Poemas neste tema
Literatura e Palavras
José Tolentino Mendonça
Os Versos
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
1 959
1
Marina Tsvetaeva
Poetas
Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde -
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde -
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
1 927
1
Helder Moura Pereira
Escrevias pela noite fora Olhava-te, olhava
Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.
1 060
1
René Char
Commune Presence
Commune Presence
Tu es pressé décrire,
Comme si tu étais en retard sur la vie.
Sil en est ainsi fais cortège à tes sources.
Hâte-toi.
Hâte-toi de transmettre
Ta part de merveilleux de rébellion de bienfaisance.
Effectivement tu es en retard sur la vie,
La vie inexprimable,
La seule en fin de compte à laquelle tu acceptes de tunir,
Celle qui test refusée chaque jour par les êtres et par les choses,
Dont tu obtiens péniblement de-ci de-là quelques fragments décharnés
Au bout de combats sans merci.
Hors delle, tout nest quagonie soumise, fin grossière.
Si tu rencontres la mort durant ton labeur,
Reçois-là comme la nuque en sueur trouve bon le mouchoir aride,
En tinclinant.
Si tu veux rire,
Offre ta soumission,
Jamais tes armes.
Tu as été créé pour des moments peu communs.
Modifie-toi, disparais sans regret
Au gré de la rigueur suave.
Quartier suivant quartier la liquidation du monde se poursuit
Sans interruption,
Sans égarement.
Essaime la poussière
Nul ne décèlera votre union.
Tu es pressé décrire,
Comme si tu étais en retard sur la vie.
Sil en est ainsi fais cortège à tes sources.
Hâte-toi.
Hâte-toi de transmettre
Ta part de merveilleux de rébellion de bienfaisance.
Effectivement tu es en retard sur la vie,
La vie inexprimable,
La seule en fin de compte à laquelle tu acceptes de tunir,
Celle qui test refusée chaque jour par les êtres et par les choses,
Dont tu obtiens péniblement de-ci de-là quelques fragments décharnés
Au bout de combats sans merci.
Hors delle, tout nest quagonie soumise, fin grossière.
Si tu rencontres la mort durant ton labeur,
Reçois-là comme la nuque en sueur trouve bon le mouchoir aride,
En tinclinant.
Si tu veux rire,
Offre ta soumission,
Jamais tes armes.
Tu as été créé pour des moments peu communs.
Modifie-toi, disparais sans regret
Au gré de la rigueur suave.
Quartier suivant quartier la liquidation du monde se poursuit
Sans interruption,
Sans égarement.
Essaime la poussière
Nul ne décèlera votre union.
1 675
1
Alexandre O'Neill
Pelo Alto Alentejo-2
Meto butes á inteira planura.
Esboroa-se a terra.Lá pra trás,
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui,na aparência,só a paz.
Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco(ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?
Eu sei ler a cidade,mas,aqui,
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá,como o alibi
da paisagem que a outras me transporta.
Hei-de voltar pra ler e presumir,
quando Alentejo se puser a rir ...
in:Entre a Cortina e a Vidraça(1972)
Esboroa-se a terra.Lá pra trás,
sobraram o paleio e a literatura.
Aqui,na aparência,só a paz.
Mas que paz se desdobra a toda a anchura
do horizonte a que o olhar se faz?
Esta página em branco(ou sem leitura)
não terá uma chave por detrás?
Eu sei ler a cidade,mas,aqui,
sou um dedo parado em letra morta.
Uma guerra haverá,como o alibi
da paisagem que a outras me transporta.
Hei-de voltar pra ler e presumir,
quando Alentejo se puser a rir ...
in:Entre a Cortina e a Vidraça(1972)
4 394
1
João Maimona
Poema para Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra.
C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.
Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.
Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.
Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste apenas uma pedra
no meio do caminho.
No caminho doloroso das coisas.
C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.
Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.
Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.
Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste apenas uma pedra
no meio do caminho.
No caminho doloroso das coisas.
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1
Daniel Faria
Sabes, leitor
Sabes, leitor,que estamos ambos na mesma página
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
2 112
1
Daniel Faria
Cruz,rosa
Cruz,rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro.Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega.Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trepassado de sede.Árvore
Que bebe do homem.Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva.Verbo
Tão inteiro que se fez espelho
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Dos ventos sem direcção que não seja o centro.Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega.Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trepassado de sede.Árvore
Que bebe do homem.Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva.Verbo
Tão inteiro que se fez espelho
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
2 798
1
Fiama Hasse Pais Brandão
Sumário Lírico
Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
2 681
1
Alexandre O'Neill
Poesia-Cão
Com que então,coração,
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
poesia-aflição!
