Poemas neste tema
Amizade
Castro Alves
A D Joana
(No dia do seu aniversário)
SENHORA, eu vos dou versos, porque apanho
Das flores dahna um ramalhete agreste
E são versos a flora perfumada,
Que de meu seio a solidão reveste.
E vós que amais a parasita ardente,
Que abre como um suspiro em pleno maio,
E o aroma que anima o cálix rubro
— Talvez de uma alma perfumoso ensaio,
E esse vago tremer de níveas pétalas,
Que faz das flores meias borboletas,
O escarlate das malvas presumidas,
A modéstia infantil das violetas,
E essa linguagem transparente e meiga
Que a natureza fala nas campinas
Pelas vozes das brisas suspirosas,
Pela boca rosada das boninas ...
Hoje, na vossa festa, em vosso dia,
Em meio aos vossas íntimos amores...
Juntai aos ramalhetes estes versas,
Pois versas de afeição... também são flores!
SENHORA, eu vos dou versos, porque apanho
Das flores dahna um ramalhete agreste
E são versos a flora perfumada,
Que de meu seio a solidão reveste.
E vós que amais a parasita ardente,
Que abre como um suspiro em pleno maio,
E o aroma que anima o cálix rubro
— Talvez de uma alma perfumoso ensaio,
E esse vago tremer de níveas pétalas,
Que faz das flores meias borboletas,
O escarlate das malvas presumidas,
A modéstia infantil das violetas,
E essa linguagem transparente e meiga
Que a natureza fala nas campinas
Pelas vozes das brisas suspirosas,
Pela boca rosada das boninas ...
Hoje, na vossa festa, em vosso dia,
Em meio aos vossas íntimos amores...
Juntai aos ramalhetes estes versas,
Pois versas de afeição... também são flores!
2 931
2
Pedro Amigo de Sevilha
Amiga, Muit'amigos Som
Amiga, muit'amigos som
muitos no mundo por filhar
amigas, polas muit'amar;
ma[i]s já Deus nunca mi perdom
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Pode voss'amigo dizer,
amiga, ca vos quer gram bem
e quer-vo-lo; mais eu por en
nunca veja do meu prazer
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Vi-m'eu com estes olhos meus
amigo d'amiga que lh'é
muit'amigo, per bõa fé;
mais nom mi valha nunca Deus
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
muitos no mundo por filhar
amigas, polas muit'amar;
ma[i]s já Deus nunca mi perdom
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Pode voss'amigo dizer,
amiga, ca vos quer gram bem
e quer-vo-lo; mais eu por en
nunca veja do meu prazer
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Vi-m'eu com estes olhos meus
amigo d'amiga que lh'é
muit'amigo, per bõa fé;
mais nom mi valha nunca Deus
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
678
1
Matilde Campilho
O Amor Faz-Me Fome
Tropecei numa ementa de vendas de comida ready-made
E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas
em vouchers de correio ou publicidade não endereçada
Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem
cafés da manhã para entregar ao domicílio
Perdão queria dizer pequenos-almoços
deixemos o café e as manhãs para outras dinastias
No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem
mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbuad
Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias
Também cruzávamos os dedos mas isso agora não importa
dois rapazolas roubando meio croissant e três goles de suco
às mesas impecavelmente postas dos hotéis mais bonitos da cidade
A comida não era de todo o que mais nos interessava
se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente
para rebentar-nos o estômago até ao nível da alegria
Havia sempre alguém disposto a pagar-nos refeições
assim como nós estávamos sempre prontos a pular o fogo mágico
Acostumámo-nos desde muito cedo a sair das celebrações
de joelhos chamuscados e com as roupas mais ou menos rasgadas
Isso era motivo suficiente para que um de nós pegasse a moto
e então os dois acelerávamos até à praia mais deserta do país
Nem por isso deixámos de nos escapar aos acontecimentos
mas aqueles foram indubitavelmente os mergulhos de ouro
Agora as fogueiras levantam-se muito mais altas do que as magias
às quais dedicámos quase toda a nossa juventude igualitária
Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver
os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev
Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas
se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan
Daqui dá para cheirar a ameaça de pólvora semi-invisível saindo
do documento que declara o estado de exceção no sul da Bahia
Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso
mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas
e entre os galhos de fogo de um gigante inverno
No nosso tempo eu acreditava muito nas notícias e na televisão
Hoje eu acredito tudo nas experiências que me contam os homens
Ontem éramos os filhos dos netos da revolução
E explicaram-nos que a tabuada e a paixão alucinante eram tudo
o que precisávamos e precisaríamos para o exercício da construção
Hoje somos pais de algumas crianças e pais de nós mesmos
e já vamos sabendo algumas coisas sobre a palavra desconstrução
O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras
A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas
Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos
Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal
Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei
Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio
Seja como for o amor ainda me faz bastante fome
e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda a revolução
Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos
tomar um café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.
