Poemas neste tema
Separação e fim de relação
Eudoro Augusto
Luna de Lupe
Quero mais não.
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 222
1
Paulo Leminski
KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
1 906
1
Álvares de Azevedo
DESPEDIDAS
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Se entrares, ó meu anjo, alguma vez
Na solidão onde eu sonhava em ti,
Ah! vota uma saudade aos belos dias
Que a teus joelhos pálido vivi!
Adeus, minh'alma, adeus! eu vou chorando...
Sinto o peito doer na despedida...
Sem ti o mundo é um deserto escuro
E tu és minha vida...
Só por teus olhos eu viver podia
E por teu coração amar e crer...
Em teus braços minh'alma unir à tua
E em teu seio morrer!
Mas se o fado me afasta da ventura,
Levo no coração a tua imagem...
De noite mandarei-te os meus suspiros
No murmúrio da aragem!
Quando a noite vier saudosa e pura,
Contempla a estrela do pastor nos céus,
Quando a ela eu volver o olhar em pranto...
Verei os olhos teus!
Mas antes de partir, antes que a vida,
Se afogue numa lágrima de dor,
Consente que em teus lábios num só beijo
Eu suspire de amor!
Sonhei muito! sonhei noites ardentes
Tua boca beijar... eu o primeiro!
A ventura negou-me... mesmo até
O beijo derradeiro!
Só contigo eu podia ser ditoso,
Em teus olhos sentir os lábios meus!
Eu morro de ciúme e de saudade...
Adeus, meu anjo, adeus!
Segunda Parte
Se entrares, ó meu anjo, alguma vez
Na solidão onde eu sonhava em ti,
Ah! vota uma saudade aos belos dias
Que a teus joelhos pálido vivi!
Adeus, minh'alma, adeus! eu vou chorando...
Sinto o peito doer na despedida...
Sem ti o mundo é um deserto escuro
E tu és minha vida...
Só por teus olhos eu viver podia
E por teu coração amar e crer...
Em teus braços minh'alma unir à tua
E em teu seio morrer!
Mas se o fado me afasta da ventura,
Levo no coração a tua imagem...
De noite mandarei-te os meus suspiros
No murmúrio da aragem!
Quando a noite vier saudosa e pura,
Contempla a estrela do pastor nos céus,
Quando a ela eu volver o olhar em pranto...
Verei os olhos teus!
Mas antes de partir, antes que a vida,
Se afogue numa lágrima de dor,
Consente que em teus lábios num só beijo
Eu suspire de amor!
Sonhei muito! sonhei noites ardentes
Tua boca beijar... eu o primeiro!
A ventura negou-me... mesmo até
O beijo derradeiro!
Só contigo eu podia ser ditoso,
Em teus olhos sentir os lábios meus!
Eu morro de ciúme e de saudade...
Adeus, meu anjo, adeus!
2 341
1
Vladimir Maiakovski
FRAGMENTOS
(tradução: Augusto de Campos)
1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo
5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso
2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo
5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
4 496
1
Gabriela Mistral
Ausência
Se vai de ti meu corpo gota a gota.
Se vai minha cara no óleo surdo;
Se vão minhas mãos em mercúrio solto;
Se vão meus pés em dois tempos de pó.
Se vai minha voz, que te fazia sino
fechada a quanto não somos nós.
Se vão meus gestos, que se enovelam,
em lanças, diante de teus olhos.
E se te vai o olhar que entrega,
quando te olha, o zimbro e o olmo.
Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como umidade de teu corpo evaporo.
Vou-me de ti com vigília e com sono,
e em tua recordação mais fiel já me borro.
e em tua memória volto como esses
que não nasceram nem em planos nem em bosques
Sangue seria e me fosse nas palmas
de teu trabalho e em tua boca de sumo.
Tua entranha fosse e seria queimada
em marchas tuas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite,
como demência de mares sós.
Se nos vai tudo, se nos vai tudo!
