Poemas neste tema
Casa e Lar
Miron Białoszewski
mesmo que levem o fogão
E mesmo, mesmo que levem o fogão
Minha ode inesgotável à alegria
Eu tenho um fogão
parecido com um arco do triunfo!
Estão levando embora meu fogão
parecido com um arco do triunfo!!
Devolvam meu fogão
parecido com um arco do triunfo!!!
Eles o levaram embora.
O que resta é um buraco
nu e
cinza.
Buraco nu e cinza.
E isso me basta.
Buraco nu e cinza.
Buraco nu e cinza.
Buraconuecinza.
141
Meridel Le Sueur
Oferece-me refúgio
Meu povo da campina é meu lar
Pássaro eu volto em voo a seus seios.
Fluindo para fora de todo espaço em exílio
Elas oferecem-me refúgio
Para morrer e ressuscitar em sua
floração sazonal.
Meu alimento seus seios
ordenhados pelo vento
para dentro de minha faminta boca urbana.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Offer me refuge
My prairie people are my home
Bird I return flying to their breasts.
Waving out of all exiled space
They offer me refuge
To die and be resurrected in their
seasonal flowering.
My food their breasts
milked by wind
Into my starving city mouth.
.
.
.
355
Aglaja Veteranyi
A casa
Um estrangeiro de nascimento havia perdido seus sapatos. Ele os havia deixado em sua casa e jogado a casa fora, em um rio. Ou havia a casa se jogado a si mesma fora?
O estrangeiro de nascimento foi de rio em rio.
Certa vez ele encontrou um velho debaixo d´água com uma placa ao redor do pescoço: CÉU AQUI.
O estrangeiro perguntou: Como, céu?
O velho coçou as axilas e apontou para a placa.
A casa então apareceu de novo, mas num local completamente diferente. E talvez fosse uma outra, pois ela não conseguia lembrar-se dos sapatos do estrangeiro.
Mais tarde perdeu a casa sua porta.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Das Haus
Aglaja Veteranyi
Ein gebürtiger Ausländer hatte seine Schuhe verloren. Er hatte sie in seinem Haus liegengelassen und das Haus in einen Fluss weggeworfen. Oder hatte sich das Haus selbst hineingeworfen?
Der gebürtige Ausländer ging von Fluss zu Fluss.
Einmal fand er einen alten Mann unter Wasser mit einem Schild um den Hals: HIER HIMMEL.
Der Ausländer fragte: Wie, Himmel?
Der Alte zuckte die Achseln und zeigte auf das Schild.
Das Haus tauchte dann wieder auf, aber an einem ganz anderen Ort. Und wahrscheinlich war es ein anderes, denn es konnte sich an die Schuhe des Ausländers nicht erinnern.
Später verlor das Haus seine Tür.
953
Antonio Cisneros
Karl Marx died 1883 aged 65
Ainda estou pronto para recordar a casa de minha avó e
esse par de gravuras:
Um cavalheiros na casa do alfaiate, Grande desfile militar
em Viena, 1902.
Dias em que mais nada de ruim podia acontecer. Todos levavam
seu pé de coelho na cintura.
Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha sob o sol,
preocupando-se apenas
com manter a boca, as pernas bem fechadas.
Eram os homens de boa vontade e as orelhas limpas.
No music hall apenas os anarquistas, loucos barbudos e envoltos
em cachecóis.
Que outonos, que verões!
Eiffel fez uma torre que dizia: “até aqui chegou o homem”.
Outra gravura:
Virtude e amor e ciúme protegendo as melhores famílias.
E dizer que o velho Marx ainda não cumprira os vinte anos de idade
debaixo desta erva
- gorda e eriçada, conveniente para os campos de golf.
As coroas de flores e o caixão tinham três descanços
ao pé da colina
e depois foi enterrado
junto ao túmulo de Molly Redgrove “bombardeado pelo inimigo
em 1940 e logo reconstruído”.
