Poemas neste tema
Família
Fernando Pessoa
Bem sei que tudo é natural
Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!...
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebezinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!...
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebezinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
1 422
Fernando Pessoa
Vai-te embora, Sol dos céus!
Vai-te embora, Sol dos céus!
Os olhos da minha irmã
Foram criados por Deus
P'ra substituir a manhã.
E se alguns acham mais bela
A noite, e mais cheia de alma,
O certo é que os olhos d'ela,
São da cor da noite calma.
Assim, manhãs na viveza
E noite na cor que têm,
Se os há iguais em beleza
Inda os não usou ninguém.
ÍBIS.
Os olhos da minha irmã
Foram criados por Deus
P'ra substituir a manhã.
E se alguns acham mais bela
A noite, e mais cheia de alma,
O certo é que os olhos d'ela,
São da cor da noite calma.
Assim, manhãs na viveza
E noite na cor que têm,
Se os há iguais em beleza
Inda os não usou ninguém.
ÍBIS.
1 001
Fernando Pessoa
IN THE STREET
I pass before the windows lit
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
1 548
Fernando Pessoa
Água que não vem na bilha
Água que não vem na bilha
É como se não viesse.
Como a mãe, assim a filha...
Antes Deus as não fizesse.
É como se não viesse.
Como a mãe, assim a filha...
Antes Deus as não fizesse.
1 334
Fernando Pessoa
Olhos tristes, grandes, pretos,
Olhos tristes, grandes, pretos,
Que dizeis sem me falar
Que não há filhos nem netos
De eu não querer amar.
Que dizeis sem me falar
Que não há filhos nem netos
De eu não querer amar.
1 452
Fernando Pessoa
Com as malas feitas e tudo a bordo
Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
1 642
Fernando Pessoa
Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos — gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias —
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.
Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...
Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —
Faz partir, que eu quero partir...
Som do erguer do ferro, meu estertor
Quando é que por fim eu te ouvirei?
Fremir do costado pela pulsação das máquinas —
Meu coração no bater final convulso —,
[Toque de vigias, suspiros do porto?]
(...)
Lenços a acenarem-me do cais em que ficam...
Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre!
Até o eterno em alegre Agora,
Até o (...)
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.
Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos — gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias —
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.
Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...
Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —
Faz partir, que eu quero partir...
Som do erguer do ferro, meu estertor
Quando é que por fim eu te ouvirei?
Fremir do costado pela pulsação das máquinas —
Meu coração no bater final convulso —,
[Toque de vigias, suspiros do porto?]
(...)
Lenços a acenarem-me do cais em que ficam...
Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre!
Até o eterno em alegre Agora,
Até o (...)
1 392
Florbela Espanca
Senhora! Eu bem quisera
Senhora! Eu bem quisera e todos, neste dia,
Dizer-vos num só verso alto, sentir que é nosso...
Mas, cantar-vos assim, em verso pobre e humilde...
É dizer-vos, senhora, o que eu dizer não posso.
Urna coisa, porém, vos direi no entanto...
Urna coisa onde o Sol anda a tecer canções...
É um desejo belo, é um desejo santo
Que ri a gargalhar em nossos corações:
Para que numa vida onde só há enganos,
Deus vos faça viver, senhora, tantos anos,
Tantos benditos anos, até poderdes ver
Os cabelos de luz e trevas, juvenis,
De vossos lindos filhos, suaves como Abrís,
Ao pé de vós, senhora, um dia embranquecer!
Dizer-vos num só verso alto, sentir que é nosso...
Mas, cantar-vos assim, em verso pobre e humilde...
É dizer-vos, senhora, o que eu dizer não posso.
Urna coisa, porém, vos direi no entanto...
Urna coisa onde o Sol anda a tecer canções...
É um desejo belo, é um desejo santo
Que ri a gargalhar em nossos corações:
Para que numa vida onde só há enganos,
Deus vos faça viver, senhora, tantos anos,
Tantos benditos anos, até poderdes ver
Os cabelos de luz e trevas, juvenis,
De vossos lindos filhos, suaves como Abrís,
Ao pé de vós, senhora, um dia embranquecer!
