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Poemas neste tema

Justiça e Igualdade

Luís Gama

Luís Gama

No Cemitério de S Benedito da Cidade de S Paulo

Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Ah! caia sobre ela uma só lágrima
De gratidão ao menos.
Dr. B. GUIMARÃES

Em lúgubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das hórridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrílegos tiranos,
Dorme o sono feliz da eternidade.

Não cercam a morada lutuosa
Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
Pesada laje de espartano mármore.
Somente levantando um quadro negro
Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
— Descansam neste lar caliginoso
O mísero cativo, o desgraçado!...

Aqui não vem rasteira a vil lisonja
Os feitos decantar da tirania,
Nem ofuscando a luz da sã verdade
Eleva o crime, perpetua a infâmia.

Aqui não se ergue altar, ou trono d'ouro
Ao torpe mercador de carne humana,
Aqui se curva o filho respeitoso
Ante a lousa materna, e o pranto em fio
Cai-lhe dos olhos revelando mudo
A história do passado. Aqui, nas sombras
Da funda escuridão do horror eterno,
Dos braços de uma cruz pende o mistério,
Faz-se o cetro bordão, andrajo a túnica,
Mendigo o rei, o potentado escravo!


Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.128-129. (Últimas gerações, 4
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Gonçalves Dias

Gonçalves Dias

XII

(...)

E o ancião me disse:

"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e
milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de
consciência.

"Os Delegados da Nação, que não contam com o
voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.

"Porque o vosso povo, que não tem consciência,
por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que
lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um
chefe de partido às tontas improvisado.

"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma
nota desacreditada, com que por engodo lhe terão
arremessado.

"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em
que ele devia ser soberano e impor lei aos homens
que os espezinham!

"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em
que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por
um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo
da sua ignomínia!

"E os vossos homens de estado estribam-se nas
revoluções como num ponto de apoio, e como as
salamandras, eles querem viver no elemento que a
todos asfixia.

"E não pelejais por amor do progresso, como
vangloriosamente ostentais.

"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —
e o que realizar uma obterá a outra.

"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque
a vossa política não é de idéias — porém de cousas.

"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas
palavras — egoísmo e loucura — ".

Assim falou o ancião.


Poema integrante da série Capítulo III.

In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8
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Luís Gama

Luís Gama

Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom

(...)

Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

(...)

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Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)

NOTA: Poema composto de 13 parte
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Luís Gama

Luís Gama

O Rei Cidadão

(Dois Metros de Política)

O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos

É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
— Que o Rei da mista forma é velhacão.

No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
— Reina o Rei, não governa — é o problema;
— Mas, se reina, governa: eis o dilema!
— Não só reina, governa e administra —
É suprema doutrina monarquista.

De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão — republicano!

(...)


Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.160-161. (Últimas gerações, 4
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Luís Gama

Luís Gama

O Barão da Borracheira

Quando pilho um desses nobres,
Ricos só d'áureo metal
Mas d'espírito tão pobres
Que não possuem real,
Não lhes saio do costado,
— Sei que é trabalho baldado,
Porque a pele dura têm;
Mas eu fico satisfeita,
Que o meu ferrão só respeita
A virtude, e mais ninguém!
F.X. DE NOVAIS - A Vespa

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.

Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!

Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!

Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!...

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Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.110-111. (Últimas gerações, 4)

NOTA: Epígrafe tirada do poema "A Vespa", do livro NOVAS POESIAS (Porto, 1958), de Faustino Xavier de Novai
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Luís Gama

Luís Gama

Pacotilha

Não ralhem, não façam bulha,
Que eu não sei se isto é pulha.
Polca

(...)

Se trôpego velho
De queixo caído,
Dengoso e rendido,
Com moça se liga;
Lá quando mal cuida
Na fronte lhe saltam,
Relevos que esmaltam,
Em forma de espiga.

