Poemas neste tema
Alma
João Miguel Fernandes Jorge
Abrimos as portas sorrindo
ou a lata de bolos de infância.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
Era uma criança pela fadiga
dos olhos, pela idade das excursões
pelas praças da cidade.
demoradas visitas de indiferença
e receio.
Um tímido sinal descendo levemente
o corpo, depois a face, os lábios
trémulos e um balbuciado “não
volto mais”.
“Está bem. Eis-me aqui ao teu lado”.
Esquecera a segunda cor do mar.
De um segundo fizera horas, mesmo que,
de ti, não tenha conseguido enumerar
senão as chaves na porta do quarto.
A próxima explosão.
Tudo é tão verdadeiro, tão claro,
neste canto de sonho.
2 415
1
Ingeborg Bachmann
Dizer Trevas
Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
1 457
1
Alejandra Pizarnik
Poema
Poema
Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.
Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio
Tú haces de mi vida
esta ceremonia demasiado pura.
1 846
1
Luís Miguel Nava
Teatro
Na selva dos meus órgãos,sobre a qual foi desde sempre a pele o
firmamento,ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa,onde se
vê o sangue rebentar contra os rochedos.
Do inferno,aonde às vezes o sol vai buscar as chamas,sobre ele
impediosamente jorram os projectores.
firmamento,ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa,onde se
vê o sangue rebentar contra os rochedos.
Do inferno,aonde às vezes o sol vai buscar as chamas,sobre ele
impediosamente jorram os projectores.
1 689
1
Miguel de Unamuno
El cuerpo canta
El cuerpo canta
El cuerpo canta;
la sangre aúlla;
la tierra charla;
la mar murmura;
el cielo calla
y el hombre escucha.
El cuerpo canta;
la sangre aúlla;
la tierra charla;
la mar murmura;
el cielo calla
y el hombre escucha.
1 427
1
Luiza Neto Jorge
O poema ensina a cair
O poema ensina a cair
sobre vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor,ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face antige o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
sobre vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor,ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face antige o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
6 640
1
David Mourão-Ferreira
Blocos
É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo
3 845
1
Luís Miguel Nava
O abismo
Com a sua pele de poço,
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
1 933
1
José Agostinho Baptista
Urgência
Levanta-te e deixa-me entrar,
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer
paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no
vazio da nossa alma,
diria que lá fora escuto a sirene que se
aproxima
e a chuva que bate com as suas gotas de
angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao
longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo
redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer
paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no
vazio da nossa alma,
diria que lá fora escuto a sirene que se
aproxima
e a chuva que bate com as suas gotas de
angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,ao
longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo
redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os
dias antigos,
as suas laranjas,a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.
1 939
1
José Tolentino Mendonça
Murmúrios do mar
"Paga-me um café e
conto-te a minha vida" o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos de uma criança
muito assustada que corria o vento batia-lhe no
rosto com violência a infância inteira disso me
lembro outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo apagavas cigarros nas palmas das
mãos e os que te viam choravam mas tu
,não,nunca choraste por amores que se perdem os
naufrágios são belos sentimo-nos tão vivos entre as
ilhas ,acreditas? E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo tudo o que
seremos depois "pago-te um café se me contares
o teu amor"
conto-te a minha vida" o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos de uma criança
muito assustada que corria o vento batia-lhe no
rosto com violência a infância inteira disso me
lembro outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo apagavas cigarros nas palmas das
mãos e os que te viam choravam mas tu
,não,nunca choraste por amores que se perdem os
naufrágios são belos sentimo-nos tão vivos entre as
ilhas ,acreditas? E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo tudo o que
seremos depois "pago-te um café se me contares
o teu amor"
7 388
1
José Tolentino Mendonça
Calle Principe, 25
Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
3 178
1
José Tolentino Mendonça
Uma Coisa A Menos Para Adorar
Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis
entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto
arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa
há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo
hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome
2 458
1
Jorge Melícias
Na ponta dos dedosbatem as palavras
sísmicas.E a testa abre-se profusamenteà força do
nome.Digo:aquele que escreve infunde o prodígio,respira ao
cimo com a luz nos pulmões,atravessa como se
florisse nos abismos.
