Poemas neste tema
Relações Tóxicas
Pedro Oom
Poema
Tua boca
é um dia estreito
cheio de moscas
De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.
1 266
Carlos Vogt
Dramaturgia
Não me sinto bem
no papel
vivido por você
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
no papel
vivido por você
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 048
Eunice Arruda
Outra Dúvida
Não sei se é
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
amor
ou
minha vida que pede
socorro
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
964
Leila Mícollis
Pena de Morte
Eram bastantes bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o Amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o Amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
1 002
Leila Mícollis
Feitos um para o Outro
"Ele fala de cianureto
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida"
(Chico Buarque de Hollanda)
Você quebra a mobília
eu desconto na filha...
E entre talhos e cortes
praticamos o esporte
de apostar, a vintém,
quem, dos dois, mata quem...
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida"
(Chico Buarque de Hollanda)
Você quebra a mobília
eu desconto na filha...
E entre talhos e cortes
praticamos o esporte
de apostar, a vintém,
quem, dos dois, mata quem...
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.1
810
Zuca Sardan
Veludosa Cantilena
"E você
minha fofa gordinha
como se chama ?"
perguntou
pra juvenil Mosquinha
cheio de manha
o ardiloso
Doutor Aranha ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
minha fofa gordinha
como se chama ?"
perguntou
pra juvenil Mosquinha
cheio de manha
o ardiloso
Doutor Aranha ...
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 494
Felipe Larson
GAROTA DE PROMESSA
Não me faça promessas
Que não irá cumprir
Eu não entro mais nessa
E depois partir
Já estive em seu mundo
De pura ilusão
Que me deixou confuso
E sem direção
Não me ligue mais
Nem chame meu nome
Já me machuquei de mais
Toda vez que some
Porque tem que ser assim
É o que quero saber
Você gosta de mim?
Fingiu não entender
Mas venha e responda
A pergunta que faço
Não, não me role
E nem me faz de gato e sapato
Que não irá cumprir
Eu não entro mais nessa
E depois partir
Já estive em seu mundo
De pura ilusão
Que me deixou confuso
E sem direção
Não me ligue mais
Nem chame meu nome
Já me machuquei de mais
Toda vez que some
Porque tem que ser assim
É o que quero saber
Você gosta de mim?
Fingiu não entender
Mas venha e responda
A pergunta que faço
Não, não me role
E nem me faz de gato e sapato
635
Alfonsina Storni
O Engano
Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.
1 514
Alda Pereira Pinto
Scherzos
Ora, meu chapa, te esguia...
tu vives sempre implicando
com meu modo de viver.
Sou prosa, sei que sou prosa,
pois nada devo a ninguém
e por isso tu me acusas
de convencida e orgulhosa.
Se acaso escondo o meu jogo
de alguma amiga ou parenta
que quer dinheiro emprestado
tu vens logo xeretando
e chamar-me de avarenta
Se desejo ter o trato
que tem a nossa vizinha
mais feia que um chimpanzé
mas, granfa e sempre cheirosa,
e fico olhando a perua
do buraco da janela,
o meu humor envenenas
como se eu fosse invejosa.
Se a cozinheira me chama na hora agá da novela,
no momento em que o bacana
está cantando a boazuda
e eu raspo uma espinafrada
na chatona de galocha,
tu bancas o imaculado
de mãos postas: queridinha,
a ira é grande pecado!
De manhã, se acho bacana
ficar na cama um pouquinho
enquanto tomas café,
vens com a cara pendurada,
igual a um velho gagá,
entre os dentes resmungando:
preguiçosa, preguiçosa...
Quando vou ao restaurante,
só porque olho o cardápio
e prefiro um vatapá
com castanha e amendoim,
uma pizza, uma fritada,
um macarrão com almôndegas,
um arroz, uma salada
com creme de leite e vinho,
um pudim de chocolate
e por cima um cafezinho,
me olhas com olhar tão terno,
mas lá bem dentro de ti
tua voz grita: gulosa
vai comer assim no inferno.
Tu me chamas fogueteira,
sapeca, luxurienta,
sem motivo, à-toa, à-toa,
porque já de longa data
tu pifaste, meu querido,
e eu prossigo, e muito boa.
És anjinho e eu carrego
os pecados de satã,
mas não te darei pelota.