1 418
Florbela Espanca
A bondade
A bondade o som de Deus
A bondade a educação
A gente sempre ama os país
A estrela do coração.
A bondade ai a bondade
Aquele anjo de amor
Aquela santa feliz
E a bondade da flor
O anjo vem dar a bondade
A bondade do coração
A bondade para todos
E urna boa educação
feliz de quem tem bondade
E sempre sempre um bom irmão
A bondade a educação
A gente sempre ama os país
A estrela do coração.
A bondade ai a bondade
Aquele anjo de amor
Aquela santa feliz
E a bondade da flor
O anjo vem dar a bondade
A bondade do coração
A bondade para todos
E urna boa educação
feliz de quem tem bondade
E sempre sempre um bom irmão
1 969
Charles Olson
Maximus para Gloucester, Carta 27 [retida]
Eu retorno a tal geografia,
a terra descendo à esquerda
onde meu pai atirava seu golfe ronhoso
e o resto de nós jogava beisebol
noite de verão adentro até haver mosca
nenhuma à vista e voltávamos para casa
em nossas várias piazzas onde mulheres
sibilavam
À esquerda a terra descia até a cidade,
à direita descia até o mar
Eu era tão jovem minha primeira memória
é de uma tenda armada para alimentar com lagostas
membros de uma convenção da Rexall, e meu pai,
piadista, saía da tenda rugindo
com uma faca de pão entre os dentes para cuidar
do farmacêutico que lhe disseram havia cantado
minha mãe, ela gargalhando, tão segura, redonda
como seu rosto, Hines rosácea e maçã,
sob um chapéu armado das mulheres de então
Isto não é adição nua
de novidade em forma abstrata, isto
não é tumulto ou as formas
de tais eventos, isto,
Gregos, é o término
da batalha
....................É a imposição
de todas aquelas ascendências passadas, os antepassados
meus, a geração daqueles fatos
que são minhas palavras, provêm
de tudo o que não sou mais, contudo sou,
o movimento lento de leste a oeste
de mais do que eu sou
Não há ordem estritamente pessoal
para a minha herança.
....................Grego nenhum será capaz
de discriminar meu corpo.
....................Um americano
é um complexo de ocasiões,
elas mesmas uma geometria
de natureza espacial.
....................Eu tenho esta noção
de que sou um
com minha pele
Mais isto - mais isto:
que eternamente a geografia
que sobre mim se debruça
eu ponho-me a coagir
retroativo a coagir Gloucester
a render-se, a
mudar
....................Pólis
é isto
tradução de Ricardo Domeneck
Maximus to Gloucester, Letter 27 [withheld]
I come back to the geography of it,
the land falling off to the left
where my father shot his scabby golf
and the rest of us played baseball
into the summer darkness until no flies
could be seen and we came home
to our various piazzas where the women
buzzed
To the left the land fell to the city,
to the right, it fell to the sea
I was so young my first memory
is of a tent spread to feed lobsters
to Rexall conventioneers, and my father,
a man for kicks, came out of the tent roaring
with a bread-knife in his teeth to take care of
the druggist they"d told him had made a pass at
my mother, she laughing, so sure, as round
as her face, Hines pink and apple,
under one of those frame hats women then
This, is no bare incoming
of novel abstract form, this
is no welter or the forms
of those events, this,
Greeks, is the stopping
of the battle
....................It is the imposing
of all those antecedent predecessions, the precessions
of me, the generation of those facts
which are my words, it is coming
from all that I no longer am, yet am,
the slow westward motion of
more than I am
There is no strict personal order
for my inheritance.
........................No Greek will be able
to discriminate my body.
....................An American
is a complex of occasions,
themselves a geometry
of spatial nature.
