Vida
Aníbal Machado
Consumimos
Consumimos o melhor tempo da vida a apalpar o terreno, reunir dados, instalar sondas, armar os aparelhos, ajuntar material. Tudo para começarmos a viver. Quando se aproxima o dia da prova – que dia? que prova? – nossas armas estão caducas, o celeiro apodrecido. Vem-nos então a revolta contra as extorsões do tempo; depois, a desconfiança de que fomos logrados.
E não nos conformamos em reconhecer que na longa prorrogação com que disfarçamos o nosso medo de viver estava a própria realização de nossa vida.
Viver é o mesmo que preparar-se para viver.
Mário Dionísio
O maior poema
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros
Fernando Couto
Na agreste paisagem
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.
Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.
Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
Ana Paula Ribeiro Tavares
Cerimónia de Passagem
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto
a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho
o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto
o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio
"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
Oswaldo Osório
Manhã inflor
desertas de folhas
desertas de flores
propositadamente
nem só o sangue mas também a seiva
nem só a criança mas também a pétala
nem só o homem mas também a planta
nem só a carne mas também a lenha
propositadamente
tudo o hamadricida flagelou
a beleza da flor
a inocência da criança
a certeza dos campos
o aconchego duma sombra
mas nos covis a vida continuou
e o apelo à luta redobrou
as héveas murcharam
e com as héveas
a manhã inflor
a terra nua
mas ainda a vida
nos covis continua
João Maria Vilanova
Canção na morte de nga-Caxombo
na esteira
deitado morto
a todo comprimento
Vejo-o caminhar sem descanso
do Amboim ao Seles
do Seles ao quipeio
outra vez ao Seles
rotas sem rota mato longe
quem que sabia?
Tipoia o ombro pesava que pesava
duramente Zua
e voz de Kalandu
voz serena do sertão
ele a escutava
através do fogo
através da água
o geito sem raizes
de amar o coração das coisas.
Olho-o pela vez última
na luz rasante desse dez de Julho
a barba á monangamba
cavada sua negra face
morto
deitado morto
a todo o comprimento.
Alberto de Oliveira
A Cancela da Estrada
Constantemente.
Cavaleiro, à disparada,
Lá vai no cavalo ardente.
Cavaleiro em descuidada
Marcha, lá vem indolente.
Passa, ondeia levantada
A poeira, toldando o ambiente.
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Bate, e exaspera-se e brada
Ou chora contra o batente:
(Ninguém lhe ouve na arrastada,
Roufenha voz o que sente)
— "Minha vida desgraçada
Repouso não me consente;
Vivo a bater nesta estrada
Constantemente."
Moços, moças, de tornada
De alguma festa, em ridente
Chusma inquieta e alvoroçada,
Passaram ruidosamente.
Desta inda se ouve a risada,
Daquele o beijo... Plangente
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Agora, é noiva coroada
De capela alvinitente;
Segue o noivo a sua amada,
Um carro atrás, outro à frente.
Agora, é uma cruz alçada...
Um enterro. Quanta gente!
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Bate ao vir a madrugada,
Bate, ao ir-se o sol no poente;
(Das sombras pela calada
Seu bater é mais dolente)
Bate, se é noite enluarada,
Se escura é a noite e silente;
Bate a cancela da estrada
Constantemente.
Nossa vida é aquela estrada,
Com os que passam diariamente
E após si da caminhada
A poeira deixam somente.
Coração, como a cansada
Cancela de som gemente,
Bates a tua pancada
Constantemente.
Publicado no livro Poesias, 1912/1925: quarta série (1927). Poema integrante da série Alma e Céu.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. v.3. (Fluminense
Vicente de Carvalho
Sonho Póstumo
Poupem-me, quando morto, à sepultura: odeio
A cova, escura e fria.
Ah! deixem-me acabar alegremente, em meio
Da luz, em pleno dia.
O meu último sono eu quero assim dormi-lo:
— Num largo descampado,
Tendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo
E a primavera ao lado.
Bailem sobre o meu corpo asas trêmulas, asas
Palpitando de leve,
De insetos de ouro e azul, ou rubros como brasas,
Ou claros como neve.
De entre moutas em flor, oscilantes na aragem,
Úmidas e cheirosas,
Espalhando em redor frescuras de folhagem,
E perfumes de rosas,
Subam, jovializando o ar, canções suaves
— A música sonora
Em que parece rir a alegria das aves,
Encantadas da aurora.
E cada flor que um galho acaso dependura
À beira dos caminhos
Entreabra o seio ao sol, às brisas, à doçura
De todos os carinhos.
Passe em redor de mim um frêmito de gozo
E um calor de desejo,
E soe o farfalhar das árvores, moroso
Como o rumor de um beijo.
Palpite a natureza inteira, bela e amante,
Volutuosa e festiva.
E tudo vibre e esplenda, e tudo fulja e cante,
E tudo sonhe e viva.
A sepultura é noute onde rasteja o verme...
Ó luz que eu tanto adoro,
Amortalha-me tu! E possa eu desfazer-me
No ar claro e sonoro!
