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Poemas neste tema

Chuva e Tempestades

Sousa Caldas

Sousa Caldas

Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [2

(...)

Muito tinha a dizer sobre esta obra admirável,
se não fosse a vozeria da equipagem, que me obriga
a largar mão da pena para atender a um
indivíduo, que nos põe a todos de mau humor,
e a mim em susto.

Um Tritão todo coberto
De marisco e verde limo,
Traz somente descoberto
O nariz agudo, e frio.

Pelas ventas vem soprando
Vento Leste enregelado,
E dobra, de instante a instante
Seu furor endiabrado.

Treme o mar encapelado,
O baixel torcido geme,
Mal segura o indócil leme
O mancebo debruçado.

Que há de ser de mim, meu Pires? em que língua
hei de falar a este Tritão para abrandar a sua cólera?
Português, Italiano, Latim, Francês, Inglês,
é de que eu sei alguma coisa: mas quem pode
adivinhar a língua dos Tritões? Experimentemos;
vou falar-lhe em todas elas, talvez que entenda
alguma:

Basta já, Senhor Tritão,
(Não entende.)

Per pietá, Tritone amato,
(Menos.)

Triton, I can no more,
(Tempo perdido.)

Prudence, Seigneur Triton
(Pior.)

Ó Triton, esto pacato
Corde, animo, naso e ore.

Com efeito a esta última língua fez um leve aceno;
e é indubitável que até os Tritões veneram a
antiguidade; mas ou seja perrice, ou tenção ante-
cipada, cada vez se acende mais em ira:

Eis que as bochechas engrossa;
Ai de mim, onde esconder-me!
Parece querer no abismo,
De um só sopro, soverter-me.

Boa vontade tinha de lhe pintar aqui uma tem-
pestade, não faltará ocasião: entretanto imagine
serras, montanhas, ondas, mares, Céus, abismos,
Bóreas, Austro, Leste, Oeste, e toda a caterva dos
ventos; ajunte-lhes quatro adjetivos, e três verbos
para os unir, e terá uma tempestade completa.
O pior é que não se aplaca a que me persegue:
vou de novo suplicar o Tritão na língua que pa-
rece entender... Bravo! começa a adoçar-se: aplacou-se
de todo; vai-se embora,

Depois de roncar seis vezes
Com medonho horrendo ronco,
E de sorver outras tantas,
Por ser um Tritão mui porco,
O limoso verde monco;
Escorregando,
Contradançando
Ligeiramente,
No fundo do mar
Em lisa gruta,
Foi-se abrigar.

(...)


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: CANDIDO, Antonio; CASTELLO, J. Aderaldo. Presença da literatura brasileira: história e antologia: I. das origens ao realismo. 3.ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. p.145-147

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
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Carlos Frydman

Carlos Frydman

Asfalto

Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...

Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.

Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.

(...)

Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.

Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.

Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.

(...)

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In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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