Poemas neste tema
Infância
Maria Ângela Alvim
A volta
Tão só em prosseguir busquei sentido
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.
Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.
E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,
tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo.
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.
Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.
E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,
tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo.
1 159
Audre Lorde
Encarando
chove há cinco dias
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
.
.
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
.
.
1 037
Luiza Neto Jorge
Anos Quarenta, os Meus
De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavao alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma
alma e ar reféns dentro do pulmao
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mao ).
Salazar tres vezes, no eco da aula.
As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos
que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.
Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavao alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma
alma e ar reféns dentro do pulmao
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mao ).
Salazar tres vezes, no eco da aula.
As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos
que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.
Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.
1 433
Orlando Mendes
Para um fabulário
Fazei as medições convencionais
Por esbatido que seja o horizonte
Declarai que existe uma fronteira
Onde a dor já não possa calar-se
Guardai incontaminada a esperança
Pelo desespero de um e outro lado
Apagai na vossa terra bem amada
Os vestígios de passos paralelos
Deixai envelhecer nos rostos viris
As rugas impregnadas de silêncio
Escutai a noite que o vento possui
Com a sedução das palavras matinais
Escolhei um dia claro e fecundo
De flores abertas, amor consumado
E contai a todas as crianças, contai
Que se fundou o pais das maravilhas.
Por esbatido que seja o horizonte
Declarai que existe uma fronteira
Onde a dor já não possa calar-se
Guardai incontaminada a esperança
Pelo desespero de um e outro lado
Apagai na vossa terra bem amada
Os vestígios de passos paralelos
Deixai envelhecer nos rostos viris
As rugas impregnadas de silêncio
Escutai a noite que o vento possui
Com a sedução das palavras matinais
Escolhei um dia claro e fecundo
De flores abertas, amor consumado
E contai a todas as crianças, contai
Que se fundou o pais das maravilhas.
1 067
Virgilio Pires
Mané Fú
Louco que povoou a minha infância
Que contava histórias maravilhosas
Histórias de Branca Flor
De bruxas e de princesas
Mané Fú Mané de Deus
Que tinha o corpo todo preto
Mas as palmas das mãos brancas
Porque as sextas-feiras subia aos céus
E ia banhar os anjos
Mané Fú Mané de Deus
Outras histórias me empolgam hoje
Histórias de crianças famintas
(Lembro-me do filho da Violante
Que comia a cal das paredes)
Histórias de velhos abandonados
(Como aquele que morreu a chorar
No Pavilhão de Alienados
E não era doido)
Histórias de prostitutas
(Ah! humilhadas amigas)
Histórias tristes nunca divulgadas
Que contava histórias maravilhosas
Histórias de Branca Flor
De bruxas e de princesas
Mané Fú Mané de Deus
Que tinha o corpo todo preto
Mas as palmas das mãos brancas
Porque as sextas-feiras subia aos céus
E ia banhar os anjos
Mané Fú Mané de Deus
Outras histórias me empolgam hoje
Histórias de crianças famintas
(Lembro-me do filho da Violante
Que comia a cal das paredes)
Histórias de velhos abandonados
(Como aquele que morreu a chorar
No Pavilhão de Alienados
E não era doido)
Histórias de prostitutas
(Ah! humilhadas amigas)
Histórias tristes nunca divulgadas
1 003
Pedro Corsino Azevedo
Terra longe
Aqui, perdido, distante
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
mimha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sonho que não vinha.
"Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente"
A doce toada
meu sono caía de manso
da boca de minha mãe:
"Cala, cala, meu menino,
terra-longe tem gente gentio
gente-gentio come gente".
Depois vieram os anos,
e, com eles, tantas saudades!...
Hoje, lá no fundo, gritam: vai!
Mas a voz da minha mãe,
a gemer de mansinho
cantigas da minha infância,
aconselha ao filho amado:
"Terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente".
Terra-longe! terra-longe!...
- Oh mãe que me embalaste
- Oh meu querer bipartido!
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
mimha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sonho que não vinha.
"Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente"
A doce toada
meu sono caía de manso
da boca de minha mãe:
"Cala, cala, meu menino,
terra-longe tem gente gentio
gente-gentio come gente".
Depois vieram os anos,
e, com eles, tantas saudades!...
Hoje, lá no fundo, gritam: vai!