Antes poesia-cão
que é melhor posição.
Já que não és capaz
dos efes e dos erres
dessa solerte mão
que é a que preferes,
meu tolo desidério,
talvez seja mais sério
não te tomares a sério:
reduz-te ao impropério.
4 422
1
Ana Cristina Cesar
Flores Do Mais
Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
3 639
1
Judas Isgorogota
Atitudes
A poesia em mim era uma asa andeja
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
1 367
1
Gilka Machado
O Retrato fiel
O Retrato fiel
Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.
Toda milnha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.
Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.
Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.
Toda milnha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.
Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.
1 954
1
Ronaldo Cunha Lima
Fortuna Crítica
...um dos homens públicos que melhor conseguem conciliar a
vocação política com o interesse pela cultura.
Minha admiração por seu talento transpõe todas as
fronteiras geográficas. SÉRGIO ROUANET, da Academia
Brasileira de Letras.
É fácil observar que as poesias de Ronaldo Cunha Lima
retratam de sobremaneira a nossa realidade, principalmente
quando ele fala do sentimento humano. Ao ler suas poesias,
o homem apaixonado, ou que viveu um grande amor, encontra
o consolo desejado, amenizando mansamente a sua dor.
FLÁVIO SÁTIRO FILHO, advogado, poeta, ex-Secretário-Executivo
da Fundação Casa de José Américo.
Poeta por natureza, Ronaldo Cunha Lima faz da vida uma
poesia e dá vida à poesia que faz. A sua produção lírica
é feita com amor. O poeta não constrói como o pedreiro,
como o engenheiro, como o fabricante ou o industrial.
Não trabalha com ferro e cimento, mas sim com palavras,
sentimentos, emoções, vibrações, quase o êxtase. Ronaldo
domina os verbos e os substantivos, a metrificação, a
prosódia e o léxico, em palavras que ele controla e
conduz como autêntico mestre. O senador-poeta Ronaldo
Cunha Lima é um escravo e um senhor do poema. MURILO
MELLO FILHO, Membro da Academia Norte-Riograndense de
Letras e do PEN CLUBE DO BRASIL.
vocação política com o interesse pela cultura.
Minha admiração por seu talento transpõe todas as
fronteiras geográficas. SÉRGIO ROUANET, da Academia
Brasileira de Letras.
É fácil observar que as poesias de Ronaldo Cunha Lima
retratam de sobremaneira a nossa realidade, principalmente
quando ele fala do sentimento humano. Ao ler suas poesias,
o homem apaixonado, ou que viveu um grande amor, encontra
o consolo desejado, amenizando mansamente a sua dor.
FLÁVIO SÁTIRO FILHO, advogado, poeta, ex-Secretário-Executivo
da Fundação Casa de José Américo.
Poeta por natureza, Ronaldo Cunha Lima faz da vida uma
poesia e dá vida à poesia que faz. A sua produção lírica
é feita com amor. O poeta não constrói como o pedreiro,
como o engenheiro, como o fabricante ou o industrial.
Não trabalha com ferro e cimento, mas sim com palavras,
sentimentos, emoções, vibrações, quase o êxtase. Ronaldo
domina os verbos e os substantivos, a metrificação, a
prosódia e o léxico, em palavras que ele controla e
conduz como autêntico mestre. O senador-poeta Ronaldo
Cunha Lima é um escravo e um senhor do poema. MURILO
MELLO FILHO, Membro da Academia Norte-Riograndense de
Letras e do PEN CLUBE DO BRASIL.
1 392
1
Carlos Figueiredo
Goliardos
A Xisto Bahia Filho
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
Vós, que não podeis beber,
ide para longe destas festas.
Aqui não é lugar para abstêmios.
Baco, virás bem
acolhido e desejado.
Por ti nosso espírito
se torna alegre
ávido de sensualidade
mais que de saúde.
Pai nosso que estais nos copos
santificado
seja esse vinho.
Que venha o embriagado Baco
faça-se abundância de ti
assim no vinho como na taberna.
O pão nosso para comer nos dai hoje
e afastai de nós os copos grandes
assim como nós nos afastamos dos nossos
/beberrões
e não nos induza à tentação do vinho
mas livrai-nos das vestes.
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta
chogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no lardiscon di guardare.
As formas pensam.
