Temas
Poemas neste tema

Amor Romântico

Fernando Mendes Vianna

Fernando Mendes Vianna

Oratório do corpo (trechos)

Segue os ditames do teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.

...

O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.

O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.

...

Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz
– a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.

1 453
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Malva-maçã

De teus seios tão mimosos
quem gozasse o talismã!
Quem ali deitasse a fronte
cheia de amoroso afã!
E quem nele respirasse
a tua malva-maçã!

Dá-me essa folha cheirosa
que treine no seio teu!
Dá-me a folha... hei de beijá-la
sedenta no lábio meu!
Não vês que o calor do seio
tua malva emurcheceu...

A pobrezinha em teu colo
tantos amores gozou,
viveu em tanto perfume
que de enlevos expirou!
Quem pudesse no teu seio
morrer como ela murchou!

Teu cabelo me inebria,
teu ardente olhar seduz;
a flor dos teus olhos negros
de tua alma raia à luz,
e sinto nos lábios teus
fogo do céu que transluz!

O teu seio que estremece
enlaguece-me de gozo.
Há um quê de tão suave
no colo voluptuoso,
que num trêmulo delíquio
faz-me sonhar venturoso!

Descansar nesses teus braços
fora angélica ventura:
fora morrer – nos teus lábios
aspirar tua alma pura!
Fora ser Deus dar-te um beijo
na divina formosura!

Mas o que eu peço, donzela,
meus amores, não é tanto!
Basta-me afolha do seio
para que eu viva no encanto,
e em noites enamoradas
eu verta amoroso pranto!

Oh! virgem dos meus amores,
dá-me essa folha singela!
Quero sentir teu perfume
nos doces aromas dela...
E nessa malva-maçã
sonhar teu seio, donzela!

Uma folha assim perdida
de um seio virgem no afã
acorda ignotas doçuras
com divino talismã!
Dá-me do seio esta folha
– a tua malva-maçã!

Quero apertá-la a meu peito
e beijá-la com ternura...
Dormir com ela nos lábios
desse aroma na frescura...
Beijando-a sonhar contigo
e desmaiar de ventura!

A folha que tens no seio
de joelhos pedirei...
Se posso viver sem ela
não o creio!... Oh, eu não sei!...
Dá-ma pelo amor de Deus,
que sem ela morrerei.

Pelas estrelas da noite,
pelas brisas da manhã,
por teus amores mais puros,
pelo amor de tua irmã,
dá-me essa folha cheirosa
– a tua malva-maçã!
2 035
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

O Salvador

Porque isto é bom e agradável
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4

Silêncio!

Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....

Respeito!

Ouça!

Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.

Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...

Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?

Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.

Ouça!
Velam por ti
como se fora louça

Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!

Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;

que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.

Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.

A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.

Ouça!

Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...

se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...

Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...

Quem te conduzirás?...

Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.

Ouça!

Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)

O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.

Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.

Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...

Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.

Ouça!

Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...

A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.

Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...

Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.

Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...

Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.

Ouça!

Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti

Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.

— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —

Silêncio!
Clamam por ti.

Domingo pascal, 30 de março de 1997.

Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26

1 024