....................I have this sense,
that I am one
with my skin
....................Plus this-plus this:
that forever the geography
which leans in
on me I compell
backwards I compell Gloucester
to yield, to
change
....................Polis
is this
a terra descendo à esquerda
onde meu pai atirava seu golfe ronhoso
e o resto de nós jogava beisebol
noite de verão adentro até haver mosca
nenhuma à vista e voltávamos para casa
em nossas várias piazzas onde mulheres
sibilavam
À esquerda a terra descia até a cidade,
à direita descia até o mar
Eu era tão jovem minha primeira memória
é de uma tenda armada para alimentar com lagostas
membros de uma convenção da Rexall, e meu pai,
piadista, saía da tenda rugindo
com uma faca de pão entre os dentes para cuidar
do farmacêutico que lhe disseram havia cantado
minha mãe, ela gargalhando, tão segura, redonda
como seu rosto, Hines rosácea e maçã,
sob um chapéu armado das mulheres de então
Isto não é adição nua
de novidade em forma abstrata, isto
não é tumulto ou as formas
de tais eventos, isto,
Gregos, é o término
da batalha
....................É a imposição
de todas aquelas ascendências passadas, os antepassados
meus, a geração daqueles fatos
que são minhas palavras, provêm
de tudo o que não sou mais, contudo sou,
o movimento lento de leste a oeste
de mais do que eu sou
Não há ordem estritamente pessoal
para a minha herança.
....................Grego nenhum será capaz
de discriminar meu corpo.
....................Um americano
é um complexo de ocasiões,
elas mesmas uma geometria
de natureza espacial.
....................Eu tenho esta noção
de que sou um
com minha pele
Mais isto - mais isto:
que eternamente a geografia
que sobre mim se debruça
eu ponho-me a coagir
retroativo a coagir Gloucester
a render-se, a
mudar
....................Pólis
é isto
tradução de Ricardo Domeneck
Maximus to Gloucester, Letter 27 [withheld]
I come back to the geography of it,
the land falling off to the left
where my father shot his scabby golf
and the rest of us played baseball
into the summer darkness until no flies
could be seen and we came home
to our various piazzas where the women
buzzed
To the left the land fell to the city,
to the right, it fell to the sea
I was so young my first memory
is of a tent spread to feed lobsters
to Rexall conventioneers, and my father,
a man for kicks, came out of the tent roaring
with a bread-knife in his teeth to take care of
the druggist they"d told him had made a pass at
my mother, she laughing, so sure, as round
as her face, Hines pink and apple,
under one of those frame hats women then
This, is no bare incoming
of novel abstract form, this
is no welter or the forms
of those events, this,
Greeks, is the stopping
of the battle
....................It is the imposing
of all those antecedent predecessions, the precessions
of me, the generation of those facts
which are my words, it is coming
from all that I no longer am, yet am,
the slow westward motion of
more than I am
There is no strict personal order
for my inheritance.
........................No Greek will be able
to discriminate my body.
....................An American
is a complex of occasions,
themselves a geometry
of spatial nature.
....................I have this sense,
that I am one
with my skin
....................Plus this-plus this:
that forever the geography
which leans in
on me I compell
backwards I compell Gloucester
to yield, to
change
....................Polis
is this
1 104
Dan Pagis
Escrito a lápis em um vagão de trem lacrado
Aqui neste vagão
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu
("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu
("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)
1 439
Barrie Phillip Nichol
Poema do primeiro livro deThe Martyrology
dos santos que conhecemos a listagem segue
santinhoca desposou santoró
deu à luz santisse e santave
das famílias eis a mais antiga
santisse desposou santrio
deu à luz santlector
que desposou santagnes
deu à luz santargem
santave desposou santeto
deu à luz santrangulo
que não desposou
das outras famílias
estas mencionamos
santoente desposou santova
deu à luz sanjunção & santesta
sanjunção não desposou
santesta desposou santan
deu à luz seu filho
o sem registro
a esposa de santadaga caiu no olvido
deu à luz santruco& santeneja
deu à luz nenhúguem
perecendo no fogo que lector ateara
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
of those saints we know the listing follows
saint orm married saint rain
gave birth to saint iff and saint ave
this is the oldest family
saint iff married saint rive
gave birth to saint reat
who married saint agnes
gave birth to saint rand
saint ave married saint raits
gave birth to saint ranglehold
who did not marry
of the other families
these we mention
saint ill married saint ove
gave birth to saint and& saint rike
saint and did not marry
saint rike married saint ain
gave birth to their son
the nameless one
saint aggers wife is now forgotten
gave birth to saint ump & saint rap
gave birth to noone
dying in the fire reat had set
(from Martyrology 1)
458
Heiner Müller
O pai
I.