Se rapa o que pode
Finório empregado,
Campando de honrado,
Cuidando que brilha;
Em dia aziago
Tropeça, baqueia,
E vai, na cadeia,
Juntar-se à quadrilha.

Se impinge nobreza
Brutal vendilhão,
Que sendo Barão,
Já pensa que é gente;
Aqueles que o viram
Cebolas vendendo
Vão sempre dizendo —
Que o lorpa é demente.

Se em peitos que fervem
Infâmias tremendas
Avultam comendas
E prêmios de honor;
É que, com dinheiro,
Os rudes cambetas
Se levam das tretas
E mudam de cor.

Se fino larápio
De vícios coberto,
Com foros d'esperto,
De honrado se aclama;
É que a ladroeira.
Banindo o critério,
Firmou seu império
C'o gente de fama.

Se audaz rapinanto,
Fidalgo ou Barão,
Por ser figurão,
Triunfa da Lei;
É que há Magistrados
Que empolgam presentes
Fazendo inocentes
Os manos da grei.

Mulato esfolado,
Que diz-se fidalgo,
Porque tem de galgo
O longo focinho;
Não perde a catinga,
De cheiro falace,
Ainda que passe
Por bráseo cadinho.

E se eu que pretácio,
D'Angola oriundo,
Alegre, jucundo,
Nos meus vou cortando;
É que não tolero
Falsários parentes,
Ferrarem-me os dentes,
Por brancos passando.


Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.69-70. (Últimas gerações, 4
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Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

Nhanhã

Um dia apresentaram-me. Ela lia
Num canto do salão.
Deixou cair aos pés o livro, — e ria
Estendendo-me a mão.

Mão de princesa, fina, delicada,
De tão macio alvor
Qual se a talhara alguma boa fada
No cálix de uma flor.

Era no campo. As auras forasteiras
Suspiravam no ar,
Frescas do grato odor das laranjeiras,
Dos raios do luar.

Surda uma voz ao longe ressoava
Em doloridos ais...
Quem canta? perguntei. — Ora! uma escrava!
Disse ela. E nada mais.

Falou-me então das valsas delirantes
De Strauss e do furor
Dos novos cotillons. Disse-me: — Dantes
Valsava-se melhor.

E a voz da escrava como um ai de morte
Adejava ao luar...
— "Li, há dois dias, num jornal da corte
Que a Patti vai chegar:

Será verdade? Ah! quem me dera! A moda
Renascerá enfim!"
E ela, a bater as mãos, ria-se toda
Olhando para mim.

Contemplei melancólico o semblante
Dessa virgem feliz:
Era mais alva que ao luar errante
As pálidas willis;

Era tão doce como a Fantasia
Dum bardo sonhador:
Lamartine colhera uma Harmonia
Nos lábios dessa flor.

E enquanto o seu olhar negro brilhava
Como a onda ao luar,
E a suspirosa aragem derramava
O aroma do pomar;

Enquanto aquela boca fulgurante
Mais pura que os cristais,
Repetia-me a crônica elegante
Dos últimos jornais;

A voz da escrava — trêmula, queixosa,
Expirou na amplidão,
Longa como uma nênia dolorosa,
Triste como a paixão.


Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Livr. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Eu me curvo ao destino de meu sexo; (Ato II, Cena I)

(...)

