Poemas neste tema
Amor Romântico
Alberto de Oliveira
Confissão dos Olhos
Na sala, muita vez, junto aos que estão contigo,
Noto entrando que ao ver-me, entre surpresa e enleio
Ficas, como se acaso um sofrimento antigo
Eu te viesse acordar lá no íntimo do seio.
Por que enleio e surpresa? Olham-te, e empalideces;
Pões a vista no chão, fazes que desconheces
Estar ao pé de ti quem te perturba; acaso
Vais distraída; aqui tocas a flor de um vaso,
Ali de um velho quadro atentas na gravura;
Achegas-te à janela, olhas a tarde pura,
Voltas. De face então vês-me a estremecer. Quase
Disseste o que dizer te anseia há muito; a frase
Íntima, breve e ardente, em teu lábio purpúreo
Aflou num palpitar, fez ouvir um murmúrio,
Mas refluiu... Em torno atentos te encaravam.
Foi quando para mim teus grandes olhos voaram,
Voaram, vieram, assim como do firmamento
Duas estrelas, e a alma unindo a um pensamento
Único, em fluido a escoar dos raios de ouro em molhos,
Somem-se em mudo assombro, abismam-se em meus olhos.
E em minh'alma, lá dentro, eu sinto então, querida,
Que eles deixam cair, no ardor em que me inflamo,
Ah! e com que calor, com que sede de vida!
Letra a letra, a tremer, o teu segredo: Eu te amo!
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Noto entrando que ao ver-me, entre surpresa e enleio
Ficas, como se acaso um sofrimento antigo
Eu te viesse acordar lá no íntimo do seio.
Por que enleio e surpresa? Olham-te, e empalideces;
Pões a vista no chão, fazes que desconheces
Estar ao pé de ti quem te perturba; acaso
Vais distraída; aqui tocas a flor de um vaso,
Ali de um velho quadro atentas na gravura;
Achegas-te à janela, olhas a tarde pura,
Voltas. De face então vês-me a estremecer. Quase
Disseste o que dizer te anseia há muito; a frase
Íntima, breve e ardente, em teu lábio purpúreo
Aflou num palpitar, fez ouvir um murmúrio,
Mas refluiu... Em torno atentos te encaravam.
Foi quando para mim teus grandes olhos voaram,
Voaram, vieram, assim como do firmamento
Duas estrelas, e a alma unindo a um pensamento
Único, em fluido a escoar dos raios de ouro em molhos,
Somem-se em mudo assombro, abismam-se em meus olhos.
E em minh'alma, lá dentro, eu sinto então, querida,
Que eles deixam cair, no ardor em que me inflamo,
Ah! e com que calor, com que sede de vida!
Letra a letra, a tremer, o teu segredo: Eu te amo!
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
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Sousa Caldas
Ode II [Oh! quanto és bela
Oh! quanto és bela
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
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Dante Milano
VII [Na noite cor de sono, cor de sonho
Na noite cor de sono, cor de sonho,
Fulgurando na treva, um raio estronda,
Final do céu, divino mas medonho.
E uma mulher sem ter onde se esconda,
Os cabelos desfeitos, aparece
E em meus braços se atira. Então, absorto,
Vi que o corpo, quando ama, desfalece,
Vi que o rosto, ao beijar, parece morto.
Como se o beijo os lábios lhe torcesse,
A boca toma a forma de um sorriso
Que se contrai, como se o beijo doesse.
Visões do amor, possuídas mas incertas.
O corpo se entregou, mas indeciso,
E deixou-se cair de mãos abertas.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.33. (Pedra mágica, 1
Fulgurando na treva, um raio estronda,
Final do céu, divino mas medonho.
E uma mulher sem ter onde se esconda,
Os cabelos desfeitos, aparece
E em meus braços se atira. Então, absorto,
Vi que o corpo, quando ama, desfalece,
Vi que o rosto, ao beijar, parece morto.
Como se o beijo os lábios lhe torcesse,
A boca toma a forma de um sorriso
Que se contrai, como se o beijo doesse.
Visões do amor, possuídas mas incertas.
O corpo se entregou, mas indeciso,
E deixou-se cair de mãos abertas.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.33. (Pedra mágica, 1
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Dante Milano
A Cidade
Ao ver os altos castelos
Do Alhambra, dos Alijares
Lavrados à maravilha,
El-rei Don Juan dizia:
"Se tu quisesses, Granada,
Contigo me casaria
E te daria como arras
Córdova e Sevilha!"