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
1 389
Kenneth Koch
Um trem pode esconder outro
Um trem pode esconder outro
(sinal num cruzamento de trem no Quênia)
Num poema uma linha pode esconder outra linha,
Como num cruzamento, um trem pode esconder outro trem
Isto é, se você está esperando para atravessar
Os trilhos, espere ao menos um momento depois que
O primeiro trem tiver partido. Também ao ler
Espere até você ter lido a linha seguinte –
Só então é seguro prosseguir a leitura.
Numa família uma irmã pode ocultar outra,
Então, quando você estiver paquerando uma delas, é melhor ter todas à vista
Caso contrário, ao descobrir uma você pode já estar amando outra
Se você é mulher, um pai ou um irmão podem esconder
O homem que você esperou para amar
Assim, sempre em frente a uma coisa, a outra
Como as palavras à frente dos objetos, sentimentos e idéias.
Um desejo pode esconder outro. E a reputação de alguém
Pode esconder a reputação de outro. Um cão pode ocultar
Outro num gramado, e se você consegue fugir do primeiro não necessariamente está a salvo
Um lilás pode esconder outro e então vários lilases e na Via Ápia uma sepultura
Pode esconder uma quantidade de outras sepulturas. No amor, uma censura pode esconder outra,
Uma pequena queixa pode esconder outra enorme.
Uma injustiça pode esconder outra – um colono pode esconder outro
Um uniforme vermelho gritante, outro e, outro, uma coluna inteira. Um banho pode apagar outro banho
Como quando depois de tomar banho você sai na chuva
Uma idéia pode esconder outra: A vida é simples
Esconder a vida é incrivelmente complexo, como na prosa de Gertrude Stein
Uma linha esconde outra e é outra ao mesmo tempo. E no laboratório
Uma invenção pode esconder outra invenção,
Uma noite pode esconder outra, uma sombra, um ninho de sombras
Um vermelho escuro, ou um azul, ou um púrpura – esta é uma pintura
Feita depois de Matisse. Alguém espera nos trilhos até que eles tenham passado,
Esses duplos escondidos ou, às vezes, parecidos. Um gêmeo idêntico
Pode esconder o outro. E pode mesmo haver mais ali! O obstetra
Olha para o Valley of the Var. Eu e minha mulher vivíamos ali, mas
Uma vida escondeu outra vida. Então ela se foi e eu fiquei.
Uma mãe agitada esconde a filha desengonçada. A filha por sua vez esconde
Sua própria filha agitada. Elas estão em
Uma estação de trem e a filha está carregando uma bolsa
Tão maior que a bolsa da mãe que acaba por escondê-la com êxito.
Ao se oferecer para carregar a bolsa da filha, vê-se confrontando pela mãe
E obrigado a carregar sua bolsa também. Alguém que pede carona
Pode esconder outra pessoa de propósito e uma xícara de café
Outra até que a pessoa fique ultra agitada. Um amor pode esconder outro amor ou o mesmo amor
Como quando “eu te amo” soa muito falso e encontra-se um
Amor melhor à espreita, como quando “estou cheio de dúvidas”
Esconde “tenho certeza de apenas uma coisa e é isso”
E também um sonho pode esconder outro como todos sabem, sempre. No Jardim do Éden
Adão e Eva podem esconder os verdadeiros Adão e Eva.
Jerusalém pode esconder outra Jerusalém.