O princípio barroco da subordinação
de todos os elementos arquiteturais
para produzir um efeito único
especular
do absolutismo central
do Pontífice.
No ar,
no alto,
a tensão rupestre
como um estigma na pedra.
A resplandecer
No Tao
Nos Upanichades, em Hesíodo.
Jaurais voulu vous répondre avant
lheure de la poste; Je
nai personne
à qui causer dArt, des poètes,
de lIdéal.
Il confond trop
LIdéal avec le Réel.
Depois, subitamente:
"Vinte anos após estes
acontecimentos
podia-se encontrar
nas ruas de Fougères
um velho ainda ereto etc."
Verdadeiramente embriagado
eu acreditava captar uma antiguidade
maravilhosa.
O mito é o nada que é tudo.
Os deuses vendem quando dão.
O ranger dos bambus
me diz que neva.
Notas do poema Goliardos
Goliardos
Os Goliardos eram uma espécie de beatniks, de freaks do
Século XII, beberrões, vagantes,"on the road", cuja
produção literária se constituiu em um dos marcos
precursores do Renascimento.
A origem do termo não está, ainda, estabelecida.
Alguns identificam os goliardos com Pedro Abelardo(1079-
1142), chamado, nos processos que lhe moveu a Igreja, de
Golias, inimigo da fé. Outros, ao fato deles beberem
e comerem como Golias.
......
Na Idade Média, durante séculos, os textos produzidos,
além de escassíssimos eram, em sua maioria esmagadora,
hagiológicos. Ao longo de cem anos, os anais de um
convento - de S. Benedito - registra tres passagens: Um
surto de peste, o falecimento de um abade tido como santo
e o desabamento da laje do altar.
Quando chega o Século XII "os fatos irrompem
esplêndidos". "Em meio a um frêmito, surgem novos
escritores enfim conscientes da utilidade prática da
História. Ressurge o Direito Romano e nascem escolas que
ressuscitam a atividade científica, em uma primeira tentativa de
laicisar a ciência, e arrebata-la das mãos do clero".
"Todas as classes sociais foram dominadas por um
sentimento vago de inquietação, que as incitava a
buscarem novas e ignotas regiões; que excitavam nelas
fantásticas aspirações a uma nova vida. Daqui o
fanatismo pelas viagens ao Oriente, pelas Cruzadas,
pelas peregrinações, pelas expedições longínquas e
perigosas. Esse sentimento invade também as escolas"
"Em busca de conhecimentos especializados, os estudantes
procuram em Paris as artes liberais. Em Aureliano
(Orleans) os autores, em Bolonha os códigos, em Salermo
as "pyxides" e em Toledo, os demônios. E assim, desses
encontros nas estradas, surgem os Goliardos.
À eles devemos uma das produções literárias da Idade
Média mais belas e características"
Apud Adolfo Bartoli in "Precursores do Renascimento".
Ed. Parma - 1983. Tradução do Prof. Valeriano Gomes do
Nascimento.
De "Vós que não podeis beber..." até "...se torna alegre"
transcrição de textos goliardos (Carmina Burana, 240),
op. cit. P. 37. Ver (ouvir) como Carl Orff cifra
(decifra), no coro de sua Carmina Burana o sentido
seminal do rompimento goliardo.
"Ávido de sensualidade/mais que de saúde" idem, (Carm.
Bur., pp. 67-69), op. cit. P. 39.40
De "Pai nosso que estais..." até "mas livra-nos das
vestes", idem, (Missa de Putatoribus - Missa dos
Bebedores - chamada também de Missa Glutonis - Missa
do Glutão), op. cit. P.43.
"Tanto gentile e tanto onesta pare..." até "e li occhi
no lardiscon de guardare" - Quadra primeira do Soneto XV
da "Vita Nuova". Dante, um século depois dos goliardos,
obra publicada em Florença em l292, que inaugura o Renascimento.
Tradução de Jorge Wanderley In "Vida Nova - Os Poemas",
Livraria Tauros; Livraria Timbre editores - 1988. P.61:
"Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar"
Há várias outras traduções desse soneto.
Conheço uma de Arduíno Bolívar in "30 Séculos de Poesia"
- Edições de Ouro, Coleção Clássicos de Bolso - 1966. P. 138.
E uma outra, que não cheguei a registrar
O soneto inteiro é assim
(cf. Dante Alighiere in "Vita Nuova",Garzanti Editore, 1982, P. 51):
Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quandella altrui saluta,
chogne lingua deven tremando muta
e li occhi no lardiscon di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente dumiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dá per li occhi una dolcezza al core,
che ntender no la può chi no la prova:
e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien damore,
che va dicendo a lanima: Sospira.
