Poemas neste tema
Paixão
Ana Luísa Amaral
Navegações Doentes
Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo
os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino
tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo
os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino
tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos
4 213
1
Angela Santos
As Tuas Mãos
Nas
tuas mãos
está guardado um segredo
que eu procuro desvendar
nas tuas mãos
vislumbro o afago
que espanta o medo
Das tuas mãos
sobe uma melodia
que embebeda meus olhos
e as minhas se as tocam
cercam-nas como prisão
por tanto quererem
em si guardá-las
As tuas mãos
são o lugar onde termina
o abraço se me enlaças,
as tuas mãos guardam o toque de veludo,
e trémulas fazem explodir em mim
mil sois de Agosto
As tuas mãos tecem em seus
gestos delicadas rendas que eu cuido e guardo
para debruar o manto
que há - de cobrir
o teu corpo e o meu
Nas tuas mãos, se as toco
sinto o fogo que te abrasa a alma
o mesmo fogo que me toma e leva
na inexplicável vibração
que em nós soa.
tuas mãos
está guardado um segredo
que eu procuro desvendar
nas tuas mãos
vislumbro o afago
que espanta o medo
Das tuas mãos
sobe uma melodia
que embebeda meus olhos
e as minhas se as tocam
cercam-nas como prisão
por tanto quererem
em si guardá-las
As tuas mãos
são o lugar onde termina
o abraço se me enlaças,
as tuas mãos guardam o toque de veludo,
e trémulas fazem explodir em mim
mil sois de Agosto
As tuas mãos tecem em seus
gestos delicadas rendas que eu cuido e guardo
para debruar o manto
que há - de cobrir
o teu corpo e o meu
Nas tuas mãos, se as toco
sinto o fogo que te abrasa a alma
o mesmo fogo que me toma e leva
na inexplicável vibração
que em nós soa.
2 156
1
Joaquim Pessoa
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
2 746
1
Angela Santos
Jogo de Palavras
Desatei
o emaranhado do sentir
e com simples palavras arrumei a cabeça
de uma forma única
Deixei crescer e avançar o poema
Ao ritmo de palavras simples
que não são diferentes das que usamos sempre
que dizemos pão ou dizemos paz
se dizemos dor, punhal silêncio e sol
se dizemos amor, seda ou espinhos
se dizemos dia, música e ventania
se dizemos saudade e ao dize-la a sentimos
Com palavras toscas, simples ou debruadas
fazemos sentido, deixamos recados
recados da alma
que emergem dos cantos onde entra a luz
ou desses lugares lúgubres e sombrios
mas sempre a palavra será esse fio
o que nos conduz
ao lado de fora desses labirintos.
Amo na palavra
esse modo único de ser e dizer
e que simples seja
pra fazer a vez do gesto que toca,
do olho que explode
do corpo que tremulo exala paixão
Que a palavra diga, simplesmente diga
e não faça nunca o papel da vida,
mas se como ela é
pulsão, sangue, corrente e grito
quando à boca assoma a palavra certa
é a própria vida
que em si mesma digo.
o emaranhado do sentir
e com simples palavras arrumei a cabeça
de uma forma única
Deixei crescer e avançar o poema
Ao ritmo de palavras simples
que não são diferentes das que usamos sempre
que dizemos pão ou dizemos paz
se dizemos dor, punhal silêncio e sol
se dizemos amor, seda ou espinhos
se dizemos dia, música e ventania
se dizemos saudade e ao dize-la a sentimos
Com palavras toscas, simples ou debruadas
fazemos sentido, deixamos recados
recados da alma
que emergem dos cantos onde entra a luz
ou desses lugares lúgubres e sombrios
mas sempre a palavra será esse fio
o que nos conduz
ao lado de fora desses labirintos.
Amo na palavra
esse modo único de ser e dizer
e que simples seja
pra fazer a vez do gesto que toca,
do olho que explode
do corpo que tremulo exala paixão
Que a palavra diga, simplesmente diga
e não faça nunca o papel da vida,
mas se como ela é
pulsão, sangue, corrente e grito
quando à boca assoma a palavra certa
é a própria vida
que em si mesma digo.
2 428
1
Silvaney Paes
Segredo
Tenho que lhe contar um segredo,
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
833
1
Luis Fernando Verissimo
Declaração de Amor
Tentei
dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber falar.
Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e depois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.
A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
"Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo"
E você não disse nada. E você não disse nada.
Só mais tarde, de ressaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma almofada.
Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palpitações:
No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
"Mata! Mata!" por conservacionistas, ecólogos e afins.
Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
"Se não me segurarem faço um soneto"
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.
Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o asseio que se
lixe, todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado: era PC, PC do B ou alguma dissidência?
Te escrevi com lágrimas , sangue, suor e mel
(você devia ver o estado do papel)
uma carta longa, linda e passional.
De resposta nem uma carinha
nem um cartão, nem uma linha!
Vá se confiar no Correio Nacional.
Com uma serenata, sim, uma serenata como nos tempos da Cabocla Ingrata
me declararia, respeitando a métrica.
Ardor, tenor, a calçada enluarada...
havia tudo sob a tua sacada
menos tomada pra guitarra elétrica.
Decidi, então, botar a maior banca no céu escrever com
fumaça branca: "Te amo, assinado.." e meu nome bem
legível. Já tinha avião, coragem, brevê, tudo
para
impressionar você mas veio a crise, faltou o combustível.
Ontem você me emprestou seu ouvido e na discoteca, em
meio do alarido, despejei meu coração.
Falei da devoção ha anos entalada e você disse "Não
escuto banda". Disse "eu não escuto nada".
Curta é a vida, longa é a paixão.
Na velhice, num asilo, lado a lado em meio a um silêncio
abençoado direi o que sinto, meu bem.
O meu único medo é que então empinando a orelha com
a mão você me responda só: "Hein?"
dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber falar.
Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e depois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.
A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
"Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo"
E você não disse nada. E você não disse nada.
Só mais tarde, de ressaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma almofada.
Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palpitações:
No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
"Mata! Mata!" por conservacionistas, ecólogos e afins.
Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
"Se não me segurarem faço um soneto"
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.
Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o asseio que se
lixe, todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado: era PC, PC do B ou alguma dissidência?
Te escrevi com lágrimas , sangue, suor e mel
(você devia ver o estado do papel)
uma carta longa, linda e passional.
De resposta nem uma carinha
nem um cartão, nem uma linha!
Vá se confiar no Correio Nacional.
Com uma serenata, sim, uma serenata como nos tempos da Cabocla Ingrata
me declararia, respeitando a métrica.
Ardor, tenor, a calçada enluarada...
havia tudo sob a tua sacada
menos tomada pra guitarra elétrica.
Decidi, então, botar a maior banca no céu escrever com
fumaça branca: "Te amo, assinado.." e meu nome bem
legível. Já tinha avião, coragem, brevê, tudo
para
impressionar você mas veio a crise, faltou o combustível.
Ontem você me emprestou seu ouvido e na discoteca, em
meio do alarido, despejei meu coração.
Falei da devoção ha anos entalada e você disse "Não
escuto banda". Disse "eu não escuto nada".
Curta é a vida, longa é a paixão.
Na velhice, num asilo, lado a lado em meio a um silêncio
abençoado direi o que sinto, meu bem.
O meu único medo é que então empinando a orelha com
a mão você me responda só: "Hein?"
1 927
1
Aníbal Raposo
Poema na Madrugada
Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...
Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.
Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.
Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.
Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.
Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.
Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.
Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.
Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.
Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...
Pura...
Heroína...
Menina...
Lua...
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...
Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.
Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.
Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.
Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.
Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.
Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.
Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.
Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.
Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...
Pura...
Heroína...
Menina...
Lua...
1 020
1
Giselle del Pino
Definitivamente
II
Âncora
dos meus delírios
Lábios que me calam quando
Vou dormir.
Ainda ontem não sonhava tuas mãos.
E agora?
Definitivamente infinita,
Atordoada pela vontade de ser tua,
Reescrevo o que foi quase verdadeiro.
Palavras, frases
Que guardei secreta,
Mas revelando imediata,
Meu definitivo amor.
Âncora
dos meus delírios
Lábios que me calam quando
Vou dormir.
Ainda ontem não sonhava tuas mãos.
E agora?
Definitivamente infinita,
Atordoada pela vontade de ser tua,
Reescrevo o que foi quase verdadeiro.
Palavras, frases
Que guardei secreta,
Mas revelando imediata,
Meu definitivo amor.
904
1
Silvaney Paes
Maldição
Que seja
esse amor de tantas partes
que nunca aches que já é todo teu
para que de mim nunca te apartes
pois procurando esses pedaços
precisará que te repartas
em tantas partes
que te encontraras perdida,
apenas para que eu te ache.
E serão minhas todas as tuas partes.
Que possa você medi-lo um dia
mesmo quando parecer tão desmedido,
trazendo uma medida a cada dia.