Para mim só é pecado
ser bucho, ser idiota,
é querer comprar um teco
e não ver na bolsa a nota,
é guardar grande desejo
de chapoletar alguém
e em vez disso dar-lhe um beijo,
é ter um bom apetite
e só comer vegetais,
é vontade de mandar
todo dia uma brasinha
e ficar de olhinhos baixos
com ares de pomba-rola
num altar de uma santinha.
E, que o bom Deus me perdoe
se estou dizendo heresia,
pecado é ficar zanzando
pela vida dando murros,
é dormir noites inteiras
sem os prelúdios do amor,
é trabalhar no pesado
suando tal qual os burros.
Se tua achas que ao meu lado
estás, por teres pecado
numa outra encarnação,
cumprindo uma triste sina,
te manca, meu bobalhão,
dá meu desquite e vai ver
tua avó lá noutra esquina.
tu vives sempre implicando
com meu modo de viver.
Sou prosa, sei que sou prosa,
pois nada devo a ninguém
e por isso tu me acusas
de convencida e orgulhosa.
Se acaso escondo o meu jogo
de alguma amiga ou parenta
que quer dinheiro emprestado
tu vens logo xeretando
e chamar-me de avarenta
Se desejo ter o trato
que tem a nossa vizinha
mais feia que um chimpanzé
mas, granfa e sempre cheirosa,
e fico olhando a perua
do buraco da janela,
o meu humor envenenas
como se eu fosse invejosa.
Se a cozinheira me chama na hora agá da novela,
no momento em que o bacana
está cantando a boazuda
e eu raspo uma espinafrada
na chatona de galocha,
tu bancas o imaculado
de mãos postas: queridinha,
a ira é grande pecado!
De manhã, se acho bacana
ficar na cama um pouquinho
enquanto tomas café,
vens com a cara pendurada,
igual a um velho gagá,
entre os dentes resmungando:
preguiçosa, preguiçosa...
Quando vou ao restaurante,
só porque olho o cardápio
e prefiro um vatapá
com castanha e amendoim,
uma pizza, uma fritada,
um macarrão com almôndegas,
um arroz, uma salada
com creme de leite e vinho,
um pudim de chocolate
e por cima um cafezinho,
me olhas com olhar tão terno,
mas lá bem dentro de ti
tua voz grita: gulosa
vai comer assim no inferno.
Tu me chamas fogueteira,
sapeca, luxurienta,
sem motivo, à-toa, à-toa,
porque já de longa data
tu pifaste, meu querido,
e eu prossigo, e muito boa.
És anjinho e eu carrego
os pecados de satã,
mas não te darei pelota.
Para mim só é pecado
ser bucho, ser idiota,
é querer comprar um teco
e não ver na bolsa a nota,
é guardar grande desejo
de chapoletar alguém
e em vez disso dar-lhe um beijo,
é ter um bom apetite
e só comer vegetais,
é vontade de mandar
todo dia uma brasinha
e ficar de olhinhos baixos
com ares de pomba-rola
num altar de uma santinha.
E, que o bom Deus me perdoe
se estou dizendo heresia,
pecado é ficar zanzando
pela vida dando murros,
é dormir noites inteiras
sem os prelúdios do amor,
é trabalhar no pesado
suando tal qual os burros.
Se tua achas que ao meu lado
estás, por teres pecado
numa outra encarnação,
cumprindo uma triste sina,
te manca, meu bobalhão,
dá meu desquite e vai ver
tua avó lá noutra esquina.
1 094
Gisele Mazzonetto
Doce amargura
Amor bandido
Tempo perdido
Selva de pedra
Noites sem fim
Amo você e sempre foi assim
O amor no meu peito
Nunca vai ter fim
Você me adora
E me devora
E eu no meu canto
Espantando o pranto
Vivo aguardando o grande fim
Tempo perdido
Selva de pedra
Noites sem fim
Amo você e sempre foi assim
O amor no meu peito
Nunca vai ter fim
Você me adora
E me devora
E eu no meu canto
Espantando o pranto
Vivo aguardando o grande fim
808
Sylvia Plath
Lesbos
Safadeza na cozinha!
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel -
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha - olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir -
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.
Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.
O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico.
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.
O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.
Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.
Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."
Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar.
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras
Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel -
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha - olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir -
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.
Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.
O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico.
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.
O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.
Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.
Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."
Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar.
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras
Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.
