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Poemas neste tema

Nação e Patriotismo

Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Uma Honra, Perigosa Privilégio

Conta Serge Lifar que, ao receber um troféu de ouro, na Sagração da Primavera, Nijinski, Vaslav Fomitch Nijinski, o bailarino que dançava para dar glória a Deus e que escrevia no espaço a imagem efêmera e eterna de seus gestos e o sortilégio de seu corpo, recebeu a incubência de falar em nome dos demais agraciados. Ele, que não sabia fazer outra coisa, a não ser dançar, embaraçou-se, tropeçou, escorregou e caiu no palco. É o que temo que me aconteça aqui. Pois, além da emoção e da honra de receber pelas mãos fidalgas de Yolanda Queiroz, a Sereia de Ouro do Sistema Verdes Mares, nesta Sagração da Primavera de 1996, querem os ritos da cerimônia que eu fale também pelos outros contemplados. É uma honra. Um perigoso privilégio.
Como poderei expressar a graça e o encantamento de nossa grande Sinhá D’Amora? Ela é até minha prima distante — mas vamos nos aproximando. Pois, também eu pertenço ao clã daquela Dona Federalina Correia Lima. Sinhá D’Amora, hoje na adolescência pristina, de seus noventa anos, está no meu conhecimento e no meu bem-querer desde 1935 ou 36. Desde então, acostumei-me a encontrá-la no salão azul de minha doce e inesquecível amiga Julinha Galeno, que mantinha um verdadeiro Consulado do Ceará em sua bela casa de Ipanema. Guardo, daqueles tempos, a memória de sua leve estampa de mulher elegante e seus olhos sábios de ver as coisas e as pessoas, sempre ao lado da figura cavalheirisca e cordial de seu marido, Amora Maciel. Lembro-me de uma de suas primeiras exposições, creio que no salão mais conspícuo do Rio, no Palace Hotel. Seus pincéis, que já sugeriam um trânsito refinado entre o impressionismo francês e o expressionistas alemães, levaram depois suas cores e suas formas aos melhores espaços da Europa e dos Estados Unidos. O que ela recebe hoje é a gratidão do Ceará pelos momentos de beleza que nos traz. A mão e os olhos de um pintor, transfigurados em formas e cores, são sempre, como no verso de Keats, "a thing of beauty, a joy forever". Uma coisa de alegria, uma beleza para sempre. Por isso ela é hoje aqui agraciada, como na velha cantiga da infância, ao lado de três cavaleiros que a saúdam, todos três chapéu na mão.
Um deles é o meu velho amigo, o Dr. José Bonifácio da Silva Câmara, cheio de títulos e serviços na vida pública deste País. Mas o título maior, o que o traz a esta celebração, é o amor simultâneo pelo Ceará e pelos livros. Sou um velho rato de bibliotecas. As vivas e as mortas. Recebi, não faz muito tempo, um pequeno tratado de Umberto Eco sobre o corpo e a alma das bibliotecas. Com ele, percorri alguma delas. Como visitei, com Jorge Luis Borges, em seus delírios, no apartamento da Calle Maypu, em Buenos Aires, a Biblioteca de Babel e seu labirinto de livros, alguns em línguas que não existem mais. Como visitei, com Umberto Eco, as legendárias bibliotecas poligonais, de Nínive e de Samos, a de Pisístrato, em Atenas, e a de Alexandria que, com a de Serapion, tinha 700 mil volumes no século I. Vimos a de Pérgamo e a de Augusto e as 28 bibliotecas de Roma, do tempo de Constantino. E visitei, com minha mulher, as impressionantes bibliotecas de pedra na China e na Cochinchina, em Hanói e Xian, onde os livros são insculpidos na beleza rupestre das lâminas de granito. Mas a biblioteca que mais me comoveu, na verdade, foi aquela de mais de 6 mil volumes, na casa de José Bonifácio, todos eles escritos e editados no e sobre o Ceará. Como sabemos todos, a palavra biblioteca vem do grego — biblos — que quer dizer — livro — e — theke — que quer dizer — armário — e, pois, significa "armário de livros". A de José Bonifácio deveria se chamar "cardioteca" — é um armário do coração. Ou "pneumoteca". É um armário do coração e do espírito de nossa pátria cearense, de nosso País do Ceará. Naqueles livros e naquela biblioteca, faiscada em livrarias novas, em sebos de livros e nos empenhos de amigos, está assegurada a sobrevivência de cada um de nossos escritores. E a sobrevivência de nossas raízes.
