Poemas neste tema
Separação e fim de relação
Frederico Valério
Confesso
Confesso que te amei, confesso
Não coro de o dizer, não coro
Pareço outra mulher, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso
Longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço
Mas lá perdão não te peço
Sem que me peças primeiro
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem pra te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta
Não escrevas mais nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me não vences
Porque vencida estou eu
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida.
Não coro de o dizer, não coro
Pareço outra mulher, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso
Longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço
Mas lá perdão não te peço
Sem que me peças primeiro
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem pra te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta
Não escrevas mais nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me não vences
Porque vencida estou eu
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida.
1 016
1
Daniel Faria
Sobre a água
Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti
Não deixes a candeia acesa
Dorme:basta-me essa luz
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Dos que vierem nenhum barco é para ti
Não deixes a candeia acesa
Dorme:basta-me essa luz
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 098
1
Amélia Rodrigues
A Minha Rosa
Passeando em meu jardim,
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
2 130
1
Fernando Pessoa
Não quero, Cloé, teu amor, que oprime
Não quero, Cloé, teu amor, que oprime
Porque me exige o amor. Quero ser livre.
A esperança é um dever do sentimento.
01/11/1930
Porque me exige o amor. Quero ser livre.
A esperança é um dever do sentimento.
01/11/1930
2 106
1
Rui Costa
Breve
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.
529
Martha Medeiros
Relacionamento à distância
Ele me contou a história em um tom baixo de voz. Terminaram a relação, mas a cicatriz não havia fechado. Ele ainda gostava dela, só que não deu certo. Namoraram durante quase um ano, ele morando em Porto Alegre, ela em Vitória do Espírito Santo. Mais de 2.000km os separavam. Não podiam pegar um avião todos os meses. Tinham seus empregos, suas famílias. Culpava a distância pelo fim. Agora era tratar de conhecer outra pessoa para se reerguer. “Já entrei no Tinder”, disse ele. Tive vontade de rir, mas ele não parecia estar fazendo piada. Fiz cara de “agora vai”, sem convicção.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
513
Amália Bautista
A raposa e as uvas
Não me interessa já querer-te tanto,
há muito tempo deixaram de agradar-me
os teus beijos, as tuas caricias, a tua voz,
já não tem sentido a nossa história.
Outros homens me cortejam como loucos
e é bom momento para loucura.
As tuas mãos nunca foram, tu o sabes,
suaves como as uvas, e já é hora
que uma raposa possa desprezar-te.
há muito tempo deixaram de agradar-me
os teus beijos, as tuas caricias, a tua voz,
já não tem sentido a nossa história.
Outros homens me cortejam como loucos
e é bom momento para loucura.
As tuas mãos nunca foram, tu o sabes,
suaves como as uvas, e já é hora
que uma raposa possa desprezar-te.
742
Martha Medeiros
Relacionamento à distância
Ele me contou a história em um tom baixo de voz. Terminaram a relação, mas a cicatriz não havia fechado. Ele ainda gostava dela, só que não deu certo. Namoraram durante quase um ano, ele morando em Porto Alegre, ela em Vitória do Espírito Santo. Mais de 2.000km os separavam. Não podiam pegar um avião todos os meses. Tinham seus empregos, suas famílias. Culpava a distância pelo fim. Agora era tratar de conhecer outra pessoa para se reerguer. “Já entrei no Tinder”, disse ele. Tive vontade de rir, mas ele não parecia estar fazendo piada. Fiz cara de “agora vai”, sem convicção.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
578
Manoel Herzog
CIÚME LATINO EM TEMPOS DE INFORMÁTICA
Se você um dia se deixar compartilhar,
Se alguém comentar,
Nunca mais falo in box com você.
Nem tampouco, muito menos,
Tente puxar conversinha comigo nos comentários
Dos posts alheios.
Não vou mais querer papo.
Se você curtir qualquer coisa que não seja eu
Ou se eu souber, desconfiar, suspeitar
Que andou alguém curtindo você,
Vai dar merda,
Que eu me conheço.
Eu sei quem são todos os seus amigos
E visito a página de um por um atrás de pistas
Tem um, particularmente,
Que acho deveras filho da puta.