1 782
André Aquino
Em Construção
Ela anda
pela rua distraída
Não sabe que lá fora está perdida
Que não importa para onde vá
Já não existe mais saída.
Mora com um homem sabido
Que pensa que sabe tudo
Mas também está perdido
Quando ela pergunta, ele fica mudo.
Eles têm um filho de madeira
Para combinar com a mobília da sala
Ele chora porque quer mamadeira
Mas nem todo dia é sexta-feira
Eles têm uma filha de pano
Que corre pela casa o dia inteiro
Mas ela nunca fez parte de nenhum plano
Deveria ter escorrido junto com a água pelo ralo
E depois pelo cano
O amor deles é feito de papel
Ela parece ser inocente
Uma mulher como outra qualquer
Sem passado, sem futuro, vivendo no presente
Distante anos-luz da realidade.
Todos estão sempre cansados
Ele gosta de garotas mais novas
Como todos homens casados
Não se importa em ser ridículo
Querem apenas se sentir longe
Da sua morte e das suas covas.
As páginas continuam a ser viradas
Vidas perdidas e corações partidos
A história não tem fim
Está sempre em construção
pela rua distraída
Não sabe que lá fora está perdida
Que não importa para onde vá
Já não existe mais saída.
Mora com um homem sabido
Que pensa que sabe tudo
Mas também está perdido
Quando ela pergunta, ele fica mudo.
Eles têm um filho de madeira
Para combinar com a mobília da sala
Ele chora porque quer mamadeira
Mas nem todo dia é sexta-feira
Eles têm uma filha de pano
Que corre pela casa o dia inteiro
Mas ela nunca fez parte de nenhum plano
Deveria ter escorrido junto com a água pelo ralo
E depois pelo cano
O amor deles é feito de papel
Ela parece ser inocente
Uma mulher como outra qualquer
Sem passado, sem futuro, vivendo no presente
Distante anos-luz da realidade.
Todos estão sempre cansados
Ele gosta de garotas mais novas
Como todos homens casados
Não se importa em ser ridículo
Querem apenas se sentir longe
Da sua morte e das suas covas.
As páginas continuam a ser viradas
Vidas perdidas e corações partidos
A história não tem fim
Está sempre em construção
434
Valdir L. Queiroz
Dissertação
Tenho medo
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
766
Rogério F. P.
Gulletos, oh amante irremediável
Gulletos, oh amante irremediável.
Inescrupulosa masoquista.
Arrancarei de ti os mais loucos
gritos, tendo sua fronte como alvo!
No seu rosto jas estampado o esboço da
satisfação, enquanto morres em vão,
entrelaçada em meus braços.
Rainha dos escárnios !
Inescrupulosa masoquista.
Arrancarei de ti os mais loucos
gritos, tendo sua fronte como alvo!
No seu rosto jas estampado o esboço da
satisfação, enquanto morres em vão,
entrelaçada em meus braços.
Rainha dos escárnios !
792
Ricardo Madeira
Fogo Imundo
Não dou sangue,
Mas roubo e tiro,
Sou vampiro.
Verdade crua!
Sou a Lua,
Brilho com a luz
Que não é minha.
Venho e vou,
A maré sou,
Afogo, inundo...
Teu mundo...
Mas roubo e tiro,
Sou vampiro.
Verdade crua!
Sou a Lua,
Brilho com a luz
Que não é minha.
Venho e vou,
A maré sou,
Afogo, inundo...
Teu mundo...
989
Ona Gaia
Heis como ficar
Heis como ficar
sem dizer como:
não espere
nada mais fere
do que tontas interferindo.
Quais tontas?
senhoras
perdendo as horas...
pra que lembrar?
pra que esquecer?
es como não ficar
heis como não ir
... nem vir
dizendo como eu como
(canibalmente)
e como como
você!
sem dizer como:
não espere
nada mais fere
do que tontas interferindo.
Quais tontas?
senhoras
perdendo as horas...
pra que lembrar?
pra que esquecer?
es como não ficar
heis como não ir
... nem vir
dizendo como eu como
(canibalmente)
e como como
você!
824
Myriam Fraga
Sete Poemas
I
Não me deixes ficar,
Não me abandones
Neste ninho de abutres,
Neste burgo
Que espreita o mar
De cima de seus montes
Como fera que espreita,
Ave de rapina,
Atenta aos inimigos
Que surgem no horizonte.