Quando você chega a algo, pare para deixá-lo passar
Só então você poderá ver o que mais há ali. Em casa, não importa onde,
Caminhos internos apresentam perigo também; uma memória
Certamente esconde outra, de que fala aquela memória,
Como uma sucessão eterna para trás de entidades contempladas. Ao terminar de ler Uma viagem sentimental procure ao seu redor o Tristam Shandy, e veja se ele
Ainda está na estante, ele deve estar, e estará ainda mais forte
E mais denso e, conseqüentemente, tão escondido como Santa Maria Maggiore
Deve estar escondida por igrejas similares em Roma. Uma calçada
Pode esconder outra, como quando você adormece ali, e
Uma canção pode esconder outra canção: por exemplo “Stardust”
Esconde “What have they done to the Rain?” Ou vice-versa. Uma batida no andar de cima
Esconde o batuque da percussão. Um amigo pode esconder o outro, você se senta
[ao pé de uma árvore
Com um amigo e quando você se levanta para ir embora encontra outro
Com quem você teria preferido passar as horas conversando. Um professor,
Um médico, um êxtase, uma doença, uma mulher, um homem
Podem esconder outro. Pare para deixar o primeiro passar.
Você pensa Agora é seguro passar e então você é atropelado pelo seguinte.
Pode ser importante
Ter esperado pelo menos um momento para ver o que já estava ali.
(tradução de Marília Garcia,
publicada originalmente na revistaInimigo Rumor n. 20)
1 415
Edoardo Sanguineti
de Reisebilder
à funcionária da aduana em minissaia, que me escolheu com seus
[olhos de sibila
e de pomba, de dentro de uma fila interminável de viajantes em
[trânsito, eu disse
toda a verdade, confinado num séparé-confessionário de madeira
compensada:
.................disse que tenho um filho que estuda russo e alemão;
que Bonjour les amis, curso de língua francesa em 4 volumes, era
para minha mulher;
.................e estava pronto a dizer mais: sabia que foi
[Rosa Luxemburgo
quem lançou a palavra de ordem "socialismo ou barbárie"; e podia
fazer disso um madrigal estrepitoso:
........................mas suava, vasculhando os bolsos,
buscando em vão a conta do Operncafé; e então você irrompeu
arrastando atrás de si até os meninos, maravilhosos e maravilhados:
(a expulsávamos com os mesmos gestos duros, eu e minha beatriz
democrática de farda):
.................mas para mim o irreparável já se tinha consumado,
ali, na fronteira entre as duas Berlins: quarentão aos pés da guarda.
(tradução de Maurício Santana Dias)
600
Pierre Albert-Birot
Décimo-Terceiro Poema
Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
726
Jacques Brel
O último jantar
Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez
No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.
Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez
(tradução de Marília Garcia)
:
Le dernier repas
A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois
A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois
Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés
Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.
.
.
.
1 075
al-Khansa
31.
Filhos de Sulaym! Quando deparardes os homens de Faqas
num lugar estreito e de difícil acesso
Cumprimentai-os com vossos sabres, vossas lanças e uma
saraivada de golpes, na noite negra de alcatrão.
Fazei deles hordas debandadas, à memória de Sakhr, cuja
morte ainda não foi vingada,
E à de nossos cavaleiros, mortos lá embaixo, numa batalha
decidida apenas pelo destino.
Ele enfrentou Rabia no combate, e este lhe mergulhou no
peito
Uma lança reta, de nós flexíveis, de ferro aguçado como a
cabeça de um abutre.
E Rabia, neste mesmo instante, salvou-se, não interrom-
pendo a corrida desvairada.
Um cavalo esbelto e delgado levou-o para longe das lanças
de ferro cortante, como uma águia que abando-
na o ninho
De Khalid nos apoderamos, mas Awf o protegeu e libertou,
por sua própria conta.
Se em relação a Khalid houvessem seguido nosso conselho,
não continuaria ele a infligir tão duro tratamento
aos cavalos, até o fim dos tempos.
318
Lorine Niedecker
Poema
O varal está posto
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
Poem
Lorine Niedecker
The clothesline post is set
yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.
(tradução de Ricardo Domeneck)
///
Poem
Lorine Niedecker
The clothesline post is set
yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.
815
Kenneth Rexroth
Metempsicose
Dois meses de vida e já passam
Pelo rosto da minha filha
Rostos há muito passados e mortos.
