referência ao livro FAZENDEIRO DO AR, de Carlos Drummond de Andrad
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1
Álvaro Moreyra
S Paulo
A garoa enfeitada pelos anúncios luminosos
brinca de bola de sabão na ponta dos arranha-céus.
Da janela do hotel vejo a cidade sorrindo.
Tão bonita!
São Paulo, eu quero bem a você.
Você dá gosto de ser brasileiro.
Você trabalha e não é neurastênica.
Você é rica e ainda por cima é inteligente.
Todas as cidades do Brasil deviam pagar prenda
para você...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
brinca de bola de sabão na ponta dos arranha-céus.
Da janela do hotel vejo a cidade sorrindo.
Tão bonita!
São Paulo, eu quero bem a você.
Você dá gosto de ser brasileiro.
Você trabalha e não é neurastênica.
Você é rica e ainda por cima é inteligente.
Todas as cidades do Brasil deviam pagar prenda
para você...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
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1
Álvaro Moreyra
S Paulo
A garoa enfeitada pelos anúncios luminosos
brinca de bola de sabão na ponta dos arranha-céus.
Da janela do hotel vejo a cidade sorrindo.
Tão bonita!
São Paulo, eu quero bem a você.
Você dá gosto de ser brasileiro.
Você trabalha e não é neurastênica.
Você é rica e ainda por cima é inteligente.
Todas as cidades do Brasil deviam pagar prenda
para você...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
brinca de bola de sabão na ponta dos arranha-céus.
Da janela do hotel vejo a cidade sorrindo.
Tão bonita!
São Paulo, eu quero bem a você.
Você dá gosto de ser brasileiro.
Você trabalha e não é neurastênica.
Você é rica e ainda por cima é inteligente.
Todas as cidades do Brasil deviam pagar prenda
para você...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
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1
Armindo Trevisan
Salmo das Aves do Céu
Olhai as aves do céu:
as águias
descem sobre vossos cordeiros
e os devoram
os abutres:
limpam vossas estâncias
os pardais:
dilapidam vossas hortas
Aprendei dos lírios do campo:
não trabalham nem fiam
é ali
que a hóstia mói-se
com o esperma de vosso suor
e o vinho
rebenta das pedras
Contemplai Salomão:
com todo o seu esplendor
chega (como um de vós) vestido
com o macacão de garagista
vai morrer crucificado
em vosso relógio-ponto
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série O Livro dos Salmos
as águias
descem sobre vossos cordeiros
e os devoram
os abutres:
limpam vossas estâncias
os pardais:
dilapidam vossas hortas
Aprendei dos lírios do campo:
não trabalham nem fiam
é ali
que a hóstia mói-se
com o esperma de vosso suor
e o vinho
rebenta das pedras
Contemplai Salomão:
com todo o seu esplendor
chega (como um de vós) vestido
com o macacão de garagista
vai morrer crucificado
em vosso relógio-ponto
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série O Livro dos Salmos
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1
Armindo Trevisan
Salmo das Aves do Céu
Olhai as aves do céu:
as águias
descem sobre vossos cordeiros
e os devoram
os abutres:
limpam vossas estâncias
os pardais:
dilapidam vossas hortas
Aprendei dos lírios do campo:
não trabalham nem fiam
é ali
que a hóstia mói-se
com o esperma de vosso suor
e o vinho
rebenta das pedras
Contemplai Salomão:
com todo o seu esplendor
chega (como um de vós) vestido
com o macacão de garagista
vai morrer crucificado
em vosso relógio-ponto
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série O Livro dos Salmos
as águias
descem sobre vossos cordeiros
e os devoram
os abutres:
limpam vossas estâncias
os pardais:
dilapidam vossas hortas
Aprendei dos lírios do campo:
não trabalham nem fiam
é ali
que a hóstia mói-se
com o esperma de vosso suor
e o vinho
rebenta das pedras
Contemplai Salomão:
com todo o seu esplendor
chega (como um de vós) vestido
com o macacão de garagista
vai morrer crucificado
em vosso relógio-ponto
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série O Livro dos Salmos
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1
Sílvio Romero
A Moura
(Pernambuco)
Estava a moura
Em seu lugar,
Foi a mosca
Lhe fazer mal;
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a mosca
Em seu lugar,
Foi a aranha
Lhe fazer mal;
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava,
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a aranha
Em seu lugar,
Foi o rato
Lhe fazer mal;
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o rato
Em seu lugar,
Foi o gato
Lhe fazer mal;
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia,
Inquietar!