Mas que nunca saibas
se ele é desse ou daquele outro dia,
porque terás que buscá-lo
dia após dia,
tantos quantos forem nossos dias.
Que possas dele te aperceber na hora exata,
para não perde-lo
e que dele seja toda hora,
de longas e infinitas horas.
Seja daquela de chorar no gozo,
de êxtase e de riso
mas que seja também de outras horas
de sofrer na dor, no lamento ou no grito.
E que ele ocupe no teu peito a maior parte,
trazendo uma medida que de tão descomedida,
seja a maldição de todos os teus dias
fincando no teu peito tantas raízes,
que nunca poderás negá-lo.
E mesmo se o declarares como morto,
escutarás sempre o seu grito:
-Amor... ESTOU VIVO!
esse amor de tantas partes
que nunca aches que já é todo teu
para que de mim nunca te apartes
pois procurando esses pedaços
precisará que te repartas
em tantas partes
que te encontraras perdida,
apenas para que eu te ache.
E serão minhas todas as tuas partes.
Que possa você medi-lo um dia
mesmo quando parecer tão desmedido,
trazendo uma medida a cada dia.
Mas que nunca saibas
se ele é desse ou daquele outro dia,
porque terás que buscá-lo
dia após dia,
tantos quantos forem nossos dias.
Que possas dele te aperceber na hora exata,
para não perde-lo
e que dele seja toda hora,
de longas e infinitas horas.
Seja daquela de chorar no gozo,
de êxtase e de riso
mas que seja também de outras horas
de sofrer na dor, no lamento ou no grito.
E que ele ocupe no teu peito a maior parte,
trazendo uma medida que de tão descomedida,
seja a maldição de todos os teus dias
fincando no teu peito tantas raízes,
que nunca poderás negá-lo.
E mesmo se o declarares como morto,
escutarás sempre o seu grito:
-Amor... ESTOU VIVO!
1 001
1
Reinaldo Ferreira
Se flores jamais me deres
Se flores jamais me deres,
Se eu rir e tu não rires,
Se quando eu chegar fugires
Ninguém dirá que me queres!
Se tu ocultar puderes
O que há nesses olhos teus
E que é tão igual nos meus
Ninguém dirá que me queres!
Se alguma vez tu puseres
A minha mão tua mão
Sem que estremeças, então
Ninguém dirá que me queres!
E se o que te dei me deres
A minha trança e três flores
Não pode haver mais rumores
Ninguém dirá que me queres!
Se eu rir e tu não rires,
Se quando eu chegar fugires
Ninguém dirá que me queres!
Se tu ocultar puderes
O que há nesses olhos teus
E que é tão igual nos meus
Ninguém dirá que me queres!
Se alguma vez tu puseres
A minha mão tua mão
Sem que estremeças, então
Ninguém dirá que me queres!
E se o que te dei me deres
A minha trança e três flores
Não pode haver mais rumores
Ninguém dirá que me queres!
2 021
1
Paulo Mendes Campos
Amor Condusse Noi Ad Nada
Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
1 094
1
Paulo Mendes Campos
Translúcido
Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
1 432
1
Herberto Sales
Bruma Rubra
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
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1
Ednólia Fontenele
Busca
Procuro um poema novo
derramando sangue
cheirando mal
falando de paixões eróticas
de crimes violentos.
Procuro um poema
com a cor do sol,
o brilho da tua pele,
com sabor de língua.
Procuro um poema
perverso como eu,
triste, mas contestador.
Quero mais sal na comida,
mais prudência na vida,
evitar o espelho na saída,
sorrir na despedida
e sem dor nenhuma
negar essa paixão.
derramando sangue
cheirando mal
falando de paixões eróticas
de crimes violentos.
Procuro um poema
com a cor do sol,
o brilho da tua pele,
com sabor de língua.
Procuro um poema
perverso como eu,
triste, mas contestador.
Quero mais sal na comida,
mais prudência na vida,
evitar o espelho na saída,
sorrir na despedida
e sem dor nenhuma
negar essa paixão.
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1
José Carlos Souza Santos
Moço Bonito
obs: neste poema, o poeta se traveste
em mulher, para cantar o que vai
no peito da amada.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
chega junto dos meus olhos
quero ver a tua luz
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
me deixe ver a poeira do caminho
trazida nas mãos e nos bolsos
e nos gestos cansados que percebo
por baixo
do verde nesses olhos tristes
Chega mais perto
moço bonito,
quero ver os signos tatuados
no teu rosto,
quero ver os caminhos desandados
enquanto não me alcançaste em tua busca
Me deixa tocar teu corpo
quero senti-lo, vibrar no toque
da minha mão renascida em você...moço bonito,
Me deixa roçar tua boca
do gosto de pêssego esquecida, pois
não me tinha revelado ainda em fruto, em mel
antes de me alcançar madura, para o teu gosto...
moço bonito.
