Poemas neste tema
Serenidade e Paz Interior
Eduardo Guimaraens
Doçura de estar só quando a alma torce as mãos
Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!
— Oh! doçura que tu, silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram!
(E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustem!
Doçura de estar só! Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
— Oh! doçura que tu, silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram!
(E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustem!
Doçura de estar só! Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
1 185
Bernardo Guimarães
Ao Charuto
ODE
Vem, ó meu bom charuto, amigo velho,
Que tanto me regalas;
Que em cheirosa fumaça me envolvendo
Entre ilusões me embalas.
Oh! que nem todos sabem quanto vale
Uma fumaça tua!
Nela vai passear do bardo a mente
Às regiões da lua.
E por lá embalado em rósea nuvem
Vagueia pelo espaço,
Onde amorosa fada entre sorrisos
O toma em seu regaço;
E com beijos de requintado afeto
A fronte lhe desruga,
Ou com as tranças d'ouro mansamente
As lágrimas lhe enxuga.
Ó bom charuto, que ilusões não geras!
Que tão suaves sonhos!
Como ao te ver atropelados correm
Cuidados enfadonhos!
Quantas penas não vão por esses ares
Com uma só fumaça!...
Quanto negro pesar, quantos ciúmes,
E quanta dor não passa!
Tu és, charuto, o pai dos bons conselhos,
O símbolo da paz;
Para em santa pachorra adormecer-nos
Nada há mais eficaz.
(...)
Quanto lastimo os nossos bons maiores,
Os Gregos e os Romanos,
Por não te conhecerem, nem gozarem
Teus dotes soberanos!
Quantos males talvez não pouparias
À triste humanidade,
Ó bom charuto, se te possuísse
A velha antiguidade!
(...)
Fumemos pois! — Ambrósio, traze fogo...
Puff!... oh! que fumaça!
Como me envolve todo entre perfumes,
Qual véu de nívea cassa!
Vai-te, alma minha, embarca-te nas ondas
Desse cheiroso fumo,
Vai-te a peregrinar por essas nuvens,
Sem bússola, nem rumo.
Vai despir no país dos devaneios
Esse ar pesado e triste;
Depois, virás mais lépida e contente,
Contar-me o que lá viste.
Ouro Preto, 1857
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
Vem, ó meu bom charuto, amigo velho,
Que tanto me regalas;
Que em cheirosa fumaça me envolvendo
Entre ilusões me embalas.
Oh! que nem todos sabem quanto vale
Uma fumaça tua!
Nela vai passear do bardo a mente
Às regiões da lua.
E por lá embalado em rósea nuvem
Vagueia pelo espaço,
Onde amorosa fada entre sorrisos
O toma em seu regaço;
E com beijos de requintado afeto
A fronte lhe desruga,
Ou com as tranças d'ouro mansamente
As lágrimas lhe enxuga.
Ó bom charuto, que ilusões não geras!
Que tão suaves sonhos!
Como ao te ver atropelados correm
Cuidados enfadonhos!
Quantas penas não vão por esses ares
Com uma só fumaça!...
Quanto negro pesar, quantos ciúmes,
E quanta dor não passa!
Tu és, charuto, o pai dos bons conselhos,
O símbolo da paz;
Para em santa pachorra adormecer-nos
Nada há mais eficaz.
(...)
Quanto lastimo os nossos bons maiores,
Os Gregos e os Romanos,
Por não te conhecerem, nem gozarem
Teus dotes soberanos!
Quantos males talvez não pouparias
À triste humanidade,
Ó bom charuto, se te possuísse
A velha antiguidade!
(...)
Fumemos pois! — Ambrósio, traze fogo...
Puff!... oh! que fumaça!
Como me envolve todo entre perfumes,
Qual véu de nívea cassa!
Vai-te, alma minha, embarca-te nas ondas
Desse cheiroso fumo,
Vai-te a peregrinar por essas nuvens,
Sem bússola, nem rumo.
Vai despir no país dos devaneios
Esse ar pesado e triste;
Depois, virás mais lépida e contente,
Contar-me o que lá viste.
Ouro Preto, 1857
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
3 181
Torquato Neto
Louvação
Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
E louvo, pra começar,
Da vida o que é bem maior:
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor.
Quem espera sempre alcança,
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que, pra melhor esperar,
Procede bem quem não pára
De sempre, mais, trabalhar.