"Não sou solteira nem viúva,
Sou casada, rei Don Juan,
Com Abenámar o Mouro,
Senhor que muito me quer."
Maior felicidade
Que amar uma mulher,
Amor de longo olhar
E presente saudade,
Amor muito maior
É amar uma cidade!
In: MILANO, Dante. Poesia e prosa. Org. e apres. Virgílio Costa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. p.175. (Coleção vária). Poema integrante da série Últimos Poemas
Do Alhambra, dos Alijares
Lavrados à maravilha,
El-rei Don Juan dizia:
"Se tu quisesses, Granada,
Contigo me casaria
E te daria como arras
Córdova e Sevilha!"
"Não sou solteira nem viúva,
Sou casada, rei Don Juan,
Com Abenámar o Mouro,
Senhor que muito me quer."
Maior felicidade
Que amar uma mulher,
Amor de longo olhar
E presente saudade,
Amor muito maior
É amar uma cidade!
In: MILANO, Dante. Poesia e prosa. Org. e apres. Virgílio Costa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. p.175. (Coleção vária). Poema integrante da série Últimos Poemas
1 322
Alberto de Oliveira
Os Amores da Estrela
Já sob o largo pálio a tenebrosa
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
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Paulo Setúbal
Escândalo
Era costume, à tarde, em frente à Escola,
Por entre os homens graves da terreola,
Bisbilhotar-se sobre a vida alheia.
Nas rodas que tratavam tais assuntos,
Aquela história de passearmos juntos
Era o supremo escândalo da aldeia!
E o chefe, e o juiz de paz, e o boticário,
Teciam o mais negro comentário
Ao nosso ingênuo amor, todo feitiço!
O próprio padre, um santo e velho cura,
Dizia ao ver-nos: "Eis a má leitura!"
"São os livros de Zola que fazem isso..."
Mas nós, como pastores de Virgílio,
Vivendo então num descuidoso idílio,
Sorríamos dos toscos provincianos:
E em plena aldeia, desdenhando apodos,
Passávamos de braço, entre eles todos,
Na glória dos que se amam aos vinte anos!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920).
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Por entre os homens graves da terreola,
Bisbilhotar-se sobre a vida alheia.
Nas rodas que tratavam tais assuntos,
Aquela história de passearmos juntos
Era o supremo escândalo da aldeia!
E o chefe, e o juiz de paz, e o boticário,
Teciam o mais negro comentário
Ao nosso ingênuo amor, todo feitiço!
O próprio padre, um santo e velho cura,
Dizia ao ver-nos: "Eis a má leitura!"
"São os livros de Zola que fazem isso..."
Mas nós, como pastores de Virgílio,
Vivendo então num descuidoso idílio,
Sorríamos dos toscos provincianos:
E em plena aldeia, desdenhando apodos,
Passávamos de braço, entre eles todos,
Na glória dos que se amam aos vinte anos!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920).
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
1 179
Ilka Brunhilde Laurito
X [Meu amado não é servo nem é rei
Meu amado não é servo nem é rei,
é transeunte do cotidiano, que se move onde estou eu.
Tem uma cabeça, tensa de sonho e pensamento,
que inventa o que haveria de ser
e sabe o que lembrar e o que esquecer.
Os cabelos encanecem aos ventos crespos,
são fios nervosos que perscrutam a dor dos tempos
e só se alisam na trégua entre meus dedos.
Ele me olha atentamente
decifrando a epiderme de secreta pele.
Seu olho é azul, castanho, verde ou negro?
Só sei que a cor que mora dentro deles
é a luz solar em que me aqueço.
O rosto grave, que em sorrisos se mascara,
eu o cubro de ternuras como as espumas que lhe tocam
a barba.
A boca tem sabor de menta e de cigarro:
é o gosto da palavra que engulo no seu hálito
quando entre nós o beijo cala o vão diálogo.
As mãos são grandes, ásperas e cálidas, mãos operárias
no manejo exato da máquina e do lápis,
talvez da arma em tempos mais precários,
da flor capazes nas horas amoráveis.
Sua voz é morna e calma,
em mim ela se grava como em clave de carne o som do
amor em brasa.
O tronco é arquitetura eficiente para erguer um homem
acima do pó e das sarjetas.
Nele se agitam os braços na maré presente
e correm os pés no encalço de melhores ventos
e é destro o sexo em exercício de ancestral silêncio.
No corpo inteiro, sangue, músculos e nervos.
O resto, poros, pele, pelos.