Em troca disso tudo
te deixo renascer na seiva da minha lava,
te deixo amanhar o amanhã que descobristes
depois de caminhos tantos,
me faço em ouro negro nos olhos
p´ra combinar com a esperança
que vejo brilhar nos teus
moço bonito,
Me toma e me leva,
me vista de sonhos...moço bonito,
faça dos nossos passos
a asa de um passarinho,
me dê o canto da tua voz na minha floresta
nunca ouvido,
me diga palavras doces em sussurros de cachoeiras
murmuradas.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
em mulher, para cantar o que vai
no peito da amada.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
chega junto dos meus olhos
quero ver a tua luz
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
me deixe ver a poeira do caminho
trazida nas mãos e nos bolsos
e nos gestos cansados que percebo
por baixo
do verde nesses olhos tristes
Chega mais perto
moço bonito,
quero ver os signos tatuados
no teu rosto,
quero ver os caminhos desandados
enquanto não me alcançaste em tua busca
Me deixa tocar teu corpo
quero senti-lo, vibrar no toque
da minha mão renascida em você...moço bonito,
Me deixa roçar tua boca
do gosto de pêssego esquecida, pois
não me tinha revelado ainda em fruto, em mel
antes de me alcançar madura, para o teu gosto...
moço bonito.
Em troca disso tudo
te deixo renascer na seiva da minha lava,
te deixo amanhar o amanhã que descobristes
depois de caminhos tantos,
me faço em ouro negro nos olhos
p´ra combinar com a esperança
que vejo brilhar nos teus
moço bonito,
Me toma e me leva,
me vista de sonhos...moço bonito,
faça dos nossos passos
a asa de um passarinho,
me dê o canto da tua voz na minha floresta
nunca ouvido,
me diga palavras doces em sussurros de cachoeiras
murmuradas.
Chega mais perto
moço bonito,
chega mais...
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Castro Menezes
Messalina
Anelante, a vagar, ébria como uma escrava,
Achou-a um centurião certa noite, na rua
E ambos, a carne em fogo, enlaçaram-se à lua.
Como um casal de leões numa floresta brava.
Rugem de gozo os dois, sob a incendida lava
Do furor que num beijo infindo os extenua,
Deixando-a desgrenhada, exausta, seminua,
Mas feliz no atascal do vício que a deprava.
Desde então, a indagar-lhe o nome e o paradeiro,
Mortas horas da noite, o lúbrico guerreiro,
Abrasado de amor, no lupanar assoma.
Mas a buscá-la em vão, da Urbs pelo antro impuro,
Morrerá sem saber que ele, um soldado obscuro,
Possuíra, em plena rua, a Imperatriz de Roma!
Achou-a um centurião certa noite, na rua
E ambos, a carne em fogo, enlaçaram-se à lua.
Como um casal de leões numa floresta brava.
Rugem de gozo os dois, sob a incendida lava
Do furor que num beijo infindo os extenua,
Deixando-a desgrenhada, exausta, seminua,
Mas feliz no atascal do vício que a deprava.
Desde então, a indagar-lhe o nome e o paradeiro,
Mortas horas da noite, o lúbrico guerreiro,
Abrasado de amor, no lupanar assoma.
Mas a buscá-la em vão, da Urbs pelo antro impuro,
Morrerá sem saber que ele, um soldado obscuro,
Possuíra, em plena rua, a Imperatriz de Roma!
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Gilberto Mendonça Teles
Chá das Cinco
A Jorge Amado
chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)
chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)
6 982
1
Pedro Kilkerry
Ad veneris lacrimas
Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
Que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
Deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu Instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...
Canta a lâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
Acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
Aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.
Íon treme, estremece. Adora o ritmo louro
Da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
Finas frechas de luz na cúpula aquecida...
Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
Mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
Lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.
1 917
1
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
Só o Amor
Entre o fumo do cigarro
E o sorriso de uma boca
Nasce o luar
Numa seara de espuma
Quem nunca amou
Como sabe porque se ama?
O próprio dia quando acorda de manhã
Trazendo sementes virgens
Transpondo a face da minha alma
Enche de formas e sons envolventes
A cada passo a esperança que renasce.
Fossem minhas, tudo o que eu amo
As palavras sepultadas na minha boca
Na cadência simétrica dos lábios
O gesto parado ...