Que só espera sentado
Quem se acha conformado.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Quem 'tiver me escutando, atenção, atenção,
Que me escute com cuidado,
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo agora e louvo sempre
O que grande sempre é:
Louvo a força do homem
E a beleza da mulher,
Louvo a paz pra haver na Terra,
Louvo o amor que espanta a guerra,
Louvo a amizade do amigo
Que comigo há de morrer,
Louvo a vida merecida
De quem morre pra viver,
Louvo a luta repetida
Da vida, pra não morrer.
Vou fazendo a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado.
De todos peço atenção, atenção, atenção,
Falo de peito lavado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
Louvo a casa onde se mora
De junto da companheira,
Louvo o jardim que se planta
Pra ver crescer a roseira,
Louvo a canção que se canta
Pra chamar a primavera,
Louvo quem canta e não canta
Porque não sabe cantar,
Mas que cantará na certa
Quando, enfim, se apresentar
O dia certo e preciso
De toda a gente cantar.
E assim fiz a louvação, louvação, louvação
Do que vi pra ser louvado, ser louvado, ser louvado.
Se me ouviram com atenção, atenção, atenção,
Saberão se estive errado
Louvando o que bem merece,
Deixando o ruim de lado.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gi
1 569
Machado de Assis
Espinosa
Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas
Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.
Publicado no livro Poesias Completas: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. Poema integrante da série Ocidentais.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.163. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas
Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.
Publicado no livro Poesias Completas: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. Poema integrante da série Ocidentais.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.163. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
6 473
Machado de Assis
Musa Consolatrix (Vária)
Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, - e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!
In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Livro do Mês, 1959. (Obras completas de Machado de Assis
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, - e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!
In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Livro do Mês, 1959. (Obras completas de Machado de Assis
1 443
Augusto Frederico Schmidt
Pequena Igreja
Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 488
Olegário Mariano
De Papo Pro Á, 1931
I
Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé
Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á
II
Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho
In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147
NOTA: Música de Joubert de Carvalh
Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé
Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á
II
Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho
In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147
NOTA: Música de Joubert de Carvalh
1 016
Colombina
A Estátua
Impecável na forma, esplêndida na alvura
do mármore sem jaça, era mais que divina!
Inspirado, a criara um mestre da escultura
dessa eterna e genial península apenina.
Num museu de além-mar, um dia (peregrina
que, viajando, esquecer um grande mal procura),
pude ver e admirar, sob a luz matutina,
a extrema perfeição de sua formosura.
Não invejei, porém, sua beleza rara.
que, no mármore puro e rijo de Carrara,
se ostentava integral, magnífica e desnuda.
Quisera apenas ter igual serenidade
e contemplar o mundo, a vida, a humanidade,
num pedestal de bronze, indiferente e muda!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
do mármore sem jaça, era mais que divina!
Inspirado, a criara um mestre da escultura
dessa eterna e genial península apenina.
Num museu de além-mar, um dia (peregrina
que, viajando, esquecer um grande mal procura),
pude ver e admirar, sob a luz matutina,
a extrema perfeição de sua formosura.
Não invejei, porém, sua beleza rara.
que, no mármore puro e rijo de Carrara,
se ostentava integral, magnífica e desnuda.
Quisera apenas ter igual serenidade
e contemplar o mundo, a vida, a humanidade,
num pedestal de bronze, indiferente e muda!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 261
Sousa Caldas
Salmo XXII [O meu DEUS é minha guia
Dominus regit me...
1.
O meu DEUS é minha guia,
Tenho tudo de abundância;
A mais suave fragrância,
Verde e fresca amenidade,
É dos prados companhia,
Onde assentou minha herdade;
Com perene fonte a rega,
Me conforta, me sossega.
2.
Por mostrar seu braço forte,
A minha alma iluminando
Sempre fui meus pés firmando
Da justiça pela estrada;
Em vão me acomete a morte
De densas sombras cercada.
Sem temor, ó DEUS, a vejo;
Pois ao lado teu forcejo.
3.
O cajado, e a lisa vara
Com que sempre me regeste,
Ao voraz lobo que investe
Vigorosa fere, e mata:
E contra a coorte amara
Que me segue e me maltrata,
A meus olhos preparaste
Pingue mesa, e me esforçaste.
4.
Mil perfumes sobre a frente
Me espargiste, generoso;
E como é delicioso
O cáli com que me abrandas
Minha sede impaciente!
Ah! benignas sempre e brandas
Tuas mostras de piedade
Me sigam em toda a idade.
5.