Mas a voz da minha mãe,
a gemer de mansinho
cantigas da minha infância,
aconselha ao filho amado:
"Terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente".
Terra-longe! terra-longe!...
- Oh mãe que me embalaste
- Oh meu querer bipartido!
2 315
Luis Romano
Símbolo
O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.
Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.
Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".
1 298
Jorge Pedro Barbosa
Canção de embalar
"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."
Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.
Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...
Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...
Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."
Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...
"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."
Volta-se e torna a dormir...
Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...
pra não vir Ti Lobo..."
Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.
Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...
Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...
Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."
Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...
"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."
Volta-se e torna a dormir...
Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...
1 314
Mário António
Rua de Maianga
Rua da Maianga
que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nos somente
a rua da Maianga
Rua da Maianga ás duas horas da tarde
lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!
Rua da Maiaga ás seis horas e meia
apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga de pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infãncia passada!
(Nene foi levado pró hospital
meus olhos encontraram Nene morto
meu companheiro de infância de olhos vivos
seu corpo morto numa pedra fria!)
Rua da Maianga a qualquer hora do dia
as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inacabados!)
as mocas nas janelas fingindo costurar
a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
á porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)
Rua da Maianga a qualquer hora
o liso alcatrão e as suas casas
as eternas mocas de muro
Rua da Maianga me lembrando
meu passado inutilmente belo
inutilmente cheio de saudade!
que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nos somente
a rua da Maianga
Rua da Maianga ás duas horas da tarde
lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!
Rua da Maiaga ás seis horas e meia
apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga de pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infãncia passada!
(Nene foi levado pró hospital
meus olhos encontraram Nene morto
meu companheiro de infância de olhos vivos
seu corpo morto numa pedra fria!)
Rua da Maianga a qualquer hora do dia
as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inacabados!)
as mocas nas janelas fingindo costurar
a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
á porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)
Rua da Maianga a qualquer hora
o liso alcatrão e as suas casas
as eternas mocas de muro
Rua da Maianga me lembrando
meu passado inutilmente belo
inutilmente cheio de saudade!
1 815
João Melo
Sol no muceque
Redonda lâmpada acesa
a amarela luz alastrando-se
por sobre o zinco das cubatas
Os fartos cabelos
das mulembeiras
raparigas cartando água
no chafariz
Meninos de barriga inchada
brincando com bola ou
tampas de garrafa
a amarela luz alastrando-se
por sobre o zinco das cubatas
Os fartos cabelos
das mulembeiras
raparigas cartando água
no chafariz
Meninos de barriga inchada
brincando com bola ou
tampas de garrafa
1 851
Torquato Neto
A Rua
toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba
de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas
atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão
de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão
ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu
ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade
ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
1 969
Torquato Neto
Deus vos Salve a Casa Santa
um bom menino perdeu-se um dia
entre a cozinha e o corredor
o pai deu ordem a toda família
que o procurasse e ninguém achou
a mãe deu ordem a toda polícia
que o perseguisse e ninguém achou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
no apartamento vizinho ao meu
que fica em frente ao elevador
mora uma gente que não se entende
que não entende o que se passou
maria amélia, filha da casa,
passou da idade e não se casou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
um trem de ferro sobre o colchão
a porta aberta pra escuridão
a luz mortiça ilumina a mesa
e a brasa acesa queima o porão
os pais conversam na sala e a moça
olha em silêncio pro seu irmão
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Caetano Velos
entre a cozinha e o corredor
o pai deu ordem a toda família
que o procurasse e ninguém achou
a mãe deu ordem a toda polícia
que o perseguisse e ninguém achou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
no apartamento vizinho ao meu
que fica em frente ao elevador
mora uma gente que não se entende
que não entende o que se passou
maria amélia, filha da casa,
passou da idade e não se casou
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
um trem de ferro sobre o colchão
a porta aberta pra escuridão
a luz mortiça ilumina a mesa
e a brasa acesa queima o porão
os pais conversam na sala e a moça
olha em silêncio pro seu irmão
ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Caetano Velos
1 669
Castro Alves
Lúcia
Na formosa estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna;
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?!...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosse filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Co'as roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"
Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
----------
Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.
Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então co'a natureza.
"Adeus! p'ra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto!...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."
Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos:
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
..............................................
Depois além, um grupo informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo...
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
... Era o lencinho trêmulo de Lúcia...