Ele não é esbelto como o cedro ou outra espécie de
madeira:
é de matéria carnal, com dobras, curvaturas, rugas,
franzimentos,
e sua altura se flexiona humanamente.
Ele tem sombra, pois o sol é dele.
Eis seu retrato, ó filhas da cidade: olhai como eu o vejo.
Poema integrante da série Solo Urbano para um Cântico dos Cânticos.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
é transeunte do cotidiano, que se move onde estou eu.
Tem uma cabeça, tensa de sonho e pensamento,
que inventa o que haveria de ser
e sabe o que lembrar e o que esquecer.
Os cabelos encanecem aos ventos crespos,
são fios nervosos que perscrutam a dor dos tempos
e só se alisam na trégua entre meus dedos.
Ele me olha atentamente
decifrando a epiderme de secreta pele.
Seu olho é azul, castanho, verde ou negro?
Só sei que a cor que mora dentro deles
é a luz solar em que me aqueço.
O rosto grave, que em sorrisos se mascara,
eu o cubro de ternuras como as espumas que lhe tocam
a barba.
A boca tem sabor de menta e de cigarro:
é o gosto da palavra que engulo no seu hálito
quando entre nós o beijo cala o vão diálogo.
As mãos são grandes, ásperas e cálidas, mãos operárias
no manejo exato da máquina e do lápis,
talvez da arma em tempos mais precários,
da flor capazes nas horas amoráveis.
Sua voz é morna e calma,
em mim ela se grava como em clave de carne o som do
amor em brasa.
O tronco é arquitetura eficiente para erguer um homem
acima do pó e das sarjetas.
Nele se agitam os braços na maré presente
e correm os pés no encalço de melhores ventos
e é destro o sexo em exercício de ancestral silêncio.
No corpo inteiro, sangue, músculos e nervos.
O resto, poros, pele, pelos.
Ele não é esbelto como o cedro ou outra espécie de
madeira:
é de matéria carnal, com dobras, curvaturas, rugas,
franzimentos,
e sua altura se flexiona humanamente.
Ele tem sombra, pois o sol é dele.
Eis seu retrato, ó filhas da cidade: olhai como eu o vejo.
Poema integrante da série Solo Urbano para um Cântico dos Cânticos.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
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Álvares de Azevedo
Coroemos as noites
Oh! não tremas! que este olhar, este braço te digam
o que é inefável — abandonar-se sem receio, inebriar-se
de uma voluptuosidade que deve ser eterna.
GOETHE. Fausto.
Sim — coroemos as noites
Com as rosas do himeneu;
Entre flores de laranja
Serás minha e serei teu!
Sim — quero em leito de flores
Tuas mãos dentro das minhas...
Mas os círios dos amores
Sejam só as estrelinhas.
Por incenso os teus perfumes,
Suspiros por oração,
E por lágrimas, somente
As lágrimas da paixão!
Dos véus da noiva só tenhas
Dos cílios o negro véu;
Basta do colo o cetim
Para as Madonas do céu!
Eu soltarei-te os cabelos...
Quero em teu colo sonhar!
Hei de embalar-te... do leito
Seja lâmpada o luar!
Sim — coroemos as noites
Da laranjeira co'a flor;
Adormeçamos num templo,
Mas seja o templo do amor.
É doce amar como os anjos
Da ventura no himeneu:
Minha noiva, ou minh'amante
Vem dormir no peito meu!
Dá-me um beijo — abre teus olhos
Por entre esse úmido véu:
Se na terra és minha amante,
És a minha alma no céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
o que é inefável — abandonar-se sem receio, inebriar-se
de uma voluptuosidade que deve ser eterna.
GOETHE. Fausto.
Sim — coroemos as noites
Com as rosas do himeneu;
Entre flores de laranja
Serás minha e serei teu!
Sim — quero em leito de flores
Tuas mãos dentro das minhas...
Mas os círios dos amores
Sejam só as estrelinhas.
Por incenso os teus perfumes,
Suspiros por oração,
E por lágrimas, somente
As lágrimas da paixão!
Dos véus da noiva só tenhas
Dos cílios o negro véu;
Basta do colo o cetim
Para as Madonas do céu!
Eu soltarei-te os cabelos...
Quero em teu colo sonhar!
Hei de embalar-te... do leito
Seja lâmpada o luar!
Sim — coroemos as noites
Da laranjeira co'a flor;
Adormeçamos num templo,
Mas seja o templo do amor.
É doce amar como os anjos
Da ventura no himeneu:
Minha noiva, ou minh'amante
Vem dormir no peito meu!
