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Poemas neste tema

Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)

Ruy Belo

Ruy Belo

Solidão na cidade

Após uma estadia nas alturas
a expensas do mais puro pensamento
que fez deter o dia a hora e o momento
numa fuga da vida e dos ruídos e dos carros
os quais que eu saiba só veneza repudia
sem dores nem cuidados horas certas
sem assuntos urgentes porque tudo se tornou esquecimento
como renunciar agora a tanta luz
e como pactuar com tão antiquíssimo poder
como esse que às coisas lhes consente acontecer?
Os plátanos disputam as últimas das folhas
aos ventos e às chuvas de dezembro
e como que se queixam do inverno
Já apodrece o coração das árvores
e essa raça cega mas sagaz dos simples
dos seres condenados à mentira
se socorrem da escuridão das águas
para pensar a parte aos seus servos devida
como se um ser cedesse a raciocínios
quando está em questão a própria vida
Não deixamos no chão o menor rasto
as coisas que pensamos não dão resto
e a destruição do nosso rosto
é agora maior que no delírio do verão
Já não nos surpreende o meio-dia
o mar se o foi deixou de ser inofensivo
um destino de ferro nos detém
e são longos os dias longe de nós próprios
Nem mesmo já se perde a infância imperiosa
na forte frequência das perguntas sem resposta
Até a lua esse incêndio de prata
que antes era como astro fé
agora é autêntica catástrofe
Em nenhum muro branco alguma sombra é
representação possível para o homem
Nos próprios corações a tempestade
se serve da cumplicidade da idade
dos restos impalpáveis dum destino
que não nos mata menos do que aos peixes
no tanque descuidados a água das favas
(tinha chovido lembro-me e assim chove agora
quando peço à infância uma metáfora
e a chuva é mais real que se chovesse)
Tudo trabalha mas ocultamente
e tudo é semelhante ao sobressalto
Terrível tempestade de alegria
que parcela do dia hoje em dia nos permite?
A vida é uma república odiosa
e até é monstruosa essa ponta do pensamento
que deixa nos meus dedos só palavras e não dias
Oculta cresce a erva do profundo sentimento
E mesmo quando fora é domingo
dentro de nós é dia de semana
Que mundo é este mundo destes dias
que mais nos mata do que atenas nos matou?
El corte inglés em plena primavera
segundo o comunicam todos os anúncios
que vejo nas paredes hoje dia dois de março
Vou entrar para ver posso ter lá
o termo deste inverno que me invade
Talvez eu recupere o que perdi
e me veja de novo envolto em folhas
como qualquer árvore anónima que vi



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 29 e 30 | Editorial Presença Lda., 1981
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

48 - A SUMMER ECSTASY

Beside a summer's day
        I lay me down and dreamed.
The light from far away
        In my withinned self gleamed,
An unreal true glow,
Spiritually somehow.

I saw the inner side
        Of summer, earth and morn.
I heard the rivers glide
        From Within. l was borne
To see, through mysteries,
How God everything is.

The motes of sun that dance
        Are audibly whispered.
All is an utterance.
        The sight may hear. I shed
Vision of things as things.
My thoughts are angels' wings.

The corpses of known hours
        In barks unsteered and left
Float, covered with mute flowers,
        Down my dream that is cleft
In banks of mystery ­-
This summer day and I.

And something like a greed
        And yet unlike a wish,
The power to have a need
        Which doth not needing reach,
But is dissolved again
Ere its sad joy reach pain,

A shadowy lightness woven
        Of the day and of me,
Like sparkling water driven
        Never but where we see,
A gap, a pause, a dim
Looking over things' rim,

Starts like a sudden flute
        Pastoral with tuneless notes
Out of the unseen root
        Of all my being denotes,
Spreads, till I feel it not,
O'er my lost sense of thought.

And lo! I am another.
        My senses taste not‑mine.
A hand my sight doth smother
        To a blind sight divine.
I am a lost tune, a mood
Of the finger‑tips of God.

So, like a child‑king crowned,
        I feel new with fear‑pride.
I am robed with sky and ground.
        My inmost soul's outside
Is sunlit seas and lands.
My dreams are seraphs' hands.
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