METEMPSYCHOSIS
Two months old, already
Across my daughter’s face
Pass faces long past and dead.
794
Hilda Hilst
Teologia Natural
A cara do futuro ele não via. A vida, arremedo de nada. Então ficou pensando em ocos de cara, cegueira, mão corroida e pés, tudo seria comido pelo sal, brancura esticada da maldita, salgadura danada, infernosa salina, pensou óculos luvas galochas, ficou pensando vender o que, Tiô inteiro afundado numa cintilância, carne de sol era ele, seco salgado espichado, e a cara-carne do futuro onde é que estava? Sonhava-se adoçado, corpo de melaço, melhorança se conseguisse comprar os apetrechos, vende uma coisa, Tiô. Que coisa? Na cidade tem gente que compra até bosta embrulhada, se levasse concha, ostra, ah mas o pé não agüentava o dia inteiro na salina e ainda de noite à beira d'água salgada, no crespo da pedra, nas facas onde moravam as ostras. Entrou em casa. Secura, vaziez, num canto ela espiava e roia uns duros no molhado da boca, não era uma rata não, era tudo o que Tiô possuia, espiando agora os singulares atos do filho, Tiô encharcando uns trapos, enchendo as mãos de cinza, se eu te esfrego direito tu branqueia um pouco e fica linda, te vendo lá, e um dia te compro de novo, macieza na língua foi falando espaçado, sem ganchos, te vendo, agora as costas, vira, agora limpa tu mesma a barriga, eu me viro e tu esfrega os teus meios, enquanto limpas teu fundo pego um punhado de amoras, agora chega, espalhamos com cuidado essa massa vermelha na tua cara, na bochecha, no beiço, te estica mais pra esconder a corcova, óculos luvas galochas é tudo o que eu preciso, se compram tudo devem comprar a ti lá na cidade, depois te busco, e espanadas, cuidados, sopros no franzido da cara, nos cabelos, volteando a velha, examinando-a como faria exímio conhecedor de mães, sonhado comprador, Tiô amarrou às costas numas cordas velhas, tudo o que possuía, muda, pequena, delicada, um tico de mãe, e sorria muito enquanto caminhava.
("Pequenos Discursos. E um Grande" inFicções - SP: Quíron, 1977.)
997
Dambudzo Marechera
Há um dissidente na sopa eleitoral!
Não tenho ouvidos para slogans
É melhor que você cale a matraca
Eu corro quando é hora do EU TE AMO
Não venha com essa Eu vou ficar dessa vez
Eu corro quando é hora de THE FIGHT
Eu corro quando é hora do AVANTE
Não venha com essa Vamos trepar toda a noite
A lua não vai baixar
Primeiro desajeitada, lancinante de constrangedora
Mas com Vênus ascendendo, grito e pulo de alegria
Quando os lençóis estão finalmente em silêncio
Não pergunte "O que você está pensando?"
Não pergunte "Foi gostoso?"
Não se sinta mal porque estou fumando
Os inseguros é que perguntam e se sentem mal
Que dizem depois do ato "Me conte uma história"
E você já deve saber bem
Não fale em "CASAMENTO" se quiser que essa reconciliação
Venha a durar
:
There ´s a dissident in the election soup!
I have no ear for slogans
You may as well shut up your arse
I run when it"s I LOVE YOU time
Don"t say it I"ll stick around
I run when it"s A LUTA time
I run when it"s FORWARD time
Don"t say it we"ll fuck the whole night
The moon won"t come down
At first awkwardly, excruciatingly embarrassing
But with Venus ascending, a shout and leap of joy
When the sheets are at last silent
Don"t ask "What are you thinking?"
Don"t ask "Was it good?"
Don"t feel bad because I"m smoking
They ask and feel bad who are insecure
Who say after the act "Tell me a story"
And you may as well know
Don"t talk of "MARRIAGE" if this reconciliation
is to last.
Quem usou minha mochila nova!?