Eu me curvo ao destino de meu sexo;
É preciso viver no nosso mundo;
Receber como leis suas cadeias;
Ter o riso no rosto, e o pranto n'alma,
E dizer — sou feliz!... — Que sorte iníqua!
É a mulher excepcional vivente,
Que tem alma, e não querem que ela sinta!
Tem coração, e ordenam que não ame!...
A mulher sempre é vítima no mundo.
Sujeita des que nasce até que morre,
De pai passa a tutor, irmão, marido...
Sempre um senhor... (O nome é que se muda);
Sempre a seu lado um homem se levanta
Para pensar e desejar por ela;
Criança, junto a quem sempre vigiam;
Cego, que sempre pela mão se leva;
Eis a mulher!... eis o que eu sou, e todas!...
E ao muito se consegue ser amada;
É escrava, que num altar se prende,
Divindade, que em ferros se conserva.
E a quem se chama (Oh! irrisão!!!) SENHORA!
E portanto, eu serei como mil outras
Mártires nobres. Ver-me-ão passando
(Como essas tantas) Silenciosa... pálida
Sorrindo com o sorrir que esconde as mágoas:
Talvez digam ao ver-me — ela é ditosa!
Sim, que eu hei de saber (como outras fazem)
Abafar meus suspiros e gemidos,
E esconder os tormentos de minh'alma
Desse mundo egoísta, e sem piedade,
Que faz do homem "senhor" da mulher "mártir"

(...)


Publicado no livro O cego: drama em cinco atos em verso (1851).

In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.253. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Depoimento

Ano de 1966.
Eu, Affonso Romano de Sant'Anna,
aos moldes de Villon, meu mestre,
resolvo:
sem ter nada que ocultar,
versos que temer
ou desculpas a quem dar;
já no meio da vida, e no mundo
demais no meio para calar,
conhecedor de algumas terras,
de alguns corpos agrimensor,
sem tocar outro instrumento
que seu corpo e seu amor,
hoje longe da pátria
aos dezesseis — pregador,
hoje — profissão definida,
ontem — recados & marmitas,
hoje — sem dívidas e aluguéis,
ontem — aturdido com a festa
e hoje — demais na vida.

(...)

Neste ano de 66,
ano besta, não bissexto,
apocalíptico e fatídico,

em que artefatos amarelos explodem no mar da China
e meu povo curva a cabeça e se aniquila,

em que minha vida interna floresce
e no Vietnã arroz e carne fenecem,

em que em mim, violenta, a poesia sobrevém
e os distúrbios nos subúrbios negros recrudescem,

em que um amor mais belo e novo se acrescenta
tão logo um antigo e escasso se esvanece,

em que eu, de carro novo transito e rejubilo
e alguns amigos nas prisões padecem,

em que nos savings acounts tenho money
e pelos nordestes perdura a mesma fome.

Neste ano de 66,
esperado, implorado, fabricado, suportado,
neste ano
colho as vacas gordas que meu pai
ano após ano pelos cultos de vigília
esperava que viessem.
Me lembro que em tais natais
eu nada tinha, senão muito que aprender
e muito que aceitar;
e nada tendo, eu aprendia com meu pai
de qualquer jeito
— a graças dar.

Sei
que desta safra outros só colhem palha
ou que muitos encolhem os ossos e a morte
dos seus recolhem.
Sei
que dentro da mesma estória
irmãos mais velhos
vendem o mais novo como escória.
Mas sei
que a seca não tarda
e pra cada irmão que vendam
são sete anos de praga.

Não sei por quantos anos
este ano vai durar,
em que época terei que ler meu verso
ao reverso
e do que é lugar dos outros
farei meu ocupar.
Mas sou pronto pro adverso
e do que há por suportar.
Porque um ano de fausto
não apaga os de penar.

(...)



Publicado no livro Canto e palavra (1965).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
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Raul Pompéia

Raul Pompéia

A Perseguição às Cartomantes

A perseguição às cartomantes, que constitui boa parte do movimento da semana, não se pode dizer que esteja de acordo com a liberdade de cultos que existe e que se apregoa na atualidade.

Não há dúvida.

A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito, tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante... Porventura será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?

Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural. Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião, a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e curiosidade da ignorância.

A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação, vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou o cão.

Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam não foi ainda armada de apito para entrar em função. Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou de violência.

Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes, com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os tolos perdendo sempre.

Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima, que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço, por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?

Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela forma exterior de nenhum escândalo.

Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças aterradoras do xadrez?!

Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice; que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce; dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos, medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga, se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura simbólica da letra T.