Outro agraciado é o Dr. Luiz Esteves Neto. Sua vocação o transformou numa presença humana, exemplar e fecunda, na vida da sociedade cearense. Talvez não tenha nunca pintado quadros, como Sinhá D’Amora, nem guardado livros como José Bonifácio, nem escrito elegias, como este vosso cantador. Mas sem homens como ele nenhum de nós estaria aqui. Participante efetivo das atividades sociais, seu nome é um emblema da vida econômica e da vida associativa. Industrial, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, sua representatividade o levou aos órgãos de direção da Confederação Nacional da Indústria, para onde levou a fibra e o vigor dos capitães de empresa de nossa terra. Seu nome figura na nominata egrégia dos clubes sociais e dos grupos de construção da riqueza e do desenvolvimento. Luiz Esteves Neto é para nós, aquilo que nosso filósofo maior, Farias Brito, chamava "a base física do espírito". Homem de formação universitária, ele poderia ter escolhido qualquer outro tipo de ocupação, nas áreas da inteligência. Escolheu esta, para dar à sociedade que pertencemos, horizontes melhores à esperança do desenvolvimento.
Quanto a mim, pobre cantador das Ipueiras, do pé-da-serra da Ibiapaba, aqui estou com único cabedal maior que mereservou a vida: — a riqueza de ser cearense. No país do sul, nas opulentas babilônias de São Paulo, com seus milhões de descendentes de primeira geração de imigrantes, algumas pessoas invocam a nobreza de suas origens, como na exclamação famosa de Alcântara Machado: — "Paulista eu sou, há quatrocentos anos".
Em nossa terra, aonde quase não chegou a vaga de imigrações da segunda metade do século passado e das primeiras décadas dos novecentos, todos nós, quase todos nós, podemos proclamar, como eu mesmo o faço: — "Cearense eu sou há quatrocentos anos". O que em outras terras é privilégio de uns poucos, aqui é patrimônio de todos. A este patrimônio, devo as vigências mais profundas que me nutriram ao longo da vida.
Teria eu de seis para sete anos, quando minha mãe, pobre professora primária do interior, me fazia decorar páginas inteiras do romance lírico de José de Alencar, cantando os verdes mares bravios e, ao mesmo tempo, um poema grandiloqüente, ufanista e saborosamente ingênuo, de nosso poeta popular, Juvenal Galeno, que ainda hoje sei de cor: "sou cearense e me ufano"...
Estas foram as primeiras plantas enraizadas no chão de minha alma. Depois, foram os cantadores de feira, especialmente o cantador Anselmo Vieira, das Ipueiras, catalogado por Leonardo Mota. Com eles aprendi o ritmo cantante das redondilhas maiores, dos decassílabos de gabinete e dos hendecassílabos sonoros, cantando galope na beira do mar. E aqui lembro — e rendo-lhe uma homenagem — um agraciado da Sereia de Ouro, desaparecido este ano, meu saudoso amigo Eleazar de Carvalho, o egrégio mestre-de-capela, que teve entre seus discípulos até mesmo o mais famoso maestro do mundo em nossos dias, Zumbin Mehta. Eleazar de Carvalho também me dizia um dia que toda a sua disciplina musical se edificara no metro escandido dos cantores de viola e de rabeca nas feiras do Ceará. Afinal, Homero também foi um cantador de lira nas feiras da Jônia.
Nos labirintos do saber e da cultura erudita, varando o oco do mundo, por Europas, Ásias, Áfricas e Américas, peregrino de todas as vicissitudes, talvez eu possa dizer como Keats: — acho que meu nome constará depois da minha morte entre os poetas de meu tempo". Se isto ocorrrer, à uma coisa eu o devo — à fidelidade obstinada à minha terra, aos seus valores primitivos.
Ainda recentemente o Presidente da República se queixava do caráter provinciano de nosso povo. Aprendi com meu saudoso amigo, o presidente Eduardo Frei, do Chile, uma linção fundamental: a distinção entre provincial e provinciano. Ser provinciano é uma coisa negativa. O provinciano é o homem sem perspectiva, que não conhece e não imagina nada além da pobre cerca de seu quintal. O resto do mundo não existe
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

