Poemas neste tema
Amor Romântico
Fontoura Xavier
Brinde
Eu bebo à manhã de amores,
Manhã em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos,
Pisando na mesma grama.
E bebo à noite de amores,
À noite, em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos
Debaixo da mesma cama...
Na segunda edição de Opalas (1905), este poema aparece duas vezes, em livros diferentes: aparece pela primeira vez em Musa Livre e, pela segunda vez, em Ruínas, com o título Um brinde. Em Um brinde, os versos 4, 5 e 6, de ambas as estrofes, aparecem entre parênteses.
XAVIER, Fontoura. Opalas. 5. ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, PUCRS, 1984. p. 31
Manhã em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos,
Pisando na mesma grama.
E bebo à noite de amores,
À noite, em que os meus sapatos
E os teus mignons sapatinhos,
Os teus cobertos de flores,
Os meus cobertos de lama,
Lama e flores dos caminhos,
Encontraram-se juntinhos
Debaixo da mesma cama...
Na segunda edição de Opalas (1905), este poema aparece duas vezes, em livros diferentes: aparece pela primeira vez em Musa Livre e, pela segunda vez, em Ruínas, com o título Um brinde. Em Um brinde, os versos 4, 5 e 6, de ambas as estrofes, aparecem entre parênteses.
XAVIER, Fontoura. Opalas. 5. ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, PUCRS, 1984. p. 31
1 817
Carlos Felipe Moisés
O Dia Segue o Curso Itinerante
I
Assim te amei, amada, assim te amei
de amor tão grande e puro que secou
no peito meu o rio que corria
submisso e atento para os braços teus.
Nos ermos vales agora percorro
os gestos esquecidos, densas brumas
do rio que fui, o rio que fomos,
largas águas seguindo o mar da noite.
Assim te amei o amor maior que pude.
E, mais ainda, a minha vida foi
uma desfeita nau vagando a esmo
o mar do tempo, o mar janeiro, o mar
que perdi. E agora, de ti disperso,
nos desertos de mim, sem fim, caminho.
(...)
III
E sempre neste calmo amor prestante
o peito nu crescendo em solidão.
A tarde passa, tudo passa quando
amor refaz o pó de que foi feito.
O dia segue o curso itinerante
e é sempre neste ocaso o tom de afago,
o ar desfeito, o mundo ignorado
apascentando o peito de quem ama.
É o vago som de um gesto soluçante.
Amor, um nome, o deus que nasce e vai,
o passo incerto em direção da noite
que vem. É treva, é o sono agonizante
de quem, por muito amar, deixou o mundo
inerte e foi empós do amor errante.
(...)
Publicado no livro A Tarde e o Tempo (1964).
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 1974
NOTA: Poema composto de 4 parte
Assim te amei, amada, assim te amei
de amor tão grande e puro que secou
no peito meu o rio que corria
submisso e atento para os braços teus.
Nos ermos vales agora percorro
os gestos esquecidos, densas brumas
do rio que fui, o rio que fomos,
largas águas seguindo o mar da noite.
Assim te amei o amor maior que pude.
E, mais ainda, a minha vida foi
uma desfeita nau vagando a esmo
o mar do tempo, o mar janeiro, o mar
que perdi. E agora, de ti disperso,
nos desertos de mim, sem fim, caminho.
(...)
III
E sempre neste calmo amor prestante
o peito nu crescendo em solidão.
A tarde passa, tudo passa quando
amor refaz o pó de que foi feito.
O dia segue o curso itinerante
e é sempre neste ocaso o tom de afago,
o ar desfeito, o mundo ignorado
apascentando o peito de quem ama.
É o vago som de um gesto soluçante.
Amor, um nome, o deus que nasce e vai,
o passo incerto em direção da noite
que vem. É treva, é o sono agonizante
de quem, por muito amar, deixou o mundo
inerte e foi empós do amor errante.
(...)
Publicado no livro A Tarde e o Tempo (1964).
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 1974
NOTA: Poema composto de 4 parte
989
Raimundo Correia
Nuvem Branca
Dizei-me: é ela a noiva casta e pura,
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;
Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...
Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?
É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?
É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...
Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p. 79-80
Que no alvor dessa nuvem rutilante,
Passa agora? Dizei-me, nesse instante,
Turbilhões de translúcida brancura;
Colar, broches de pérolas e opalas;
Gaza que, em níveos flocos, por formosas,
Rijas pomas de mármore, ondulosas
Curvas e espáduas de marfim, resvalas...
Dizei-me, branca, virginal capela;
Nítida espuma de nevadas rendas;
Alvos botões de laranjeira; prendas
Simbólicas do amor; dizei-me: é ela?
É ela a noiva? É mesto, ou prazenteiro,
Seu doce olhar? Sorri alegre, ou chora,
Seu semblante gentil oculto agora
Do espesso véu no alvíssimo nevoeiro?
É ela, sim! Su’alma, entre os fulgores
Das claras tochas cândidas e ardentes,
Nas querúbicas asas transparentes,
Voa, festiva, a um tálamo de flores...
Mistérios nupciais, só vos devassa
Um louco amante! Ao seu olhar ansioso
Velais debalde o arcanjo, o astro radioso
Que, dentro dessa nuvem branca, passa...
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p. 79-80
2 471
Pedro Nava
Noturno de Chopin
Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
1 563
Bruno de Menezes
Os Esponsais das Icamiabas - Lenda Amazônica, 1952
Vai ser a Grande Noite...
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
3 323
D. Pedro II
O Beija-Flor
O verde beija-flor, rei das colinas,
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, trança d'ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.
Rápido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito úmido a fuzilar.
Desce sobre a áurea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre não sabendo se a pode esgotar!
Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.
NOTA: Tradução do poema "Le Colibri", de Leconte de Lisl
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, trança d'ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.
Rápido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito úmido a fuzilar.
Desce sobre a áurea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre não sabendo se a pode esgotar!
Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.
NOTA: Tradução do poema "Le Colibri", de Leconte de Lisl
1 932
Claudio Willer
Faz Tempo que Eu Queria Dizer Isto
ainda não conseguiram destruir o mar
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 243
Régis Bonvicino
RB Resolve Ser Poeta
Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
1 530
Gilberto Mendonça Teles
Liter-Atura
Que seria dos congressos e seminários de literatura
se não houvesse os colóquios dos dias livres,
se não houvesse as horas neutras dos intervalos,
os interstícios ocasionais, as interrupções,
quando todas as gatas são realmente pardas
e a comunicação se torna livre e tátil
como um aperto de mão?
Que seria da vida e da poesia
se não houvesse os apartes femininos
humanizando o contexto dos linguólogos,
se não houvesse na primeira fila
aquele olhar que flerta e que sonha
diante da voz que fala fala fala
tagarela
sobre os direitos e avessos
da mulher latino-americana?
Tudo o mais são penugens, conversas interrompidas,
fragmentos de sorrisos discretos na continuidade
do amor que viaja para lugares distantes
(Aquidauana
Monte Alegre
uma rua em Brás de Pina)
e deixa no ar promessas de beijos e de cartas
para serem discutidas e transcritas
nos anais do próximo congresso.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Plural de nuvens. Ed. aum. Prefácio de Telenia Hill. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1990. p. 24-25. Poema integrante da série 1a. parte: Na Contraluz
se não houvesse os colóquios dos dias livres,
se não houvesse as horas neutras dos intervalos,
os interstícios ocasionais, as interrupções,
quando todas as gatas são realmente pardas
e a comunicação se torna livre e tátil
como um aperto de mão?
Que seria da vida e da poesia
se não houvesse os apartes femininos
humanizando o contexto dos linguólogos,
se não houvesse na primeira fila
aquele olhar que flerta e que sonha
diante da voz que fala fala fala
tagarela
sobre os direitos e avessos
da mulher latino-americana?
Tudo o mais são penugens, conversas interrompidas,
fragmentos de sorrisos discretos na continuidade
do amor que viaja para lugares distantes
(Aquidauana
Monte Alegre
uma rua em Brás de Pina)
e deixa no ar promessas de beijos e de cartas
para serem discutidas e transcritas
nos anais do próximo congresso.