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 355-357
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Pedro Tierra

Pedro Tierra

A Morte Anunciada de Josimo Tavares

1. 
Há um dizer
antigo
entre os homens da raça dos rios:
a morte quando se anuncia,
devora a sombra do corpo
e inventa a luz da solidão.

Você se afastou sob o sol.
Era 14 de abril.
Busquei-lhe a sombra
sobre o chão da rua
e não havia sombra.

Ainda busquei tocá-lo.
Falamos da vida
e da morte
(a arma que me matará
já está na oficina ...)
E você sorria manso
desde a defendida
solidão dos místicos.
Falamos da luta
e da necessidade de prosseguir
(os tecelões da morte
forçam os teares,
arrematam os fios
do tecido que te cobrirá ...)
2.
Incendiaram
nossas casas.
Destruíram plantações.
Saquearam celeiros.
Derrubaram cocais.
Envenenaram as águas.

Invadiram povoados.
Torturaram nossos pais.
Arrancaram as orelhas dos mortos.
Atiraram nos rios corpos mutilados
Derrubaram a cruz que erguemos,
sinal aceso de nossa memória.

Cortaram a língua dos nossos irmãos.
Violaram nossas filhas.
Assassinaram inválidos.
Queimaram a sangue e fogo
a terra que trabalhamos.

Quem emprestará a voz
ao idioma do perdão
e protegerá com súplicas
o riso dos assassinos?!
Aniquilaram a raiz da esperança.
Esgotou-se o tempo de tolerar
e desatou-se a hora da vingança:
o primitivo nome da justiça.
3.
Todos sabiam
dessa morte.
A cerca do latifúndio sabia.
Os pistoleiros, os assalariados da morte,
a polícia fardada e paisana, o GETAT,
os garimpeiros, os bêbados, as prostitutas,
as professorinhas, as beatas,
as crianças brincando no areal da rua
sabiam

Os homens da terra, os posseiros, os saqueados,
as mulheres alfabetizadas pela dor
e pela espera
sabiam.

O prefeito, o juiz, o delegado, a UDR,
os fazendeiros, os crápulas
sabiam.

As mãos dos assassinos
poliam as armas.

A igreja sabia
e esperava ..

A haste orgulhosa do babaçu
sabia.
E dobrava as palmas num lamento
e multiplicava a ciência dessa morte,

os passarinhos, o relógio dos templos
mastigando o comboio da horas
e não se deteve, a água dos rios
não se deteve, fluindo irremediável
a hora dessa morte.

A pedra dos caminhos
sabia
e permaneceu muda,
o vento sabia
               e anunciava seu gemido todavia indecifrável

Tuas sandálias sabiam
e continuaram a caminhar.

Eu, que nasci votado à alegria
e vivo a contar o rosário interminável
dos mortos
não fiz o verso,
                              espada de fúria,
           que cindisse em dois
o comboio das horas
e descarrilasse o tempo de tua morte.

Você sabia.
E sorria
apenas.
Como quem se lava
para chegar vestido
de algodão
e transparência
à hora da solidão.

Quem é esse menino negro
que desafia limites?

Apenas um homem.
Sandálias surradas.
Paciência e indignação.
Riso alvo.
Mel noturno.
Sonho irrecusável.

Lutou contra cercas.
Todas as cercas.
As cercas do medo.
As cercas do ódio.
As cercas da terra.
As cercas da fome.
As cercas do corpo.
As cercas do latifúndio.

Trago na palma da mão
um punhado de terra
que te cobriu.
Está fresca.
É morena, mas ainda não é livre
como querias.

Sei aqui dentro
que não queres apenas lágrimas.
Tua terra sobre a mesa
me diz com seu silêncio agudo
Meu sangue se
levantará
como um rio acorrentado
e romperá as cercas do mundo.

Um rio de sangues convocados
atravessará tua camisa
e ela será bandeira
sobre a cabeça dos rebelados.

Goiânia, maio/86
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