Dá-me um beijo — abre teus olhos
Por entre esse úmido véu:
Se na terra és minha amante,
És a minha alma no céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 119
Álvares de Azevedo
No Mar
Les étoiles s'allument au ciel, et la brise du soir
erre doucement parmi les fleurs: rêvez, chantez et
soupirez.
GEORGE SAND.
Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!
Sonhavas? — eu não dormia;
A minh'alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitiva!
E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!
Minha rola, ó minha flor,
Ó madressilva de amor!
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!
E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!
Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Sonhando a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!
Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!
Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
erre doucement parmi les fleurs: rêvez, chantez et
soupirez.
GEORGE SAND.
Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!
Sonhavas? — eu não dormia;
A minh'alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitiva!
E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!
Minha rola, ó minha flor,
Ó madressilva de amor!
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!
E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!
Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Sonhando a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!
Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!
Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 517
Paulo Setúbal
A Vila
Lembro-me bem dessa vilota rude,
Onde eu me fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...
Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...
Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Onde eu me fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...
Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...
Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 405
Juó Bananére
Sunetto Crassico
Sette anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da Raffaela, serrana bella,
Ma non servia o pai, che illo non era trouxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá c'oella.
I os dia, na speranza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o páio, fugino da gombinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quano o Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaido na sparella,
Ficô c'um brutto d'um garó di arara,
I incominciô di servi otros sette anno
Dizeno: Si o Labó non fossi o pai d'ella
Io pigava elli i li quibrava a gara.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Publicado em O Pirralho, São Paulo, n.201, 4 set. 1915. Paródia do soneto "Sete Anos de Pastor Jacó Servia", de Luís de Camõe
Padre da Raffaela, serrana bella,
Ma non servia o pai, che illo non era trouxa nó!
Servia a Raffaela p'ra si gazá c'oella.
I os dia, na speranza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o páio, fugino da gombinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quano o Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaido na sparella,
Ficô c'um brutto d'um garó di arara,
I incominciô di servi otros sette anno
Dizeno: Si o Labó non fossi o pai d'ella
Io pigava elli i li quibrava a gara.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Publicado em O Pirralho, São Paulo, n.201, 4 set. 1915. Paródia do soneto "Sete Anos de Pastor Jacó Servia", de Luís de Camõe
2 384
Pedro Kilkerry
Evoé, 1910
Primavera! — versos, vinhos...
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!
Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!
E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?
Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!
E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!
Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!
E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?
Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!
E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
2 424
Álvares de Azevedo
Canto Segundo
And her head droo'd as when the lily lies
O'er charged with rain.
Don Juan.
I
Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!
II
Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?
III
Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!
IV
Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas — prostituta!
V
A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?
VI
Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!
VII
E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?
(...)
IX
Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)
Imagem - 00280001
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitava
O'er charged with rain.
Don Juan.
I
Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!
II
Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?
III
Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!
IV
Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas — prostituta!
V
A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?
VI
Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!
VII
E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?
(...)
IX
Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)
Imagem - 00280001
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitava
2 113
Castro Alves
Adormecida
Ses longs cheveux épars la couvrent tour entiere
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa priere.
Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.
A. DE MUSSET
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."
São Paulo, novembro de 1868.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa priere.
Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.
A. DE MUSSET
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."
São Paulo, novembro de 1868.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
2 485
Renata Pallottini
Cântico dos Cânticos - 2:16
(O meu amor é meu e eu sou dele; ele apascenta
o seu rebanho entre os lírios.)
O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.
Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.
Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.
Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.
28-09-59
Publicado no livro Livro de Sonetos (1961).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.9
o seu rebanho entre os lírios.)
O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.
Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.
Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.
Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.
28-09-59
Publicado no livro Livro de Sonetos (1961).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.9
1 900
Luís Guimarães Júnior
Paulo e Virgínia
Fomos um dia alegres, estouvados,
Ao clarão matinal do sol nascente,
Colher as flores do vergel ridente
E as primeiras amoras dos cercados.
Venturosos, risonhos, namorados,
Cada qual mais feliz e mais contente,
Esquecemos a terra inteiramente:
Doidos de amor, de gozo embriagados.
Seus cabelos — enquanto ela corria,
Voavam, loiros como a luz, dispersos!
Eu a chamava e ela me fugia.
Por fim voltamos — em prazer imersos:
E das venturas todas desse dia...
Resta a saudade que inspirou meus versos.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Ao clarão matinal do sol nascente,
Colher as flores do vergel ridente
E as primeiras amoras dos cercados.
Venturosos, risonhos, namorados,
Cada qual mais feliz e mais contente,
Esquecemos a terra inteiramente:
Doidos de amor, de gozo embriagados.