Ah o velho Marx moendo e derretendo na marmita os diversos metais
enquanto os filhos pulavam das torres de Spiegel às ilhas de Times
e sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois
sim e então
veio o da Praça Vendome e aquilo de Lênin e o montão de revoltas
e então
as damas temeram algo mais do que mão nas nádegas
e os cavalheiros puderam suspeitar
que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto
da felicidade universal.
“Assim foi, e estou te devendo, velho estraga-festas”.
(tradução de Aníbal Cristobo e Carlito Azevedo)
:
Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía
abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar
en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban
su pata de conejo atada a la cintura.
También mi tía abuela —veinte anos y el sombrero de
paja bajo el sol, preocupándose apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran los hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y
envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía "hasta aquí llegó el
hombre".
Otro grabado:
Virtud y amor y cela protegiendo a las buenas familias.
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años
de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al
pie de la colina
y después fue enterrado
junto a I
la tumba de Molly Redgrove "bombardeada por
el enemigo en 1940 y vuelta a construir".
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita
los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las
islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después
sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón
de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las naIgas
y los caballeros pudieron sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro
de la felicidad universal.
"Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas:”
.
.
.
571
Aglaja Veteranyi
A Fuga
A criança põe a boneca na mala.
A mãe põe a criança na mala.
O pai põe a mãe e a casa na mala.
O exterior põe o pai com a mala na mala.
E envia tudo de volta.
Escondem-se na floresta:
1 boneca
1 criança
1 mãe
1 pai
1 casa
2 malas
1 fuga.
(tradução de Fabiana Macchi)
:
Die Flucht
Aglaja Veteranyi
Das Kind packt die Puppe in den Koffer.
Die Mutter packt das Kind in den Koffer.
Der Vater packt Mutter und Haus in den Koffer.
Das Ausland packt Vater mit Koffer in den Koffer.
Schickt alles zurueck.
Es verstecken sich im Wald:
1 Puppe
1 Kind
1 Mutter
1 Vater
1 Haus
2 Koffer
1 Flucht
.
.
.
A mãe põe a criança na mala.
O pai põe a mãe e a casa na mala.
O exterior põe o pai com a mala na mala.
E envia tudo de volta.
Escondem-se na floresta:
1 boneca
1 criança
1 mãe
1 pai
1 casa
2 malas
1 fuga.
(tradução de Fabiana Macchi)
:
Die Flucht
Aglaja Veteranyi
Die Mutter packt das Kind in den Koffer.
Der Vater packt Mutter und Haus in den Koffer.
Das Ausland packt Vater mit Koffer in den Koffer.
Schickt alles zurueck.
Es verstecken sich im Wald:
1 Puppe
1 Kind
1 Mutter
1 Vater
1 Haus
2 Koffer
1 Flucht
.
.
.
1 227
Lalla Romano
Se é verdade que o gelo
Se é verdade que o gelo
suplantará o tímido calor
de nossas mãos agarradas
e que outro destino não teremos
na terra banhada da chuva
das folhas do outono
é certo então que ao pó retornam os mundos
As eras se abaterão sem rumor
como castelos de cinzas
sobre a lareira que já ninguém toca
na casa desabitada
só o vento fará gemer as portas
até que apodreçam sob o céu
quando até mesmo o teto tenha desabado
Eis tudo o que restará da casa
e do Eterno se dirá o Ausente
:
Se è vero che il gelo
soppianterà il timido calore
delle nostre mani avvinte
e noi non avremo altra sorte
nella terra bagnata dalla pioggia
delle foglie d'autunno
è vero che andranno in polvere i mondi
Le ere franeranno senza rumore
come castelli di cenere
sul focolare che nessuno smuove
nella casa disabitata
solo il vento farà gemere le porte
finchè imputridiranno sotto il cielo