In: TELES, Gilberto Mendonça. Plural de nuvens. Ed. aum. Prefácio de Telenia Hill. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1990. p. 24-25. Poema integrante da série 1a. parte: Na Contraluz
1 549
Claudio Willer
As Palavras da Tribo
poema coletivo em parceria com Roberto Piva,
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 353
Eudoro Augusto
Ana C
Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 135
Martins Fontes
Na Medida Velha da Ensinança
Menina Briolanja
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Publicado no livro Rosicler (1928).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Publicado no livro Rosicler (1928).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
1 470
José Bonifácio, o Moço
A Camões
Entre dois sonhos — lida mal sonhada —
De fantasias mil a fantasia
Viveu, como sua alma desvivia
De seus fundos cuidados mal cuidada.
Em lembrança da pátria deslembrada
A glória sua e a glória dela erguia;
Escura noite lhe surgira um dia
Na viva luz da formosura amada.
Partido o coração, a alma partida
Naqueles sonhos, vasta imensidade,
Era-lhe a vida morte e a morte, vida!
Hoje renasce a imortal saudade:
Tem nos versos a pátria aos céus erguida,
E o seu amor num templo — a eternidade.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado na Revista Brasileira, 10 jun. 188
De fantasias mil a fantasia
Viveu, como sua alma desvivia
De seus fundos cuidados mal cuidada.
Em lembrança da pátria deslembrada
A glória sua e a glória dela erguia;
Escura noite lhe surgira um dia
Na viva luz da formosura amada.
Partido o coração, a alma partida
Naqueles sonhos, vasta imensidade,
Era-lhe a vida morte e a morte, vida!
Hoje renasce a imortal saudade:
Tem nos versos a pátria aos céus erguida,
E o seu amor num templo — a eternidade.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado na Revista Brasileira, 10 jun. 188
1 514
Stella Leonardos
Balada da Chica da Silva
Solo
"Jambá tuca rirá ô quê!
Coro
Jambá catussira rossequê
Solo
Rio, Rio."
— Meu pai, me conta da Chica
— a das estrelas dos antes
das catas de Serro Frio,
Sinhá de José Fernandes
o branco de desvario.
— De quem aquele navio
a um lago absurdo indagando?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há mar em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega sentiu capricho
navegante.
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
sonhou
De quem esses atavios
de estrelas não vistas dantes?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há corte em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega veste capricho
cintilante.
Jambá jombô jambi.
Chica da Silva
sorri
De quem o olhar de cobiça
e essas garras se ocultando,
ô nega Chica da Silva
sinhá de José Fernandes?
Do hóspede de Serro Frio
onde há, de sobra, diamante.
Do Conde vilão, capricho
vigilante.
Jambi jombô jambá.
Chica da Silva
sinhá.
De quem esses olhos-rios
de saudade rebrilhando?
Da nega Chica da Silva.
Levaram José Fernandes.
(Adeus Chica, e Serro Frio,
e contrato de diamante!)
Ai Chica chorando dia
de amante!
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
chorou.
— E depois: que houve com Chica,
sinhá de José Fernandes,
a nega de Serro Frio?
Será que o que andou chorando
é hoje estrela de rio?
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
"Jambá tuca rirá ô quê!
Coro
Jambá catussira rossequê
Solo
Rio, Rio."
— Meu pai, me conta da Chica
— a das estrelas dos antes
das catas de Serro Frio,
Sinhá de José Fernandes
o branco de desvario.
— De quem aquele navio
a um lago absurdo indagando?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há mar em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega sentiu capricho
navegante.
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
sonhou
De quem esses atavios
de estrelas não vistas dantes?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há corte em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega veste capricho
cintilante.
Jambá jombô jambi.
Chica da Silva
sorri
De quem o olhar de cobiça
e essas garras se ocultando,
ô nega Chica da Silva
sinhá de José Fernandes?
Do hóspede de Serro Frio
onde há, de sobra, diamante.
Do Conde vilão, capricho
vigilante.
Jambi jombô jambá.
Chica da Silva
sinhá.
De quem esses olhos-rios
de saudade rebrilhando?
Da nega Chica da Silva.
Levaram José Fernandes.
(Adeus Chica, e Serro Frio,
e contrato de diamante!)
Ai Chica chorando dia
de amante!