Seis Vozes d’África

O Negro Sol

1
Eras (antes d’América) a América
de negro sol na pele escura (ó África)
teu rei era um leão que (da floresta)
fazia sua expedição de caça
e (de juba ou coroa na cabeça)
reinava a solidão que te reinava
com a própria liberdade (uma leoa
que era tua rainha sem coroa)

mas morreu esse rei e outros vieram
(astralopitecínios que emergiram
dos animais) e todos te quiseram
e todos (nos seus reinos) dividiram
a rainha-leoa ou lhe impuseram
a própria escravidão que conseguiram
através de uma história que te fez
monopólio do Império Português

(sim) que Diogo Cão chegou ao Congo
(Bartolomeu ao Cabo das Tormentas)
e o velho Gama (em seu percurso longo)
sentiu as tuas terras sob as ventas
(a lei do teu comércio foi o escambo
dos teus filhos que já não amamentas
do leite e que amamaentam com seu sangue
o mundo que com eles fiou grande)

continente gigante e pigmeu
(lavrado pela daba primitiva)
se aa Esfinge do Egiyo te comeu
perto do Cabo Branco (na Tunísia)
a África do Sul (que conheceu
o apartheid do branco que domina)
tem um leão (Mandela) que te traz
(com sua pele negra) a branca paz

A Cor é Negra
2
a cor (a cor) a cor (a cor) a cor
é negra (sim) é negra (por que não?)
negro é o universo e este universo (por
tanto sol abrasado) é a escuridão
total (escuridão que faz supor
a cegueira da luz) a dimensão
infinita do escuro (o absoluto
manto da solidão) ó rei de luto

(continente-africano) ó rei de escura
pele (ó couro de rei) ó rei curtido
e enrugado no trono (ó carne dura
que veste o rei do seu real vestido
sobre o marfim dos ossos) rei à altura
de outros reis-continentes (rei erguido
feito a águia que ao sol em fogo voa)
ó rei mais alto que a própria coroa

(ó rei-leão) ó rei-jaguar (rei-tigre)
hipópotamo-rei (rei-elefante)
macaco-rei (rei zebra) rei-antílope
(rei-leopardo e rei-rinoceronte)
ó rei que vive (com a rainha) livre
(rei-esposo) marido-rei (amante-
da-liberdade) rei que sabe a lei
do seu reinado (a lei da selva) ó rei

de cor (de cor) de cor (de cor) de cor
negra (sim) de cor negra (por que não?)
já não quero cantar a tua dor
(continente-africano) é uma canção
que te quero cantar ( o teu senhor
é Deus) basta de tanta escravidão
(ó continente-rei) basta de açoite
que o sol é sangue ( a lua é sangue ) a noite

O Sangue era Vermelho
3
esfolaram à faca a tua cor
(extraíram-te as vísceras) notaram
que o sangue era vermelho e (dentro) a dor
também doía igual (não encontraram
qualquer vestígio de alma nem rumor
de humano sentimento contemplaram
onde o teu coração) "é um animal"
(e tratada tu foste como tal)

o sol curtiu teu couro feito um céu
espichado por varas (o simum
dobrou do centro ao norte o seu chapéu-
de-vento em teu cabelo ruim) "algum
dia erguerei da boca um escarcéu
que subirá a Deus" (disseste em um
tom que não disfarçava a voz azeda
e pediste os relâmpagos da zebra)

"ó escada do pescoço da girafa
deixa eu subir pr ti meus pés Àquele
(suplicaste) "leão de férrea-pata
dá-me da tua força e tu (ó pele-
de-aço) rinoceronte (de blindada
carapaça) consente que eu te sele
feito um cavalo e (com teu chifre) arrombe
o mal que (perto) veio de longe "

(continuaste) "e tu também (cavalo-
de-rio) ó boi chamado de hipopótamo
que és obra-prima do Senhor (deitado
à sombra do teu junco e do teu loto)
não me negues o teu furor guardado
nos abismos da lama (onde teu osso
de baleia é encalhado) eu sou a África"
(e choraste através da negra náscara)

