Poemas neste tema
Noite e Lua
Juan-Eduardo
Ni la luz
de la luna
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?
Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.
Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?
Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.
Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.
924
Luís Miguel Nava
A noite
A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
1 517
Lord Byron
She walks in beauty, like the night
She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all thats best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens oer her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and oer that brow,
So soft. so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent.
Of cloudless climes and starry skies;
And all thats best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens oer her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and oer that brow,
So soft. so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent.
1 349
Luiza Neto Jorge
Do Medo I
Do Medo I
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
1 900
João Maimona
As Muralhas da Noite
A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.
Entre os dentes do mar acendiam-se braços.
Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.
Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.
Entre os dentes do mar acendiam-se braços.
Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.
Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
1 246
Alfred de Musset
Venise
Venise
Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans leau,
Pas un falot.
Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur lhorizon serein,
Son pied dairain.
Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,
Dorment sur leau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.
La lune qui sefface
Couvre son front qui passe
Dun nuage étoilé
Demi-voilé.
Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.
Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,
Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,
Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.
- Ah ! maintenant plus dune
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
Loreille au guet.
Pour le bal quon prépare,
Plus dune qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.
Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En sendormant;
Et Narcisa, la folle,
Au fond de sa gondole,
Soublie en un festin
Jusquau matin.
Et qui, dans lItalie,
Na son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?
Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.
Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés...
Ou pardonnés.
Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Quà nos yeux a coûté
La volupté !
Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans leau,
Pas un falot.
Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur lhorizon serein,
Son pied dairain.
Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,
Dorment sur leau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.
La lune qui sefface
Couvre son front qui passe
Dun nuage étoilé
Demi-voilé.
Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.
Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,
Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,
Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.
- Ah ! maintenant plus dune
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
Loreille au guet.
Pour le bal quon prépare,
Plus dune qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.
Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En sendormant;
Et Narcisa, la folle,
Au fond de sa gondole,
Soublie en un festin
Jusquau matin.
Et qui, dans lItalie,
Na son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?
Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.
Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés...
Ou pardonnés.
Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Quà nos yeux a coûté
La volupté !
1 818
Alejandra Pizarnik
La jaula
Afuera hay sol.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.
Yo no sé del sol.
Yo sé de la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.
Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.
Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.
Yo no sé del sol.
Yo sé de la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.
Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.
Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.
1 806
Giselda Medeiros
Parábola do Amor Recém-Nascido
E disse-me a Noite:
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."
"Cairá sobre ti o indizível da minha boca,
e as canções de ninar, que eu não tive, e
embalarão todos os teus medos
que dormirão na paz infinda dos segredos.
E não temas: serei a tua bússola
no frenesi afoito dos ocasos;
serei a mão de trevas que há de te guiar nos longes
dos meus domínios de negra majestade.
Carrego as chaves que abrem as alvoradas
onde as estrelas, precursoras de caminhos,
semeiam seus momentos de saudade.
Acordarei, de um sono milenar,
o deus dos deuses — o supremo Amor
e ordenarei que ele te alcance
com um só raio do seu olhar.
E tu, analfabeta diante das procuras,
hás de ser sábia na busca dos prazeres
e, no teu ventre estéril de esperança,
fecundarei a tua própria vida,
e nascerás do Amor em tuas próprias mãos."
1 145
Alexandre S. Santos
Uma Alternativa
Deixar frouxos os arreios;
atentar para o instinto;
não depender de esteios;
tornar o medo extinto;
voar por vias invisíveis,
em travessia por mar,
sobre ondas aprazíveis,
espelhos turvos de luar;
Gozar o olor da mata,
e na pele o verde rocio
dos galhos altos, acrobata,
mergulhado em branco cicio;
orbitar com os cometas,
no negro sorriso de Deus;
Fruir o maná de rubras tetas,
de ti Natura, filhos teus;
No colo do afeto sentido
recostar os lábios soantes,
fazer do sopro emitido
o diálogo entre amantes;
e, desta anarquia natural
o fim - quem sabe?- do mal,
do velho conceito de certo,
um mundo são descoberto.
atentar para o instinto;
não depender de esteios;
tornar o medo extinto;
voar por vias invisíveis,
em travessia por mar,
sobre ondas aprazíveis,
espelhos turvos de luar;
Gozar o olor da mata,
e na pele o verde rocio
dos galhos altos, acrobata,
mergulhado em branco cicio;
orbitar com os cometas,
no negro sorriso de Deus;
Fruir o maná de rubras tetas,
de ti Natura, filhos teus;
No colo do afeto sentido
recostar os lábios soantes,
fazer do sopro emitido
o diálogo entre amantes;
e, desta anarquia natural
o fim - quem sabe?- do mal,
do velho conceito de certo,
um mundo são descoberto.
907
Alexandre S. Santos
Vê
Vê, lá longe, no horizonte?
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
951
José Augusto de Carvalho
Desmistificação
Trago nos pés o cansaço
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
835
António Botto
Andava a lua nos céus
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.
