Poemas neste tema
Vida
Henri Michaux
Labyrinthe
Labyrinthe
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
1 161
João Maimona
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
1 092
E. E. Cummings
Since feeling is first,
Since feeling is first,
who pays any attention
to the syntax of things
will never wholly kiss you;
wholly to be a fool
while spring is in the world
my blood approves,
and kisses are a better fate
than wisdom
lady i swear by all flowers. Dont cry
-the best gesture of my brain is less than
your eyelids flutter which says
we are for each other: then
laugh, leaning back in my arms
for lifes not a paragraph
and death i think is no parenthesis
who pays any attention
to the syntax of things
will never wholly kiss you;
wholly to be a fool
while spring is in the world
my blood approves,
and kisses are a better fate
than wisdom
lady i swear by all flowers. Dont cry
-the best gesture of my brain is less than
your eyelids flutter which says
we are for each other: then
laugh, leaning back in my arms
for lifes not a paragraph
and death i think is no parenthesis
1 434
Gilson Nascimento
Vero palhaço
Nascer, o vir à vida, a caminhada
A alegria, a tristeza, o desengano
É o que sentimos a cada passada
De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói
Há choros que esbarram em gargalhar
De vez em quando a mágoa que corrói
À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida
Pesares abrem nalma uma ferida
Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando
Enquanto vive a vida caminhando
Vero palhaço, ri o seu penar.
A alegria, a tristeza, o desengano
É o que sentimos a cada passada
De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói
Há choros que esbarram em gargalhar
De vez em quando a mágoa que corrói
À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida
Pesares abrem nalma uma ferida
Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando
Enquanto vive a vida caminhando
Vero palhaço, ri o seu penar.
991
Gilson Nascimento
Viver a dois
A um dois de setembro hoje chegaste
Um aniversário a mais, minha querida
Em espinhos, bem sei, vezes pisaste
Mas rosas também houve em tua vida
Alegrias, tristezas tu tiveste
Soubeste aproveitá-las, reconheço
E na vida o incentivo que me deste
Pelos anos afora não esqueço
Que não te roube a vida o bom - humor
A afeição que tens ao teu labor
Aos amigos, aos teus, ao rir à vida
Muitos setembros, queira Deus., alcances
E do viver a dois jamais te canses
Sempre a tirar lições da nossa lida
Um aniversário a mais, minha querida
Em espinhos, bem sei, vezes pisaste
Mas rosas também houve em tua vida
Alegrias, tristezas tu tiveste
Soubeste aproveitá-las, reconheço
E na vida o incentivo que me deste
Pelos anos afora não esqueço
Que não te roube a vida o bom - humor
A afeição que tens ao teu labor
Aos amigos, aos teus, ao rir à vida
Muitos setembros, queira Deus., alcances
E do viver a dois jamais te canses
Sempre a tirar lições da nossa lida
960
Angélica Torres Lima
Dias contados
O poema da morte
é apenas um trovão
assustando a vida:
olhos se arregalando
estampidos nos ouvidos.
Melhor, talvez, chamar o medo
de expectativa
já que nessa estrada
não há outro desvio.
Dias contados.
Descontados os feriados
e dias profanos,
resta-me o dom de fabricar
o meu destino,
refazendo os planos
perdoando os erros
e os danos,
dando remo e rumo
às mãos
e ao pleno.
Contados os dias
em letras,
os números letais
se abrem
ao infinito.
Disfarço
a farsa, pondo fé
e desfaço, acho,
o carma da morte
no imposto da vida.
é apenas um trovão
assustando a vida:
olhos se arregalando
estampidos nos ouvidos.
Melhor, talvez, chamar o medo
de expectativa
já que nessa estrada
não há outro desvio.
Dias contados.
Descontados os feriados
e dias profanos,
resta-me o dom de fabricar
o meu destino,
refazendo os planos
perdoando os erros
e os danos,
dando remo e rumo
às mãos
e ao pleno.
Contados os dias
em letras,
os números letais
se abrem
ao infinito.
Disfarço
a farsa, pondo fé
e desfaço, acho,
o carma da morte
no imposto da vida.
818
Alexandre S. Santos
Momento de Ânimo
Em mergulhando na natureza,
sentindo o grande e o belo que verdeja,
buscando em tudo toda a profundeza,
vertendo a lágrima que em mim viceja...
No horizonte onde a alma alcança
procuro pistas de lembranças brancas,
mergulho fundo, entro numa dança,
desfaço nós onde jaziam trancas.
Minha vontade faz com que me mova
e desta cela, corpo, me absolvo.