quando anche il tetto si sarà scoperchiato
Questo e non altro rimarrà della casa
e l'Eterno sarà detto l'Assente
suplantará o tímido calor
de nossas mãos agarradas
e que outro destino não teremos
na terra banhada da chuva
das folhas do outono
é certo então que ao pó retornam os mundos
As eras se abaterão sem rumor
como castelos de cinzas
sobre a lareira que já ninguém toca
na casa desabitada
só o vento fará gemer as portas
até que apodreçam sob o céu
quando até mesmo o teto tenha desabado
Eis tudo o que restará da casa
e do Eterno se dirá o Ausente
:
Se è vero che il gelo
soppianterà il timido calore
delle nostre mani avvinte
e noi non avremo altra sorte
nella terra bagnata dalla pioggia
delle foglie d'autunno
è vero che andranno in polvere i mondi
Le ere franeranno senza rumore
come castelli di cenere
sul focolare che nessuno smuove
nella casa disabitata
solo il vento farà gemere le porte
finchè imputridiranno sotto il cielo
quando anche il tetto si sarà scoperchiato
Questo e non altro rimarrà della casa
e l'Eterno sarà detto l'Assente
864
Lúcio Cardoso
A Casa do Solteiro
A Pedro Gallotti
(Por oferecimento de Jayme Bastian Pinto)
A casa do solteiro é alta e de paredes de angústia,
muros escorrem como verdes contornos
e colunas de mármore frio guardam seus limites.
Há quatro anjos sentados no teto solene e casto
e com luzes vermelhas, entre ciprestes,
sondam os anjos – guardiões – os fundamentos
que se apóiam com gemidos nos porões e adegas,
no rio escuro e na água morta
de correntes que foram vencidas – despedaçadas.
A casa do solteiro é cor de chama,
de silêncio aflito e aurora sem contemplação.
São pedras de crime e de agonia,
são negras pedras de delírio e de remorso.
São duras estacas de alumínio e febre,
são traves de cristais e de luxúria.
Há um descampado em torno: nostálgicos,
cemitérios se evaporam no crepúsculo
e ruínas de azul e ópio cintilam,
entre guitarras e navalhas abandonadas.
Há flores quentes e de carne, flores mesmas,
cor de whisky, de pêssegos feridos, e raízes
quentes de sofrimento e decomposição.
A casa do solteiro é o sol posto[,]
quando perdemos a fé e o amor se foi,
o começo da noite quando não há horizonte,
a quilha partida e a lança sem gume.
A casa do solteiro se abre como a música,
é triste e macia, fechada como a do príncipe,
fechada, entre janelas longas de ferro,
enquanto lá fora o vento ruge e há relâmpagos.
Não há vertigem, e nem espaço, e nem sossego,
tudo sucede como se morrêssemos aos poucos,
os móveis andam, e nos olhares estranhos,
como róseos desmaios e garras de ultraje.
Se não fossem tão lúcidos, morreriam de cólera,
abraçando manequins de aço, corpos de rampas
em madrugadas de rompimento e viagens.
Esqueceriam as malas – e iriam muito altos,
olhando as hortas onde cresce o mato que assassina.
E estão quietas: jogam as cartas verdes
e suspiram impossíveis paisagens de mar.
Quatro anjos grandes velam no alto do telhado,
com quatro rosas voltadas para o mar,
a mais escura é que os guia. Rosas frias,
de pétalas aguçadas e de mortal traição.
A casa do solteiro é que eles elegeram,
ilha, jangada no silêncio do céu,
vasto navio abandonado e cheio de tormenta,
escândalo e aflição – a casa do solteiro flutua
50 e é como uma vasta cortina de sangue e maldição,
chorando as tardes, os corpos, o coração perdido,
tudo – neste silêncio único onde existe
como uma grande alma sozinha batendo
na infindável noite que não se acaba
e nem se acabará NUNCA,
A CASA DO SOLTEIRO.
1 316
Vitorino Nemésio
Teu Só Sossego aqui Contigo Ausente
Teu só sossego aqui contigo ausente
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce estância toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma estátua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No chão as traînes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
É uma graça a vencer.
Uma casa sem hera
É como gente sem viver.