3 325
Zhang Kejiu
PRAZER NOCTURNO NO LAGO
Ébrio até mais não poder
intermináveis canções
ao luar rebentam vagas glaucas
na margem verdejante o relincho dum cavalo
conchas de azul nocturno onde pesam flores da montanha
as falenas prateadas agitam-se na brancura do salgueiro:
sob a lâmpada, ela olha-me
intermináveis canções
ao luar rebentam vagas glaucas
na margem verdejante o relincho dum cavalo
conchas de azul nocturno onde pesam flores da montanha
as falenas prateadas agitam-se na brancura do salgueiro:
sob a lâmpada, ela olha-me
1 008
Alonso Álvares Lopes
Haicai
Silêncio.
O passeio das nuvens
E mais nenhum pio
A noite sorri.
Lua crescente
Nos olhos do guri
O passeio das nuvens
E mais nenhum pio
A noite sorri.
Lua crescente
Nos olhos do guri
1 093
Emiliano Perneta
Súcubo
Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
2 395
Tomás Castro
Temperatura baja
Esta noche el frío
le pondrá
música a nuestros huesos
hará falta fuego
leña de tus dedos
frotados a los míos
pondré
mi aliento sobre tu aliento
mis manos sobre tus manos
mis silencios sobre tus gritos
mis pálpame sobre tus abrázame
el sueño será capaz
de apagarnos
el rítmico temblor
nos quedaremos dormidos
apretados
sintiendo
saltar el frío
llorando
de calor entre las sábanas.
le pondrá
música a nuestros huesos
hará falta fuego
leña de tus dedos
frotados a los míos
pondré
mi aliento sobre tu aliento
mis manos sobre tus manos
mis silencios sobre tus gritos
mis pálpame sobre tus abrázame
el sueño será capaz
de apagarnos
el rítmico temblor
nos quedaremos dormidos
apretados
sintiendo
saltar el frío
llorando
de calor entre las sábanas.
969
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
448
Cirstina Areias
A Mulher e a Lua
A lua está cheia esta noite
Absoluta ela
Me enche, clareia, consome
Meus poros suam o luar cheio
Molho lençóis
Ouço músicas mágicas
E tenho em minha cama mais que a mim
Gozo amores arqueados
Memórias em transe
Incêndio
Olhos vadios
E a lua algema a mim e a ele
E ilumina, nele, meu desvario
Ele não sabe
Ele não sabe que dentro desta mesma noite
De luz cheia, o meu desejo
Galopa.
Absoluta ela
Me enche, clareia, consome
Meus poros suam o luar cheio
Molho lençóis
Ouço músicas mágicas
E tenho em minha cama mais que a mim
Gozo amores arqueados
Memórias em transe
Incêndio
Olhos vadios
E a lua algema a mim e a ele
E ilumina, nele, meu desvario
Ele não sabe
Ele não sabe que dentro desta mesma noite
De luz cheia, o meu desejo
Galopa.
1 119
Luís Amaro
Poema dos 20 Anos aReinaldo Ferreira
Uma sombra passou na noite morta,
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Ausente, indefenida,
Vindo passar depois à minha porta,
Dentro da minha vida.
É a lembrança dum sonho que sonhei
Lá muito longe, incerto,
Envolto em brumas que chorando, amei
Perdido no deserto.
No deserto perdido, entre fantasmas, só,
Na noite antiga e fria…
Nada mais resta do que cinza e pó
Da sua melodia.
Que lembrança triste me trouxeste,
Ò sombra vaga…
Confunde o teu perfil na noite agreste,
A ver se enfim a minha dor se apaga!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 073
Luís Amaro
A Um Poeta
(memorando Manuel Ribeiro de Pavia)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 021
Jaumir Valença da Silveira
Faraó
Escavo ideológico deserto
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.
Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.
Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.
Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.
Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.
Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.
Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.
o chão de escorpião, brilho e serpente.
Pegada o vento leva a areia enterra;
um rei sufoca à tumba de meus dentes.
Palavra que te dou minha palavra
e lavro o sal que levo no meu colo.
Mortalha de lençóis me escondem a cara
e já não mais me ocorre haver outonos.
Ressuscitar no sono dos reversos?
Ofusquem-se amuletos nos olvidos
dos sacrifícios da Kabbalah morta
e do meu sangue o bálsamo retiro.
Um universo escapa-me aos sentidos
e todo um mar revolto em mim revolve
a porta, a chave, a clava e não a clave,
solstícios que aprisionam diamantes.
Dormentes que meus músculos palpitam
no verso dos papiros amarelos.
Estranha a lividez que esconde estrelas
e evola-se nos ecos de meus gritos.
Ó noite que te sei hoje acidente,
acúmulo de enganos perpetuados!
Tivesse achado um poço em vez de um templo,
a sede não teria me levado.
Houvesse inda o elixir que a morte cura,
sucumbiria ao medo da amargura.
992
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 543
Albano Dias Martins
Concitas para
os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
1 135
António Lampreia
Sombras da Madrugada
Vi uma sombra bem unida
a dela e a tua
e a minha sombra já esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu não queres
mas já te amou!
É madrugada não importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu não te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.
Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
já não tem nada
anda perdida
quando a manhã, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!
a dela e a tua
e a minha sombra já esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu não queres
mas já te amou!
É madrugada não importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu não te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.
Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
já não tem nada
anda perdida
quando a manhã, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!
934