EPÍLOGO
Muitos anos correram depois disto...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co' o cântaro à cabeça — pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros...
Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueless versos...
De repente, Lembrei-me... "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou... fitou-me pasma,
Soltou um grito... e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio...
Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata... a pobre Lúcia!
São Paulo, 30 de abril de 1868.
Imagem - 00030002
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos — crianças —
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.
Ela era a cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna;
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?!...
Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosse filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Co'as roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,
Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"
Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
----------
Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.
Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então co'a natureza.
"Adeus! p'ra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto!...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."
Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos:
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."
..............................................
Depois além, um grupo informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo...
Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
... Era o lencinho trêmulo de Lúcia...
EPÍLOGO
Muitos anos correram depois disto...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
— Co' o cântaro à cabeça — pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros...
Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueless versos...
De repente, Lembrei-me... "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou... fitou-me pasma,
Soltou um grito... e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio...
Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata... a pobre Lúcia!
São Paulo, 30 de abril de 1868.
Imagem - 00030002
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
2 001
Bernardo Guimarães
Minha Rede
CANÇÃO
Minha rede preguiçosa
Amorosa,
Em teu seio me embalança;
Quero ler nos céus risonhos
Doces sonhos
De ventura e de esperança.
Neste lânguido deleixo
Correr deixo
Minha vida descuidosa,
Contemplando ali defronte
No horizonte
Uma nuvem cor-de-rosa.
Pelo vão dessa janela,
Pura e bela,
Eu a vejo deslizar;
Pelo campo etéreo voga
Qual piroga
Cortando o cerúleo mar.
Linda nuvem, quem me dera
Pela esfera
Em teus ombros ir boiando,
E pairando sobre os montes,
Horizontes
Infinitos devassando!
Veria da minha terra
A alta serra,
Que há tanto tempo deixei;
E veria na janela
A donzela
Por quem tanto suspirei.
E os lares de minha infância,
Em distância
Pelo menos eu veria,
E as campinas, os ribeiros,
E os coqueiros,
A cuja sombra dormia...
(...)
Se penso nos meus amores,
Entre flores
Me sorri doce esperança:
E entre sonhos cor-de-rosa,
Amorosa,
Minha rede me embalança.
Os pesares, os queixumes,
Os ciúmes
Com horror dela se arredam;
Só prazeres sorridores,
Só amores
Em suas malhas se enredam.
Meus amigos, em mim crede:
Esta rede
Foi um presente divino;
Esta rede é encantada;
Uma fada
Me a deu em troco de um hino.
Minha rede sonolenta,
Vai mais lenta,
Vai-me agora embalançando;
Enquanto o suave sono
De teu dono
Sobre os olhos vem baixando.
Rio, abril de 1864
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
Minha rede preguiçosa
Amorosa,
Em teu seio me embalança;
Quero ler nos céus risonhos
Doces sonhos
De ventura e de esperança.
Neste lânguido deleixo
Correr deixo
Minha vida descuidosa,
Contemplando ali defronte
No horizonte
Uma nuvem cor-de-rosa.
Pelo vão dessa janela,
Pura e bela,
Eu a vejo deslizar;
Pelo campo etéreo voga
Qual piroga
Cortando o cerúleo mar.
Linda nuvem, quem me dera
Pela esfera
Em teus ombros ir boiando,
E pairando sobre os montes,
Horizontes
Infinitos devassando!
Veria da minha terra
A alta serra,
Que há tanto tempo deixei;
E veria na janela
A donzela
Por quem tanto suspirei.
E os lares de minha infância,
Em distância
Pelo menos eu veria,
E as campinas, os ribeiros,
E os coqueiros,
A cuja sombra dormia...
(...)
Se penso nos meus amores,
Entre flores
Me sorri doce esperança:
E entre sonhos cor-de-rosa,
Amorosa,
Minha rede me embalança.
Os pesares, os queixumes,
Os ciúmes
Com horror dela se arredam;
Só prazeres sorridores,
Só amores
Em suas malhas se enredam.
Meus amigos, em mim crede:
Esta rede
Foi um presente divino;
Esta rede é encantada;
Uma fada
Me a deu em troco de um hino.
Minha rede sonolenta,
Vai mais lenta,
Vai-me agora embalançando;
Enquanto o suave sono
De teu dono
Sobre os olhos vem baixando.