Se um dia nossa relação virtual for pro saco
Não me venha dizer que quer continuar
Sendo minha miguxa
Porque eu nunca mais que vou tc com vc
Passo mais é uma borracha etérea em cima de tudo
Apago da memória, danifico os bytes que um dia registraram tua doce presença na minha vida paralela,
E, por fim, desfaço a amizade,
Excluo você do meu facebook –
Não sem antes me matar de mentirinha.
Se alguém comentar,
Nunca mais falo in box com você.
Nem tampouco, muito menos,
Tente puxar conversinha comigo nos comentários
Dos posts alheios.
Não vou mais querer papo.
Se você curtir qualquer coisa que não seja eu
Ou se eu souber, desconfiar, suspeitar
Que andou alguém curtindo você,
Vai dar merda,
Que eu me conheço.
Eu sei quem são todos os seus amigos
E visito a página de um por um atrás de pistas
Tem um, particularmente,
Que acho deveras filho da puta.
Se um dia nossa relação virtual for pro saco
Não me venha dizer que quer continuar
Sendo minha miguxa
Porque eu nunca mais que vou tc com vc
Passo mais é uma borracha etérea em cima de tudo
Apago da memória, danifico os bytes que um dia registraram tua doce presença na minha vida paralela,
E, por fim, desfaço a amizade,
Excluo você do meu facebook –
Não sem antes me matar de mentirinha.
743
Manoel Herzog
O HOMEM QUE VIROU SAMBA
Altino vive na rua
Não bebe, não fuma pedra
Só vive na rua, mendigo.
Às vezes toma chuva e nem liga
Dorme atrás do cemitério
E seu cobertor fede a mijo.
Dizem que Altino tinha casa
Era mecânico da Volks, ganhava bem
Tudo na vida dele ia.
Um dia a mulher de Altino
Largou ele e foi morar na rua
Com um velho mendigo
Que não tinha merda nenhuma pra oferecer pra ela.
Depois dessa desilusão Altino agarrou de ser mendigo
Talvez na esperança que ela volte pra ele
Já que ela gosta é disso.
Não bebe, não fuma pedra
Só vive na rua, mendigo.
Às vezes toma chuva e nem liga
Dorme atrás do cemitério
E seu cobertor fede a mijo.
Dizem que Altino tinha casa
Era mecânico da Volks, ganhava bem
Tudo na vida dele ia.
Um dia a mulher de Altino
Largou ele e foi morar na rua
Com um velho mendigo
Que não tinha merda nenhuma pra oferecer pra ela.
Depois dessa desilusão Altino agarrou de ser mendigo
Talvez na esperança que ela volte pra ele
Já que ela gosta é disso.
728
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Levantei-me cedo, cedo — e era azul
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
879
Maria Teresa Rita Lopes
Poema do Amor Difícil – II
Agora não
agora nunca mais
Passou a hora
Agora já fechei as portas todas
e atirei as chaves ao mar
Agora marquei bilhete para partir de madrugada
Agora já vou a caminho
Houve um tempo
em que todos os caminhos do meu corpo
teriam tido os nomes que lhes desses
Agora não
Devolveste-os ao nada
ao sem sentido de coisas
existindo
Passou a hora
O equilíbrio refez-se do vazio
das madrugadas sem nada
O equilíbrio refez-se
sem ti
Houve um tempo
em que uma primavera inteira
esteve suspensa
dos teus gestos
Agora é tarde
As árvores reabrigaram
os rebentos
na casca dura
e souberam que só podiam contar
com seus lenhosos braços
Nus
Agora não
desisti de ti
expulsei-te do aço dos espelhos
Devolveste-me o nítido e duro perfil
das coisas
e puro recorte do silêncio
agora nunca mais
Passou a hora
Agora já fechei as portas todas
e atirei as chaves ao mar
Agora marquei bilhete para partir de madrugada
Agora já vou a caminho
Houve um tempo
em que todos os caminhos do meu corpo
teriam tido os nomes que lhes desses
Agora não
Devolveste-os ao nada
ao sem sentido de coisas
existindo
Passou a hora
O equilíbrio refez-se do vazio
das madrugadas sem nada
O equilíbrio refez-se
sem ti
Houve um tempo
em que uma primavera inteira
esteve suspensa
dos teus gestos
Agora é tarde
As árvores reabrigaram
os rebentos
na casca dura
e souberam que só podiam contar
com seus lenhosos braços
Nus
Agora não
desisti de ti
expulsei-te do aço dos espelhos
Devolveste-me o nítido e duro perfil
das coisas
e puro recorte do silêncio
723
Eduardo Pitta
Pouco tenho para alinhavar
Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
717
Matilde Campilho
Badland
Não sei se sou homem
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas
todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.
Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.
Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.
já não sei se sou
homem
se sou besta
se tenho olhos azuis
ou mesmo se visto
camisa azul.
Também já não sei
se seguro um toco
meio ardido, aqui sentado
na esplanada desta cidade
cujo nome é Tavizkam.
Não sei se sobre meu ventre
foi depositada uma concha, há uns
1000 dias atrás.
Não sei se sou automático, se devo
trabalhar, pagar o revólver a prestações,
fazer remo, correr na calçada, usar
camisa esquadrinhada, escrever em
cedro esquadrinhado. Eu não sei
se possuo uma barca, se possuo
ossos que podem apodrecer
a qualquer hora. Eu não sei os nomes
dos poetas todos mas sei que os poetas
todos são os novos roqueiros. Eu não
sei, só sei que antes julguei que
os poetas eram escavadores.
Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos.
Não sei se sou homem,
se sou mulher. Mas este
é o caminho do estio
e por perto passam os bois.
945
Luís Filipe Castro Mendes
Música Calada
Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
524
Pero da Ponte
Agora Me Part'eu Mui Sem Meu Grado
Agora me part'eu mui sem meu grado
de quanto bem hoj'eu no mund'havia,
ca 'ssi quer Deus e mao meu pecado,
ai eu!
De mais, se mi nom val Santa Maria,
d'haver coita muito tenh'eu guisado;
mais rog'a Deus que mais d'hoj'este dia
nom viva eu, se m'El nom dá conselho.
Nom viva eu, se m'El nom dá conselho,
nem viverei, nem é cousa guisada,
ca pois nom vir meu lum'e meu espelho,
ai eu!
já por mia vida nom daria nada,
mia senhor; e digo-vos em concelho
que, se eu morr'assi desta vegada,
que a vó'lo demande meu linhage!
Que a vó'lo demande meu linhage,
senhor fremosa, ca vós me matades,
pois voss'amor em tal coita me trage,
ai eu!
e sol nom quer Deus que mi o vós creades
e nom me val i preito nem menage.
E ides-vos e me desamparades;
desampare-vos Deus, a que o eu digo!
Desampare-vos Deus, a que o eu digo,
ca mal per fic'hoj'eu desamparado!
De mais nom hei parente nem amigo,
ai eu!
que m'aconselh'! E desaconselhado
fic'eu sem vós e nom ar fica migo,
senhor, senom gram coita e cuidado.
Ai Deus! Valed'a homem que d'amor morre!
de quanto bem hoj'eu no mund'havia,
ca 'ssi quer Deus e mao meu pecado,
ai eu!
De mais, se mi nom val Santa Maria,
d'haver coita muito tenh'eu guisado;
mais rog'a Deus que mais d'hoj'este dia
nom viva eu, se m'El nom dá conselho.
Nom viva eu, se m'El nom dá conselho,
nem viverei, nem é cousa guisada,
ca pois nom vir meu lum'e meu espelho,
ai eu!
já por mia vida nom daria nada,
mia senhor; e digo-vos em concelho
que, se eu morr'assi desta vegada,
que a vó'lo demande meu linhage!
Que a vó'lo demande meu linhage,
senhor fremosa, ca vós me matades,
pois voss'amor em tal coita me trage,
ai eu!
e sol nom quer Deus que mi o vós creades
e nom me val i preito nem menage.
E ides-vos e me desamparades;
desampare-vos Deus, a que o eu digo!
Desampare-vos Deus, a que o eu digo,
ca mal per fic'hoj'eu desamparado!
De mais nom hei parente nem amigo,
ai eu!
que m'aconselh'! E desaconselhado
fic'eu sem vós e nom ar fica migo,
senhor, senom gram coita e cuidado.
