Poemas neste tema
Animais e Natureza
Marcus Accioly
21 [Quase uma cobra com pés
Quase uma cobra com pés
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
1 267
Sosigenes Costa
Chuva de Ouro
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 734
Manoel de Barros
Exercícios Adjetivos
(...)
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 594
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 462
Sosigenes Costa
A Chuva Vem Cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 247
Sosigenes Costa
Brasília
A mãe do mato
é a mãe das flores
é a mãe das frutas do mato.
A mãe do mato
é a mãe do peixe especial e gostoso
feito em leite de coco.
Só o peixe do mar de Santa Cruz
é bom.
Ela é a mãe da farinha
que vem da roça na muqueca.
Ela é a mãe da farinha puba
da farinha tinga
e da farinha tapioca.
A mãe do mato
é a mãe dos passeios ao campo
da mangaba, da gramixama
e da mixacurumba.
Só mesmo o cágado da história
pode esquecer
esta delícia dos galhos do mato:
a onomatopéia da mixacurumba.
Mãe do mato
só toma banho nesta cuia do mato
cheia de água de um braço quente
e de um braço frio,
água quente que vem da praia
e a água fria
que vem por debaixo do mato.
A mãe da poesia da terra,
mãe das coisas puras
e naturais da vida,
essa mãe do mato
é a minha mãe.
(1957)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é a mãe das flores
é a mãe das frutas do mato.
A mãe do mato
é a mãe do peixe especial e gostoso
feito em leite de coco.
Só o peixe do mar de Santa Cruz
é bom.
Ela é a mãe da farinha
que vem da roça na muqueca.
Ela é a mãe da farinha puba
da farinha tinga
e da farinha tapioca.
A mãe do mato
é a mãe dos passeios ao campo
da mangaba, da gramixama
e da mixacurumba.
Só mesmo o cágado da história
pode esquecer
esta delícia dos galhos do mato:
a onomatopéia da mixacurumba.
Mãe do mato
só toma banho nesta cuia do mato
cheia de água de um braço quente
e de um braço frio,
água quente que vem da praia
e a água fria
que vem por debaixo do mato.
A mãe da poesia da terra,
mãe das coisas puras
e naturais da vida,
essa mãe do mato
é a minha mãe.
(1957)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 282
Marcus Accioly
4 [Antes de pintar as pintas
Antes de pintar as pintas
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
1 418
Carlos Felipe Moisés
Boi para Guilhermino
"O boi de março e sua baba"
Guilhermino César
O boi sabe da baba que escorre, sabe
da vida inútil que erra e em si não cabe.
O boi sabe pisar a terra como quem flutua
entre o remorso alheio e a campa nua.
O boi sabe do peso do seu casco errante
e do lago perdido num olhar distante.
O boi sabe, amoroso, raspar o chão
e ruminar na mesma palha sonho e coração.
O boi sabe esperar paciente o que não vem
e mesmo que viesse já viria sem.
O boi sabe, afinal, que a baba escorre
e fica, e em volta o dia (como tudo) morre.
Mais não sabe o boi e nem saber precisa.
Já lhe basta a afagar o dorso a mansa brisa.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Guilhermino César
O boi sabe da baba que escorre, sabe
da vida inútil que erra e em si não cabe.
O boi sabe pisar a terra como quem flutua
entre o remorso alheio e a campa nua.
O boi sabe do peso do seu casco errante
e do lago perdido num olhar distante.
O boi sabe, amoroso, raspar o chão
e ruminar na mesma palha sonho e coração.
O boi sabe esperar paciente o que não vem
e mesmo que viesse já viria sem.
O boi sabe, afinal, que a baba escorre
e fica, e em volta o dia (como tudo) morre.
Mais não sabe o boi e nem saber precisa.
Já lhe basta a afagar o dorso a mansa brisa.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
923
Antonio Fernando De Franceschi
Serpente
cauda e dente
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Silva Rerum
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Silva Rerum
1 566
Menotti del Picchia
Germinal - 1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
1 634
Fontoura Xavier
Revolta do Túmulo
A TERRA (ao aproximar-se um cadáver)
E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...