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
chorou.
— E depois: que houve com Chica,
sinhá de José Fernandes,
a nega de Serro Frio?
Será que o que andou chorando
é hoje estrela de rio?
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1 436
José Bonifácio, o Moço
Adeus de Gonzaga
Adeus, Marília, adeus! O sonho corre,
Vai-se gastando a vida, vai fugindo;
Estremece-me a voz, ei-la que morre,
Inda o teu doce nome repetindo.
Uma hora lá vem, outra decorre,
E eu vejo em pranto o teu rosto lindo!
Adeus, Marília, adeus! A sepultura
Abre-me agora um leito em terra escura.
Ai! como é feia a terra do desterro!
Aqui não sopra a minha pátria aragem;
Aqui lançou-me a liberdade — o erro
De prestar à inocência vassalagem;
Aqui no chão do exílio, onde me enterro
Inda plácida brilha-me tua imagem!
Luar das minhas noites, sol do dia,
O corpo aquece-me — eis a terra fria!
(...)
Ai! Marília, Marília! Que é da vida
Que em meus braços contigo então sonhava?!
A casa, o ribeirão, a luz sumida,
Detrás do monte... além... que desmaiava;
Da ovelha desgarrada a voz perdida,
O gado que sozinho ali pastava;
O chão, a relva, a fonte, as lindas flores,
Nosso céu, nossa luz, nossos amores?!
Nada, nada ficou!... neste deserto
O tênue sopro desta vida expira;
Mal bate o coração, já não aceito
Esses hinos de amor que a alma delira!
Eis lá na sepultura vejo ao perto
Murchas coroas e quebrada lira,
Trevas, silêncio... solidão... horror!
Nem um pranto... um gemido... uma só flor!
S. Paulo, 1848.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado nas Harmonias Brasileiras, São Paulo, 185
Vai-se gastando a vida, vai fugindo;
Estremece-me a voz, ei-la que morre,
Inda o teu doce nome repetindo.
Uma hora lá vem, outra decorre,
E eu vejo em pranto o teu rosto lindo!
Adeus, Marília, adeus! A sepultura
Abre-me agora um leito em terra escura.
Ai! como é feia a terra do desterro!
Aqui não sopra a minha pátria aragem;
Aqui lançou-me a liberdade — o erro
De prestar à inocência vassalagem;
Aqui no chão do exílio, onde me enterro
Inda plácida brilha-me tua imagem!
Luar das minhas noites, sol do dia,
O corpo aquece-me — eis a terra fria!
(...)
Ai! Marília, Marília! Que é da vida
Que em meus braços contigo então sonhava?!
A casa, o ribeirão, a luz sumida,
Detrás do monte... além... que desmaiava;
Da ovelha desgarrada a voz perdida,
O gado que sozinho ali pastava;
O chão, a relva, a fonte, as lindas flores,
Nosso céu, nossa luz, nossos amores?!
Nada, nada ficou!... neste deserto
O tênue sopro desta vida expira;
Mal bate o coração, já não aceito
Esses hinos de amor que a alma delira!
Eis lá na sepultura vejo ao perto
Murchas coroas e quebrada lira,
Trevas, silêncio... solidão... horror!
Nem um pranto... um gemido... uma só flor!
S. Paulo, 1848.
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).
NOTA: Poema publicado nas Harmonias Brasileiras, São Paulo, 185
1 611
Sílvio Romero
VII - José de Anchieta
Cansada do repouso, a América ofegante,
Com seu olhar profundo e lânguido cismar,
Um dia despertando aos tépidos bafejos,
Deu seu colo moreno aos homens de além-mar.
Deu seus lábios de fogo aos bravos navegantes,
Sedentos d'emoções, de lutas e de amor,
Que achando pouco o mar e a pátria, cá tiveram
Nas frontes mais suor, nos peitos mais ardor.
E na macia trança, impávida a cabocla,
Que a cútis cetinosa às flores imitou,
Prendendo de uma vez os nobres lutadores,
De uma alma de amazona a fé lhes confiou.
De uns sonhos de amazona o mel de eflúvios tantos
Colhido no fervor da força e da paixão,
Foi como um filtro mago em corações de deuses,
Como um beijo da brisa em juba de leão!