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Murillo Mendes
A Tesoura de Toledo
Seu corte, inscrição e esmalte,
A tesoura de Toledo
Alude às duas Espanhas.
Duas folhas que se encaixam,
Se abrem, se desajustam,
Medem as garras afiadas:
Finura e rudeza de Espanha,
Rigor atento ao real,
Silêncio espreitante, feroz,
Silêncio de metal agindo,
Aguda obstinação
Em situar o concreto,
Em abrir e fechar o espaço,
Talhando simultaneamente
Europa e África,
Vida e morte.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Raul de Leoni
Para a Vertigem!
Crês que te moves espontaneamente,
Quando és na Vida um simples rodamoinho,
Formado dos encontros da torrente!
Moves-te porque ficas no caminho
Por onde as cousas passam, diariamente:
Não é o Moinho que anda, é a água corrente
Que faz, passando, circular o Moinho...
Por isso, deves sempre conservar-te
Nas confluências do Mundo errante e vário.
Entre forças que vem de toda parte.
Do contrário, serás, no isolamento,
A espiral, cujo giro imaginário
É apenas a Ilusão do Movimento!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
Emiliano Perneta
Metamorfoses
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Ribeiro Couto
Discurso Afetuoso
Que da vida sabeis apenas a lição dos livros,
Vossa poesia é um jogo de palavras.
Vossa poesia é toda feita de habilidades de estilo,
Sem a marca um pouco suja da experiência vivida.
Não sabeis de nenhuma espécie de sofrimento,
De nenhum dos aspectos sedutores do mal,
Não sabeis de nada que está realmente na vida.
Não vos inquieta o desejo de quebrar a monotonia,
A exasperada fadiga das coisas iguais,
A saborosa audácia do mau gosto.
Tudo em vós é correto, frio, sem surpresas.
Ah, tudo que sabeis é através dos livros.
Não sofreis a curiosidade viciosa das aventuras,
Nem a mágoa dos meses vividos à toa,
Nem o bocejo que a mulher tão desejada provocará um dia.
Não conheceis o remorso das devassidões
E a desvairada esperança que há num amanhecer depois
da noite perdida.
Para vós não existe a vida: existem os temas poéticos.
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
Gilka Machado
Impressões do Gesto
A tua dança indefinida,
que me retém extática, surpresa,
guarda em si resumida
a harmonia orquestral da natureza,
a euritmia da Vida.
(...)
Danças, os membros novamente agitas,
todo teu ser parece-me tomado
por convulsões de dores infinitas...
E desse trágico crescendo
de gestos que enchem o silêncio de ais,
vais
smorzando, descendo,
como que por encanto,
presa de um místico quebranto...
Danças e cuido estar em ti me vendo.
Os teus meneios
são
cheios
de meus anseios;
a tua dança é a exteriorização
de tudo quanto sinto:
minha imaginação
e meu instinto
movem-se nela alternadamente;
minha volúpia, vejo-a torça, no ar,
quando teu corpo lânguido, indolente,
sensibiliza a quietação do ambiente,
ora a crescer, ora a minguar
numa flexuosidade de serpente
a se enroscar
e a se desenroscar.
Em tua dança agitada ou calma,
de adejos cheia e cheia de elastérios,
materializa-se minha alma,
pois nos teus membros leves, quase etéreos,
eu contemplo os meus gestos interiores,
meus prazeres, meus tédios, minhas dores!
(...)
Publicado no livro Mulher nua: poesia (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.227-230
Carlos Nejar
Carta de Guia
que não estanca nos passos ou valores;
corta-se ao viver o baraço dos meses,
a varanda de clausuras,
para sermos o silencioso sulco,
a clareira de dons.
Viver são rédeas soltas
onde a memória destrança
o tropel dos símbolos.
Não tem contradança.
Viver no mundo é casa alugada,
onde dispomos, por instantes,
a cadeira na sacada,
retendo o rosto da amada
em nosso canto,
a refazer as cordas de seu leito.
Viver é soldar o esquecimento.
Publicado no livro Casa dos Arreios (1973).
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.376-377. (Poiesis
Chacal
Ministério do Interior
do caos estruturado
a palavra é o estágio
imediatamente after da sensação
que faz parte do estágio necessário
do aperfeiçoamento humano
de sentir a melhor maneira
de relacionamento franco
a palavra é um domingo de sol
no estádio municipal do pacaembu
se ela pinta tudo mais se cria
não mais que num instante
existindo no mesmo movimento
que a crassa ignorância
em que se fica só naquela
ânsia de comer melância
de comer melância na santa ignorância
de comer melância com muita exuberância
de comer melância com maria constância
de comer melância
de comer.
In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.97. (Cantadas literáris, 16). Poema integrante da série Drops de Abril, 1980/1983
Mário Faustino
Gaivota, vais e voltas
Gaivota, vais e voltas,
gaivota, vais — e não voltas.
Somem-se os homens, deixam-se os peixes
ir à deriva —
mal se respira
o ar do mundo
e experimenta-se a voracidade
do mar, do fundo
envenenado:
esperma — e mente,
ira — e sorriso,
esperança — e dança.