Não me deixes ficar,
Não espedaces
O que ainda resta de mim,
Não abandones
A quem te deu o corpo
E o pensamento
E a quem pisaste um dia
Como pisa o dono
O chão de seus alquebres.
Não me esqueças aqui.
Arrasta com teu fado
Este bicho inocente
Que fareja teu rastro,
Esta pobre coisa triste
Que existe porque existes.
Ai, não me deixes não.
Apaga nos espelhos
A imagem que criaste,
O sono e o pesadelo.
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria,
O açoite da chibata
E o bálsamo dos dedos,
O caminho para as Índias
E o rastro para o abismo
A curva de meu seio
Em tua mão tremendo,
Minha boca em tua boca
As sílabas repetindo
Deste amor que me trouxe
Como dote e destino,
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria.
II
... às vezes o teu amor
É como o mel que embriaga
Mas às vezes como açoite,
Me corta o corpo em pedaços
E então me olhas com raiva,
Me humilhas, me maltratas
E tua língua tem o frio
Fino corte das navalhas.
Tuas palavras são farpas,
Punhal que fere e que mata.
Me desprezas como coisa
Que se usa e se despreza,
Como uma negra fugida
Que o feitor persegue e caça.
Triste amor que me separa
De minha terra e de tudo,
Amor que engole os minutos
Como cobra engole o rabo,
Amor que aponta o caminho
Mas não dá o itinerário,
Amor que arma suas velas
Mas depois afunda o barco,
Amor que arde em meu corpo
Como círio nos altares,
Como lâmpada na parede,
Lanternas que o vento apaga.
III
Maria de Póvoas,
Maria dos Povos,
Maria, alma ardente
E as mãos tão vazias...
Que vida enganosa
A tua, Maria,
Tecendo as esperas,
Somando as partilhas,
O sexo em chamas
E a fala macia.
Maria ... a cinza na testa,
A oração na madrugada,
Maria, um lobo na espreita,
Um verso como cilada,
O amor é como veneno,
Como sombra na calçada,
Assombração que faz medo,
Maria, é só um poeta
Caminhando pela estrada
E a noite esconde o segredo
De tua pele alvoroçada,
De tua língua, de seus dedos
Somente um poeta
E a chama
Que te confunde e reclama
O ontem já tão distante...
Tantos dias, longos anos,
Maria, tanto abandono,
Somente o vento nas folhas
E no peito... desenganos.
IV
Eu sou o avesso do mundo,
Eu sou a terra
Que pisaste, cuspiste, que esmagaste,
A poder de ferraduras
E de açoite.
Eu sou a terra
A quem amaste tanto
Que caíste a sangrar
Em suas pedras
E onde rolaste, porco,
A charfurdar na lama.
Eu sou a flor escura
De teu sexo
Buscando outras canalhas,
Outros usos,
Por desejares demais
E além da conta...
Não pode o amor humano
Ser medido
Senão na intemperança,
Na luxúria?
Neste bornal de pústulas
Tamanhas
Que criaste a teu gozo
E meu martírio?
Ó amor feito de nada
O que desejo
É apenas o côncavo do escuro,
Apenas
Habitar os teus olhos como pássaro
Que habita nestas torres,
Nestes altos
Campanários que soam pela tarde
Quando a tarde é como um pano
Que desatas
Ao vento deste mar,
Apenas uma vela
Neste oceano sem fim onde navegas,
Ó navegante bêbado!
Sem norte, sem destino, sem chegada...
V
Esta cidade tão suja
E tão deserta,
Esta cidade que ladra
À minha porta
Como um cachorro faminto
E que desperta
A lembrança de coisas
Tão remotas...
Esta Cidade-abismo
Que devora
O amor, a esperança, a mocidade...
E converte a beleza que cantaste
Em cinza fria, em pó,
Em sombra, em nada.
Esta cidade que arde
Como um câncer,
Como um cautério na carne
E que arrebata
A nós todo futuro
E a mim divide a vida
Em dois pedaços.
Esta Cidade, meu amor,
E como um claustro
Onde te ausentas de ti,
Do teu cansaço
De inventar equilíbrio
Ao desacerto.
Esta Cidade é como
Um corpo aceso,
Ofegante de mágoa e de desejo
Colado à tua boca que blasfema
De amor, de impiedade
E que arrebenta
Os diques do silêncio
Nestas tardes
Em que galopam soltos pelas veias
Meu sangue, meus desejos, meus alarmes,
Aves reinventando minhas mágoas.