Ai Deus! Valed'a homem que d'amor morre!
633
Pero da Ponte
Vistes, Madr', o Que Dizia
Vistes, madr', o que dizia
que por mi era coitado?
Pois mandado nom m'envia,
entend'eu do perjurado
que já nom teme mia ira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E vistes u s'el partia
de mi, mui sem o meu grado,
e jurando que havia
por mi penas e cuidado?
Tod'andava com mentira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E já qual molher devia
creer per nulh'home nado?
Pois o que assi morria
polo meu bom gasalhado
já x'i por outra sospira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
Mais Deus, quen'o cuidaria:
del viver tam alongado
d'u el os meus olhos vira?
que por mi era coitado?
Pois mandado nom m'envia,
entend'eu do perjurado
que já nom teme mia ira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E vistes u s'el partia
de mi, mui sem o meu grado,
e jurando que havia
por mi penas e cuidado?
Tod'andava com mentira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
E já qual molher devia
creer per nulh'home nado?
Pois o que assi morria
polo meu bom gasalhado
já x'i por outra sospira,
ca, senom, noite nem dia,
a meos de meu mandado,
nunca s'el daqui partira.
Mais Deus, quen'o cuidaria:
del viver tam alongado
d'u el os meus olhos vira?
556
Nuno Fernandes Torneol
Quando Mi Agora For E Mi Alongar
Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
878
Nuno Fernandes Torneol
Ir-Vos Queredes, Mia Senhor
Ir-vos queredes, mia senhor,
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
e fic'end'eu com gram pesar,
que nunca soube rem amar
ergo vós, des quando vos vi.
E pois que vos ides daqui,
senhor fremosa, que farei?
E que farei eu, pois nom vir
o vosso mui bom parecer?
Nom poderei eu mais viver,
se me Deus contra vós nom val.
Mais ar dizede-me vós al:
senhor fremosa, que farei?
E rog'eu a Nostro Senhor
que, se vós vos fordes daquém,
que me dê mia morte por en,
ca muito me será mester.
E se mi a El dar nom quiser,
senhor fremosa, que farei?
Pois mi assi força voss'amor
e nom ouso vosco guarir,
des quando me de vós partir,
eu que nom sei al bem querer
querria-me de vós saber:
senhor fremosa, que farei?
753
Paio Soares de Taveirós
Quando Se Foi Meu Amigo
Quando se foi meu amigo,
jurou que cedo verria,
mais, pois nom vem falar migo,
por en, por Santa Maria,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
Quando se foi, fez-mi preito
que se verria mui cedo,
e mentiu-mi, tort'há feito,
e pois de mi nom há medo,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
O que vistes que dizia
que andava namorado,
pois que nom veo o dia
que lh'eu havia mandado,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
jurou que cedo verria,
mais, pois nom vem falar migo,
por en, por Santa Maria,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
Quando se foi, fez-mi preito
que se verria mui cedo,
e mentiu-mi, tort'há feito,
e pois de mi nom há medo,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
O que vistes que dizia
que andava namorado,
pois que nom veo o dia
que lh'eu havia mandado,
nunca mi por el roguedes,
ai donas, fé que devedes.
711
Paio Gomes Charinho
Dizem, Senhor, Ca Dissestes Por Mi
- Dizem, senhor, ca dissestes por mi
que foi já temp'e que foi já sazom
que vos prazia d'oirdes entom
em mi falar e que nom é já 'ssi.
- Dizem verdad', amigo, porque nom
entendia o que pois entendi.
- E, senhor, dizem, pero vos tal bem
quero que moiro, que rem nom me val,
ca vós dizedes dest'amor atal:
que nunca vos ende senom mal vem.
- Dizem verdad', amigo, e pois é mal,
nom i faledes, ca prol nom vos tem.
- Pero cuid'eu, fremosa mia senhor,
des que vos vi, que sempre me guardei
de vos fazer pesar. Mais que farei,
ca por vós moir'e nom hei d'al sabor?
- Nom vos há prol, amigo, ca já sei
o por que era todo o voss'amor.
que foi já temp'e que foi já sazom
que vos prazia d'oirdes entom
em mi falar e que nom é já 'ssi.