De "O princípio barroco..." até "...do Pontífice", cf.
Roger Bastide in "Psicanálise do Cafuné". Ed. Guaíra,
Coleção Caderno Azul - 1941. P. 46.
Vale a pena transcrever alguns trechos desse ensaio,
que - não fosse a universalidade do neolítico
- situa o barroco como o protótipo da linguagem globalizada.
C.f. P. 43 op. cit. :
" A Igreja, sendo internacional, quis uma arte interna-
cional; o poder pontificial só poderia caracterizar-se
por uma espécie de padronização da arte barroca, contra
o regionalismo medieval e contra a variedade de arquite-
turas próprias das antigas ordens religiosas. Isso é
muito claro na pintura, que se separa da cor local parti-
cular de cada província, para se tornar abstrata e
universal".
Cf. P. 46:
" Seja qual for a diversidade dos aspectos de que se
revista o barroco europeu segundo os vários países, ele
apresenta certo número de caracteres comuns: o vínculo
entre o monumento e o espaço onde se situa, a escolha do
local e da perspectiva; o princípio de subordinação de
todos os elementos arquiteturais para produzir um efeito
único; a importância da linha curva, um estilo de
movimento, as "formas que voam" que se opõem às "formas
que pensam"; a riqueza da decoração ligada ao caráter
sentimental, afetivo, dessa arte, à sua exuberância de
vida; o cromatismo, que se caracteriza pela escolha dos
materiais utilizados pela pintura, pelo amor ao ouro; o
papel da luz no jogo de sombras e do sol, especialmente
sobre a fachada; o ilusionismo que permite substituir as
paredes por meio<
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1
Albano Dias Martins
Como um
Como um
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.
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1
António Franco Alexandre
Julgavas,então,que a poesia era um discurso
de palavras em sentido?Sei quanto a musa aprecia
glória,poder e uniforme,quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida,afinal,anda lá fora,antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna,comparada ao arbusto
que,mal tocada a haste,se desvai em fumo.
Por isso eu fico lendo as crónicas,as lendas,
o jornal que,bem ou mal,cruza as palavras com o tempo,
e contudo!quando o lábio se engana,solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente,e então se diz:eis
a verdadeira e pura poesia!pois seria,talvez,
somente a tua mão,cobrindo a folha.
de As Moradas 1 a 3
glória,poder e uniforme,quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida,afinal,anda lá fora,antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna,comparada ao arbusto
que,mal tocada a haste,se desvai em fumo.
Por isso eu fico lendo as crónicas,as lendas,
o jornal que,bem ou mal,cruza as palavras com o tempo,
e contudo!quando o lábio se engana,solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente,e então se diz:eis
a verdadeira e pura poesia!pois seria,talvez,
somente a tua mão,cobrindo a folha.
de As Moradas 1 a 3
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1
Raimundo Bento Sotero
Sobre o autor :
1992-Medalha de ouro no XIII concurso nacional de poesia.
1993-Destaque especial no XIV concurso nacional de poesia.
1993-Membro da Academia Uruguaiana de Letras.
1994-Destaque especial no XV concurso nacional de poesia.
1994-Medalha cultural da Revista Brasília.
1994-Verbete da Enciclopédia Contemporânea Brasileira.
1994-Convite para uma seleta de poetas na Coréia e na China.
1995-Destaque especial no XVI concurso nacional de poesia.
1995-Medalha cultural É.DAlmeida Vítor.
1996-Colar do mérito cultural.
1997-Medalha Estella Brasiliense
1993-Destaque especial no XIV concurso nacional de poesia.
1993-Membro da Academia Uruguaiana de Letras.
1994-Destaque especial no XV concurso nacional de poesia.
1994-Medalha cultural da Revista Brasília.
1994-Verbete da Enciclopédia Contemporânea Brasileira.
1994-Convite para uma seleta de poetas na Coréia e na China.
1995-Destaque especial no XVI concurso nacional de poesia.
1995-Medalha cultural É.DAlmeida Vítor.
1996-Colar do mérito cultural.
1997-Medalha Estella Brasiliense
1 120
1
Daniel Faria
Voz no vento passando
Voz no vento passando entre poeira
Edifício
Árvore noutro poema
Fico à sombra da vide e do esteio no Outono
E enxerto a luz
Em tudo o que nomeio
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Edifício
Árvore noutro poema
Fico à sombra da vide e do esteio no Outono
E enxerto a luz
Em tudo o que nomeio
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 074
1
Alberto Marsicano Rodrigues
Haicai
Poema sem palavras
Harpa sem cordas
Portal sem portas.