VI
Como posso, Poeta,
Decifrar-te
Se és sempre a incerteza,
A dissonante
Face dupla do amor,
Sombria e clara?
E como maldizer
O sofrimento
Se ao martírio de amar
Me fiz constante,
Companheira da dor,
Irmã do engano?
Como posso, meu Poeta,
Nesta hora,
Desvendar em silêncio
Teus segredos
Inventando entrelinhas
Na escritura
Vacilante e indecisa
De teus dedos?
Como posso falar
Do desespero
Se a força do desejo
Em tua boca
É um delírio de pragas
E de beijos,
Se a angústia de perder
O que me mata
Faz-me a vida odiar
Mais do que a morte,
Pois que ao perder-te
Perco mais que a vida,
Perco o sonho, a memória,
A fantasia...
E este gosto de viver
Como quem morre.
VII
Caminhos, encruzilhadas,
Becos, vielas, quebradas,
Ladeiras que se despencam,
Caminhos que se bifurcam,
Beijo salobro das praias,
Beijo doce das nascentes,
Brejos, diques, atalaias...
Uma cidade é como gente
Que se alisa e maltrata,
Como uma fêmea deitada
Que o amante navega e sente...
Assim se fez de meu sangue
Esta cidade encantada,
Este burgo, esta alimária
Como uma fera empinada,
Esfinge que espia o Outro
Surgindo da encruzilhada...
Me devoras, te devoro,
No fim não restará nada.
Só a sombra na parede,
Somente o nó da laçada,
Ou melhor:
Resta o que resta,
A tua boca de brasa,
O sinal desta passagem
Como uma gesta tatuada.
Como um vendaval de açoite,
Vento sul de madrugada.
Resta a poesia nascendo
De tua língua danada,
Resta o poema crescendo
Como flor e como espada,
Resta o que resta, restolho,
Que de mim não restou nada
Além do verso e da mágoa.
Não me deixes ficar,
Não me abandones
Neste ninho de abutres,
Neste burgo
Que espreita o mar
De cima de seus montes
Como fera que espreita,
Ave de rapina,
Atenta aos inimigos
Que surgem no horizonte.
Não me deixes ficar,
Não espedaces
O que ainda resta de mim,
Não abandones
A quem te deu o corpo
E o pensamento
E a quem pisaste um dia
Como pisa o dono
O chão de seus alquebres.
Não me esqueças aqui.
Arrasta com teu fado
Este bicho inocente
Que fareja teu rastro,
Esta pobre coisa triste
Que existe porque existes.
Ai, não me deixes não.
Apaga nos espelhos
A imagem que criaste,
O sono e o pesadelo.
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria,
O açoite da chibata
E o bálsamo dos dedos,
O caminho para as Índias
E o rastro para o abismo
A curva de meu seio
Em tua mão tremendo,
Minha boca em tua boca
As sílabas repetindo
Deste amor que me trouxe
Como dote e destino,
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria.
II
... às vezes o teu amor
É como o mel que embriaga
Mas às vezes como açoite,
Me corta o corpo em pedaços
E então me olhas com raiva,
Me humilhas, me maltratas
E tua língua tem o frio
Fino corte das navalhas.
Tuas palavras são farpas,
Punhal que fere e que mata.
Me desprezas como coisa
Que se usa e se despreza,
Como uma negra fugida
Que o feitor persegue e caça.
Triste amor que me separa
De minha terra e de tudo,
Amor que engole os minutos
Como cobra engole o rabo,
Amor que aponta o caminho
Mas não dá o itinerário,
Amor que arma suas velas
Mas depois afunda o barco,
Amor que arde em meu corpo
Como círio nos altares,
Como lâmpada na parede,
Lanternas que o vento apaga.
III
Maria de Póvoas,
Maria dos Povos,
Maria, alma ardente
E as mãos tão vazias...
Que vida enganosa
A tua, Maria,
Tecendo as esperas,
Somando as partilhas,
O sexo em chamas
E a fala macia.