Estava o gato
Em seu lugar,
Foi o cachorro
Lhe fazer mal;
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o cachorro
Em seu lugar,
Foi o pau
Lhe fazer mal;
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o pau
No seu lugar,
Foi o fogo
Lhe fazer mal;
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o fogo
Em seu lugar,
Foi a água
Lhe fazer mal;
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a água
Em seu lugar,
Foi o boi
Lhe fazer mal;
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o boi
Em seu lugar
Foi a faca
Lhe fazer mal;
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a faca
Em seu lugar,
Foi o homem
Lhe fazer mal;
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o homem
Em seu lugar,
Foi a morte
Lhe fazer mal;
A morte no homem,
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.86-88. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Estava a moura
Em seu lugar,
Foi a mosca
Lhe fazer mal;
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a mosca
Em seu lugar,
Foi a aranha
Lhe fazer mal;
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava,
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a aranha
Em seu lugar,
Foi o rato
Lhe fazer mal;
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o rato
Em seu lugar,
Foi o gato
Lhe fazer mal;
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia,
Inquietar!
Estava o gato
Em seu lugar,
Foi o cachorro
Lhe fazer mal;
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o cachorro
Em seu lugar,
Foi o pau
Lhe fazer mal;
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o pau
No seu lugar,
Foi o fogo
Lhe fazer mal;
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o fogo
Em seu lugar,
Foi a água
Lhe fazer mal;
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a água
Em seu lugar,
Foi o boi
Lhe fazer mal;
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o boi
Em seu lugar
Foi a faca
Lhe fazer mal;
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a faca
Em seu lugar,
Foi o homem
Lhe fazer mal;
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o homem
Em seu lugar,
Foi a morte
Lhe fazer mal;
A morte no homem,
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.86-88. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
4 122
1
Sérgio Milliet
O Poeta e a Guerra
As noites de amor são minutos
Mas só em você me refugio de você.
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino
E verde e verde e verde e amarelo
As noites de amor são minutos
Chegam inchadas de esperança
Vão-se dobradas de saudades
Roxos da madrugada
Vagidos da primeira vida
Quando eu me canso de você
É em você que eu descanso
Onde estou? Quem sou eu?
No estupor do remorso
na exaustão da tarefa
no entusiasmo viril
na depressão e na lama
ora esponja sensível
ora pedra bonita,
diamante ou argila,
Ariel, Cáliban,
Onde estou? Quem sou eu?
Oh por mais que saia de mim,
é em mim que torno a cair,
o mundo gira, rodopia,
num expressionismo de fogo.
Quem pensa em amor, meu bem,
sem coberta e sem comida
quem pensa em amor, perdido
pelas estradas sem fim?
O quarto ruiu sob as bombas
o bosque do idílio queimou
todos os beijos se crestaram.
Encolho-me todo no canto
mais profundo de mim mesmo.
Aí é que encontro você
de novo e sempre você;
aí é que longe dos outros
posso gozar esse amor
sonegado ao ódio de todos,
posso ter essa riqueza
roubada à miséria de todos.
Oh bem da gente, arisco bem da gente,
agora que tenho você
bem presa dentro de mim,
irei deixar o mal alheio
libertá-la de mim e prender-me?
Fecho os olhos raivosos para o mundo
tampo os ouvidos ao fragor da guerra.
As noites de amor são minutos
vão-se dobradas de saudades...
Ah, plantaremos outros bosques
Ah, construiremos outro quarto
para os beijos que não crestaram...
E talvez então escapemos
à maldição da desgraça
contra os felizes do amor!
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino...
Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.142-143. (Autores brasileiros, 19
Mas só em você me refugio de você.
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino
E verde e verde e verde e amarelo
As noites de amor são minutos
Chegam inchadas de esperança
Vão-se dobradas de saudades
Roxos da madrugada
Vagidos da primeira vida
Quando eu me canso de você
É em você que eu descanso
Onde estou? Quem sou eu?
