Poemas neste tema
Angústia
Orlando Neves
1954
Este rosto de hoje,
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.
1 040
Ona Gaia
Quando a alma
Quando a alma
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
830
Orlando Neves
1935
Vou alimentar-te à mão, ternura,
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.
1 070
Núbia Marques
Sortilégio
tua boca tem mil noites
mil angústias
mil silêncios
dissipados rumos
rotineiros itinerários
tua boca tem mil lanças
mil dores
mil gritos lancinantes
mil tendões emparelhados
aparvalhados
emuralhados
tua boca morde auroras redentoras
polpa de fruto maldito
salivando veneno de extintos séculos
tempo haverá
e mil noites sazonadas
mil angústias apodrecidas
mil dores adormecidas
mil gritos já canção
serão vomitados e se cristalizarão
em mil estrelas candentes.
mil angústias
mil silêncios
dissipados rumos
rotineiros itinerários
tua boca tem mil lanças
mil dores
mil gritos lancinantes
mil tendões emparelhados
aparvalhados
emuralhados
tua boca morde auroras redentoras
polpa de fruto maldito
salivando veneno de extintos séculos
tempo haverá
e mil noites sazonadas
mil angústias apodrecidas
mil dores adormecidas
mil gritos já canção
serão vomitados e se cristalizarão
em mil estrelas candentes.
1 246
Nogueira Tapety
A Teia de Penélope
Penélope tecendo e destecendo a trama,
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
1 234
Nilto Maciel
Dor
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
como se fosse puro, imaculado,
como se fosse um anjo, um serafim,
como se fosse deus, imune à dor.
Eu nada sinto, dor nenhuma tenho,
quer na cabeça, quer no amargo peito.
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
perfeitamente são me sinto e puro.
Se existe mal em mim, se existe dor,
é a de morrer tão cedo, a pleno sol,
envelhecer como qualquer mortal.
E a dor maior, minha senhora bela,
é dentro dalma, bem profunda e aguda,
a dor chamada angústia, a dor de ser.
como se fosse puro, imaculado,
como se fosse um anjo, um serafim,
como se fosse deus, imune à dor.
Eu nada sinto, dor nenhuma tenho,
quer na cabeça, quer no amargo peito.
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
perfeitamente são me sinto e puro.
Se existe mal em mim, se existe dor,
é a de morrer tão cedo, a pleno sol,
envelhecer como qualquer mortal.
E a dor maior, minha senhora bela,
é dentro dalma, bem profunda e aguda,
a dor chamada angústia, a dor de ser.
890
Nauro Machado
Contumácia
Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.
Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,
que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,
essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,
corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?
Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?
Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!
Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?
Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!
Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?
Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.
Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo
no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.
Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!
Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.
Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.
Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.
E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação".
Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.
Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.
Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:
andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.
Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.
Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.
Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.
Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!
Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!
Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!
Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.
Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?
Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!
Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.
Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,
que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,
essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,
corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?
Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?
Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!
Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?
Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!
Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?
Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.
Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo
no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.
Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!
Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.
Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.
Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.
E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação".
Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.
Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.
Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:
andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.
Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.
Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.
Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.
Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!
Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!
Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!
Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.
Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?
Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!
Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!
1 569
Marly Vasconcelos
Verbum
Uma época escrevi estórias com tanta ansiedade
que não podia comer uma maçã.
Não havia tempo para o detalhe.
Palavra, eu fui palavra.
Poderás avaliar o que é ser palavra?
Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças
um território exaurido e descarnado,
pasto de animais melancólicos,
lagoas, cacimbas secas.
Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos.
Preço que paguei sendo palavras.
que não podia comer uma maçã.
Não havia tempo para o detalhe.
Palavra, eu fui palavra.
Poderás avaliar o que é ser palavra?
Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças
um território exaurido e descarnado,
pasto de animais melancólicos,
lagoas, cacimbas secas.
Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos.
Preço que paguei sendo palavras.
1 059
Myriam Fraga
Perspectiva
Este é um mundo-limite
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.
Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.
Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.
Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.
Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.
Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.
Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.