Sim, meu DEUS, serás piedoso
Com teu servo, e longamente
Té que eu possa eternamente,
Roto o véu que me circunda,
Ver teu rosto glorioso;
Oxalá serena e munda
Já minha alma, leda entrasse
No teu paço, e te gozasse!
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo português. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P. N. Rougeron, 1820. v.
1.
O meu DEUS é minha guia,
Tenho tudo de abundância;
A mais suave fragrância,
Verde e fresca amenidade,
É dos prados companhia,
Onde assentou minha herdade;
Com perene fonte a rega,
Me conforta, me sossega.
2.
Por mostrar seu braço forte,
A minha alma iluminando
Sempre fui meus pés firmando
Da justiça pela estrada;
Em vão me acomete a morte
De densas sombras cercada.
Sem temor, ó DEUS, a vejo;
Pois ao lado teu forcejo.
3.
O cajado, e a lisa vara
Com que sempre me regeste,
Ao voraz lobo que investe
Vigorosa fere, e mata:
E contra a coorte amara
Que me segue e me maltrata,
A meus olhos preparaste
Pingue mesa, e me esforçaste.
4.
Mil perfumes sobre a frente
Me espargiste, generoso;
E como é delicioso
O cáli com que me abrandas
Minha sede impaciente!
Ah! benignas sempre e brandas
Tuas mostras de piedade
Me sigam em toda a idade.
5.
Sim, meu DEUS, serás piedoso
Com teu servo, e longamente
Té que eu possa eternamente,
Roto o véu que me circunda,
Ver teu rosto glorioso;
Oxalá serena e munda
Já minha alma, leda entrasse
No teu paço, e te gozasse!
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo português. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P. N. Rougeron, 1820. v.
1 079
Geir Campos
A Árvore
Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?
Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?
Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —
demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?
Publicado no livro Rosa dos rumos (1950).
In: RAMOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?
Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?
Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —
demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?
Publicado no livro Rosa dos rumos (1950).
In: RAMOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 554
Mário Faustino
A Reconstrução
(...)
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
2 528
Amadeu Amaral
Rios
A Adalgiso Pereira
Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;
vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;
fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...
Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.60. (Obras de Amadeu Amaral
Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;
vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;
fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...
Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.60. (Obras de Amadeu Amaral
1 625
Cruz e Sousa
Na Luz
De soluço em soluço a alma gravita,
De soluço em soluço a alma estremece,
Anseia, sonha, se recorda, esquece
E no centro da Luz dorme contrita.
Dorme na paz sacramental, bendita,
Onde tudo mais puro resplandece,
Onde a Imortalidade refloresce
Em tudo, e tudo em cânticos palpita.
Sereia celestial entre as sereias,
Ela só quer despedaçar cadeias,
De soluço em soluço, a alma nervosa.
Ela só quer despedaçar algemas
E respirar nas amplidões supremas,
Respirar, respirar na Luz radiosa.
Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 72
De soluço em soluço a alma estremece,
Anseia, sonha, se recorda, esquece
E no centro da Luz dorme contrita.
Dorme na paz sacramental, bendita,
Onde tudo mais puro resplandece,
Onde a Imortalidade refloresce
Em tudo, e tudo em cânticos palpita.
Sereia celestial entre as sereias,
Ela só quer despedaçar cadeias,
De soluço em soluço, a alma nervosa.
Ela só quer despedaçar algemas
E respirar nas amplidões supremas,
Respirar, respirar na Luz radiosa.
Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 72
2 017
Edgar Allan Poe
To
Sleep on, sleep on, another hour —
I would not break so calm a sleep,
To wake to sunshine and to show'r,
To smile and weep.
Sleep on, sleep on, like sculptured thing,
Majestic, beautiful art thou;
Sure seraph shields thee with his wing
And fans thy brow —
We would not deem thee child of earth,
For, O, angelic, is thy form!
But, that in heav'n thou had'st thy birth,
Where comes no storm
To mar the bright, the perfect flow'r,
But all is beautiful and still —
And golden sands proclaim the hour
Which brings no ill.
Sleep on, sleep on, some fairy dream
Perchance is woven in thy sleep —
But, O, thy spirit, calm, serene,
Must wake to weep.
Tamerlane
1833
I would not break so calm a sleep,
To wake to sunshine and to show'r,
To smile and weep.
Sleep on, sleep on, like sculptured thing,
Majestic, beautiful art thou;
Sure seraph shields thee with his wing
And fans thy brow —
We would not deem thee child of earth,
For, O, angelic, is thy form!