O OCEANO (à parte)
Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...
O OCEANO (à parte)
Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
1 155
Santa Rita Durão
Canto VII [Das frutas do país a mais louvada
XLIII
Das frutas do país a mais louvada
É o régio ananás, fruta tão boa,
Que a mesma natureza namorada
Quis como a rei cingi-la da coroa.
Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Surpreende o olfato de qualquer pessoa;
Que, a não ter do ananás distinto aviso,
Fragrância a cuidará do Paraíso.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.171. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
Das frutas do país a mais louvada
É o régio ananás, fruta tão boa,
Que a mesma natureza namorada
Quis como a rei cingi-la da coroa.
Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Surpreende o olfato de qualquer pessoa;
Que, a não ter do ananás distinto aviso,
Fragrância a cuidará do Paraíso.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.171. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
2 720
Santa Rita Durão
Canto VII [O mais rico e importante vegetável
XXVI
O mais rico e importante vegetável
É a doce cana, donde o açúcar brota,
Em pouco às nossas canas comparável;
Mas nas do milho proporção se nota:
Com manobra expedita e praticável,
Espremido em moenda, o suco bota,
Que acaso a antiguidade imaginava,
Quando o néctar e ambrósia celebrava.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.167. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
O mais rico e importante vegetável
É a doce cana, donde o açúcar brota,
Em pouco às nossas canas comparável;
Mas nas do milho proporção se nota:
Com manobra expedita e praticável,
Espremido em moenda, o suco bota,
Que acaso a antiguidade imaginava,
Quando o néctar e ambrósia celebrava.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.167. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
2 683
Cacaso
Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal
eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
7 294
da Costa e Silva
O Sapo
Feio e fátuo a fingir de grande, gordo e guapo;
Hediondo e humilde a inchar de empáfia e ocioso orgulho,
Viscoso de vaidade, entronado no entulho,
Cisma na solidão, sorno e soturno, o sapo.
Os bugalhos em brasa, a palpitar o papo,
Acocorado, absorto, ao mínimo barulho
Que o sossego lhe suste, em súbito mergulho
Se atasca no atascal; e ei-lo escondido e escapo.
Patriarca do paul, pelo pântano parco
De água, a arfar e a imergir no lodo liso e imundo,
O batráquio bubuia, o corpo curvo em arco...
E sobe à superfície o rei das rãs, rotundo,
Glabro e inchado, a coaxar no lamaçal do charco,
Como o ser mais soberbo e singular do mundo.
Publicado no livro Zodíaco (1917). Poema integrante da série Poemas da Fauna.
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.16
Hediondo e humilde a inchar de empáfia e ocioso orgulho,
Viscoso de vaidade, entronado no entulho,
Cisma na solidão, sorno e soturno, o sapo.
Os bugalhos em brasa, a palpitar o papo,
Acocorado, absorto, ao mínimo barulho
Que o sossego lhe suste, em súbito mergulho
Se atasca no atascal; e ei-lo escondido e escapo.
Patriarca do paul, pelo pântano parco
De água, a arfar e a imergir no lodo liso e imundo,
O batráquio bubuia, o corpo curvo em arco...
E sobe à superfície o rei das rãs, rotundo,
Glabro e inchado, a coaxar no lamaçal do charco,
Como o ser mais soberbo e singular do mundo.
Publicado no livro Zodíaco (1917). Poema integrante da série Poemas da Fauna.
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.16
2 363
Sílvio Romero
A Barata
(Sergipe)
Nada há no paraíso
Que me faça eu falar;
Não há sapo nem barata
Que me possa incomodar.
Eu vi uma barata
No capote de vovô;
Quando ela me avistou
Bateu asas e voou.
Eu vi uma barata
Com a tesoura na mão,
Cortando calças, camisas,
Vestidos de babadão.