A vida estua aqui. Nos leques das palmeiras
Pensamento do céu se move impresso em luz;
São raios deste sol eterno que nos ama,
São mimos que este ar brilhante aqui produz.
Exala a natureza em tudo um devaneio,
Sua alma inda mais fulge aos toques do luar;
E o belo navegante, envolto na magia,
Cativo, se esqueceu das terras de além-mar.
Poema integrante da série O Primeiro Instante.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
Com seu olhar profundo e lânguido cismar,
Um dia despertando aos tépidos bafejos,
Deu seu colo moreno aos homens de além-mar.
Deu seus lábios de fogo aos bravos navegantes,
Sedentos d'emoções, de lutas e de amor,
Que achando pouco o mar e a pátria, cá tiveram
Nas frontes mais suor, nos peitos mais ardor.
E na macia trança, impávida a cabocla,
Que a cútis cetinosa às flores imitou,
Prendendo de uma vez os nobres lutadores,
De uma alma de amazona a fé lhes confiou.
De uns sonhos de amazona o mel de eflúvios tantos
Colhido no fervor da força e da paixão,
Foi como um filtro mago em corações de deuses,
Como um beijo da brisa em juba de leão!
A vida estua aqui. Nos leques das palmeiras
Pensamento do céu se move impresso em luz;
São raios deste sol eterno que nos ama,
São mimos que este ar brilhante aqui produz.
Exala a natureza em tudo um devaneio,
Sua alma inda mais fulge aos toques do luar;
E o belo navegante, envolto na magia,
Cativo, se esqueceu das terras de além-mar.
Poema integrante da série O Primeiro Instante.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
1 642
Mafalda Veiga
Procura por mim
Quando for já logo à noite na praia
Com o sol a derreter-se enfim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar de suor o sargaço.
Eu estarei quieto e assim sozinho
Cheio das dúvidas do universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.
O abraço.
Com o sol a derreter-se enfim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar de suor o sargaço.
Eu estarei quieto e assim sozinho
Cheio das dúvidas do universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.
O abraço.
1 333
Mafalda Veiga
Por todo este mundo
Saiu à rua, indiferente
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
1 098
Mafalda Veiga
Cúmplices (para o clube de fãs)
A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
1 266
Mafalda Veiga
No Rasto do Sol
Duas luas no céu e duas canções
Dois olhares que se cruzam a procurar
Um sol um luar
E todos os lugares onde a luz se pode abraçar
Doze luas em ti e sete marés
Sete barcos navegam a procurar
Um porto uma praia
Talvez no fim do mar onde alguém nos venha esperar
Vem comigo no rasto de sol
Eu vou contigo
Vem comigo do outro lado das muralhas
Eu vou contigo
Duas luas no céu na palma da mão
Dois olhares que se entregam até ao fim
Do corpo e da alma
Em todos os lugares onde o mundo me fala de ti
À tua volta há luz de sete luares
Sete barcos navegam para encontrar
Um fogo um calor
Talvez no fim de tudo haja força pra recomeçar
Vem comigo no rasto de sol
Eu vou contigo
Vem comigo do outro lado das muralhas
Eu vou contigo
Duas luas no céu e duas canções
Dois olhares que se cruzam a procurar
Um sol um luar
E todos os lugares onde a luz se pode abraçar
Vem comigo no rasto de sol
Eu vou contigo
Vem comigo do outro lado das muralhas
Eu vou contigo
Dois olhares que se cruzam a procurar
Um sol um luar
E todos os lugares onde a luz se pode abraçar
Doze luas em ti e sete marés
Sete barcos navegam a procurar
Um porto uma praia
Talvez no fim do mar onde alguém nos venha esperar
Vem comigo no rasto de sol
Eu vou contigo
Vem comigo do outro lado das muralhas
Eu vou contigo
Duas luas no céu na palma da mão
Dois olhares que se entregam até ao fim
Do corpo e da alma
Em todos os lugares onde o mundo me fala de ti
À tua volta há luz de sete luares
Sete barcos navegam para encontrar
Um fogo um calor
Talvez no fim de tudo haja força pra recomeçar
Vem comigo no rasto de sol
Eu vou contigo
Vem comigo do outro lado das muralhas