de A Luz nos Pulmões(2000)
nome.Digo:aquele que escreve infunde o prodígio,respira ao
cimo com a luz nos pulmões,atravessa como se
florisse nos abismos.
de A Luz nos Pulmões(2000)
991
1
Eugénio de Andrade
Ignoro o que seja a flor da água
mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,
entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca
um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,
até ao fim do mundo,
até amanhecer.
de Branco No Branco
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,
entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca
um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,
até ao fim do mundo,
até amanhecer.
de Branco No Branco
6 567
1
René Char
Commune Presence
Commune Presence
Tu es pressé décrire,
Comme si tu étais en retard sur la vie.
Sil en est ainsi fais cortège à tes sources.
Hâte-toi.
Hâte-toi de transmettre
Ta part de merveilleux de rébellion de bienfaisance.
Effectivement tu es en retard sur la vie,
La vie inexprimable,
La seule en fin de compte à laquelle tu acceptes de tunir,
Celle qui test refusée chaque jour par les êtres et par les choses,
Dont tu obtiens péniblement de-ci de-là quelques fragments décharnés
Au bout de combats sans merci.
Hors delle, tout nest quagonie soumise, fin grossière.
Si tu rencontres la mort durant ton labeur,
Reçois-là comme la nuque en sueur trouve bon le mouchoir aride,
En tinclinant.
Si tu veux rire,
Offre ta soumission,
Jamais tes armes.
Tu as été créé pour des moments peu communs.
Modifie-toi, disparais sans regret
Au gré de la rigueur suave.
Quartier suivant quartier la liquidation du monde se poursuit
Sans interruption,
Sans égarement.
Essaime la poussière
Nul ne décèlera votre union.
Tu es pressé décrire,
Comme si tu étais en retard sur la vie.
Sil en est ainsi fais cortège à tes sources.
Hâte-toi.
Hâte-toi de transmettre
Ta part de merveilleux de rébellion de bienfaisance.
Effectivement tu es en retard sur la vie,
La vie inexprimable,
La seule en fin de compte à laquelle tu acceptes de tunir,
Celle qui test refusée chaque jour par les êtres et par les choses,
Dont tu obtiens péniblement de-ci de-là quelques fragments décharnés
Au bout de combats sans merci.
Hors delle, tout nest quagonie soumise, fin grossière.
Si tu rencontres la mort durant ton labeur,
Reçois-là comme la nuque en sueur trouve bon le mouchoir aride,
En tinclinant.
Si tu veux rire,
Offre ta soumission,
Jamais tes armes.
Tu as été créé pour des moments peu communs.
Modifie-toi, disparais sans regret
Au gré de la rigueur suave.
Quartier suivant quartier la liquidation du monde se poursuit
Sans interruption,
Sans égarement.
Essaime la poussière
Nul ne décèlera votre union.
1 681
1
Murillo Mendes
The Responsive Eye
O olho responde ao ataque da luz.
O olho responde à cor planificada.
O olho responde ao ataque do olho.
O olho agride com luvas.
O olho irresponde à bomba atômica.
O olho, alavanca do quadro.
O olho responde à língua, ao ouvido.
O olho não tateia: vai ao núcleo.
O olho constrói no futuro.
O olho dispara a câmara lenta, a câmara veloz.
O olho espicaça meu poder de construção; por isto sofri de pintura informal como do duodeno.
O olho amarelo expulsa o olhar azul.
O olho do pintor resfolega.
O olho responde à cor planificada.
O olho responde ao ataque do olho.
O olho agride com luvas.
O olho irresponde à bomba atômica.
O olho, alavanca do quadro.
O olho responde à língua, ao ouvido.
O olho não tateia: vai ao núcleo.
O olho constrói no futuro.
O olho dispara a câmara lenta, a câmara veloz.