But, that in heav'n thou had'st thy birth,
Where comes no storm
To mar the bright, the perfect flow'r,
But all is beautiful and still —
And golden sands proclaim the hour
Which brings no ill.
Sleep on, sleep on, some fairy dream
Perchance is woven in thy sleep —
But, O, thy spirit, calm, serene,
Must wake to weep.
Tamerlane
1833
1 120
Felipe Larson
A ARTE DE PODER VOAR
Há alguma coisa diferente pairando no ar...
Pareço estar, alegremente, vendo o mundo girar.
E quem se importa com isso?
O estado que me encontro se que vai passar
Para apagar as marcas feitas ao chão
Pois tenho no peito um humilde coração
Você não sabe o que é querer ficar só
Ficando somente com o meu silêncio
Tendo uma razão pra ficar aqui
Pra ver se encontro meu caminho
Quero mostrar a vida com toda sua nitidez
Agora o pensamento parece mais sereno
Vejo você, mesmo assim, não me entende,
E a noite custa a chegar
Quero me por pra fora, me sentir mais puro,
Como se eu pudesse voar ao céu
Onde ninguém pudesse alcançar pra me buscar
Pareço estar, alegremente, vendo o mundo girar.
E quem se importa com isso?
O estado que me encontro se que vai passar
Para apagar as marcas feitas ao chão
Pois tenho no peito um humilde coração
Você não sabe o que é querer ficar só
Ficando somente com o meu silêncio
Tendo uma razão pra ficar aqui
Pra ver se encontro meu caminho
Quero mostrar a vida com toda sua nitidez
Agora o pensamento parece mais sereno
Vejo você, mesmo assim, não me entende,
E a noite custa a chegar
Quero me por pra fora, me sentir mais puro,
Como se eu pudesse voar ao céu
Onde ninguém pudesse alcançar pra me buscar
725
Anna Maria Feitosa
Iluminado
Ando em busca
do ponto de equilíbrio
entre o aqui
e o agora
Perco os limites
do tempo
sigo lenta.
Pensando como quem dorme
falando
como quem sonha
amando
como quem pode.
Vejo a vida
de olhos claros
translúcidos
coloridos
como vinho
iluminado.
do ponto de equilíbrio
entre o aqui
e o agora
Perco os limites
do tempo
sigo lenta.
Pensando como quem dorme
falando
como quem sonha
amando
como quem pode.
Vejo a vida
de olhos claros
translúcidos
coloridos
como vinho
iluminado.
910
Angela Santos
Serenidade
Sobre
areias finas
a deusa adormecida
lembra uma esfinge viva
serenamente abandonada
em seu sono
Indiferente
às tempestades de luz
que o seu sonho assaltam
a deusa toda se ilumina
com as odes de sol que
da alma emanam
E deitada
sobre areias brancas
serena, despertará
iluminada
areias finas
a deusa adormecida
lembra uma esfinge viva
serenamente abandonada
em seu sono
Indiferente
às tempestades de luz
que o seu sonho assaltam
a deusa toda se ilumina
com as odes de sol que
da alma emanam
E deitada
sobre areias brancas
serena, despertará
iluminada
1 329
Lúcia Villares
Lua
Lua,
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)
Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)
Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.
1 083
Angela Santos
Só Sentir
Livro-me
das palavras
verbos e conjugações
ah! como me fartam.....
Deixo-me levar como a corrente
livre de um riacho
e não saber para onde......
Viver,
saber que sinto me basta,
sem porquês......
das palavras
verbos e conjugações
ah! como me fartam.....
Deixo-me levar como a corrente
livre de um riacho
e não saber para onde......
Viver,
saber que sinto me basta,
sem porquês......
945
Angela Santos
Cansaço
Desejado
Nas
dobras dos lençóis de linho
exala-se um suspiro
que enche a tarde de languidez
e paz
Aromas de paixão soltos pelo ar
corpos que se abandonam
à volúpia e ao amor.
A serenidade sobrevem
ao cansaço desejado
e invade a tarde morna que cai
Longe do mundo e tão perto de si,
dois corpos amantes esquecem que há tempo
e retêm só o mágico instante
do total abandono
de seus corpos irmãos no reencontro.
Nas
dobras dos lençóis de linho
exala-se um suspiro
que enche a tarde de languidez
e paz
Aromas de paixão soltos pelo ar
corpos que se abandonam
à volúpia e ao amor.