Eu vou contigo
Duas luas no céu e duas canções
Dois olhares que se cruzam a procurar
Um sol um luar
E todos os lugares onde a luz se pode abraçar
Vem comigo no rasto de sol
Eu vou contigo
Vem comigo do outro lado das muralhas
Eu vou contigo
1 309
Mafalda Veiga
Escuro e Luar
Feitos de chão, de chuva e sonho
Fora do tempo
Despedaçado o que fica de nós
Nas batalhas sentidas cá dentro
Por isso é que eu sigo esse brilho de noite
Que é estrela ou chama
Olhar ou mar
E vou procurar essa luz
Mas só quero lá chegar contigo
Feitos de tempo em mil pedaços
De escuro e luar
Há uma noite que é escolhida pra ser
Essa noite que se há-de guardar
Por isso é que eu sigo esse brilho ou calor
Que é estrela ou chama
Ou tu em mim
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Dispo o cansaço e recomeço
Mais uma vez
Há um sorriso que nos salva do frio
E recolhe o que a vida desfez
Se me desarmo noutro feitiço
Num outro olhar
Há um abrigo que não deixa morrer
Quem nós somos e o que temos pra dar
Por isso é que eu sigo esse brilho da noite
Que és tu em mim
Ou quem fui
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Fora do tempo
Despedaçado o que fica de nós
Nas batalhas sentidas cá dentro
Por isso é que eu sigo esse brilho de noite
Que é estrela ou chama
Olhar ou mar
E vou procurar essa luz
Mas só quero lá chegar contigo
Feitos de tempo em mil pedaços
De escuro e luar
Há uma noite que é escolhida pra ser
Essa noite que se há-de guardar
Por isso é que eu sigo esse brilho ou calor
Que é estrela ou chama
Ou tu em mim
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Dispo o cansaço e recomeço
Mais uma vez
Há um sorriso que nos salva do frio
E recolhe o que a vida desfez
Se me desarmo noutro feitiço
Num outro olhar
Há um abrigo que não deixa morrer
Quem nós somos e o que temos pra dar
Por isso é que eu sigo esse brilho da noite
Que és tu em mim
Ou quem fui
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
1 165
Alberto de Oliveira
Terceiro Canto
I
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
Imagem - 00020004
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
Imagem - 00020004
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
2 435
Machado de Assis
Pálida Elvira
A Francisco Paz
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne les
reconnait pas et pleure sa patrie. Ainsi
l'homme dans le bonheur possédé ne reconnait
pas son rêve et soupire
DANIEL STERN
I
Quando, leitora amiga, no ocidente
Surge a tarde esmaiada e pensativa;
E entre a verde folhagem recendente
Lânguida geme viração lasciva;
E já das tênues sombras do oriente
Vem apontando a noite, e a casta diva
Subindo lentamente pelo espaço,
Do céu, da terra observa o estreito abraço;
II
Nessa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil beleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar às lúcidas esferas?
Não sentes nessa mágoa e nesse enleio
Vir morrer-te uma lágrima no seio?
III
Sente-lo? Então entenderás, Elvira,
Que assentada à janela, erguendo o rosto,
O vôo solta à alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então por que suspira,
Vítima já de um íntimo desgosto,
A meiga virgem, pálida e calada,
Sonhadora, ansiosa e namorada.
(...)
VI
Era uma jóia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho cristalino
Pendia. Ao fundo, à sombra, se ocultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bela,
De amor sonhava a pálida donzela.
VII
Não me censure o crítico exigente
O ser pálida a moça é meu costume
Obedecer à lei de toda a gente
Que uma obra compõe de algum volume.
Ora, no nosso caso, é lei vigente
Que um descorado rosto o amor resume.
Não tinha Miss Smolen outras cores;
Não as possui quem sonha com amores.
VIII
Sobre uma mesa havia um livro aberto;
Lamartine, o cantor aéreo e vago,
Que enche de amor um coração deserto;
Tinha-o lido; era a página do Lago.
Amava-o; tinha-o sempre ali bem perto,
Era-lhe o anjo bom, o deus, o orago;
Chorava aos cantos da divina lira...