E por uma dessas fatalidades que vêm encadernadas
em vouchers de correio ou publicidade não endereçada
Fui reparar que agora tu e a tua miúda fazem
cafés da manhã para entregar ao domicílio
Perdão queria dizer pequenos-almoços
deixemos o café e as manhãs para outras dinastias
No meu tempo eu era o príncipe e tu a imagem
mais pura do menino Jean-Nicolas-Arthur Rimbuad
Dois saltimbancos cruzando a cidade e os dias
Também cruzávamos os dedos mas isso agora não importa
dois rapazolas roubando meio croissant e três goles de suco
às mesas impecavelmente postas dos hotéis mais bonitos da cidade
A comida não era de todo o que mais nos interessava
se pensarmos que a paixão alucinante era rastilho suficiente
para rebentar-nos o estômago até ao nível da alegria
Havia sempre alguém disposto a pagar-nos refeições
assim como nós estávamos sempre prontos a pular o fogo mágico
Acostumámo-nos desde muito cedo a sair das celebrações
de joelhos chamuscados e com as roupas mais ou menos rasgadas
Isso era motivo suficiente para que um de nós pegasse a moto
e então os dois acelerávamos até à praia mais deserta do país
Nem por isso deixámos de nos escapar aos acontecimentos
mas aqueles foram indubitavelmente os mergulhos de ouro
Agora as fogueiras levantam-se muito mais altas do que as magias
às quais dedicámos quase toda a nossa juventude igualitária
Hoje temos mais de trinta anos e da minha janela dá para ver
os disparos dos incontáveis snipers das barricadas de Kiev
Desta varanda podem ouvir-se os gritos das ruas venezuelanas
se sobrepondo ao viejo papá que só quer dizer pásame el pan
Daqui dá para cheirar a ameaça de pólvora semi-invisível saindo
do documento que declara o estado de exceção no sul da Bahia
Parece que a primavera do mundo é um trabalho em progresso
mas o caminho até lá está sendo todo feito entre as veredas
e entre os galhos de fogo de um gigante inverno
No nosso tempo eu acreditava muito nas notícias e na televisão
Hoje eu acredito tudo nas experiências que me contam os homens
Ontem éramos os filhos dos netos da revolução
E explicaram-nos que a tabuada e a paixão alucinante eram tudo
o que precisávamos e precisaríamos para o exercício da construção
Hoje somos pais de algumas crianças e pais de nós mesmos
e já vamos sabendo algumas coisas sobre a palavra desconstrução
O amor ainda é o estandarte onde vamos pendurando as bandeiras
A coragem ainda é o ferro onde vamos pendurando as roupas
Sim ainda rasgamos nossas roupas Sim ainda esfolamos os joelhos
Mas agora é tudo em nome de uma certa mudança universal
Onde andarás tu e teu sonho nesta manhã eu já não sei
Muito menos que espécie de alimentos entregas ao domicílio
Seja como for o amor ainda me faz bastante fome
e o relento ainda me parece o asfalto justo para toda a revolução
Portanto (apesar dos vouchers) hoje meu miúdo e eu escolhemos
tomar um café da manhã na rua e deixar para lá o domicílio.
1 271
1
Eucanaã Ferraz
VIDA E OBRA
Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
785
1
Martim Codax
Quantas Sabedes Amar Amigo
Quantas sabedes amar amigo,
treides comig'a lo mar de Vigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Quantas sabedes amar amado,
treides comig' a lo mar levado
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar de Vigo
e veeremo' lo meu amigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar levado
e veeremo' lo meu amado
e banhar-nos-emos nas ondas.
treides comig'a lo mar de Vigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Quantas sabedes amar amado,
treides comig' a lo mar levado
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar de Vigo
e veeremo' lo meu amigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar levado
e veeremo' lo meu amado
e banhar-nos-emos nas ondas.