Benjamin Moloise
4
Benjamin (Benjamin Moloise) acorda
os teus olhos da morte (negro) eu ouço
o teu canto subindo pela corda
onde balança ao vento teu pescoço
sob a "gravata" (branca) e sob a bota
(de Botha) a cal é viva no teu fosso
próximo ao muro da prisão (ó África-
do-Sul) pérola-negra (escura-lágrima)

marfim-queimado no elefante-vivo
(noite dentro do túnel) Benjamin
vejo teu canto sob o poste (grito
e o meu grito é teu grito até o fim
da voz apunhalada no conflito
do Cabo ou Jahannnesburgo) antes assim
(poeta-guerrilheiro) antes ser homem
(tua raça se orgulha do teu sangue)

já não importa o pesadelo (sonhas
e ninguém pode dominar teu sonho
que é mais forte e mais alto que as montanhas)
em teu carvão se acende um fogo estranho
com a estranha luz que trazes das entranhas
da África do Sul (do seu medonho
mundo) da capital sem paz (Pretória)
que com teu giz-noturno escreve a história

(o carrasco descansa) "executado"
(ó República d’África do Sul)
te canto à esquerda margem do rachado
continente (ou d’América) ó tu
e eu estamos cada um de um lado
do mar (ou da cadeia) em que jaz nu
sob o pó (Benjamin) até que vento
cubra com a minha voz o seu silêncio

Nelson Mandela
5
"ó África do Sul (Nelson Mandela
o teu filho é meu filho: eu sou a América)
quando a noite era toda teta
de cor (e teu mamilo a sua estrela)
o teu leite era luz e eras (mãe-negra
de onde a raça de Winnie) forte e bela
(feito a girafa erguias o pescoço
a um céu de sangue e nervo e carne e osso)

até que os holandeses (africânderes
e boêres) seguidos por ingleses
(nitilanders) vieram das distantes
terras sobre o teu povo e tuas reses
e as presas de marfim dos elefantes
e o ouro em Transvaal (porém teus chefes
saltaram do Kraal como se antílopes
com as lanças dos seus chifres contra os tigres)

ó Áfricapartaid (enquanto a hiena
gargalhava à pantera) do teu coito
com a árvore-real da tribo themba
(reserva de Transkei) veio a dezoito
de julho de dezoito (última lenda
da tua história) o homem (sonho afoito
de liberdade) aquele que seria
pastor dos teus leões (Mandela) o guia

(ó minha negra-irmã) quase três décadas
de prisão não dobraram o espinhaço
do lutador-de-boxe (entre as celas
raiadas no seu pêlo) nenhum braço
logrou forjar seu ferro entre perpétuas
condenações pois ( sob o mesmo espaço
na jaula de Mandela) estavas tu
(leoa escura) África do Sul"

Zumbi
6
"uma cria de sexo masculino
com escassos dias de existência" (no ano
de mil seiscentos e cinquenta e cinco)
foi achada entre os presos de um mocambo
palmarino e chamada de Francisco
por seu preceptor ( o padre Antônio Melo)
sua cor negra era a da onça-
preta ou pantera (como conta a crônica)

fugiu aos quinze anos (coroinha
tornou-se guerrilheiro)foi Zumbi
("deus-da-guerra") na crespa carapinha
pôs palmas dos Palmares e dali
dividiu sua guerra entre a guerrilha
contra Domingos Jorge Velho e
a luta contra o tio Ganga-Zumba
que baixava o Quilombo ao rés da tumba

(tinha uma cobra armada em cada mão
e um gavião pousado em cada olho)
combatendo Manuel Lopes Galvão
sofreu um ferimento (ficou coxo)
por Antônio Soares (à traição)
foi furado a punhal e (do seu corpo
castrado na raiz) teve (na oca
garganta) o próprio pênis preso à boca

(América) porém ainda hoje
(da queda de Macaco) se
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Majela Colares

Majela Colares

Outono de Pedra

O sol posto
em cada pálpebra
um sol posto
os cílios não terão amanhãs?

- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,

........

João Cabral de Mello Neto

CANTO-II

Pau de arara em marés de asfalto
matolão aposentado na esquina
becos & guetos
aboios perdidos na avenida paulista
abstrato versus concreto
o dia morto rente ao viaduto
lágrimas de ocasos
suicídio das horas
chuvas cerebrais
penumbra ao meio dia
tatuada no olhar.

CANTO-III

No divã
argamassa de cimento
vida quase morte
(o complexo das unhas...)

indelével memória
arredia hipnose

divagações:

naquela terra distante
muitos sonhos se evadiram
levados pela distância
de noites cosmopolitas

sob o império do sol
e barricadas de chuvas
muitas vidas sucumbiram
perante a gota de orvalho

naquela terra distante
na palma da mão sedenta
nos dedos dos meus avós
nos traçaram esse destino:

L
É
G
U
A
S

t
i
r
a
n
a
s

a fio

de caminho e de poeira
e de areia em vez de rio

- a vida sujigada entre os dentes.