Alguém traz a mirra,
traz açafrão, azeite, vinagre:
eis o homem disposto, com suas faixas,
ei-lo em templo deposto, entre seus panos.
Maresia, santidade — que perfume!
Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,
cala-se alguém que não quis beber seu cálice,
alguém que não quis beber,
alguém que não quis
o mar, em vão e nada, o árduo mundo,
gota após gota, anos e anos.
Contemplando o poente, os albatrozes
refletem-se nos elmos derrotados.
Alguém canta o refrão. As algas dançam
no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,
açoite após açoite,
agora, enfim, é noite
e esvaem-se os navios.
— É esta, então, a Vera Cidade?
— É essa, Adão, a tua verdade?
Alguém não quis viver,
alguém não quis seu fardo, suas rotas,
alguém entre alcatrazes,
entre peixes vorazes, ser disforme —
santo lume nascente, ou heresia?
Um rei entre santelmos —
(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,
Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Marcus Accioly
Os Bichos
I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
João Cabral de Melo Neto
Cemitério Pernambucano (Nossa Senhora da Luz)
pois também não jaz um rio
noutro rio, nem o mar
é cemitério de rios.
Nenhum dos mortos daqui
vem vestido de caixão.
Portanto, eles não se enterram,
são derramados no chão.
Vêm em redes de varandas
abertas ao sol e à chuva.
Trazem suas próprias moscas.
O chão lhes vai como luva.
Mortos ao ar-livre, que eram,
hoje à terra-livre estão.
São tão da terra que a terra
nem sente sua intrusão.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.159. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Carlos Frydman
Sintonia
devem se encontrar."
(Albert Einstein)
Equilibrado no universo condescendente,
o desequilíbrio humano sobrevive
em seu próprio ofuscar envenenado.
E, eu tento sintonizar-me no mundo
nestas probabilidades, pouco prováveis,
intuindo como pássaro desnorteado
que conhece, no âmago,
o segredo do equilíbrio
em vôo árduo, nas tempestades.
Nesta relatividade artificializada,
entre o fim tangente
e as metáforas afloradas
tornadas em nada,
tento encontrar-me
no afoito intento
e pousar num recanto sereno.
E, na vez buscada
tantas vezes roubada, fazem-me alçar vôo
como pássaro perseguido.
Os que não se perderam nas correntezas adversas,
vasculham nos cantos sombrios,
onde a vida floresce e semeia segredos segregados, ativos
em razões bem tecidas.
Porque os fugitivos das circunstâncias intrigantes,
libertam-se em suas visões profundas
e guardam sementes das explosões tardias,
em suas mentes e almas imperecíveis.
Nesta contingência enfeitada, nojenta, opaca,
onde a clareza foi obstruída,
temer nova caminhada,
é como fechar a única janela
onde mal se respira.
Nesta jornada milenar de sabedoria desvirtuada,
os pobres homens fecham
um ciclo de riqueza empobrecida.
Uma mesma nuvem densa,
forjada,
inclemente
e abrangente,
de ganância cientificada,
soterra a todos
no estratificado nada.
Existem vidas buscando uma pausa
para restaurar no fôlego que resta
a esperança enjaulada.
Nesta derradeira contingência do salto,
nem todas sementes foram desperdiçadas:
alguém puxará a cortina na manhã seguinte,
se faltarem nossos olhos esmaecidos.
Há uma vigília corajosa e temida,
nesta insônia que nos consola
e a esperança, embora cansada,
terá nova jornada
nos que despertam.
A Vida,
a paisagem,
ressurgirão em sua teimosia.
O pouco do restante,
será fartura,
porque o amor e as mãos são magos,
que refazem magias roubadas.
Imagem - 01330001
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Alberto da Costa e Silva
Hoje: Gaiola sem Paisagem
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.8
Alberto da Costa e Silva
Triste Vida Corporal
ficasse em cada bater d'asas para sempre,
se cada som de flauta, sussurro de samambaia,
mover, sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte... Os grilos devorados
não fossem, no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne e triste a nossa vida
corporal, faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar, imóvel,
alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.
Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.7
Carlos Felipe Moisés
Pergunta
O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?
Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.
Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.
E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?
E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.
Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.
(João Pessoa 1977)
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Carlos Felipe Moisés
Boi para Guilhermino
Guilhermino César
O boi sabe da baba que escorre, sabe
da vida inútil que erra e em si não cabe.
O boi sabe pisar a terra como quem flutua
entre o remorso alheio e a campa nua.
O boi sabe do peso do seu casco errante
e do lago perdido num olhar distante.
O boi sabe, amoroso, raspar o chão
e ruminar na mesma palha sonho e coração.
O boi sabe esperar paciente o que não vem
e mesmo que viesse já viria sem.
O boi sabe, afinal, que a baba escorre
e fica, e em volta o dia (como tudo) morre.
Mais não sabe o boi e nem saber precisa.
Já lhe basta a afagar o dorso a mansa brisa.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Antonio Fernando De Franceschi
Serpente
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Silva Rerum