1 402
Marly de Oliveira
Não conheci o desterro
Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
1 194
Marcelo Mello Valença
Angústia, aprendi desde cedo
Angústia, aprendi desde cedo
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
925
Micheliny Verunschk
Vampiro
A palavra
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...
1 182
Mário Faustino
Soneto
Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
2 133
Maria Lucia Miranda Afonso
Delicadeza
Delicadeza
Uma pessoa tão delicada...
como uma chuva de cristal caindo nas rochas:
inútil tentar segurá-la com as mãos,
inevitável que algumas gotas se despedacem...
Tenho compaixão por ela,
é tão delicado ser delicado!
É tão duro ser delicada consigo mesma
quando se é tão delicada...
É tão duro, e tão delicado!
Uma pessoa tão delicada...
como uma chuva de cristal caindo nas rochas:
inútil tentar segurá-la com as mãos,
inevitável que algumas gotas se despedacem...
Tenho compaixão por ela,
é tão delicado ser delicado!
É tão duro ser delicada consigo mesma
quando se é tão delicada...
É tão duro, e tão delicado!
944
Millôr Fernandes
Reflexão Sobre a Reflexão
Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.
1 560
Mário Donizete Massari
Figurante
(uma canção)
Tantas palavras não ditas
na vida (fadiga)
o que buscamos está longe
está perto demais
aportado no cais
Buscando verdades me apego
a mentiras
dias desse qualquer dia
me rendo ao que sou
ou serei jamais
Nas mãos o que resta do
grande artefato
plano bordado de coisas errôneas
quase sempre banais
Movimento sereno de um corpo
enrustido de mágoas
lágrimas molham e ferem
o olhar
NÃO PAGAREI OS PECADOS DO [MUNDO
QUERO ANTES UM PORTO SEGURO
NAUFRAGAR MEUS DESEJOS[INCERTOS
ANCORAR MINHA SEDE NO MAR
NÃO SEREI HERÓI DESTE TEMPO
FIGURANTE DE UM SONHO A MAIS
NO CENÁRIO DE EXTREMO[CONFLITO
DESTE CIRCO ARMADO NO AR
Tantos momentos que a gente
descobre
de repente se morre
e ficamos de luto
em pleno verão
No céu desses olhos
o brilho mais forte
fugindo do norte
caímos na angústia
da agreste ilusão
Os filhos nos braços
os braços cansados
lábios cerrados
perderam o brilho e a cor
e o som
NÃO PAGAREI OS PECADOS . . .
Tantas palavras não ditas
na vida (fadiga)
o que buscamos está longe
está perto demais
aportado no cais
Buscando verdades me apego
a mentiras
dias desse qualquer dia
me rendo ao que sou
ou serei jamais
Nas mãos o que resta do
grande artefato
plano bordado de coisas errôneas
quase sempre banais
Movimento sereno de um corpo
enrustido de mágoas
lágrimas molham e ferem
o olhar
NÃO PAGAREI OS PECADOS DO [MUNDO
QUERO ANTES UM PORTO SEGURO
NAUFRAGAR MEUS DESEJOS[INCERTOS
ANCORAR MINHA SEDE NO MAR
NÃO SEREI HERÓI DESTE TEMPO
FIGURANTE DE UM SONHO A MAIS
NO CENÁRIO DE EXTREMO[CONFLITO
DESTE CIRCO ARMADO NO AR
Tantos momentos que a gente
descobre
de repente se morre
e ficamos de luto
em pleno verão
No céu desses olhos
o brilho mais forte
fugindo do norte
caímos na angústia
da agreste ilusão
Os filhos nos braços
os braços cansados
lábios cerrados
perderam o brilho e a cor
e o som
NÃO PAGAREI OS PECADOS . . .
872
Mário Donizete Massari
Tem dias
Tem dias que
a gente
cansa,
da vida
de tudo.
E pensa
em fugir do mundo
e escreve no muro.
Tem dias
que pensamos
em revolução
. . . e no pão
a gente
cansa,
da vida
de tudo.
E pensa
em fugir do mundo
e escreve no muro.