No estupor do remorso
na exaustão da tarefa
no entusiasmo viril
na depressão e na lama
ora esponja sensível
ora pedra bonita,
diamante ou argila,
Ariel, Cáliban,
Onde estou? Quem sou eu?
Oh por mais que saia de mim,
é em mim que torno a cair,
o mundo gira, rodopia,
num expressionismo de fogo.
Quem pensa em amor, meu bem,
sem coberta e sem comida
quem pensa em amor, perdido
pelas estradas sem fim?
O quarto ruiu sob as bombas
o bosque do idílio queimou
todos os beijos se crestaram.
Encolho-me todo no canto
mais profundo de mim mesmo.
Aí é que encontro você
de novo e sempre você;
aí é que longe dos outros
posso gozar esse amor
sonegado ao ódio de todos,
posso ter essa riqueza
roubada à miséria de todos.
Oh bem da gente, arisco bem da gente,
agora que tenho você
bem presa dentro de mim,
irei deixar o mal alheio
libertá-la de mim e prender-me?
Fecho os olhos raivosos para o mundo
tampo os ouvidos ao fragor da guerra.
As noites de amor são minutos
vão-se dobradas de saudades...
Ah, plantaremos outros bosques
Ah, construiremos outro quarto
para os beijos que não crestaram...
E talvez então escapemos
à maldição da desgraça
contra os felizes do amor!
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino...
Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.142-143. (Autores brasileiros, 19
2 029
1
Rubens Rodrigues Torres Filho
Trovas Populares
I
Botei lenha no borralho
comprei ovos no mercado
mexi tudo na panela
preparei uma omelete
II
Havia flores na estrada
havia tédio no pátio
Dêem-me quatro desenhos
de mulheres e de sóis
III
Onde foi visto (aqui mesmo)
o cosmo através das lentes
porém crianças latentes
e os poetas minerais
IV
Vou-me embora p'ra Brasília
estou cansado de estar
Me mudo para uma ilha
Tem alguma p'ra alugar?
V
Foi em vão que João fugiu
todo-o-mundo abriu a boca
Jogou seu corpo no rio
Dona Xica ficou louca
VI
Resta ainda nesta terra
um pouco de quase-amor
um resto de primavera
que ninguém sabe onde pôr
VII
Coloque o vaso num canto
Logo as flores vão murchar
Vou aprender esperanto
p'ra nunca mais conversar
(...)
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Retrovar: poemas. São Paulo: Iluminuras, 1993.
NOTA: Poema composto de 11 trovas (quadras
Botei lenha no borralho
comprei ovos no mercado
mexi tudo na panela
preparei uma omelete
II
Havia flores na estrada
havia tédio no pátio
Dêem-me quatro desenhos
de mulheres e de sóis
III
Onde foi visto (aqui mesmo)
o cosmo através das lentes
porém crianças latentes
e os poetas minerais
IV
Vou-me embora p'ra Brasília
estou cansado de estar
Me mudo para uma ilha
Tem alguma p'ra alugar?
V
Foi em vão que João fugiu
todo-o-mundo abriu a boca
Jogou seu corpo no rio
Dona Xica ficou louca
VI
Resta ainda nesta terra
um pouco de quase-amor
um resto de primavera
que ninguém sabe onde pôr
VII
Coloque o vaso num canto
Logo as flores vão murchar
Vou aprender esperanto
p'ra nunca mais conversar
(...)
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Retrovar: poemas. São Paulo: Iluminuras, 1993.
NOTA: Poema composto de 11 trovas (quadras
2 178
1
Régis Bonvicino
O Provérbio Latino, dez 1981
o provérbio latino
ferrum natare doces
(ensinar
ferro a nadar /
querer
o impossível)
tornou-se
com a máquina a vapor de watt
letra
morta
deixando
galeras e caravelas
mar e rio
a ver navios
In: BONVICINO, Régis. Sósia da cópia, 1978/1983. São Paulo: Max Limonad, 1983
ferrum natare doces
(ensinar
ferro a nadar /
querer
o impossível)
tornou-se
com a máquina a vapor de watt
letra
morta
deixando
galeras e caravelas
mar e rio
a ver navios
In: BONVICINO, Régis. Sósia da cópia, 1978/1983. São Paulo: Max Limonad, 1983
5 099
1