Maria ... a cinza na testa,
A oração na madrugada,
Maria, um lobo na espreita,
Um verso como cilada,
O amor é como veneno,
Como sombra na calçada,
Assombração que faz medo,
Maria, é só um poeta
Caminhando pela estrada
E a noite esconde o segredo
De tua pele alvoroçada,
De tua língua, de seus dedos
Somente um poeta
E a chama
Que te confunde e reclama
O ontem já tão distante...
Tantos dias, longos anos,
Maria, tanto abandono,
Somente o vento nas folhas
E no peito... desenganos.
IV
Eu sou o avesso do mundo,
Eu sou a terra
Que pisaste, cuspiste, que esmagaste,
A poder de ferraduras
E de açoite.
Eu sou a terra
A quem amaste tanto
Que caíste a sangrar
Em suas pedras
E onde rolaste, porco,
A charfurdar na lama.
Eu sou a flor escura
De teu sexo
Buscando outras canalhas,
Outros usos,
Por desejares demais
E além da conta...
Não pode o amor humano
Ser medido
Senão na intemperança,
Na luxúria?
Neste bornal de pústulas
Tamanhas
Que criaste a teu gozo
E meu martírio?
Ó amor feito de nada
O que desejo
É apenas o côncavo do escuro,
Apenas
Habitar os teus olhos como pássaro
Que habita nestas torres,
Nestes altos
Campanários que soam pela tarde
Quando a tarde é como um pano
Que desatas
Ao vento deste mar,
Apenas uma vela
Neste oceano sem fim onde navegas,
Ó navegante bêbado!
Sem norte, sem destino, sem chegada...
V
Esta cidade tão suja
E tão deserta,
Esta cidade que ladra
À minha porta
Como um cachorro faminto
E que desperta
A lembrança de coisas
Tão remotas...
Esta Cidade-abismo
Que devora
O amor, a esperança, a mocidade...
E converte a beleza que cantaste
Em cinza fria, em pó,
Em sombra, em nada.
Esta cidade que arde
Como um câncer,
Como um cautério na carne
E que arrebata
A nós todo futuro
E a mim divide a vida
Em dois pedaços.
Esta Cidade, meu amor,
E como um claustro
Onde te ausentas de ti,
Do teu cansaço
De inventar equilíbrio
Ao desacerto.
Esta Cidade é como
Um corpo aceso,
Ofegante de mágoa e de desejo
Colado à tua boca que blasfema
De amor, de impiedade
E que arrebenta
Os diques do silêncio
Nestas tardes
Em que galopam soltos pelas veias
Meu sangue, meus desejos, meus alarmes,
Aves reinventando minhas mágoas.
VI
Como posso, Poeta,
Decifrar-te
Se és sempre a incerteza,
A dissonante
Face dupla do amor,
Sombria e clara?
E como maldizer
O sofrimento
Se ao martírio de amar
Me fiz constante,
Companheira da dor,
Irmã do engano?
Como posso, meu Poeta,
Nesta hora,
Desvendar em silêncio
Teus segredos
Inventando entrelinhas
Na escritura
Vacilante e indecisa
De teus dedos?
Como posso falar
Do desespero
Se a força do desejo
Em tua boca
É um delírio de pragas
E de beijos,
Se a angústia de perder
O que me mata
Faz-me a vida odiar
Mais do que a morte,
Pois que ao perder-te
Perco mais que a vida,
Perco o sonho, a memória,
A fantasia...
E este gosto de viver
Como quem morre.
VII
Caminhos, encruzilhadas,
Becos, vielas, quebradas,
Ladeiras que se despencam,
Caminhos que se bifurcam,
Beijo salobro das praias,
Beijo doce das nascentes,
Brejos, diques, atalaias...
Uma cidade é como gente
Que se alisa e maltrata,
Como uma fêmea deitada
Que o amante navega e sente...
Assim se fez de meu sangue
Esta cidade encantada,
Este burgo, esta alimária
Como uma fera empinada,
Esfinge que espia o Outro
Surgindo da encruzilhada...
Me devoras, te devoro,
No fim não restará nada.
Só a sombra na parede,
Somente o nó da laçada,
Ou melhor:
Resta o que resta,
A tua boca de brasa,
O sinal desta passagem
Como uma gesta tatuada.
Como um vendaval de açoite,
Vento sul de madrugada.
Resta a poesia nascendo
De tua língua danada,
Resta o poema crescendo
Como flor e como espada,
Resta o que resta, restolho,
Que de mim não restou nada
Além do verso e da mágoa.