Se vai minha cara no óleo surdo;
Se vão minhas mãos em mercúrio solto;
Se vão meus pés em dois tempos de pó.
Se vai minha voz, que te fazia sino
fechada a quanto não somos nós.
Se vão meus gestos, que se enovelam,
em lanças, diante de teus olhos.
E se te vai o olhar que entrega,
quando te olha, o zimbro e o olmo.
Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como umidade de teu corpo evaporo.
Vou-me de ti com vigília e com sono,
e em tua recordação mais fiel já me borro.
e em tua memória volto como esses
que não nasceram nem em planos nem em bosques
Sangue seria e me fosse nas palmas
de teu trabalho e em tua boca de sumo.
Tua entranha fosse e seria queimada
em marchas tuas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite,
como demência de mares sós.
Se nos vai tudo, se nos vai tudo!
2 539
1
Mariazinha Congílio
Autorização
Se for
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
912
1
Hilda Hilst
III
Isso de
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
1 755
1
Silvaney Paes
Indo Embora
Estou
indo embora,
Mas nada levarei comigo,
Para que não sinta n’outra falta,
Lembranças que serão falsas
E logo esquecerás que já estive contigo.
Não vai haver despedida,
Nem verei lágrimas por terra caídas,
Não escutarei mentiras neste Adeus
E também não lamentarei.,
Em silêncio partirei.
Já vou indo...
Embora não saiba para onde ir
E não conheça esses trilhos,
Mas sei que meu destino mora no caminho
E irei ao seu encontro como andarilho.
Quero que saibas que mesmo perdido,
Já estarei no caminho
Quando me vires partindo,
E que ando rumo a um inverso destino,
De estar ao teu lado e me sentir tão sozinho.
E para não guardar nenhuma mágoa
Não sentirei saudades falsas,
E em cada passo dessa nova caminhada
Apagarei o rastro da anterior passada,
Para assim perder o caminho de volta.
indo embora,
Mas nada levarei comigo,
Para que não sinta n’outra falta,
Lembranças que serão falsas
E logo esquecerás que já estive contigo.
Não vai haver despedida,
Nem verei lágrimas por terra caídas,
Não escutarei mentiras neste Adeus
E também não lamentarei.,
Em silêncio partirei.
Já vou indo...
Embora não saiba para onde ir
E não conheça esses trilhos,
Mas sei que meu destino mora no caminho
E irei ao seu encontro como andarilho.
Quero que saibas que mesmo perdido,
Já estarei no caminho
Quando me vires partindo,
E que ando rumo a um inverso destino,
De estar ao teu lado e me sentir tão sozinho.
E para não guardar nenhuma mágoa
Não sentirei saudades falsas,
E em cada passo dessa nova caminhada
Apagarei o rastro da anterior passada,
Para assim perder o caminho de volta.
918
1
Hilda Hilst
VII
Rios de
rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.
rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.
1 644
1
Silvaney Paes
Letargia
Já que vais partir...
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
917
1
Valeria Braga
Transparente
Transparente
Caco.
Caco de copo quebrado.
Vidro, caco.
Copo de vidro.
Caco de vidro.
Copo em pedaços.
Vidro.
Vidro, caco.
Copo de caco de vidro.
(Quebrou!...)
Caco.
Caco de copo quebrado.
Vidro, caco.
Copo de vidro.
Caco de vidro.
Copo em pedaços.
Vidro.
Vidro, caco.
Copo de caco de vidro.
(Quebrou!...)