1 080
1
João Garcia de Guilhade
Amigas, Que Deus Vos Valha, Quando Veer Meu Amigo
Amigas, que Deus vos valha, quando veer meu amigo,
falade sempr'ũas outras enquant'el falar comigo,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
Sei eu que por falar migo chegará el mui coitado,
e vós ide-vos chegando lá todas per ess'estrado,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
falade sempr'ũas outras enquant'el falar comigo,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
Sei eu que por falar migo chegará el mui coitado,
e vós ide-vos chegando lá todas per ess'estrado,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
806
1
Carlos Drummond de Andrade
Mário de Andrade Desce Aos Infernos
I
Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
«que as flores pasmarão, e as abelhas,
confundidas, esvairão seu mel.
Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto
-e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.
II
No chão me deito :à maneira dos desesperados.
Estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio,
esqueço que sou um poeta, que não estou sozinho,
preciso aceitar e compor, minhas medidas partiram-se,
mas preciso, preciso, preciso.
Rastejando, entre cacos, me aproximo.
Não quero, mas preciso tocar pele de homem,
avaliar o frio, ver a côr, ver o silêncio,
conhecer um novo amigo e nele me derramar.
Porque é outro amigo. A explosiva descoberta
ainda me atordoa. Estou cego e vejo. Arranco os olhos e vejo.
Furo as paredes e vejo. Através do mar sangüíneo vejo.
Minucioso, implacável, sereno, pulverizado,
é outro amigo. São outros dentes. Outro sorriso.
Outra palavra, que goteja.
III
O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo
pairava na renda fina
dos Sete Saltos,
na serrania mineira,
no mangue, no seringal,
nos mais diversos brasis,
e para além dos brasis,nas regiões inventadas,países a que aspiramos,fantásticos,mas certos, inelutáveis,terra de João invencível,a rosa do povo aberta…
IV
A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora
[frágil, pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha,
e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,
o poeta, nas trevas, anunciou.
Mais perto, e uma lâmpada. Mais perto, e quadros,
quadros. Portinari aqui esteve, deixou
sua garra. Aqui Cézanne e Picasso,
os primitivos, os cantadores, a gente de pé no chão,
a voz que vem do nordeste, os fetiches, as religiões,
os bichos. . . Aqui tudo se acumulou,
esta é a rua Lopes Chaves, 546,
outrora 108. Para aqui muitas vezes voou
meu pensamento. Daqui vinha a palavra
esperada na dúvida e no cacto.
Aqui nunca pisei. Mas como o chão
sabe a forma dos pés e é liso e beija!
Todas as brisas da saudade balançam a casa,
empurram a casa,
navio de São Paulo no céu nacional,
vai colhendo amigos de Minas e Rio Grande do Sul,
gente de Pernambuco e Pará, todos os apertos de mão,
todas as confidencias a casa recolhe,
embala, pastoreia.
Os que entram e os que saem se cruzam na imensidão dos corredores,
paz nas escadas,
calma nos vidros,
e ela viaja como um lento pássaro, uma notícia postal, uma nuvem pejada.
Casas ancoradas saúdam-na fraternas:
Vai, amiga!
Não te vás, amiga. . .
(Um homem se dá no Brasil mas conserva-se intacto,
preso a uma casa e dócil a seus companheiros
esparsos.)
Súbito a barba deixou de crescer. Telegramas
irrompem. Telefones
retinem. Silêncio
em Lopes Chaves.
Agora percebo que estamos amputados e frios.
Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Muitos procuram São Paulo no ar e se concentram,
aura secreta na respiração da cidade.
É um retrato, somente um retrato,
algo nos jornais, na lembrança,
o dia estragado como uma fruta,
um véu baixando, um ríctus,
o desejo de não conversar. É sobretudo uma pausa ôca
e além de todo vinagre.
Mas tua sombra robusta desprende-se e avança.
Desce o rio, penetra os túneis seculares
onde o antigo marcou seus traços funerários,
desliza na água salobra, e ficam tuas palavras
(superamos a morte, e a palma triunfa)
tuas palavras carbúnculo e carinhosos diamantes.
Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
«que as flores pasmarão, e as abelhas,
confundidas, esvairão seu mel.
Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto
-e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.
II
No chão me deito :à maneira dos desesperados.
Estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio,
esqueço que sou um poeta, que não estou sozinho,
preciso aceitar e compor, minhas medidas partiram-se,
mas preciso, preciso, preciso.
Rastejando, entre cacos, me aproximo.
Não quero, mas preciso tocar pele de homem,
avaliar o frio, ver a côr, ver o silêncio,
conhecer um novo amigo e nele me derramar.
Porque é outro amigo. A explosiva descoberta
ainda me atordoa. Estou cego e vejo. Arranco os olhos e vejo.