Rio, abril de 1864
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
3 245
Olegário Mariano
Arco-Íris
Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.
A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.
Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
2 235
Cora Coralina
Lucros e Perdas
I
Eu nasci num tempo antigo,
muito velho,
muito velhinho, velhíssimo.
(...)
III
Fui menina do tempo antigo.
Comandado pelos velhos:
Barbados, bigodudos, dogmáticos —
botavam cerco na mocidade.
Vigilantes fiscalizavam,
louvavam, censuravam.
Censores acatados. Ouvidos.
Conspícuos.
Felizmente, palavra morta.
(...)
V
Fui moça desse tempo.
Tive meus muitos censores
intra e extra-lar.
Botaram-me o cerco.
Juntavam-se, revelavam-se
incansáveis. Boa gente.
Queriam me salvar.
VI
Revendo o passado,
balanceando a vida...
No acervo do perdido,
no tanto do ganhado
está escriturado:
" — Perdas e danos, meus acertos.
— Lucros, meus erros.
Daí a falta de sinceridade nos meus versos".
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
Eu nasci num tempo antigo,
muito velho,
muito velhinho, velhíssimo.
(...)
III
Fui menina do tempo antigo.
Comandado pelos velhos:
Barbados, bigodudos, dogmáticos —
botavam cerco na mocidade.
Vigilantes fiscalizavam,
louvavam, censuravam.
Censores acatados. Ouvidos.
Conspícuos.
Felizmente, palavra morta.
(...)
V
Fui moça desse tempo.
Tive meus muitos censores
intra e extra-lar.
Botaram-me o cerco.
Juntavam-se, revelavam-se
incansáveis. Boa gente.
Queriam me salvar.
VI
Revendo o passado,
balanceando a vida...
No acervo do perdido,
no tanto do ganhado
está escriturado:
" — Perdas e danos, meus acertos.
— Lucros, meus erros.
Daí a falta de sinceridade nos meus versos".
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
3 740
Ribeiro Couto
Santos
Sobre a cidade a tarde cai de manso.
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
1 363
Ribeiro Couto
Infância
Dias de sol suave, de coloridos mansos,
Quando o verde dos matos é mais fresco e cheiroso
E pássaros piam nos esconderijos das árvores!
Vem à minha memória o tempo de menino,
A casa em que eu morava e o mato que havia em frente.
Meu irmão ia comigo buscar o coquinho selvagem
Que em cachos fartos pendia das palmeiras espinhosas.
Havia brejos, pontiagudos de caniços,
Espelhando o sol vertical nas águas lodosas.
Armávamos arapucas para as saracuras.
O saci-pererê morava nesse mato.
À noite
Vinham conversas monótonas de sapos
E pios impressionantes de inexplicáveis animais.
Dormíamos sonhando com aparições.
Mas na manhã seguinte, ao sol quente,
Íamos de novo apanhar saracuras,
Sem pensar mais nos terrores noturnos da véspera,
Esquecidos do saci-pererê.
Ó tempo de menino! Ó meu irmão que morreu
menino!
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
Quando o verde dos matos é mais fresco e cheiroso
E pássaros piam nos esconderijos das árvores!
Vem à minha memória o tempo de menino,
A casa em que eu morava e o mato que havia em frente.
Meu irmão ia comigo buscar o coquinho selvagem
Que em cachos fartos pendia das palmeiras espinhosas.
Havia brejos, pontiagudos de caniços,
Espelhando o sol vertical nas águas lodosas.
Armávamos arapucas para as saracuras.
O saci-pererê morava nesse mato.
À noite
Vinham conversas monótonas de sapos
E pios impressionantes de inexplicáveis animais.
Dormíamos sonhando com aparições.
Mas na manhã seguinte, ao sol quente,
Íamos de novo apanhar saracuras,
Sem pensar mais nos terrores noturnos da véspera,
Esquecidos do saci-pererê.
Ó tempo de menino! Ó meu irmão que morreu
menino!
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
1 137
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Joana Madalena
1
Cega, chuleava roupa.
Não via, mas chuleava.
E tinha noventa
anos. E era
cega.
Hoje talvez enxergue;
mas as cinzas não trabalham.
2
És a lua de ontem,
minha avó.
Ausente à vista, certa na memória;
tranquila na lembrança
como o pão e a roupa,
os livros que me deste.