Ah! sonhos que partiram
Lembranças que ficaram
Esse fogo aprisionado
Sejam mudos, apagados
E apenas eu a pressenti-los.
Ah! fontes desvairadas
Onde o rumor das águas,
É melodia e amor
Trago comigo o cantar diário
O ritmo de quem possui um elixir.
Ah! orgulho que queima
Dói,
Sangra e até corrói,
Quantas serão precisas
Para estrangular essa fúria
Quantas vozes para segurar
conter essa força?!
Só o Amor
E o sorriso de uma boca
Nasce o luar
Numa seara de espuma
Quem nunca amou
Como sabe porque se ama?
O próprio dia quando acorda de manhã
Trazendo sementes virgens
Transpondo a face da minha alma
Enche de formas e sons envolventes
A cada passo a esperança que renasce.
Fossem minhas, tudo o que eu amo
As palavras sepultadas na minha boca
Na cadência simétrica dos lábios
O gesto parado ...
Ah! sonhos que partiram
Lembranças que ficaram
Esse fogo aprisionado
Sejam mudos, apagados
E apenas eu a pressenti-los.
Ah! fontes desvairadas
Onde o rumor das águas,
É melodia e amor
Trago comigo o cantar diário
O ritmo de quem possui um elixir.
Ah! orgulho que queima
Dói,
Sangra e até corrói,
Quantas serão precisas
Para estrangular essa fúria
Quantas vozes para segurar
conter essa força?!
Só o Amor
965
1
Mario Ribeiro Martins
Qual o Teu Nome?
Qual seria teu nome, por ventura?
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
1 073
1
Natércia Freire
Regresso
Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
1 261
1
Marcus Accioly
Érato
"por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)
do gozo pela frente" (diz) e a boca
suplica ("mais") aí toda a carne é pouca
para todo o desejo (pela frente
o amor no Próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás
da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de pegar os cabelos quando ondulam
suas crinas) que o gozo insatisfeito
precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude ou gozar mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)
1 870
1
Marcia Agrau
Total
Eu te amo
Tanto amo teu olhar doce e inocente
como amo teu olhar insolente.
Amo tuas mãos suaves no afago
como amo aborrecidas no gesto de enfado.
Eu amo tua boca que geme de prazer
e amo tua boca xingando semquerer.
Eu amo teu muxoxo e amo o teu sorriso.
Tuas loucuras, teu sonho,teu juizo...
Amo teus braços me enlaçando carinhosos
e amo teus braços bradando furiosos.
Amo teus ombros fortes,protetores
onde chorei tanto minhas dores
e onde a tensão vejo acumular.
Amo tuas pernas fortes e pesadas
que cabelos escuros fazem amorenadas.
Amo teus pés de suave textura,
a marca do calção,tua eterna brancura
e amo,sobretudo, abaixo da cintura
teu falo imponente, fingindo-se inocente
que penetrando em mim,me transporta às alturas.
Eu te amo inteiramente todo,da cabeça aos pés.
E amo cá por fora e por dentro quem és
com as muitas qualidades e os defeitos teus
Que os limites que traço
vão de onde começa o desejo do abraço
até onde termina a alma, sabe Deus...
Tanto amo teu olhar doce e inocente
como amo teu olhar insolente.
Amo tuas mãos suaves no afago
como amo aborrecidas no gesto de enfado.
Eu amo tua boca que geme de prazer
e amo tua boca xingando semquerer.
Eu amo teu muxoxo e amo o teu sorriso.
Tuas loucuras, teu sonho,teu juizo...
Amo teus braços me enlaçando carinhosos
e amo teus braços bradando furiosos.
Amo teus ombros fortes,protetores
onde chorei tanto minhas dores
e onde a tensão vejo acumular.
Amo tuas pernas fortes e pesadas
que cabelos escuros fazem amorenadas.
Amo teus pés de suave textura,
a marca do calção,tua eterna brancura
e amo,sobretudo, abaixo da cintura
teu falo imponente, fingindo-se inocente
que penetrando em mim,me transporta às alturas.
Eu te amo inteiramente todo,da cabeça aos pés.
E amo cá por fora e por dentro quem és
com as muitas qualidades e os defeitos teus
Que os limites que traço
vão de onde começa o desejo do abraço
até onde termina a alma, sabe Deus...
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Manuel da Fonseca
Estradas
Não era noite nem dia.
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.
E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.
Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
— Ó nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?
Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.
Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!
Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.
E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.
Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
— Ó nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?
Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.
Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!
Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…
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