Por esta forma o velho se renova
sem impossível crio meios, sou um polvo.
Busco nos cimos o algo que me falta;
das barreiras faço uso, me promovo;
na vida, sou vida, dou vida, sou peralta;
tropeço, levanto, como outrora e de novo.
sentindo o grande e o belo que verdeja,
buscando em tudo toda a profundeza,
vertendo a lágrima que em mim viceja...
No horizonte onde a alma alcança
procuro pistas de lembranças brancas,
mergulho fundo, entro numa dança,
desfaço nós onde jaziam trancas.
Minha vontade faz com que me mova
e desta cela, corpo, me absolvo.
Por esta forma o velho se renova
sem impossível crio meios, sou um polvo.
Busco nos cimos o algo que me falta;
das barreiras faço uso, me promovo;
na vida, sou vida, dou vida, sou peralta;
tropeço, levanto, como outrora e de novo.
1 048
Carlos Figueiredo
Estranha Desordem
Sou um jogo de espelhos
e a morte não irá interromper isso.
Apenas
o vinho poderá embaçar um pouco
todas as imagens.
Vivi uma vida estranha.
E haviam sempre uns olhares,
uns detalhes,
uma coisa que era realmente estranha.
Era tudo tão rápido, eu era tão pálido
e as pessoas viviam
dizendo
"você faz o que você quer"
E eu queria. Mas também com todas aquelas
lanchonetes
e ainda queriam que eu fosse desses
que entendem e vivem tudo isso
e moram em apartamentos
e vêem televisão e fumam cigarros.
(cont.)
Eu buscava uma luz,
o pé dentro do sapato,
tudo muito normal,
só que era mesmo, realmente, uma coisa estranha.
Eu era um triste, um simples
queria era pegar, tocar, mais
era tocar,um jeito,
Queria era que as coisas chegassem
com um barulho dágua
bem com um jeito
realmente não dá para explicar.
Depois, eu sei que tudo é muito resumível
e haviam sempre as coisas,
os números,
e as pessoas ficavam
olhando umas para as outras
explicando
como se somam as frações,
É claro que algo sempre escapava
e ficava vagando
pelo meio da sala,
desconfortável.
e a morte não irá interromper isso.
Apenas
o vinho poderá embaçar um pouco
todas as imagens.
Vivi uma vida estranha.
E haviam sempre uns olhares,
uns detalhes,
uma coisa que era realmente estranha.
Era tudo tão rápido, eu era tão pálido
e as pessoas viviam
dizendo
"você faz o que você quer"
E eu queria. Mas também com todas aquelas
lanchonetes
e ainda queriam que eu fosse desses
que entendem e vivem tudo isso
e moram em apartamentos
e vêem televisão e fumam cigarros.
(cont.)
Eu buscava uma luz,
o pé dentro do sapato,
tudo muito normal,
só que era mesmo, realmente, uma coisa estranha.
Eu era um triste, um simples
queria era pegar, tocar, mais
era tocar,um jeito,
Queria era que as coisas chegassem
com um barulho dágua
bem com um jeito
realmente não dá para explicar.
Depois, eu sei que tudo é muito resumível
e haviam sempre as coisas,
os números,
e as pessoas ficavam
olhando umas para as outras
explicando
como se somam as frações,
É claro que algo sempre escapava
e ficava vagando
pelo meio da sala,
desconfortável.
952
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes
O Silêncio
O silêncio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio
851
Aldir Blanc
Hefesto
Um dia inteiro
para
em queda livre
beijar o solo.
No tempo mitológico
o dia é a vida.
Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.
para
em queda livre
beijar o solo.
No tempo mitológico
o dia é a vida.
Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.
1 634
Angelo Augusto Ferreira
Compasso da Canção
A vida bate sem dó
Tocando a canção do aprendizado
Devagar
Notas contadas
No compasso de sustos
Vezes sem afetos
Desorientados
Cautelosos
Expectáveis no porvir!
A vida bate sem dó
Caminhar louco
Todo cuidado é pouco.
O bem maior perdeu-se
Sem explicação
Desapareceu na fumaça dos fatos
Nas risadas do chopp
Perdidos nos esgotos da vida.
A vida bate sem dó
Sem avisar
Nos sustos
Nos beijos
Abraços
Alegrias
Dos risos.
Flores que persistem
Nos corações
Mentes infinitas
Supridos nos choques da saudade!
Tocando a canção do aprendizado
Devagar
Notas contadas
No compasso de sustos
Vezes sem afetos
Desorientados
Cautelosos
Expectáveis no porvir!