Eu vi uma barata
Sentada fazendo renda,
E também eu vi um rato
Ser caixeiro de uma venda.
Eu vi uma barata
Sentada numa costura.
E também eu vi um rato
De pistola na cintura.
Eu vi uma barata
Na janela namorando,
Vi um sapo de luneta
Pela rua passeando.
Eu vi uma barata
Na ladeira da preguiça
E também vi um cachorro
Amarrado com linguiça.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.190. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Nada há no paraíso
Que me faça eu falar;
Não há sapo nem barata
Que me possa incomodar.
Eu vi uma barata
No capote de vovô;
Quando ela me avistou
Bateu asas e voou.
Eu vi uma barata
Com a tesoura na mão,
Cortando calças, camisas,
Vestidos de babadão.
Eu vi uma barata
Sentada fazendo renda,
E também eu vi um rato
Ser caixeiro de uma venda.
Eu vi uma barata
Sentada numa costura.
E também eu vi um rato
De pistola na cintura.
Eu vi uma barata
Na janela namorando,
Vi um sapo de luneta
Pela rua passeando.
Eu vi uma barata
Na ladeira da preguiça
E também vi um cachorro
Amarrado com linguiça.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.190. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
4 276
Ronald de Carvalho
Écloga Tropical
Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
2 351
Santa Rita Durão
Canto II [Não era assim nas aves fugitivas
XLIII
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 921
Régis Bonvicino
Num Zoológico de Letras
ummmmmmmmmmmma centopéia
árápóngá
borbolllleta
raTTo
aa aa aa aa aa belhas
eLEFANTe
micõ-leãõ
Girafas
buRRo
Yena
flámíngó
pbombpa espelho
lobo-coke
môscâ
eMa
lontra
raPOSa utópica
sabiá-exílio
g"t"s
co++lho
Lêãô
m:rc:g:
p'p'f'rm'g's
v,c,
rato anapéstico
m*ripos*
VntV
z=br=
c)ng(r(
homens-em-extinção
;A;U
j]g]]t]r]c]
f.o.r.m.i.g.a.
e uma ]nç] p]nt]d]
In: BONVICINO, Régis. Num zoológico de letras. Il. Guto Lacaz. São Paulo: Maltec, 1994.
NOTA: Referência à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias. Publicado na Folhinha de S. Paulo (30 ago. 1987) e no livro 33 POEMAS (1990
árápóngá
borbolllleta
raTTo
aa aa aa aa aa belhas
eLEFANTe
micõ-leãõ
Girafas
buRRo
Yena
flámíngó
pbombpa espelho
lobo-coke
môscâ
eMa
lontra
raPOSa utópica
sabiá-exílio
g"t"s
co++lho
Lêãô
m:rc:g:
p'p'f'rm'g's
v,c,
rato anapéstico
m*ripos*
VntV
z=br=
c)ng(r(
homens-em-extinção
;A;U
j]g]]t]r]c]
f.o.r.m.i.g.a.
e uma ]nç] p]nt]d]
In: BONVICINO, Régis. Num zoológico de letras. Il. Guto Lacaz. São Paulo: Maltec, 1994.
NOTA: Referência à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias. Publicado na Folhinha de S. Paulo (30 ago. 1987) e no livro 33 POEMAS (1990
1 745
Luís Delfino
O Lago
Mulher, és como um lago em flor, que se ilumina
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.
Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.
Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.
O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.
Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.
Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.
O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
2 332
Leila Mícollis
Arte Marajoara (II)
Salgado por chorar há tanto tempo
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1992. v.2, p.5
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1992. v.2, p.5
1 117
Neide Archanjo
A gota
A gota
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.
Poema integrante da série Fragmentos.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.
Poema integrante da série Fragmentos.
In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 132
Rubens Rodrigues Torres Filho
Circunflexo
O vôo circunflexo de uma ave,
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 743
Max Martins
Uma Tela de Dina Oliveira
Meu olho
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
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