Furo as paredes e vejo. Através do mar sangüíneo vejo.
Minucioso, implacável, sereno, pulverizado,
é outro amigo. São outros dentes. Outro sorriso.
Outra palavra, que goteja.
III
O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo
pairava na renda fina
dos Sete Saltos,
na serrania mineira,
no mangue, no seringal,
nos mais diversos brasis,
e para além dos brasis,nas regiões inventadas,países a que aspiramos,fantásticos,mas certos, inelutáveis,terra de João invencível,a rosa do povo aberta…
IV
A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora
[frágil, pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha,
e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,
o poeta, nas trevas, anunciou.
Mais perto, e uma lâmpada. Mais perto, e quadros,
quadros. Portinari aqui esteve, deixou
sua garra. Aqui Cézanne e Picasso,
os primitivos, os cantadores, a gente de pé no chão,
a voz que vem do nordeste, os fetiches, as religiões,
os bichos. . . Aqui tudo se acumulou,
esta é a rua Lopes Chaves, 546,
outrora 108. Para aqui muitas vezes voou
meu pensamento. Daqui vinha a palavra
esperada na dúvida e no cacto.
Aqui nunca pisei. Mas como o chão
sabe a forma dos pés e é liso e beija!
Todas as brisas da saudade balançam a casa,
empurram a casa,
navio de São Paulo no céu nacional,
vai colhendo amigos de Minas e Rio Grande do Sul,
gente de Pernambuco e Pará, todos os apertos de mão,
todas as confidencias a casa recolhe,
embala, pastoreia.
Os que entram e os que saem se cruzam na imensidão dos corredores,
paz nas escadas,
calma nos vidros,
e ela viaja como um lento pássaro, uma notícia postal, uma nuvem pejada.
Casas ancoradas saúdam-na fraternas:
Vai, amiga!
Não te vás, amiga. . .
(Um homem se dá no Brasil mas conserva-se intacto,
preso a uma casa e dócil a seus companheiros
esparsos.)
Súbito a barba deixou de crescer. Telegramas
irrompem. Telefones
retinem. Silêncio
em Lopes Chaves.
Agora percebo que estamos amputados e frios.
Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Muitos procuram São Paulo no ar e se concentram,
aura secreta na respiração da cidade.
É um retrato, somente um retrato,
algo nos jornais, na lembrança,
o dia estragado como uma fruta,
um véu baixando, um ríctus,
o desejo de não conversar. É sobretudo uma pausa ôca
e além de todo vinagre.
Mas tua sombra robusta desprende-se e avança.
Desce o rio, penetra os túneis seculares
onde o antigo marcou seus traços funerários,
desliza na água salobra, e ficam tuas palavras
(superamos a morte, e a palma triunfa)
tuas palavras carbúnculo e carinhosos diamantes.
3 839
1
Carlos Drummond de Andrade
O Amor Determina
A Matilde e Mário da Silva Brito
L’amour veut qu’aujourd’hui mon ami
André Salmon se marie
APOLLINAIRE
O amor determina hoje que se casem
minha amiga Matilde e meu amigo Mário.
Sua lei é sagrada. Cumpra-se com música
de clavicórdios, clavicímbalos, espinetas,
tiorbas, violas d’amore, harpas davídicas,
sem esquecer o fagote, o oficlide, todos os metais,
e o saçaricante pinho carioca,
mesmo que tais instrumentos não figurem
ostensivamente no ato. Estarão soando
no ar interior que respiram os enamorados conscientes.
E seja esta quinta-feira de perfeita claridade
e sombra mais suave a acarinhar os noivos
de refletida vontade e lúcida escolha.
Emoldure-os a luz. Doure-os o maravilhoso silêncio
entranhado no som,
em que a alegria do amor-conhecimento se entreabre
à feição de flor nascida
do chão mesmo da vida.
E cantemos todos, em torno deles,
em musical ciranda:
M de Matilde
M de Mário
M do centro da palavra amor.
L’amour veut qu’aujourd’hui mon ami
André Salmon se marie
APOLLINAIRE
O amor determina hoje que se casem
minha amiga Matilde e meu amigo Mário.
Sua lei é sagrada. Cumpra-se com música
de clavicórdios, clavicímbalos, espinetas,
tiorbas, violas d’amore, harpas davídicas,
sem esquecer o fagote, o oficlide, todos os metais,
e o saçaricante pinho carioca,
mesmo que tais instrumentos não figurem
ostensivamente no ato. Estarão soando
no ar interior que respiram os enamorados conscientes.