É que o grande poeta amava Elvira!
IX
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,
Com lágrimas de amor, os versos santos,
Aquela eterna e lânguida harmonia
Formada com suspiros e com prantos;
Quando escutava a musa da elegia
Cantar de Elvira os mágicos encantos,
Entrava-lhe a voar a alma inquieta,
E com o amor sonhava de um poeta.
Imagem - 00010005
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Pálida Elvira.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.69-71. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).
NOTA: Poema composto de 97 oitavas
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne les
reconnait pas et pleure sa patrie. Ainsi
l'homme dans le bonheur possédé ne reconnait
pas son rêve et soupire
DANIEL STERN
I
Quando, leitora amiga, no ocidente
Surge a tarde esmaiada e pensativa;
E entre a verde folhagem recendente
Lânguida geme viração lasciva;
E já das tênues sombras do oriente
Vem apontando a noite, e a casta diva
Subindo lentamente pelo espaço,
Do céu, da terra observa o estreito abraço;
II
Nessa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil beleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar às lúcidas esferas?
Não sentes nessa mágoa e nesse enleio
Vir morrer-te uma lágrima no seio?
III
Sente-lo? Então entenderás, Elvira,
Que assentada à janela, erguendo o rosto,
O vôo solta à alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então por que suspira,
Vítima já de um íntimo desgosto,
A meiga virgem, pálida e calada,
Sonhadora, ansiosa e namorada.
(...)
VI
Era uma jóia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho cristalino
Pendia. Ao fundo, à sombra, se ocultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bela,
De amor sonhava a pálida donzela.
VII
Não me censure o crítico exigente
O ser pálida a moça é meu costume
Obedecer à lei de toda a gente
Que uma obra compõe de algum volume.
Ora, no nosso caso, é lei vigente
Que um descorado rosto o amor resume.
Não tinha Miss Smolen outras cores;
Não as possui quem sonha com amores.
VIII
Sobre uma mesa havia um livro aberto;
Lamartine, o cantor aéreo e vago,
Que enche de amor um coração deserto;
Tinha-o lido; era a página do Lago.
Amava-o; tinha-o sempre ali bem perto,
Era-lhe o anjo bom, o deus, o orago;
Chorava aos cantos da divina lira...
É que o grande poeta amava Elvira!
IX
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,
Com lágrimas de amor, os versos santos,
Aquela eterna e lânguida harmonia
Formada com suspiros e com prantos;
Quando escutava a musa da elegia
Cantar de Elvira os mágicos encantos,
Entrava-lhe a voar a alma inquieta,
E com o amor sonhava de um poeta.
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Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Pálida Elvira.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.69-71. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).
NOTA: Poema composto de 97 oitavas
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Mafalda Veiga
Nalgum Lugar Perdido
Olhar-te um pouco
Enquanto acaba a noite
Enquanto ainda nenhum gesto te magoa
E o mundo for aquilo que sonhares
Nesse lugar só teu
Olhar-te um pouco
Como se fosse sempre
Até ao fim do tempo, até amanhecer
E a luz deixar entrar o mundo inteiro
E o sonho se esconder
Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti
Enquanto dormes
Por um momento à noite
É um tempo ausente que te deixa demorar
Sem guerras nem batalhas pra vencer
Nem dias pra rasgar
Eu fico um pouco
Por dentro dos desejos
Por mil caminhos que são mastros e horizontes
Tão livres como estrelas sobre os mares
E atalhos pelos montes
Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti
Enquanto acaba a noite
Enquanto ainda nenhum gesto te magoa
E o mundo for aquilo que sonhares
Nesse lugar só teu
Olhar-te um pouco
Como se fosse sempre
Até ao fim do tempo, até amanhecer
E a luz deixar entrar o mundo inteiro
E o sonho se esconder
Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti
Enquanto dormes
Por um momento à noite
É um tempo ausente que te deixa demorar
Sem guerras nem batalhas pra vencer
Nem dias pra rasgar
Eu fico um pouco
Por dentro dos desejos
Por mil caminhos que são mastros e horizontes
Tão livres como estrelas sobre os mares
E atalhos pelos montes
Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti
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