Tem dias
que pensamos
em revolução
. . . e no pão
616
Moniz Bandeira
O Poeta de Hoje
O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
À dor dos séculos os mortos despertaram.
Incendeiam-se mares, florestas e montanhas,
e marcha pela madrugada o exército dos sem rostos.
O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
Traz no peito a angústia das máquinas.
Travam-lhe a garganta baionetas sem lua.
Rompe nas suas mãos um sol feito de sangue
e os cavalos da fome puxam o carro da aurora.
O poeta hoje não cantará nem símbolos.
À dor dos séculos os mortos despertaram.
Incendeiam-se mares, florestas e montanhas,
e marcha pela madrugada o exército dos sem rostos.
O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
Traz no peito a angústia das máquinas.
Travam-lhe a garganta baionetas sem lua.
Rompe nas suas mãos um sol feito de sangue
e os cavalos da fome puxam o carro da aurora.
O poeta hoje não cantará nem símbolos.
1 123
Mário Donizete Massari
Jogada
João rola a bola
que mais se embola
Num rolo a bola rola
enrolando João
Que já não tem como sair
do rolo, do bolo
que enrolou sua vida
(numa mesa de bilhar)
que mais se embola
Num rolo a bola rola
enrolando João
Que já não tem como sair
do rolo, do bolo
que enrolou sua vida
(numa mesa de bilhar)
1 024
Marcus Accioly
Latinoamérica
Round 22
Fórceps
madre América minha (minha madre)
às vezes no teu seio (quando sofro
por coragem não ter de ser covarde)
ânsias sinto de estar ou ser de novo
no teu útero (sim) na intimidade
capaz de me fechar (como em um ovo
dentro de ti) por isso é natural
que me coloque em posição fetal
(sim) encolho meu peito até os joelhos
puxados com os dois braços (sem falar
vou boiando das chamas dos teus pêlos
ao teu ventre redondo feito o mar)
nado em tua placenta onde os vermelhos
lençóis do sangue tentam me dobrar
em suas dobras (madre) e sou o filho
que religa o cordão ao próprio umbigo
(ai quando o pensamento cega o sonho
ou o sonho quer mentalizar o mundo)
quando eu me reconheço tão estranho
que fecho os olhos para ver mais fundo
(madre minha) eu me curvo enquanto ponho
toda a cabeça em tua vulva e afundo
(à semelhança do avestruz) por dentro
do fim e do começo do teu centro
(em ti posso esconder-me de mim mesmo)
sou o menino que era no teu colo
(mas perdeu a saúde e está enfermo
de tanto suplicar o teu consolo)
eu quero ser (mesmo empurrado a ferro
como um bolo-de-carne ou feito um rolo-
de-sangue) igual a um feto que se esforce
a entrar em ti sob invertido fórceps
Fórceps
madre América minha (minha madre)
às vezes no teu seio (quando sofro
por coragem não ter de ser covarde)
ânsias sinto de estar ou ser de novo
no teu útero (sim) na intimidade
capaz de me fechar (como em um ovo
dentro de ti) por isso é natural
que me coloque em posição fetal
(sim) encolho meu peito até os joelhos
puxados com os dois braços (sem falar
vou boiando das chamas dos teus pêlos
ao teu ventre redondo feito o mar)
nado em tua placenta onde os vermelhos
lençóis do sangue tentam me dobrar
em suas dobras (madre) e sou o filho
que religa o cordão ao próprio umbigo
(ai quando o pensamento cega o sonho
ou o sonho quer mentalizar o mundo)
quando eu me reconheço tão estranho
que fecho os olhos para ver mais fundo
(madre minha) eu me curvo enquanto ponho
toda a cabeça em tua vulva e afundo
(à semelhança do avestruz) por dentro
do fim e do começo do teu centro
(em ti posso esconder-me de mim mesmo)
sou o menino que era no teu colo
(mas perdeu a saúde e está enfermo
de tanto suplicar o teu consolo)
eu quero ser (mesmo empurrado a ferro
como um bolo-de-carne ou feito um rolo-
de-sangue) igual a um feto que se esforce
a entrar em ti sob invertido fórceps
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