A serenidade sobrevem
ao cansaço desejado
e invade a tarde morna que cai
Longe do mundo e tão perto de si,
dois corpos amantes esquecem que há tempo
e retêm só o mágico instante
do total abandono
de seus corpos irmãos no reencontro.
1 087
Angela Santos
Nuances
Sacudo
o sono dos meus olhos
a manhã aparece iluminada
e sinto-me inusitadamente serena.
Este sentir-me assim, está preso a outra razão
estar aqui e ser noutro lugar
o longe que não é longe
se perto do coração
E é tão perto que o sinto
que parece ter vivido aqui sempre ao meu lado
e um dia de repente
eu tivesse acordado, e sobre ele pousasse
aquele olhar de menino
que olha todas coisas com o seu primeiro olhar
É uma coisa bonita que cresce
e eu quero cuidar
como o jardineiro trata e cuida de uma flor.
E lindo mesmo é olhar, sentir e deixar brotar
nas suas subtis formas,
tons e nuances de cor
sem perguntar.. sem querer saber
como nasce, porque nasce
e cuidar apenas de a ver crescer.
o sono dos meus olhos
a manhã aparece iluminada
e sinto-me inusitadamente serena.
Este sentir-me assim, está preso a outra razão
estar aqui e ser noutro lugar
o longe que não é longe
se perto do coração
E é tão perto que o sinto
que parece ter vivido aqui sempre ao meu lado
e um dia de repente
eu tivesse acordado, e sobre ele pousasse
aquele olhar de menino
que olha todas coisas com o seu primeiro olhar
É uma coisa bonita que cresce
e eu quero cuidar
como o jardineiro trata e cuida de uma flor.
E lindo mesmo é olhar, sentir e deixar brotar
nas suas subtis formas,
tons e nuances de cor
sem perguntar.. sem querer saber
como nasce, porque nasce
e cuidar apenas de a ver crescer.
1 066
Angela Santos
Gume do Ser
Colho o sentido de cada
gesto e signo
para adentrar as razões
deste caminho a fazer-se
de perplexidades, desatinos, descaminhos...
Acredito chegar ainda
ali, onde possa vislumbrar ou pressentir
o sentido mais além deste tudo aqui
A paz que desce nestes dias
afronta-me e até o amor florescido
se me torna estranho
Por que caminhos chega esta quietude
se me sei só na vaga alterosa
no ruído surdo do mundo ?
Da paz não sei senão
a palavra onde habita
e não sei se quero a paz
de que não sou....
O mundo convulsivo chama...
como não ir seu encontro,
se a voz do sangue soa em mim,
irreprimível.
gesto e signo
para adentrar as razões
deste caminho a fazer-se
de perplexidades, desatinos, descaminhos...
Acredito chegar ainda
ali, onde possa vislumbrar ou pressentir
o sentido mais além deste tudo aqui
A paz que desce nestes dias
afronta-me e até o amor florescido
se me torna estranho
Por que caminhos chega esta quietude
se me sei só na vaga alterosa
no ruído surdo do mundo ?
Da paz não sei senão
a palavra onde habita
e não sei se quero a paz
de que não sou....
O mundo convulsivo chama...
como não ir seu encontro,
se a voz do sangue soa em mim,
irreprimível.
1 099
Angela Santos
Sintonia
Na superfície do meu corpo
palmilhada pelos teus dedos
reluzem cristalinos ainda
os sinais de tuas mãos
que são de sal e suor
Das paredes e dos móveis
e até dos espaços vazios,
nos lugares por onde andamos,
na retina, e na memória
ressurge a tua presença.
E esse estares em mim
tempo de colheita
o tempo de tudo ter,
é o banquete da vida
que nos devolve ao principio
de sentir que tudo volta
a ser na sua inteireza.
E nesse estado de graça
não busco fundo nem longe
o nirvana dos ascetas,
me basta a luz que emanas
e sentir que a batida
no meu peito é igual
à pulsão que te anima.
palmilhada pelos teus dedos
reluzem cristalinos ainda
os sinais de tuas mãos
que são de sal e suor
Das paredes e dos móveis
e até dos espaços vazios,
nos lugares por onde andamos,
na retina, e na memória
ressurge a tua presença.
E esse estares em mim
tempo de colheita
o tempo de tudo ter,
é o banquete da vida
que nos devolve ao principio
de sentir que tudo volta
a ser na sua inteireza.
E nesse estado de graça
não busco fundo nem longe
o nirvana dos ascetas,
me basta a luz que emanas
e sentir que a batida
no meu peito é igual
à pulsão que te anima.
999