E és um presente ao homem,
àquele que hoje sou,
feito de velhos dias:
com teus lençóis sem mancha
nas tardes de Lorena —
onde há lençóis, nuvens lavadas
em céus também lavados.
3
Tarde adentro a voz se ouvia
na varanda,
tarde adentro
(a tarde era profunda):
"O fim é que é triste.
Um belo romance, A Filha do Diretor do Circo.
Como a Dejanira lia bonito!
Leia um pouco, meu neto."
E o menino lia.
Colibris revoavam no alpendre,
das canangas e dos manacás e dos bambus do Japão
subia um meigo aroma,
e havia em tudo um sabor de fonte e de jambo,
e tudo era idílico e doce,
mesmo a voz das corruíras pelas calhas,
mesmo o coaxar das rãs na terra úmida.
Crescia o musgo nas paredes
e havia papoulas e jasmins-do-cabo e rosas-chá
e flores de araruta como borboletas brancas:
tudo tão distante...
Ó minha avó, ó lua de ontem,
ensinarei teu nome aos pássaros em fuga.
Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
Cega, chuleava roupa.
Não via, mas chuleava.
E tinha noventa
anos. E era
cega.
Hoje talvez enxergue;
mas as cinzas não trabalham.
2
És a lua de ontem,
minha avó.
Ausente à vista, certa na memória;
tranquila na lembrança
como o pão e a roupa,
os livros que me deste.
E és um presente ao homem,
àquele que hoje sou,
feito de velhos dias:
com teus lençóis sem mancha
nas tardes de Lorena —
onde há lençóis, nuvens lavadas
em céus também lavados.
3
Tarde adentro a voz se ouvia
na varanda,
tarde adentro
(a tarde era profunda):
"O fim é que é triste.
Um belo romance, A Filha do Diretor do Circo.
Como a Dejanira lia bonito!
Leia um pouco, meu neto."
E o menino lia.
Colibris revoavam no alpendre,
das canangas e dos manacás e dos bambus do Japão
subia um meigo aroma,
e havia em tudo um sabor de fonte e de jambo,
e tudo era idílico e doce,
mesmo a voz das corruíras pelas calhas,
mesmo o coaxar das rãs na terra úmida.
Crescia o musgo nas paredes
e havia papoulas e jasmins-do-cabo e rosas-chá
e flores de araruta como borboletas brancas:
tudo tão distante...
Ó minha avó, ó lua de ontem,
ensinarei teu nome aos pássaros em fuga.
Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 140
Manoel de Barros
Cabeludinho
1.
Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho
bem diferente de Iracema
desandando pouquíssima poesia
o que desculpa a insuficiência do canto
mas explica a sua vida
que juro ser o essencial
— Vai desremelar esse olho, menino!
— Vai cortar esse cabelão, menino!
Eram os gritos de Nhanhá.
(...)
5.
No recreio havia um menino que não brincava
com outros meninos
O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos
— Poeta!
O padre foi até ele:
— Pequeno, por que não brinca com os seus colegas?
— É que estou com uma baita dor de barriga
desse feijão bichado.
6.
Carta acróstica:
"Vovó aqui é tristão
Ou fujo do colégio
Viro poeta
Ou mando os padres..."
Nota: Se resolver pela segunda, mande dinheiro
para comprar um dicionário de rimas e um tratado
de versificação de Olavo Bilac e Guima, o do lenço.
7.
Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.
(...)
10.
Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido
e oscilante
como bambu
assobiando...
Ao longo das calçadas algumas famílias
ainda conversam
velhas passam fumo nos dentes mexericando...
Nhanhá está aborrecida com o neto que foi estudar
no Rio
e voltou de ateu
— Se é pra disaprender, não precisa mais estudar
Pasta um cavalo solto no fim escuro da rua
O rio calmo lá embaixo pisca luzes de lanchas
acordadas
Nhanhá choraminga:
— Tá perdido, diz que negro é igual com branco!
(...)
Imagem - 00780001
Publicado no livro Poemas Concebidos sem Pecado (1937).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho
bem diferente de Iracema
desandando pouquíssima poesia
o que desculpa a insuficiência do canto
mas explica a sua vida
que juro ser o essencial
— Vai desremelar esse olho, menino!
— Vai cortar esse cabelão, menino!
Eram os gritos de Nhanhá.
(...)
5.