E seja esta quinta-feira de perfeita claridade
e sombra mais suave a acarinhar os noivos
de refletida vontade e lúcida escolha.
Emoldure-os a luz. Doure-os o maravilhoso silêncio
entranhado no som,
em que a alegria do amor-conhecimento se entreabre
à feição de flor nascida
do chão mesmo da vida.
E cantemos todos, em torno deles,
em musical ciranda:
M de Matilde
M de Mário
M do centro da palavra amor.
1 196
1
Carlos Drummond de Andrade
Coqueiro de Batistinha
Ausente de meu querido torrão natal, havia muitos anos, quis rever os sítios amenos… Revoltou-me não rever mais o encantador e quase secular coqueiro do saudoso também Batistinha.
Do volante assinado “Um itabirano”, remetido ao autor em 1955
Já não vejo onde se via
aquele esbelto coqueiro
de Batistinha.
Batistinha não nascera,
o coqueiro ali pousava
a esperá-lo.
Queria ser seu amigo.
Com lentidão de coqueiro
espiava ele crescer.
Amizade que não fala,
mas se irradia por tudo
que é silêncio de verdura.
Até que alguém lhe decifra
esse bem-querer de palmas
e chama-lhe:
Coqueiro de Batistinha.
Batistinha vai à Europa,
vê Paris de antes da guerra,
vê o mundo
e a luz que o mundo tinha.
O coqueiro, mui sisudo,
jamais saiu a passeio.
Tomava conta da loja
de Batistinha.
Vem Batistinha contando
as maravilhas da terra.
Maravilha outra, a escutá-lo,
o coqueiro
era coqueiro-viajante
nos passos de Batistinha.
O dia se repetindo
dez mil dias, Batistinha
tem esse amigo a seu lado.
Já se finou Batistinha
com tudo que tinha visto
em giros de mocidade.
Sua loja está fechada.
E resta ao coqueiro? Nada.
De manhã cedo, pois cedo
começa a rodar mineiro,
passando por lá não vejo
nem retrato de coqueiro.
A Prefeitura o cortou?
Ou o raio o siderou,
o caterpilar levou?
No perguntar-se geral,
sabe menos cada qual
do que saberia um coco.
Tão simples,
e ninguém viu:
sem razão de estar ali,
privado de Batistinha,
o seu coqueiro
sumiu.
Do volante assinado “Um itabirano”, remetido ao autor em 1955
Já não vejo onde se via
aquele esbelto coqueiro
de Batistinha.
Batistinha não nascera,
o coqueiro ali pousava
a esperá-lo.
Queria ser seu amigo.
Com lentidão de coqueiro
espiava ele crescer.
Amizade que não fala,
mas se irradia por tudo
que é silêncio de verdura.
Até que alguém lhe decifra
esse bem-querer de palmas
e chama-lhe:
Coqueiro de Batistinha.
Batistinha vai à Europa,
vê Paris de antes da guerra,
vê o mundo
e a luz que o mundo tinha.
O coqueiro, mui sisudo,
jamais saiu a passeio.
Tomava conta da loja
de Batistinha.
Vem Batistinha contando
as maravilhas da terra.
Maravilha outra, a escutá-lo,
o coqueiro
era coqueiro-viajante
nos passos de Batistinha.
O dia se repetindo
dez mil dias, Batistinha
tem esse amigo a seu lado.
Já se finou Batistinha
com tudo que tinha visto
em giros de mocidade.
Sua loja está fechada.
E resta ao coqueiro? Nada.
De manhã cedo, pois cedo
começa a rodar mineiro,
passando por lá não vejo
nem retrato de coqueiro.
A Prefeitura o cortou?
Ou o raio o siderou,
o caterpilar levou?
No perguntar-se geral,
sabe menos cada qual
do que saberia um coco.
Tão simples,
e ninguém viu:
sem razão de estar ali,
privado de Batistinha,
o seu coqueiro
sumiu.
1 151
1
Edmir Domingues
Louvado a Manuel Bandeira
À sua maneira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.
