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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Sílvio Romero

Sílvio Romero

A Moura

(Pernambuco)

Estava a moura
Em seu lugar,
Foi a mosca
Lhe fazer mal;
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava a mosca
Em seu lugar,
Foi a aranha
Lhe fazer mal;
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava,
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava a aranha
Em seu lugar,
Foi o rato
Lhe fazer mal;
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava o rato
Em seu lugar,
Foi o gato
Lhe fazer mal;
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia,
Inquietar!

Estava o gato
Em seu lugar,
Foi o cachorro
Lhe fazer mal;
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava o cachorro
Em seu lugar,
Foi o pau
Lhe fazer mal;
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava o pau
No seu lugar,
Foi o fogo
Lhe fazer mal;
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava o fogo
Em seu lugar,
Foi a água
Lhe fazer mal;
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava a água
Em seu lugar,
Foi o boi
Lhe fazer mal;
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava o boi
Em seu lugar
Foi a faca
Lhe fazer mal;
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava a faca
Em seu lugar,
Foi o homem
Lhe fazer mal;
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!

Estava o homem
Em seu lugar,
Foi a morte
Lhe fazer mal;
A morte no homem,
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.86-88. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

O Poeta e a Guerra

As noites de amor são minutos
Mas só em você me refugio de você.
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino
E verde e verde e verde e amarelo
As noites de amor são minutos
Chegam inchadas de esperança
Vão-se dobradas de saudades
Roxos da madrugada
Vagidos da primeira vida
Quando eu me canso de você
É em você que eu descanso
Onde estou? Quem sou eu?
No estupor do remorso
na exaustão da tarefa
no entusiasmo viril
na depressão e na lama
ora esponja sensível
ora pedra bonita,
diamante ou argila,
Ariel, Cáliban,
Onde estou? Quem sou eu?
Oh por mais que saia de mim,
é em mim que torno a cair,
o mundo gira, rodopia,
num expressionismo de fogo.
Quem pensa em amor, meu bem,
sem coberta e sem comida
quem pensa em amor, perdido
pelas estradas sem fim?
O quarto ruiu sob as bombas
o bosque do idílio queimou
todos os beijos se crestaram.
Encolho-me todo no canto
mais profundo de mim mesmo.
Aí é que encontro você
de novo e sempre você;
aí é que longe dos outros
posso gozar esse amor
sonegado ao ódio de todos,
posso ter essa riqueza
roubada à miséria de todos.
Oh bem da gente, arisco bem da gente,
agora que tenho você
bem presa dentro de mim,
irei deixar o mal alheio
libertá-la de mim e prender-me?
Fecho os olhos raivosos para o mundo
tampo os ouvidos ao fragor da guerra.
As noites de amor são minutos
vão-se dobradas de saudades...
Ah, plantaremos outros bosques
Ah, construiremos outro quarto
para os beijos que não crestaram...
E talvez então escapemos
à maldição da desgraça
contra os felizes do amor!
Azul cobalto, azul cerúleo, azul turquesa
Ultramarino...


Publicado no livro Oh! Valsa Latejante...1922/1943: poemas (1943).

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.142-143. (Autores brasileiros, 19
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