Na casa que te veste à justa de paredes,
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente
Dos cuidados que deixas ao partir,
A doce estância toda povoada
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine,
Como uma estátua fiel ao labirinto.
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas,
Farmácia chamo à tua colecção de vidros
Onde, à margem de planos e de somas,
Tenho remédio para os meus alvidros.
O chá é forte e adstringente,
O leite grosso sabe à ordenha,
E até nos quadros vive gente
À espera que a dona venha.
Porque tudo nos tectos é coroa,
No chão as traînes, os passinhos salpicados
Como o vento ainda longe de Lisboa
Escolheu a gaivota do balanço
Que no cais engolfado melhor voa:
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo
Chegues no ar medido e a aço propulso:
Por isso um pouco de fogo
Bate sanguíneo em meu pulso,
Pois o amor de quem espera
É uma graça a vencer.
Uma casa sem hera
É como gente sem viver.
1 339
Adrienne Rich
Instantâneos de Uma Nora
1.
Você, uma vez a bela de Shreveport,
cabelos tingidos de hena, a pele como pêssego,
ainda manda fazer vestidos como os que se usavam então,
e toca um prelúdio de Chopin
chamado por Cortot: “Deliciosas reminiscências
flutuam como perfume pela memória”.
Sua mente agora, mofando como bolo de casamento,
pesada de experiências inúteis, pródiga
em suspeitas, rumores, fantasias,
desmoronando sob o fio
do mero fato. Na primavera da vida.
Inquieta, o olhar faiscante, sua filha
limpa as colheres de chá, cresce para outro lado.
2.
Dando com a cafeteira na pia
ela escuta o reproche dos anjos, e fita
o céu desgrenhado para além de jardins impecáveis.
Não faz mais de uma semana desde que disseram:Não tenha paciência.
Da próxima foi: Seja insaciável.
E depois:Salve-se. Aos demais, não poderá salvar.
Por vezes tem deixado a água da torneira lhe escaldar o braço,
um fósforo queimar-lhe a unha do dedão,
ou posto a mão sobre a chaleira
bem na lã do vapor. São provavelmente anjos
posto que já nada a magoa, excetuando
a areia de cada manhã indo de encontro aos olhos.
3.
Uma mulher pensante dorme com monstros.
O bico que a agarra, ela se torna. E a Natureza,
este ainda cômodo, destampado baú
cheio detempora e mores
enche-se de tudo:…………… as flores de laranjeira cobertas de orvalho,
os contraceptivos, os terríveis seios
de Boadiceia sob orquídeas e cabeças chatas de raposa.
Duas belas mulheres, trancadas em discussão,
ambas orgulhosas, argutas, sutis, ouço que gritam
por sobre a maiólica e os cacos de vidro
como Fúrias encurraladas para longe de suas presas:
A discussãoad feminam, todos os velhos punhais
que enferrujaram em minhas costas, o seu adentro
ma semblable, ma soeur!
IV.
Conhecendo-se bem demais uma na outra
seus dons sem puro desfrute, mas espinhos
a agulha afiada contra uma ponta de escárnio…
Lendo enquanto espera
aquecer o ferro,
escrevendo,Minha vida – encostada pelos cantos
naquela despensa em Amherst enquanto as geleias fervem e escumam,
ou, com maior frequência,
de olhos fitos e embicada e obstinada como uma ave,
tirando poeira a todo o triquetraque da vida cotidiana.
5.
Dulce ridens, dulce loquens
ela depila as pernas até brilharem
como petrificadas presas de mamute.
6.
Quando canta Corina a seu alaúde
não são dela nem letra nem música;
somente os longos cabelos descaindo-se
sobre a bochecha, somente a canção
da seda contra os joelhos,
e mesmo estes
ajustam-se nos reflexos de um olho.
Empertigada, trêmula e insatisfeita, ante
uma porta destrancada, a jaula das jaulas,
diga-nos, sua ave, sua trágica máquina –
será istofertilisante douleur? Esmagada
pelo amor, para ti a única reação natural,
estarás acirrada a ponto
de arrombar os segredos do cofre? a Natureza,
nora, mostrou-te enfim os livros de contabilidade
que seu próprio filho sempre ignorou?