Tive esse pesadelo
Pegava meu irmão estourava seu cérebro
Ao acordar encontrava atrasado o aluguel
Tive esse sonho
Pegava minha irmã pruma foda
Ao acordar lá estavam os B.O.´s
Tentei dar um jeito na noite de sol
Ladrão cafetão tudo só na lábia
Ao voltar a PM já metia o pé na porta do barraco
E eu que achei que até um filho-da-puta
Diziam que tinha FAMÍLIA
Suas desculpas esfarrapadas me devolveram
Aos chutes noite adentro.
Agora não há o que fazer só não pensar
Sim não pensar é o único tabu
Mochila de Pandora dentro do anarquista
E sua mentícula
:
Who´s used my new rucksack!?
Had this nightmare
Bashed out my brother"s brains
Woke to find I owed rent
Had this dream
Fucking my sister
Woke to find final demands
Tried to sort out the sunlit night
Thieving pimping talk it outright
Got back bailiffs were breaking down the door
And I thought even a son-of-a-bitch"s
Supposed to have FAMILY
Their scraps of excuses kicked me back
Into the night
Now there"s nothing but not to think
Yes not-to-think is the only taboo
The Pandora"s rucksack inside the anarchist"s
Tiny mind
É melhor que você cale a matraca
Eu corro quando é hora do EU TE AMO
Não venha com essa Eu vou ficar dessa vez
Eu corro quando é hora de THE FIGHT
Eu corro quando é hora do AVANTE
Não venha com essa Vamos trepar toda a noite
A lua não vai baixar
Primeiro desajeitada, lancinante de constrangedora
Mas com Vênus ascendendo, grito e pulo de alegria
Quando os lençóis estão finalmente em silêncio
Não pergunte "O que você está pensando?"
Não pergunte "Foi gostoso?"
Não se sinta mal porque estou fumando
Os inseguros é que perguntam e se sentem mal
Que dizem depois do ato "Me conte uma história"
E você já deve saber bem
Não fale em "CASAMENTO" se quiser que essa reconciliação
Venha a durar
:
There ´s a dissident in the election soup!
I have no ear for slogans
You may as well shut up your arse
I run when it"s I LOVE YOU time
Don"t say it I"ll stick around
I run when it"s A LUTA time
I run when it"s FORWARD time
Don"t say it we"ll fuck the whole night
The moon won"t come down
At first awkwardly, excruciatingly embarrassing
But with Venus ascending, a shout and leap of joy
When the sheets are at last silent
Don"t ask "What are you thinking?"
Don"t ask "Was it good?"
Don"t feel bad because I"m smoking
They ask and feel bad who are insecure
Who say after the act "Tell me a story"
And you may as well know
Don"t talk of "MARRIAGE" if this reconciliation
is to last.
Quem usou minha mochila nova!?
Tive esse pesadelo
Pegava meu irmão estourava seu cérebro
Ao acordar encontrava atrasado o aluguel
Tive esse sonho
Pegava minha irmã pruma foda
Ao acordar lá estavam os B.O.´s
Tentei dar um jeito na noite de sol
Ladrão cafetão tudo só na lábia
Ao voltar a PM já metia o pé na porta do barraco
E eu que achei que até um filho-da-puta
Diziam que tinha FAMÍLIA
Suas desculpas esfarrapadas me devolveram
Aos chutes noite adentro.
Agora não há o que fazer só não pensar
Sim não pensar é o único tabu
Mochila de Pandora dentro do anarquista
E sua mentícula
:
Who´s used my new rucksack!?
Had this nightmare
Bashed out my brother"s brains
Woke to find I owed rent
Had this dream
Fucking my sister
Woke to find final demands
Tried to sort out the sunlit night
Thieving pimping talk it outright
Got back bailiffs were breaking down the door
And I thought even a son-of-a-bitch"s
Supposed to have FAMILY
Their scraps of excuses kicked me back
Into the night
Now there"s nothing but not to think
Yes not-to-think is the only taboo
The Pandora"s rucksack inside the anarchist"s
Tiny mind
941
Dambudzo Marechera
Costumava gostar de tomates
Eu me canso do sangue
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra
:
I used to like tomatoes
I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra
:
I used to like tomatoes
I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.
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António José Forte
Memorial
As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
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