Seus cabelos — enquanto ela corria,
Voavam, loiros como a luz, dispersos!
Eu a chamava e ela me fugia.
Por fim voltamos — em prazer imersos:
E das venturas todas desse dia...
Resta a saudade que inspirou meus versos.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 920
Domingos Carvalho da Silva
A Bem Amada no Mar
Alva gaivota hesitante
a bem-amada insinua
ao dorso de um mar sem ilhas
seu corpo de garça nua.
Suas mãos voam como pássaros
de fina garra escarlata.
No búzio de sua orelha
ressoam segredos de água.
A bem-amada se esconde
atrás de fortins de espuma.
De cem espelhos truncados
sobem reflexos de lua,
E o mar, como um polvo, aperta
sua cintura delgada.
Já as estrelas desfalecem
nos olhos da bem-amada.
Já os seus seios afloram
como "ice-bergs" na bruma.
E um batel de algas negras
entre suas coxa flutua...
Já os seus cabelos se soltam
como sargaços errantes.
Já em suas mãos embaraça
o galopar de hipocampos.
E quando morrer a lua
e o sol afagar seu rosto
as andorinhas do mar
virão noivar em seu corpo.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
a bem-amada insinua
ao dorso de um mar sem ilhas
seu corpo de garça nua.
Suas mãos voam como pássaros
de fina garra escarlata.
No búzio de sua orelha
ressoam segredos de água.
A bem-amada se esconde
atrás de fortins de espuma.
De cem espelhos truncados
sobem reflexos de lua,
E o mar, como um polvo, aperta
sua cintura delgada.
Já as estrelas desfalecem
nos olhos da bem-amada.
Já os seus seios afloram
como "ice-bergs" na bruma.
E um batel de algas negras
entre suas coxa flutua...
Já os seus cabelos se soltam
como sargaços errantes.
Já em suas mãos embaraça
o galopar de hipocampos.
E quando morrer a lua
e o sol afagar seu rosto
as andorinhas do mar
virão noivar em seu corpo.
Publicado no livro Girassol de outono: poemas, 1949/1951 (1952).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
1 272
Aureliano Lessa
Mensagem
(...)
Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.
Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...
Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.
Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.
Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,
Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.
Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...
Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.
Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...
Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.
Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.
Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,
Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.
Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...
Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 218
Joaquim Manuel de Macedo
Cântico: A Incógnita
(...)
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
2 367
Colombina
Exaltação
Olhas nos olhos meus. E eu vejo nesse instante
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 448
Mário Faustino
Alba
Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
"Levanta patife, sus!
Vê, já reluz
A luz
Depressa, corre,
Que a noite morre..."
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
"Levanta patife, sus!
Vê, já reluz
A luz
Depressa, corre,
Que a noite morre..."
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
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Joaquim Manuel de Macedo
Bonita e marotinha, (Ato IV, Cena III)
(...)
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Dionísia (Cantando dentro: lundu) — Bonita e marotinha.
Eu sou como andorinha
Que, só, não faz verão.
Voando a sós no espaço,
Cair quero no laço
Que prende o coração.
Cincinato (Canta) — Caído e enrabixado
Sou peixe, teu pescado,
Com o anzol no coração.
Não fiques mais sozinha,
Vem cá, minha andorinha.
Vamos fazer verão.
Dionísia (Rindo-se dentro) — Ah! ah! ah! ah! (Canta.)
O amor de uma andorinha
Na sombra se amesquinha,
Quer lúcido esplendor.
Voando a sós no espaço,
Só cairei em laço
De enleio encantador.
Cincinato (Canta.) — Meu laço é um tesouro,
Jóias, brilhante, ouro,
Súcia, teatro, ceia
Sedas, e até veludo,
Coques, anquinhas, tudo,
E a bolsa sempre cheia.
Dionísia (Canta dentro.) — Sou terna e já me inflama
Aquela viva flama.
Que abrasa o coração:
Pressinto que a andorinha
Não fica mais sozinha.
E vai fazer verão...
Cincinato (Canta.) — Por mim estou em brasas...
Se queres, bate as asas,
Me deixa ser ladrão;
Vamos tecer um ninho,
Voa, meu passarinho,
Vamos fazer verão.
(...)
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo: Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1982. v.3, p.96-97. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Colombina
Intimidade
Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.
Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... Sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.
Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... E, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...
E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual de delícias sem conta...
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.
Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... Sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.
Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... E, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...
E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual de delícias sem conta...
Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
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Colombina
Banco de Jardim
Amo os céus iluminados
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
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