- Dizem verdad', amigo, porque nom
entendia o que pois entendi.
- E, senhor, dizem, pero vos tal bem
quero que moiro, que rem nom me val,
ca vós dizedes dest'amor atal:
que nunca vos ende senom mal vem.
- Dizem verdad', amigo, e pois é mal,
nom i faledes, ca prol nom vos tem.
- Pero cuid'eu, fremosa mia senhor,
des que vos vi, que sempre me guardei
de vos fazer pesar. Mais que farei,
ca por vós moir'e nom hei d'al sabor?
- Nom vos há prol, amigo, ca já sei
o por que era todo o voss'amor.
698
Lourenço
Senhor Fremosa, Oí Eu Dizer
Senhor fremosa, oí eu dizer
que vos levarom d'u vos eu leixei;
e d'u os meus olhos de vós quitei,
aquel dia fora bem de morrer
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
Porque vos forom, mia senhor, casar
e nom ousastes vós dizer ca nom;
por en, senhor, assi Deus mi perdom,
mais mi valera já de me matar
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
que vos levarom d'u vos eu leixei;
e d'u os meus olhos de vós quitei,
aquel dia fora bem de morrer
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
Porque vos forom, mia senhor, casar
e nom ousastes vós dizer ca nom;
por en, senhor, assi Deus mi perdom,
mais mi valera já de me matar
eu e nom vira atam gram pesar
qual mi Deus quis de vós amostrar.
435
João Soares Coelho
Per Boa Fé, Mui Fremosa Sanhuda
Per boa fé, mui fremosa sanhuda
sej'eu, e trist'e coitada por en
por meu amig'e meu lum'e meu bem
que hei perdud'e el mi [há] perduda
porque se foi sem meu grado daqui.
Cuidou-s'el que mi fazia mui forte
pesar de s'ir, por que lhi nom falei,
pero bem sabe Deus ca nom ousei,
mais seria-lh'hoje melhor a morte
porque se foi sem meu grado daqui.
Tam cruamente lho cuid'a vedar
que bem mil vezes no seu coraçom
rog'el a Deus que lhi dê meu perdom
ou sa morte, se lh'eu nom perdoar
porque se foi sem meu grado daqui.
sej'eu, e trist'e coitada por en
por meu amig'e meu lum'e meu bem
que hei perdud'e el mi [há] perduda
porque se foi sem meu grado daqui.
Cuidou-s'el que mi fazia mui forte
pesar de s'ir, por que lhi nom falei,
pero bem sabe Deus ca nom ousei,
mais seria-lh'hoje melhor a morte
porque se foi sem meu grado daqui.
Tam cruamente lho cuid'a vedar
que bem mil vezes no seu coraçom
rog'el a Deus que lhi dê meu perdom
ou sa morte, se lh'eu nom perdoar
porque se foi sem meu grado daqui.
515
João Garcia de Guilhade
Per Boa Fé, Meu Amigo
Per boa fé, meu amigo,
mui bem sei eu que m'houvestes
grand'amor e estevestes
mui gram sazom bem comigo;
mais vede-lo que vos digo:
já safou.
Os grandes nossos amores
que mi e vós sempr'houvemos,
nunca lhi cima fezemos,
coma Brancafrol e Flores;
mais tempo de jogadores
já safou.
Já eu falei em folia
convosc'[e] em gram cordura
e em sem e em loucura,
quanto durava o dia,
mais est', ai dom J'am Garcia,
já safou.
E dessa folia toda
já safou.
Já safad'é pam de voda,
já safou.
mui bem sei eu que m'houvestes
grand'amor e estevestes
mui gram sazom bem comigo;
mais vede-lo que vos digo:
já safou.
Os grandes nossos amores
que mi e vós sempr'houvemos,
nunca lhi cima fezemos,
coma Brancafrol e Flores;
mais tempo de jogadores
já safou.
Já eu falei em folia
convosc'[e] em gram cordura
e em sem e em loucura,
quanto durava o dia,
mais est', ai dom J'am Garcia,
já safou.
E dessa folia toda
já safou.
Já safad'é pam de voda,
já safou.
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