CANTO-IV

E no entanto ainda salta
ritmada da garganta
verso/rima: poesia
no mormaço dos alpendres
sob a luz do candeeiro
ou da vela de 100 Watts

e se é lua e mês de abril
o repente é mais vibrante
se exalando no galope
caudaloso e repicado
da viola enamorada
do poeta e cantador:

quando digo das coisas do sertão
este solo que inunda o meu cantar
vem a lua silente me escutar
debruçada em perdida solidão
canto os vícios sublimes da paixão
aflorada no rosto feminino
também canto este povo e seu destino
a incerteza no tempo inconseqüente
refletido por alma, corpo e mente
saga-gênese do homem nordestino

o meu canto é de rima soletrada
dissidente da língua adormecida
na rudez da palavra convergida
nas pupilas do verso represada
é a voz, dessa gente, entresonhada
entoando um galope à beira-mar
vem de longe segredos desvendar
o meu canto é enfim de vida e morte
palmilhado no peito livre e forte
do poeta que sabe improvisar.

CANTO-V

Muros sombrios, limites
fantasmas de coronéis
no subsolo gargalham
choramingam velhas mágoas
na memória do porão

sopra um vento frio e brando
com um cheiro melancólico
condensando nas narinas
pesadelos ancestrais

(muita terra, poucos donos
de tão longe este refrão)

no porão, calada História:

espinho de xiquexique
atravessado na artéria
cravado no calcanhar
medula-farpa da História
transpassado sobre a pele
ressecada pelo sol
de sangue-suor tingida
espichada na caatinga

espectro de rija sombra
consumido no serrote
esculpido pela goiva
no repuxo de aroeira
estaca/roseta/arame
entrecasca do pau-darco
dura imagem pressentida
moldurando o latifúndio

a flor do mandacaru
estampa um sorriso largo
brotado por entre espinhos
na solidão dessas tardes
qual homem sofrido e pasmo
que se contenta com o nada
nessa miséria de morte
no rude rosto de cáctus

a seca consome léguas
retirantes pés ao pó
resumidas nas estradas
do silêncio ruminado
suplicantes romarias
clamando nuvens errantes
em nome de Deus cavalgam
palavras, desilusões

a chuva vem afagar
o sertão com água santa
afaga também os lábios
ressequidos, a garganta
um brilho reluz nos olhos
transbordantes de esperança
de ver o grão desolado
vingar no magro torrão

a terra seca ou molhada
pelo sol mais causticante
ou pela chuva mais densa
é sempre esta mesma terra
ou tão molhada ou tão seca
que não mata a seca-fome
da mente sã e semi-árida
nesta escassez e descaso.

CANTO-VI

Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras.

CANTO-VII

Áspero corpo
qual pedra granizo
sôfrega alma
de sonhos marcada
as mãos para o céu
louvando a Deus
os pés sobre o chão
entre o tudo e o nada

a vista acesa
buscando horizontes
ofusca no cinza
dos olhos calados
singrando a vida
embora inerte
atentos momentos
em dias fadados

partido do ontem
sem rumo e sem medo
veredas seguidas
acasos remotos
desertos cortados
de fome e de sede
galgando na pedra
futuro ignoto

rastro incansável
o sol feito abrigo
silhueta sinistra
alçando o infinito
geométrica figura
sangrando o ocaso
tempo infecundo
instante proscrito

o sangue que corre
em veias opacas
vias serenas
oculta segredos
do tardo momento
esculpido na rocha
do efêmero viver
de ânsia e degredo.

CANTO-VIII

O cantador repentista
e peregrino da viola
conhece o rumor dos ventos:

inesquecíveis memórias
marcam homens e destinos
a saga dos nordestinos
entrelaça a mesma História
na parca crença irrisória
este caos mais se afigura
exposta em tosca moldura
na forma: fome e miséria
o tênue pulsar da artéria
esvai-se na desventura

nos três mundos consagrados
divisas separam vidas
opressoras, oprimidas,
limites bem demarcados
em marcos configurados
simbólica ideologia
predomina e contagia
de vício a humana gente
falsa idéia incoerente
de mortal hipocrisia.

poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia

.............

nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome

Haroldo de Campos

CANTO-IX

Unhas encravadas
fixadas
fichadas
no esmalte-sangue
do tijolo

subindo no asco da noite
possantes\imponentes\frias
colunas verticais

subindo no asco da noite
frágeis\humildes\tensas
colunas cervicais

andaimeandaime
\andaime

passaporte
para a vida extraida dos músculos
passaporte
para a morte fincada nos calos
antagônicos limites
sobem e descem
nas fibras de aço
nas fibras de nervos

CANTO-X

A colher alimenta
rica estrutura
substâncias imprescindíveis
para crescer
breve
para crescer
firme
para crescer
lorde
para crescer
nobre
para crescer
crescer para
pára crescer

cimento\ferro
pedra
tijolo

pedra\tijolo
ferro
cimento

tijolo
pedra
cimento\ferro

cimento
ferro
tijolo\pedra

homens\fome\homens
vida
poder\mais-valia

a l v e n a r i a

CANTO-XI

a
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Luiz Angélico da Costa

Luiz Angélico da Costa

Manifesto

Não sou herói nem bandido:
meu alazão viaja sobre trilhos;
minha arma é uma marmita
na mão direita (onde uma roseira)...
na esquerda, meu coração
(transpassado de espinhos).
Mas por que,
para que vou assinar manifestos?
Não me compram feijão,
não vou tirar meu filho da prisão...
Futebol é assim mesmo,
vamos sair para outra —
— enquanto há portas abertas
pra sair.

Afinal,
talvez sair seja melhor
ainda... Ainda que mal pergunte,
quem vai ouvir teus lamentos?
Quem vai ler teus pensamentos?
Quem te vai estender a outra mão?
(ou a outra face?)
E...
— mesmo supondo que vão —
como saber o que estará por trás
dess’outra mão que não se estende,
nem se abre sequer?
Ora, vamos e venhamos
e fiquemos onde estamos
até que saibamos onde,
para onde
vão-nos querer levar.
Eu, por mim,
(não prefiro):
só me resta aguardar
o momento
certo,
direis, perdeste o senso
e eu vos direi, no entanto,
que se a mim me perseguem,
se dos meus ouço o lamento...
(oh, meu proscrito irmão,
que por amor de nós
já reverteste ao pó
e nem lembrança és mais!)

Se,
para ser esse Homem
que idealizastes,
tanto esperar
e sofrer tanto
me é preciso
e nem a bíblica mansidão
me basta,
(mil perdões, ingênuo Kipling):
vosso Homem imperial
não posso ser,
ó Senhor Rudyard!
Nem vosso Superman,
ó Mister Presidente!
Serei, pois, tão somente
esta miniatura
que é tão pequena mas só fita os Andes...
e não vou assinar manifestos, não, senhor!

Pois se...se...se...se...se...se...
ó Cigarra Boêmia,
(si vis pacem, para bellum),
se o preço da liberdade
é a eterna vigilância
para gregos e troianos
— do Centro-Sul maravilha
ou do Nordeste boêmio
com Sudene ou sem Sudene
(esse lado sucedâneo!) —
nossa terra tem palmeiras
onde canta o sabiá;
tem também o mico sapiens
e o galinho garnisé,
mas também o carcará!

E...
pra não dizer que não falei
do milagre (o milagre é nosso!)
as aves que lá gorjeiam
só gorjeiam como lá...
lá-lá-lá... blá-blá-blá-blá!
Ah! não permitas, Deus, que morram
sem que voltem para cá!...
Mas se um dia,
um belo dia,
claro dia em negra noite
vier um dia a se fechar...
(pobre de mim!)
eu,
que nem Raimundo
(triste mundo!)
jamais me poderei chamar,
deixo pra lá meu lenço, meu boné
(e agora, José?)
e meus perdidos documentos todos
e vou ao menos
lançar pedras de fogo
contra o vento.

Bem...eu sou eu.
E vocês?
Eu, hein?!...
Engraçado!...Parece
que acabei de escrever
um manifesto

795
José Bonifácio de Andrada e Silva

José Bonifácio de Andrada e Silva

Ode aos Baianos

Altiva musa, ó tu que nunca incenso
Queimaste em nobre altar ao despotismo;
Nem insanos encômios proferiste
De cruéis demagogos;

Ambição de poder, orgulho e fausto
Que os servis amam tanto, nunca, ó musa,
Acenderam teu estro — a só virtude
Soube inspirar louvores.

Na abóbada do templo da memória
Nunca comprados cantos retumbaram:
Ali! vem, ó musa, vem: na lira doiro
Não cantarei horrores.