A vida bate sem dó
Caminhar louco
Todo cuidado é pouco.
O bem maior perdeu-se
Sem explicação
Desapareceu na fumaça dos fatos
Nas risadas do chopp
Perdidos nos esgotos da vida.
A vida bate sem dó
Sem avisar
Nos sustos
Nos beijos
Abraços
Alegrias
Dos risos.
Flores que persistem
Nos corações
Mentes infinitas
Supridos nos choques da saudade!
880
Wallace Stevens
O REI DO SORVETE
Chame o enrolador de grandes charutos,
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passados.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.
Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.
(Tradução
de Décio Pignatari)
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passados.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.
Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.
(Tradução
de Décio Pignatari)
2 034
Caio Valério Catulo
Gozemos a vida, Lésbia
V
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.
1 872
Luís António Cajazeira Ramos
Soneto Patético
Acordo para um mundo novo no jornal.
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.
Refaço o mundo com exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
Refugio-me no trabalho — há paz como um véu.
As horas vão... e a tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.
Tranco-me em casa, e o mundo sangra na TV.
Sangue do meu sangue, tudo se esvai. Enfim,
durmo, não sei quem te viu, não sei quem me vê.
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.
Refaço o mundo com exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
Refugio-me no trabalho — há paz como um véu.
As horas vão... e a tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.
Tranco-me em casa, e o mundo sangra na TV.
Sangue do meu sangue, tudo se esvai. Enfim,
durmo, não sei quem te viu, não sei quem me vê.
1 238
Manuel Alegre
Página
outro é o tempo
outra a medida
tão grande a página
tão curta a escrita
entre o achigã e a perdiz
entre chaparro e choupo
tanto país
e tão pouco
outra a medida
tão grande a página
tão curta a escrita
entre o achigã e a perdiz
entre chaparro e choupo
tanto país
e tão pouco
2 612
Ronaldo Cagiano
Temp(l)o de (Re)colher
Ossuário de estrelas
onde vou catar a possível sobra
de luz e sabor
dos homens que não souberam
espalhar o fermento hierático
de doida esperança.
Enquanto no útero espantado
de vário peito estarrecido
forjavam-se sonhos natimortos,
um Prometeu acorrentado
insistia na louca oficina da utopia.
Segadura que se esqueceu
enquanto um rebanho indolente
resolvia o destino
de nossos poucos desejos.
A felicidade perdeu-se
nos (des)caminhos, entre tantas glosas,
saturada nos hiatos fuliginosos,
sedicioso temp(l)o de enganos.
Mas o apanhador caminha,
cioso da fertilidade, buscando enxertar-se
da prole que não será, em vão, buscada,
de invenção de vida novos astros, outras terras.
onde vou catar a possível sobra
de luz e sabor
dos homens que não souberam
espalhar o fermento hierático
de doida esperança.
Enquanto no útero espantado
de vário peito estarrecido
forjavam-se sonhos natimortos,
um Prometeu acorrentado
insistia na louca oficina da utopia.
Segadura que se esqueceu
enquanto um rebanho indolente
resolvia o destino
de nossos poucos desejos.
A felicidade perdeu-se
nos (des)caminhos, entre tantas glosas,
saturada nos hiatos fuliginosos,
sedicioso temp(l)o de enganos.
Mas o apanhador caminha,
cioso da fertilidade, buscando enxertar-se
da prole que não será, em vão, buscada,
de invenção de vida novos astros, outras terras.
774
Raimundo Braga Martins
O Tempo e o Homem
O Tempo e o Homem
Irrompe, no horizonte, a fraca luz da aurora,
o Sol volta a brilhar
surge um novo dia...
Quanta alegria!
Rompe a luz o denso véu da noite:
a treva se desfaz,
a vida se agita...
a alegria é infinita!
A Terra, em torno do Sol, se movimenta,
sem parar,
em rotação,
em translação!
E nós, também, estamos neste "gira, gira",
que a vida nos obriga
pra sobreviver,
pra não morrer!
É a luta do cotidiano: das horas, dos dias e dos anos
com o tempo caminhando,
intemeratos,
intimoratos!
O tempo passa... E, com ele, nós também passamos!
Ele não volta,
nós não voltamos...
Para a morte caminhamos
Irrompe, no horizonte, a fraca luz da aurora,
o Sol volta a brilhar
surge um novo dia...
Quanta alegria!
Rompe a luz o denso véu da noite:
a treva se desfaz,
a vida se agita...
a alegria é infinita!