O olho espicaça meu poder de construção; por isto sofri de pintura informal como do duodeno.
O olho amarelo expulsa o olhar azul.
O olho do pintor resfolega.
1 211
1
Eugénio de Andrade
Desde a aurora
Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.
de Obscuro Domínio
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.
de Obscuro Domínio
6 724
1
William Blake
The Tyger
The Tyger
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare sieze the fire?
And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears
And waterd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare sieze the fire?
And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears
And waterd heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger Tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
1 885
1
Fiama Hasse Pais Brandão
Sumário Lírico
Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
2 691
1
Murillo Mendes
A Tentação
Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".
1 191
1
Daniel Faria
Sabes, leitor
Sabes, leitor,que estamos ambos na mesma página
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
2 121
1
Gilson Nascimento
Entardecer da vida
Minha vida entardece, de repente
Sinto o peso dos anos. Na verdade
Revivo o meu passado no presente
Surpreso me pergunto: isso é da idade?
Meu íntimo responde: é, tens razão
Ao passo que se vive não se esquece
O que já foi vivido. A emoção,
O riso, o sonho, o gargalhar, a prece
Os bons e maus momentos tecem a vida
Todos eles na alma têm guarida
Onde dormitam pelo tempo afora
E de repente, então, meu caro amigo
O que no imo procurou abrigo
À saudade, desperta, como agora.
Sinto o peso dos anos. Na verdade
Revivo o meu passado no presente
Surpreso me pergunto: isso é da idade?
Meu íntimo responde: é, tens razão
Ao passo que se vive não se esquece
O que já foi vivido. A emoção,
O riso, o sonho, o gargalhar, a prece
Os bons e maus momentos tecem a vida
Todos eles na alma têm guarida
Onde dormitam pelo tempo afora
E de repente, então, meu caro amigo
O que no imo procurou abrigo
À saudade, desperta, como agora.
946
1
António Salvado
Cárcere
O cárcere profundo em que encontro...
O forte muro a esta mágoa preso...
A cicatriz deixada nos meus ombros...
A luz extinta a segredar promessas...
A chaga enorme que me abraça bem,
confuso encantamento sem perdão...
A corroída esperança que retenho
quando levanto num suspiro as mãos...
É destas marcas vivas que o meu ser
tenaz e loucamente se alimenta...
São estes os autênticos prazeres
que as minhas horas sofrem violentas!
O forte muro a esta mágoa preso...
A cicatriz deixada nos meus ombros...
A luz extinta a segredar promessas...
A chaga enorme que me abraça bem,
confuso encantamento sem perdão...
A corroída esperança que retenho
quando levanto num suspiro as mãos...
É destas marcas vivas que o meu ser
tenaz e loucamente se alimenta...
São estes os autênticos prazeres
que as minhas horas sofrem violentas!
595
1
Judas Isgorogota
Recompensa
Certa manhã deixei a minha casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
Cinco e meia, talvez,
Talvez seis horas da manhã da vida...
Um sol vermelho, de um vermelho brasa,
Por sobre a estrada adormecida,
Em completa mudez,
Derramava-se todo
Numa tonalidade futurista...
Era manhã quando saí de casa...
E o sol, vermelho, de zarcão, dizia:
— "Para onde vai esse menino doido
Que nem espera que lhe venha o dia?"
Cheio de minha fé, saí disposto
Para a conquista
Da primeira curva
Do caminho; porém,
Logo à tardinha o sol esmaeceu
E eu vi que havia rugas em meu rosto
E a minha vista
Já ficava turva
Como a vista do sol que envelheceu...
E passo a passo, envelheci também...
De volta, meus sonhos apagados,
Joelhos vertendo dor, pés descarnados,
Sem um gesto, entretanto, de revolta,
Ando à procura de uma cova rasa
Onde eu, mártir da fé, pobre e infeliz,
Possa, enfim, encontrar a recompensa
De uma conquista imensa
Que não fiz!
Era manhã quando saí de casa...
1 742
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