688
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Carta de Natal a Murilo Mendes
Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão
Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano
Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido
Hoje escrevo porém para a Saudade
— Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade —
E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
— Escrito mesmo na margem do jornal
Na Baixa — entre as compras do Natal
Para ligar o eterno e este dia
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão
Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano
Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido
Hoje escrevo porém para a Saudade
— Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade —
E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
— Escrito mesmo na margem do jornal
Na Baixa — entre as compras do Natal
Para ligar o eterno e este dia
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
3 730
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Biografia
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
3 822
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para o Ernesto Veiga de Oliveira No Dia da Sua Morte
Àquele que hoje morreu tendo sido
Fiel a cada hora do vivido
Trago o poema desse tempo antigo:
Irisado cintilar dos areais
Na breve eternidade desse instante
Que não pode jamais ser repetido
Foi nesse tempo o tempo:
Longas tardes conversas demoradas
No extático fervor adolescente
Das grandes descobertas deslumbradas
Versos dança música pintura
Um mundo vivo em canto e em figura
Que a vida inteira ficará comigo
Agradecendo a graça do ter sido
Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar
1992
Fiel a cada hora do vivido
Trago o poema desse tempo antigo:
Irisado cintilar dos areais
Na breve eternidade desse instante
Que não pode jamais ser repetido
Foi nesse tempo o tempo:
Longas tardes conversas demoradas
No extático fervor adolescente
Das grandes descobertas deslumbradas
Versos dança música pintura
Um mundo vivo em canto e em figura
Que a vida inteira ficará comigo
Agradecendo a graça do ter sido
Assim pudesse o tempo regressar
Recomeçarmos sempre como o mar
1992
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1
Fernando Pessoa
Tenho um desejo comigo/Que hoje te venho dizer:
Tenho um desejo comigo/Que hoje te venho dizer:
Tenho um desejo comigo
Que hoje te venho dizer:
Queria ser teu amigo
Com amizade a valer.
Tenho um desejo comigo
Que hoje te venho dizer:
Queria ser teu amigo
Com amizade a valer.
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1
Florbela Espanca
Mistério D’Amor
Um mistério que trago dentro em mim
Ajuda-me, minh’alma a descobrir...
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!
Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!
Mas um dia, uma tarde... houve um fulgor,
Um olhar que brilhou... e mansamente...
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:
Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!
Ajuda-me, minh’alma a descobrir...
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!
Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!
Mas um dia, uma tarde... houve um fulgor,
Um olhar que brilhou... e mansamente...
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:
Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!
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1
Mário Cesariny
Being beauteous
O meu amigo inglês que entrou no quarto da cama e correu de um só gesto todas as cortinas
sabia o que corria
digo disse direis era vergonha
era sermos estranhos mais do que isso: estrangeiros
e tão perto um do outro naquela casa
mas eu vejo maior mais escuro dentro do corpo
e descobri que a luz é coisa de ricos
gente que passa a vida a olhar para o sol
cultivar abelhas no sexo liras na cabeça
e mal a noite tinge a faixa branca da praia
vai a correr telefonar para a polícia
E não bem pelas jóias de diamante os serviços de bolso e as criadas
digo ricos de espírito
ricos de experiência
ricos de saber bem como decorre
para um lado o sémen para o outro a caca
e nos doces intervalares
a urina as bibliotecas as estações o teatro
tudo o que já amado
e arrecadado no canto do olho a implorar mais luz para ter sido verdade
O meu amigo inglês não se lembrava
senão dos gestos simples do começo
e corria as cortinas e criava
para além do beijo flébil que podemos
a viagem sem fim e sem regresso
© 1957, Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim
sabia o que corria
digo disse direis era vergonha
era sermos estranhos mais do que isso: estrangeiros
e tão perto um do outro naquela casa
mas eu vejo maior mais escuro dentro do corpo
e descobri que a luz é coisa de ricos
gente que passa a vida a olhar para o sol
cultivar abelhas no sexo liras na cabeça
e mal a noite tinge a faixa branca da praia
vai a correr telefonar para a polícia
E não bem pelas jóias de diamante os serviços de bolso e as criadas
digo ricos de espírito
ricos de experiência
ricos de saber bem como decorre
para um lado o sémen para o outro a caca
e nos doces intervalares
a urina as bibliotecas as estações o teatro
tudo o que já amado
e arrecadado no canto do olho a implorar mais luz para ter sido verdade
O meu amigo inglês não se lembrava
senão dos gestos simples do começo
e corria as cortinas e criava
para além do beijo flébil que podemos
a viagem sem fim e sem regresso
© 1957, Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim
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1
Vasco Graça Moura
Fanny
fanny, a grande
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,
tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.
uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e
deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro
se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e
fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,
na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,
tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.
uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e
deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro
se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e
fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,
na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.