1 060
1
Raimundo Correia
Rima
Rondo pela noite
Imaginando mil coisas
Meditando sozinho
Até a madrugada
Isto tudo é tão contrário
Medo e coragem
Amor e ódio
Revolta e compreensão
Mas nada rima nesse mundo
Apenas eu e você restávamos
Resto do que o mundo já foi
Intensamente, imensamente, eternamente
Até mesmo nós sucumbimos
Reavaliamos nossa condição
Indiferentes, deixamos de rimar
Menos um casal no mundo
Agora ando sozinho
Meditando noite adentro
Imaginando e esquecendo mil e uma coisas
Rondando até a madrugada
Imaginando mil coisas
Meditando sozinho
Até a madrugada
Isto tudo é tão contrário
Medo e coragem
Amor e ódio
Revolta e compreensão
Mas nada rima nesse mundo
Apenas eu e você restávamos
Resto do que o mundo já foi
Intensamente, imensamente, eternamente
Até mesmo nós sucumbimos
Reavaliamos nossa condição
Indiferentes, deixamos de rimar
Menos um casal no mundo
Agora ando sozinho
Meditando noite adentro
Imaginando e esquecendo mil e uma coisas
Rondando até a madrugada
3 910
1
Helena Parente Cunha
Anel de Vidro
sob os arcos das arcadas
ocultei o meu anel
o anel que não te dei
sob o arco do arco-íris
armei a rede encantada
para o meu sono de vidro
por sobre as cordas em arco
recordei remotos tons
refleti perdidos fios
acordo sem meu anel
ecoei na última cor
me arqueio quebrado vidro
ocultei o meu anel
o anel que não te dei
sob o arco do arco-íris
armei a rede encantada
para o meu sono de vidro
por sobre as cordas em arco
recordei remotos tons
refleti perdidos fios
acordo sem meu anel
ecoei na última cor
me arqueio quebrado vidro
1 281
1
Helena Ortiz
Poesia Viva
precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
1 132
1
Francisco Orban
Pó de Tardes
Cansei de ti
pra ti oferto
as coisas descidas
da cruz do tédio:
meu delírio de Carlitos
embriagado
um pó de tardes
com lua
uma utopia de espanto.
e se isso não te bastar
te entrego o silêncio
do mar
A tarde encantada
de um país proscrito
o rítmo dos buzios
e das bailarinas
pra ti oferto
as coisas descidas
da cruz do tédio:
meu delírio de Carlitos
embriagado
um pó de tardes
com lua
uma utopia de espanto.
e se isso não te bastar
te entrego o silêncio
do mar
A tarde encantada
de um país proscrito
o rítmo dos buzios
e das bailarinas
898
1
Fábio Afonso de Almeida
É só
Não me importa se vais,
Não tenho medo, é só.
O silêncio que restar
Junto com a solidão que ficou
E sufoco com decoro.
Náo quero chorar, é só.
Não foi eu que escolhi
O caminho que tomei.
Se não quero te perder,
Mas me perco no meu ego,
Mesmo assim eu me aceito,
Não tenho forças, é só.
Contudo, espero, não divago,
Apenas tenho pudor.
Se assim sou, não renego,
Tenho brios que sustentam.
Tenho apenas eu e é só.
Não tenho medo, é só.
O silêncio que restar
Junto com a solidão que ficou
E sufoco com decoro.
Náo quero chorar, é só.
Não foi eu que escolhi
O caminho que tomei.
Se não quero te perder,
Mas me perco no meu ego,
Mesmo assim eu me aceito,
Não tenho forças, é só.
Contudo, espero, não divago,
Apenas tenho pudor.
Se assim sou, não renego,
Tenho brios que sustentam.
Tenho apenas eu e é só.
903
1
Fábio Afonso de Almeida
Madrugada
Que noite estranha aquela.
Vagando sozinho pelas ruas
Sentia ainda na carne teu calor
E no cérebro a dureza das tuas palavras.
A lua pálida, distante
Parecia patética e indiferente
A saltar de beiral em beiral
No cimo das casas antigas.
Parecia zombar:
Vai, seu cabeça oca, vai novamente
Vai encontrar a solidão que te persegue
Chorar mais uma vez o abandono.
Quem te mandou sonhar?
Vagando sozinho pelas ruas
Sentia ainda na carne teu calor
E no cérebro a dureza das tuas palavras.