Arbitrária fortuna! desprezível
Mais quessas almas vis, que a ti se humilham,
Prosterne-se a teus pés o Brasil todo;
Eu, nem curvo o joelho.

Beijem o pé que esmaga, a mão que açoita
Escravos nados, sem saber, sem brio;
Que o bárbaro Tapuia, deslumbrado,
O deus do mal adora.

Não — reduzir-me a pó, roubar-me tudo,
Porém nunca aviltar-me pode o fado;
Quem a morte não teme, nada teme
Eu nisto só confio.

Inchado do poder, de orgulho e sanha,
Treme o vizir, se o grão-senhor carrega,
Porque mal digeriu, sobrolho iroso,
Ou mal dormiu a sesta.

Embora nos degraus do excelso trono
Rasteje a lesma para ver se abate
A virtude que odeia — a mim me alenta
Do que valho a certeza.

E vós também, BAIANOS, desprezastes
Ameaças, carinhos — desfizestes
As cabalas, que pérfidos urdiram
Inda no meu desterro.

Duas vezes, BAIANOS, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.

Porém enquanto me animar o peito
Este sopro de vida, que inda dura,
O nome da BAHIA, agradecido,
Repetirei com júbilo.

Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.

Cingida a fronte de sangüentos loiros,
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me esposo,
Nem seu pai a criança.

Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.

Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.

Vales e serras, altas matas, rios,
Nunca mais vos verei — sonhei outrora
Poderia entre vós morrer contente;
Mas não — monstros o vedam.

Não verei mais a viração suave
Parar o aéreo vôo, e de mil flores
Roubar aromas, e brincar travessa
Co trêmulo raminho.

Oh! país sem igual, país mimoso!
Se habitassem em ti sabedoria,
Justiça, altivo brio, que enobrecem
Dos homens a existência;

De estranha emolução aceso o peito,
Lá me ia formando a fantasia
Projetos vil para vencer vil ócio,
Para criar prodígios!

Jardins, vergéis, umbrosas alamedas,
Frescas grutas então, piscosos lagos,
E pingues campos, sempre verdes prados
Um novo Éden fariam.

Doces visões! fugi! — ferinas almas
Querem que em França um desterrado morra:
Já vejo o gênio da certeira morte
Ir afiando a foice.

Galicana donzela, lacrimosa,
Trajando roupas lutuosas longas,
De meu pobre sepulcro a tosca loisa
Só cobrirá de flores.

Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)
As minhas cinzas um buraco nega:
Talvez tempo virá que inda pranteie
Por mim com dor pungente.

Exulta, velha Europa: o novo Império,
Obra-prima do Céu! por fado ímpio
Não será mais o teu rival ativo
Em comércio e marinha.

Aquele, que gigante inda no berço
Se mostrava às nações, no berço mesmo
É já cadáver de cruéis harpias,
De malfazejas fúrias.

Como, ó Deus! que portento! a Urânia Vênus
Ante mim se apresenta? Riso meigo
Banha-me a linda boca, que escurece
Fino coral nas cores.

"Eu consultei os fados, que não incutem
(Assim me fala piedosa a deusa):
"Das trevas surgirá sereno dia
"Para ti, para a pátria.

"O constante varão, que ama a virtude,
"Cos berros da borrasca não se assusta,
"Nem como folha de álamo rejeite
"Treme à face dos males.

"Escapaste a cachopos mil ocultos,
"Em que há de naufragar como até agora,
"Tanto áulico perverso — em França, amigo,
"Foi teu desterro um porto.

"Os teus BAIANOS, nobres e briosos,
"Gratos serão a quem lhes deu socorro
"Contra o bárbaro Luso, e a liberdade
"Meteu no solo escravo.

"Há de enfim essa gente generosa
"As trevas dissipar, salvar o Império;
"Por eles liberdade paz, justiça
"Serão nervos do Estado.

"Qual a palmeira que domina ufana
"Os altos topos da floresta espessa:
"Tal bem presto há de ser no mundo novo
"O Brasil bem-fadado.

"Em vão de paixões vis cruzados ramos
"Tentarão impedir do sol os raios —
"A luz vai penetrando a copa opaca;
"O chão brotará flores."

Calou-se então — voou. E as soltas tranças
Em torno espalham mil sabeus perfumes,
E os zéfiros as asas adejando
Vazam dos ares rosas.

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