A Terra, em torno do Sol, se movimenta,
sem parar,
em rotação,
em translação!
E nós, também, estamos neste "gira, gira",
que a vida nos obriga
pra sobreviver,
pra não morrer!
É a luta do cotidiano: das horas, dos dias e dos anos
com o tempo caminhando,
intemeratos,
intimoratos!
O tempo passa... E, com ele, nós também passamos!
Ele não volta,
nós não voltamos...
Para a morte caminhamos
813
Renier Dias Pereira
Silêncio Provocador
Silêncio Provocador
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
953
Ana Paula Ribeiro Tavares
Cerimônia de Passagem
"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto
a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho
o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto
o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio
"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
Luanda, 85
a pedra produziu lume"
a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto
a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho
o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto
o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio
"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"
Luanda, 85
2 497
Juscelino Vieira Mendes
Como será o céu?
Lá no céu, como seremos?
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
1 159
Aloísio Miguel Marques
Sem Nome
A vida que a gente vive é um quadro que se pinta.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
670
Juscelino Vieira Mendes
Ato de Dormir
O dormir: ante-sala da morte
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias
Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal
Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa
Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...
Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem
Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias
Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal
Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa
Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...
Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem
Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...
1 208
Juscelino Vieira Mendes
O Salvador
Porque isto é bom e agradável
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens
se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
I Timóteo 2:3,4
Silêncio!
Templos repletos.
Nesta hora,
oram por ti,
velam por ti,
clamam por ti....
Respeito!
Ouça!
Belos cantos.
Falam de ternura, amor, salvação;
cantam, cantam, por tantos!
Por ti.
Oram com ardor
e velam vivos para que tenham vida
no Salvador...
Por que anseiam que tenhas vida,
se muitos querem prosélitos?...
Já não lhes bastam a lida?
Oh! Não buscam méritos!
Obedecem por gratidão
um salvar pretérito.
Ouça!
Velam por ti
como se fora louça
Velam por ti
para que não te quebres...
Ouça!
Não querem que pereças;
que vagues como ninguém;
que, sem propósito, te desfaleças;
que fujas do além
que ignores o porvir,
que certamente vem.
Não querem que Zaratustra e o devir
busques para a tua definitiva
e horrenda perdição, que há de vir.
A doutrina destrutiva
do niilismo não combina
com a natureza humana sempre-viva.
Ouça!
Clamam por ti
para que tenhas tempo
de decidir...
se queres alento,
perene alegria,
ou tudo por breve momento...
Não tens no porvir alegoria!
E no céu não entrarás
por vã filosofia...
Quem te conduzirás?...
Nem mesmo por Virgílio
Poeta soberbo te guiarás
como se fora um idílio.
Ouça!
Clamam por ti
para que vejas...
(aqui e ali)
O sublime amor de Deus
e da Luz eterna possas gozar,
reservada aos filhos Seus.
Não te permitas desanimar!
Não te cerres a Porta da Mansão
que te farás sublime amor encontrar.
Sabes tu, criatura — em vão —,
que por lei não podes entrar
a despeito dos labores de tua mão?...
Nisto tens que pensar
pois na incerteza
não podes ficar.
Ouça!
Clamam por ti
para que, nesta vida incerta,
conheças...
A Verdade que liberta,
enaltece a coroa da criação
e te livra da segunda morte certa.
Abra teu coração
e permitas nele Jesus
entrar, e cante uma nova canção...
Por ti teve morte de cruz.
Não como um espetáculo teatral
mas para que recebas a luz.
Ah! Como obter a vida eternal
se Jesus no túmulo ficasse?
Seria o final...
Mas, num passe,
dentre os mortos ressurgiu
mostrando sua face.
Ouça!
Oram por ti
Velam por ti
Clamam por ti
Para que vivas a adorada
Pessoa de Cristo, e não a imagem
de uma figura desfigurada.
— "Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; quem
crê em mim, ainda que esteja
morto viverá, e todo aquele que vive
e crê em mim, nunca morrerá. Crês isto?" —
Silêncio!
Clamam por ti.
Domingo pascal, 30 de março de 1997.
Notas:
"Assim Falou Zaratustra" - Obra do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche.
Vide Carta de Paulo aos Colossenses, cap. 2:8
Referência à Divina Comédia - Inferno - Canto I - Durante Aldighiero.
"E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus." - Gênesis 28:17.
"E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." - Palavras de Jesus Cristo - João 8:32.
Palavras de Jesus em João 11:25,26
1 023
Juscelino Vieira Mendes
Fim Natural
És o fim natural
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
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