7.
Ter neste incerto mundo alguma posição
inabalável é
da maior importância.
…………………………………….Assim escreveu
uma mulher, em parte boa e em parte audaz,
que lutou com o que não compreendia de todo.
Poucos homens a seu redor teriam feito mais,
portanto a rotularam puta, megera, engodo.
8.
“Morreis todos aos quinze anos”, disse Diderot,
mudando-se metade em lenda, metade em convenção.
No entanto, olhos sonham equivocamente
por detrás de janelas fechadas, empastadas de vapor.
Deliciosamente, tudo o que poderíamos ter sido,
tudo o que fomos – fogo, lágrimas,
espírito, gosto, ambição martirizada –
agita-se como a lembrança do adultério recusado
o seio murcho e esvaziado de nossa “meia idade”.
9.
Não que se faça bem, mas
que se faça e ponto? Pois bem, pense
nas possibilidades! ou ignore-as para sempre.
Estes luxos da criança precoce,
a querida inválida do Tempo –
abdicaríamos, minhas caras, se nos fosse dado?
Nossa praga foi também nossa sinecura:
mero talento nos bastava –
brilho em rascunhos e fragmentos.
Não mais suspirem, minhas senhoras.
………………………………………………………..O tempo é macho
e em suas taças bebe ao belo.
Divertidas pelo galanteio, ouvimos
enquanto nos louvam as mediocridades,
indolência lida como abnegação,
desleixo lido como intuição refinada,
cada deslize perdoado, o único crime sendo
estampar uma sombra demasiado notável
ou sumariamente destruir o molde.
Para isso, a solitária,
o gás lacrimogênio, os estilhaços.
Poucas pleiteam este tipo de honra.
13.
……………………………………………………….Bom,
ela posterga sua chegada, que lhe deve parecer
tão pouco clemente quanto a própria história.
A mente cheia ao vento, vejo-a mergulhar
de seios e relanceando pelas correntezas,
tomando a luz sobre si,
pelo menos tão bela quanto qualquer menino
ou helicóptero,
…………………………………………..empertigada, chegando ainda,
suas finas hélices fazendo o ar recuar
mas sua carga
já nenhuma promessa:
entregue
palpável
nossa.
1958 – 1960
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
1 128
António Pocinho
Ciberpoema
Da janela do meu quarto vêem-se os campos cobertos de pgas, amarelos e cpc, um espectáculo de luz e omo, apenas entrecortado pelo andar dos rdp e dos medip. Outras vezes, eram os ms-dos que vinham dos campos com os sete ponto seis às costas, já cansados de fdr e de conversal, mas ainda prontos para ler, war ou mesmo, quando o vento batia nos bp, uht/p.
Regresso ao DOS.
Regresso ao DOS.
908
Donizete Galvão
Invenção do branco
“...all this had to be imagined
as an inevitable knowledge.”
Wallace Stevens
O tanque é o avesso da casa.
A rebarba.
A ferrugem tomando conta da boca.
O tanque é a parenta decaída,
que machuca os olhos das visitas
com suas carnes rachadas.
O tanque é onde se lava o coador
e o pó de café de seguidas manhãs
desenha uma poça de água preta.
Uma arraia-miúda,
ervas e craca e limo,
flora sem -vergonha,
infiltra-se em suas paredes.
À beira do poço,
alguém imaginou copos-de-leite.
Bebendo a umidade,
em verde e branco brotaram.
Reinventados pela distância,
erguem-se vívidos,
mais brancos que o branco,
artifício de vidro.
Recém-nascidos.
Só porque eles existem,
o tanque e seu corpo saloio
foram salvos do esquecimento.
828
Mário Dionísio
Casa deserta
Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...
Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...
E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...
Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...
Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...
E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...
Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
2 221
Torquato Neto
Louvação
Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
1 569
Torquato Neto
Deus vos Salve a Casa Santa
um bom menino perdeu-se um dia
entre a cozinha e o corredor
o pai deu ordem a toda família
que o procurasse e ninguém achou
a mãe deu ordem a toda polícia
que o perseguisse e ninguém achou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
no apartamento vizinho ao meu
que fica em frente ao elevador
mora uma gente que não se entende
que não entende o que se passou
maria amélia, filha da casa,
passou da idade e não se casou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
um trem de ferro sobre o colchão
a porta aberta pra escuridão
a luz mortiça ilumina a mesa
e a brasa acesa queima o porão
os pais conversam na sala e a moça
olha em silêncio pro seu irmão
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Caetano Velos
entre a cozinha e o corredor
o pai deu ordem a toda família
que o procurasse e ninguém achou
a mãe deu ordem a toda polícia
que o perseguisse e ninguém achou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
no apartamento vizinho ao meu
que fica em frente ao elevador
mora uma gente que não se entende
que não entende o que se passou
maria amélia, filha da casa,
passou da idade e não se casou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
um trem de ferro sobre o colchão
a porta aberta pra escuridão
a luz mortiça ilumina a mesa
e a brasa acesa queima o porão
os pais conversam na sala e a moça
olha em silêncio pro seu irmão
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Caetano Velos
1 669
Gonçalves Crespo
O Camarim
A luz do sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha;
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.
Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a Norma, e ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.
Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.
Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.
1870
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
As bordadas cortinas de escumilha;
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.
Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a Norma, e ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.
Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.
Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.
1870
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
3 369
Bernardino Lopes
XXXVIII [O casebre esburacado
O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 103
Glauco Mattoso
Haicais Paulistanos, 1983-1991 [2
Domingão no estádio.
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 559
João Cabral de Melo Neto
À Brasília de Oscar Niemeyer
Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 609
Carlos Felipe Moisés
Em Minhas Mãos
Em minhas mãos
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.
A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.
Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.
Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.
Estas palavras ardem em minhas mãos.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série II. Sentimental.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.
A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.
Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.
Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.
Estas palavras ardem em minhas mãos.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série II. Sentimental.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
851
Claudio Willer
Eros
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa,
os quadros na parede, os pesados móveis,
os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos
e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra
a janela, rosto cego
da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente,
eu bruxo, você sibila,
que deuses cultuamos?
ao escrevermos nossas biografias ocultas
que rituais refazemos?
agora parados na pausa dos sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da
casa, móveis, vasos de plantas, livros, os almofadões
espalhados pelo chão,
as roupas jogadas ao acaso e mais o negro recorte
dos prédios por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha,
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas de nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca havíamos sentido isso antes assim
In: WILLER, Claudio. ARTES e ofícios da poesia. Org. Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.110-11
1 062
Murillo Mendes
Perspectiva da Sala da Jantar
A filha do modesto funcionário público
dá um bruto interesse à natureza-morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.
O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.
A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
dá um bruto interesse à natureza-morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.
O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.
A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 866
Ilka Brunhilde Laurito
V [Canto ao arrumar a cama
Canto ao arrumar a cama,
canto
diligente verônica
oficiando os passos
da paixão cotidiana.
Exibo ao meu espelho atônito
os lençóis que estampam o corpo
do senhor que nunca me salvou
da crucificação no pranto.
E canto porque canto,
sem esperanças de glória
ou de ressurreição.
Poema integrante da série Suíte Doméstica.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
canto
diligente verônica
oficiando os passos
da paixão cotidiana.
Exibo ao meu espelho atônito
os lençóis que estampam o corpo
do senhor que nunca me salvou
da crucificação no pranto.
E canto porque canto,
sem esperanças de glória
ou de ressurreição.
Poema integrante da série Suíte Doméstica.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
1 371
Geir Campos
9a Cantiga de Acordar Mulher
Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma...
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando.
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 253
Ribeiro Couto
Viola Caipira no Sítio Vista Alegre
A casa de palha
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
1 111