2 274
Maurício Uzêda
Domínio
Domínio
Exercício de poder
Tirania absoluta
Do teu corpo sobre o meu.
Escravizado
Subjugado
Ao senhorio deste teu amor.
Assim vivi
Cativo
Prisioneiro.
Fui martirizado
Amarrado pelos teus cabelos
Amordaçado pela tua pele
Os olhos vendados sob os teus
Asfixiado por esse teu cheiro
Esmagado sob o peso de tuas formas.
O que restou de mim
Incinerado pelo teu calor.
Tive as cinzas lançadas ao vento
Só então me veio a paz.
Exercício de poder
Tirania absoluta
Do teu corpo sobre o meu.
Escravizado
Subjugado
Ao senhorio deste teu amor.
Assim vivi
Cativo
Prisioneiro.
Fui martirizado
Amarrado pelos teus cabelos
Amordaçado pela tua pele
Os olhos vendados sob os teus
Asfixiado por esse teu cheiro
Esmagado sob o peso de tuas formas.
O que restou de mim
Incinerado pelo teu calor.
Tive as cinzas lançadas ao vento
Só então me veio a paz.
942
Masako Akeho
Haicai
Casa de vespas
zunindo em círculos
palavras picantes
O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança
zunindo em círculos
palavras picantes
O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança
931
Gláucia Lemos
Poema do Desenlace
...e então nós nos magoamos
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
1 049
Flávio Villa-Lobos
Separação
Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
782
Fernando Mendes Vianna
Iniciação
Teu fígado certo
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.
No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.
Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.
Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.
E me adorarás.
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.
No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.
Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.
Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.
E me adorarás.
1 060
Fábio Afonso de Almeida
Noite
Que noite, minha cara!
Nas horas mais cruas
Infinitos desejos se escondem
Nas dobras quentes de meu leito
E queimam como brasas.
Desejo-conflito, próximo e contido
Poreja a pele de suor frio
E a garganta dói, num espasmo
Quer ceder e não cede.
Segura com força esta noite
Aperta nas mãos esta dor.
Mas não vai, não vai...
Ouço tua respiração
Rítmica, serena e falsa.
Um vazio enorme derrama
No quarto, nas paredes
Mas, não vai, não vai...
Que noite solitária essa
O mundo é sem volta
A vontade não importa
Não posso ir, eu já sei
Não existe mais nada além:
São cacos que machucam
E ferem no abraço angustiante
Dos braços apertados no próprio peito!
Nas horas mais cruas
Infinitos desejos se escondem
Nas dobras quentes de meu leito
E queimam como brasas.
Desejo-conflito, próximo e contido
Poreja a pele de suor frio
E a garganta dói, num espasmo
Quer ceder e não cede.
Segura com força esta noite
Aperta nas mãos esta dor.
Mas não vai, não vai...
Ouço tua respiração
Rítmica, serena e falsa.
Um vazio enorme derrama
No quarto, nas paredes
Mas, não vai, não vai...
Que noite solitária essa
O mundo é sem volta
A vontade não importa
Não posso ir, eu já sei
Não existe mais nada além:
São cacos que machucam
E ferem no abraço angustiante
Dos braços apertados no próprio peito!
732
Clélia Romano
Resistência
De todas as formas te resisti,
seja pela tua voz que parecia caipira,
pela cor da pele de quem fuma demais,
pelo bafo pesado de quem não respira
pelo que dizias, e não dizias mais.
Pelo beijo que me davas, com a língua
entravas entraves em minha mente,
e eu dizia chega, pára!
E paravas, fazias de morto,
como cão adestrado!
Eu te via tão submisso,
aos teus desejos e aos meus,
que menino assustado,
pobre homem castrado!
Foi dessa forma que te resisti,
sem que percebesse.
Não suportava te amar,
se te cedesse.
seja pela tua voz que parecia caipira,
pela cor da pele de quem fuma demais,
pelo bafo pesado de quem não respira
pelo que dizias, e não dizias mais.
Pelo beijo que me davas, com a língua
entravas entraves em minha mente,
e eu dizia chega, pára!
E paravas, fazias de morto,
como cão adestrado!
Eu te via tão submisso,
aos teus desejos e aos meus,
que menino assustado,
pobre homem castrado!
Foi dessa forma que te resisti,
sem que percebesse.
Não suportava te amar,
se te cedesse.
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