No recreio havia um menino que não brincava
com outros meninos
O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos
— Poeta!
O padre foi até ele:
— Pequeno, por que não brinca com os seus colegas?
— É que estou com uma baita dor de barriga
desse feijão bichado.
6.
Carta acróstica:
"Vovó aqui é tristão
Ou fujo do colégio
Viro poeta
Ou mando os padres..."
Nota: Se resolver pela segunda, mande dinheiro
para comprar um dicionário de rimas e um tratado
de versificação de Olavo Bilac e Guima, o do lenço.
7.
Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.
(...)
10.
Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido
e oscilante
como bambu
assobiando...
Ao longo das calçadas algumas famílias
ainda conversam
velhas passam fumo nos dentes mexericando...
Nhanhá está aborrecida com o neto que foi estudar
no Rio
e voltou de ateu
— Se é pra disaprender, não precisa mais estudar
Pasta um cavalo solto no fim escuro da rua
O rio calmo lá embaixo pisca luzes de lanchas
acordadas
Nhanhá choraminga:
— Tá perdido, diz que negro é igual com branco!
(...)
Imagem - 00780001
Publicado no livro Poemas Concebidos sem Pecado (1937).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
7 484
Marcus Accioly
XVIII - Do Improviso
— Vamos rimar pé quebrado?
— Rima o pé que eu rimo a mão.
— Começa a dar seu recado.
— Eu comprei um caminhão
de lata e outro de flandre,
era um pequeno e outro grande,
mas depois...
— Eu vim e comprei os dois,
tirei as latas de doce
cortei o arame e acabou-se
tal estória...
— Nasceu outra da memória:
meu canário de gaiola
negociei numa bola
de jogar...
— E quando ela se furar,
corto da bola a borracha
faço um badoque de caça
e com um seixo...
— Ele se parte em teu queixo,
tu ficas de cara inchada
sem mais badoque nem nada.
Ainda rimas?
— Rimo rimas com meninas,
meninas feias com belas.
Vamos brincar nas janelas
de mangar?
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.43-44. (Série biblioteca juvenil
— Rima o pé que eu rimo a mão.
— Começa a dar seu recado.
— Eu comprei um caminhão
de lata e outro de flandre,
era um pequeno e outro grande,
mas depois...
— Eu vim e comprei os dois,
tirei as latas de doce
cortei o arame e acabou-se
tal estória...
— Nasceu outra da memória:
meu canário de gaiola
negociei numa bola
de jogar...
— E quando ela se furar,
corto da bola a borracha
faço um badoque de caça
e com um seixo...
— Ele se parte em teu queixo,
tu ficas de cara inchada
sem mais badoque nem nada.
Ainda rimas?
— Rimo rimas com meninas,
meninas feias com belas.
Vamos brincar nas janelas
de mangar?
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.43-44. (Série biblioteca juvenil
1 390
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 461
Marcus Accioly
VII - Do Caminhão no Caminho-Grande
Caminhão de tábua
de descer ladeira
desço numa prise
subo na primeira
passo a reduzida
meto o pé no freio
caminhão de tábua
carro-de-passeio.
— Chevrolet ou Ford?
— Não tem marca assim.
— Tem muita ferrugem?
— Tem muito cupim.
— Tem boa buzina?
— Tem o seu au-au.
— Tem os pneus novos?
— Tem rodas de pau.
Caminhão de tábua
muito corredor
pois qualquer descida
serve de motor
sua gasolina
não precisa não
pois ele é de tábua
mas é caminhão.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.27-28. (Série biblioteca juvenil
de descer ladeira
desço numa prise
subo na primeira
passo a reduzida
meto o pé no freio
caminhão de tábua
carro-de-passeio.
— Chevrolet ou Ford?
— Não tem marca assim.
— Tem muita ferrugem?
— Tem muito cupim.
— Tem boa buzina?
— Tem o seu au-au.
— Tem os pneus novos?
— Tem rodas de pau.
Caminhão de tábua
muito corredor
pois qualquer descida
serve de motor
sua gasolina
não precisa não
pois ele é de tábua
mas é caminhão.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. Il. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.27-28. (Série biblioteca juvenil
1 364
Alberto da Costa e Silva
Hoje: Gaiola sem Paisagem
Nada quis ser, senão menino. Por dentro e por fora, menino.
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.8
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.8
1 836