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Arlindo Barbeitos
Vem e vem
escuras nuúvens grossas de outros céus vindas
entrançando-se por entre asas de pâssaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada
irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pâssaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem
entrançando-se por entre asas de pâssaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada
irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pâssaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem
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Casimiro de Abreu
A Faustino Xavier de Novais
Bem-vindo sejas, poeta,
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais:
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
Vieste a tempo, poeta,
Trazer-nos o sal da graça,
Pois c'os terrores da praça
Andava a gente a fugir:
Agora calmando o medo,
E ao bom humor dando largas,
A comprimir as ilhargas
Agora vão todos rir.
Entre todos os paquetes
Que o velho mundo nos manda,
Eu sustento sem demanda
Tamar foi o mais feliz:
Os outros trazem cebolas,
Vinho em pipas, trapalhadas,
Este trouxe gargalhadas,
Sem ser fazenda em barris.
Venha a sátira mordente,
Brilhe viva a tua veia,
Já que a cidade está cheia
Desses eternos Manéis:
Os barões andam às dúzias,
Como os frades nos conventos,
Comendadores aos centos,
Viscondes a pontapés.
Aproveita estes bons tipos,
Há-os aqui com fartura,
E salte a caricatura
Nos traços do teu pincel:
Ou quer na prosa ou no verso,
Dá-lhes bem severo ensino,
Ressuscita o Tolentino,
Embeleza o teu laurel.
Pinta este Rio num quadro,
As letras falsas dum lado,
As discussões do senado,
As quebras, os trambulhões;
Mascates roubando moças,
E lá no fundo da tela
Desenha a febre amarela,
Vida e morte aos cachações.
Oh! canta! o povo te aplaude,
E os louros pra ti são certos!
Acharás braços abertos
No meu paterno torrão:
Se és português lá na Europa,
Aqui, vivendo conosco
Debaixo do colmo tosco,
Aqui serás nosso irmão!
Bem-vindo, bem-vindo sejas
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais.
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
1860
Imagem - 00300006
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais:
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
Vieste a tempo, poeta,
Trazer-nos o sal da graça,
Pois c'os terrores da praça
Andava a gente a fugir:
Agora calmando o medo,
E ao bom humor dando largas,
A comprimir as ilhargas
Agora vão todos rir.
Entre todos os paquetes
Que o velho mundo nos manda,
Eu sustento sem demanda
Tamar foi o mais feliz:
Os outros trazem cebolas,
Vinho em pipas, trapalhadas,
Este trouxe gargalhadas,
Sem ser fazenda em barris.
Venha a sátira mordente,
Brilhe viva a tua veia,
Já que a cidade está cheia
Desses eternos Manéis:
Os barões andam às dúzias,
Como os frades nos conventos,
Comendadores aos centos,
Viscondes a pontapés.
Aproveita estes bons tipos,
Há-os aqui com fartura,
E salte a caricatura
Nos traços do teu pincel:
Ou quer na prosa ou no verso,
Dá-lhes bem severo ensino,
Ressuscita o Tolentino,
Embeleza o teu laurel.
Pinta este Rio num quadro,
As letras falsas dum lado,
As discussões do senado,
As quebras, os trambulhões;
Mascates roubando moças,
E lá no fundo da tela
Desenha a febre amarela,
Vida e morte aos cachações.
Oh! canta! o povo te aplaude,
E os louros pra ti são certos!
Acharás braços abertos
No meu paterno torrão:
Se és português lá na Europa,
Aqui, vivendo conosco
Debaixo do colmo tosco,
Aqui serás nosso irmão!
Bem-vindo, bem-vindo sejas
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais.
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.
1860
Imagem - 00300006
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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1
Rubem Braga
Bilhete para Los Angeles
Tu, que te chamas Vinícius
De Moraes, inda que mais
Próprio fora que Imorais
Quem te conhece chamara —
Avis rara!
Tens uns olhos de menino
Doce, bonito e ladino
E és um calhordaço fino:
Só queres amor e ócio,
Capadócio!
Quando a viola ponteias
As damas cantando enleias
E as prendes em tuas teias —
Tanto mal que já fizeste,
Cafajeste!
Apesar do que, faz falta
Tua presença, que a malta
Do Rio pede em voz alta:
Deus te dê vida e saúde
Em Hollywood!
1949
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
De Moraes, inda que mais
Próprio fora que Imorais
Quem te conhece chamara —
Avis rara!
Tens uns olhos de menino
Doce, bonito e ladino
E és um calhordaço fino:
Só queres amor e ócio,
Capadócio!
Quando a viola ponteias
As damas cantando enleias
E as prendes em tuas teias —
Tanto mal que já fizeste,
Cafajeste!