A lua pálida, distante
Parecia patética e indiferente
A saltar de beiral em beiral
No cimo das casas antigas.
Parecia zombar:
Vai, seu cabeça oca, vai novamente
Vai encontrar a solidão que te persegue
Chorar mais uma vez o abandono.
Quem te mandou sonhar?
788
1
Cynara Novaes
Ausência
Partida
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?
916
1
Ada Ciocci
Acalanto
Vai amado.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E,
se por acaso te cansares
e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares,
volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E,
se por acaso te cansares
e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares,
volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.
1 313
1
Bastos Portela
Nota Final
(A minha ex-noiva)
Virgínia! o nosso amor acabou-se!... NenhumaEsperança sequer existe em nós agora!Sim, morreu nosso amor! - Desfez-se como a brumaQue se desfaz assim que nasce a luz da aurora.
Extinguiu-se o meu sonho, o meu prazer... Em suma,Os sorrisos que, à boca, eu tinha a toda hora,Calaram-se de vez... Fugiram de uma em umaAs doces ilusões que tínhamos outrora!
Tudo acabou-se enfim! O que hoje apenas restaDa história singular - negra história funesta! -Desse amor infeliz da nossa mocidade,
É simples, e triste, e querida lembrança.- Um cacho virginal da tua loura trança,Que eu beijo a soluçar nas horas de saudade!
Virgínia! o nosso amor acabou-se!... NenhumaEsperança sequer existe em nós agora!Sim, morreu nosso amor! - Desfez-se como a brumaQue se desfaz assim que nasce a luz da aurora.
Extinguiu-se o meu sonho, o meu prazer... Em suma,Os sorrisos que, à boca, eu tinha a toda hora,Calaram-se de vez... Fugiram de uma em umaAs doces ilusões que tínhamos outrora!
Tudo acabou-se enfim! O que hoje apenas restaDa história singular - negra história funesta! -Desse amor infeliz da nossa mocidade,
É simples, e triste, e querida lembrança.- Um cacho virginal da tua loura trança,Que eu beijo a soluçar nas horas de saudade!
967
1
Agostina Akemi Sasaoka
Castigo
Desencaixo-me displicente.
Esvaziei-me, enfim.
Teu corpo
ainda queima,
tua mão ainda afaga.
Jamais
o prazer fora tão perverso.
Escondo meus lábios
atrás do batom.
Teus olhos
– canibais marinhos –
começam a se desfazer.
Não consigo te acompanhar.
És tão tolo...
Ainda me engasgo
com um último orgasmo.
Venci.
Sou aquela
que pela primeira vez
amas.
Mas a noite se esvai.
Sei que vais me tocar:
deixarei?
Não quero me amarrotar.
Tua boca me implora,
só que as estrelas se apagaram.
Vou-me embora
para nunca mais...
Se fosse amor,
não acabaria.
Esvaziei-me, enfim.
Teu corpo
ainda queima,
tua mão ainda afaga.
Jamais
o prazer fora tão perverso.
Escondo meus lábios
atrás do batom.
Teus olhos
– canibais marinhos –
começam a se desfazer.
Não consigo te acompanhar.
És tão tolo...
Ainda me engasgo
com um último orgasmo.
Venci.
Sou aquela
que pela primeira vez
amas.
Mas a noite se esvai.
Sei que vais me tocar:
deixarei?
Não quero me amarrotar.
Tua boca me implora,
só que as estrelas se apagaram.
Vou-me embora
para nunca mais...
Se fosse amor,
não acabaria.
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Li Shang-Yin
Pensamentos
Partiste. O rio subiu até ao meu portão. As cigarras calaram-se nos ramos cobertos de geada. Agora regresso ao portão, mas o tempo mudou. Como sempre os meus pensamentos são-te dirigidos. Estás tão longe como a Estrela Polar e a Primavera, Notícias tuas nunca se dirigem para sul. Quantas vezes, nos meus sonhos, vejo terras distantes - Encontraste outro amigo? Espero que não.
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