Freme frágil folhas
fléxil flana flui
facho fléxil flutua
Harpa sem cordas
Portal sem portas.
Freme frágil folhas
fléxil flana flui
facho fléxil flutua
1 357
1
Amélia Rodrigues
Uma Simples Homenagem
Todos pensam que é fácil ser poeta
Fazer das lágrimas, versos
E acumulá-los de amor.
Mas existem os que lutam
Não só por si e por suas criações,
Como pelo engrandecimento dos valores ocultos...
Os que veem e ajudam a crescer beleza,
Em si e na humanidade...
Os que tentam, com os seus poemas,
Desobstruir os caminhos da vida
Deixando desfilar os seus versos
No corredor do coração do mundo.
Dentre estes, Soares Feitosa:
O singular "mensageiro do amor".
Fazer das lágrimas, versos
E acumulá-los de amor.
Mas existem os que lutam
Não só por si e por suas criações,
Como pelo engrandecimento dos valores ocultos...
Os que veem e ajudam a crescer beleza,
Em si e na humanidade...
Os que tentam, com os seus poemas,
Desobstruir os caminhos da vida
Deixando desfilar os seus versos
No corredor do coração do mundo.
Dentre estes, Soares Feitosa:
O singular "mensageiro do amor".
2 238
1
Fernando Pessoa
III - When I do think my meanest line shall be
When I do think my meanest line shall be
More in Time's use than my creating whole,
That future eyes more clearly shall feel me
In this inked page than in my direct soul;
When I conjecture put to make me seeing
Good readers of me in some aftertime,
Thankful to some idea of my being
That doth not even my with gone true soul rime;
An anger at the essence of the world,
That makes this thus, or thinkable this-wise,
Takes my soul by the throat and makes it hurled
In nightly horrors of despaired surmise,
And I become the mere sense of a rage
That lacks the very words whose waste might 'suage.
More in Time's use than my creating whole,
That future eyes more clearly shall feel me
In this inked page than in my direct soul;
When I conjecture put to make me seeing
Good readers of me in some aftertime,
Thankful to some idea of my being
That doth not even my with gone true soul rime;
An anger at the essence of the world,
That makes this thus, or thinkable this-wise,
Takes my soul by the throat and makes it hurled
In nightly horrors of despaired surmise,
And I become the mere sense of a rage
That lacks the very words whose waste might 'suage.
4 240
1
Fernando Pessoa
SONNET - Could I say what I think, could I express
SONNET
Could I say what I think, could I express
My every hidden and too-silent though,
And bring my feelings, in perfection wrought,
To one unforced point of living stress.
Could I breathe forth my soul, could I confess
The inmost secrets to my nature brought;
I might be great, yet none to me hath taught
A language well to figure my distress.
Yet day and night to me new whispers bring,
And night, and day from me old whispers take...
Oh for a word, one phrase in which to fling
All that I think and feel, and so to wake
The world; but I am dumb and cannot sing,
Dumb as You clouds before the thunders break.
Alexander Search, May 1904
Could I say what I think, could I express
My every hidden and too-silent though,
And bring my feelings, in perfection wrought,
To one unforced point of living stress.
Could I breathe forth my soul, could I confess
The inmost secrets to my nature brought;
I might be great, yet none to me hath taught
A language well to figure my distress.
Yet day and night to me new whispers bring,
And night, and day from me old whispers take...
Oh for a word, one phrase in which to fling
All that I think and feel, and so to wake
The world; but I am dumb and cannot sing,
Dumb as You clouds before the thunders break.
Alexander Search, May 1904
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1
Fernando Pessoa
Cantigas de portugueses
ALGUMAS QUADRAS
Cantigas de portugueses
São como barcos no mar –
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh'alma é
Moeu quem me deixa só.
Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.
Teu vestido porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.
Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.
Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isso já te o disse
Estavas farta de o saber...
Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?
Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De flor não ter coração?
Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesses o jeito
De ter lá um coração.
Cantigas de portugueses
São como barcos no mar –
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.
A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!
O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh'alma é
Moeu quem me deixa só.
Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.
Teu vestido porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.
Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.
Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isso já te o disse
Estavas farta de o saber...
Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?
Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De flor não ter coração?
Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesses o jeito
De ter lá um coração.
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