Apesar do que, faz falta
Tua presença, que a malta
Do Rio pede em voz alta:
Deus te dê vida e saúde
Em Hollywood!
1949
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
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1
Paulo Setúbal
Sinh'Ana
Sinh'Ana é uma velhota quitandeira,
Comadre e amiga desta vila inteira,
Rica nos anos, rija na saúde
Que vive toscamente ao pé da estrada,
Numa casinha, simples e barreada,
Dum pitoresco delicioso e rude.
Ah! Quanta vez, nessas manhãs vermelhas,
Cheias de aromas, de canções, de abelhas,
Nós dois, numa travessa caminhada,
Não vínhamos ali — que bom passeio! —
Ver a frescura, a paz, o casto asseio,
Da humilde casinhola ao pé da estrada!
E quanta vez também (que ação profana!)
Doirávamos a toca de Sinh'Ana,
Com beijos e carícias romanescas,
Enquanto a velha, a cândida velhinha,
Voltando ingenuamente da cozinha,
Trazia um prato de broinhas frescas...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Comadre e amiga desta vila inteira,
Rica nos anos, rija na saúde
Que vive toscamente ao pé da estrada,
Numa casinha, simples e barreada,
Dum pitoresco delicioso e rude.
Ah! Quanta vez, nessas manhãs vermelhas,
Cheias de aromas, de canções, de abelhas,
Nós dois, numa travessa caminhada,
Não vínhamos ali — que bom passeio! —
Ver a frescura, a paz, o casto asseio,
Da humilde casinhola ao pé da estrada!
E quanta vez também (que ação profana!)
Doirávamos a toca de Sinh'Ana,
Com beijos e carícias romanescas,
Enquanto a velha, a cândida velhinha,
Voltando ingenuamente da cozinha,
Trazia um prato de broinhas frescas...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
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1
Rubem Braga
Retrato do Time
No primeiro plano vê-se a linha intrépida
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.
A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:
Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.
Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.
E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.
E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.
Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!
Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.
1946
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
Em posição de repouso vigilante
Ajoelhada sobre o joelho esquerdo,
Prestes a erguer-se
Uma vez batida a chapa
E atacar com ímpeto.
A defesa está atrás, de pé pelo Brasil.
Esse de gorro era nosso melhor elemento
Lembro que nesse jogo Nico foi expulso de campo.
Injustamente pelo juiz.
Porém não antes de marcar seu "goal".
Esse mais gordo chamava Roberto Vaca-Brava.
Nosso "center-half", homem aliás capaz
De jogar em qualquer posição... Quer ver? Me lembro:
Joca, Liberato e Zico,
Tião, Roberto e Sossego,
Baiano, eu, Coriolano, Antonico e Fuad.
Era um onze imortal
Como aliás se nota nessa fotografia
Nessa chuvosa tarde antigamente heróica eternamente
Em que empatamos porém foi nossa a vitória moral.
E olhando o retrato
Olho especialmente o meu:
Um rapazinho feio, de ar doce e violento
Sobre o qual disse o jornal:
"O valoroso meia-direita."
E com toda razão, modéstia à parte.
Esse alto, nosso "keeper" Joca Desidério
Quando a linha fechava ele gritava para os "backs" —
Sai tudo, sai da frente — e avançava na linha.
E chorava de raiva quando a bola entrava.
Mais tarde, por causa de um italiano, ele se fez assassino
Mas com toda razão, segundo me contaram.
Alviverde camisa do Esperança
do Sul Foot-Ball Club, conhecido
Como os capetas verdes — somos nós!
Nós todos envergando essas cores sagradas
E no coração dentro do peito cada um tem uma
[namorada na bancada,
Cada um menos um.
Era Fuad, que não interessava a ninguém,
E morreu tuberculoso sacrificado de tanto correr na
[extrema
É esse aqui, de nariz grande, esse turquinho feio.
1946
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. Posfácio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
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Renata Pallottini
Poema da Rua Maria Antonia
Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
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Manoel de Barros
Na Rua Mário de Andrade
Na Rua Mário de Andrade
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade
Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...
Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade
Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar
É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar
E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar
Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã
Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves
Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar
Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente
Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira
Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã
(...)
Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará
Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...
(...)
Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —
uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...
Rua Mário de Andrade...
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade
Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...
Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade
Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar
É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar
E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar
Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã
Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves
Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar
Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente
Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira
Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã
(...)
Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará
Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...
(...)
Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —
uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...
Rua Mário de Andrade...
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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