Ruy Belo

Ruy Belo

1933–1978 · viveu 45 anos PT PT

Ruy Belo foi um dos mais importantes poetas portugueses do século XX. Sua obra é marcada por uma profunda reflexão sobre a existência, a fé, a solidão e o tempo, com uma linguagem ao mesmo tempo coloquial e erudita. Ele transitava entre o sagrado e o profano, o cotidiano e o transcendental, explorando as contradições da condição humana com humor, melancolia e uma ironia subtil. Sua poesia, acessível e ao mesmo tempo complexa, continua a tocar leitores pela sua honestidade e pela beleza das suas imagens.

n. 1933-02-27, Freguesia de São João da Ribeira · m. 1978-08-08, Queluz

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Nomeei-te no meio dos meus sonhos

Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor
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Biografia

Identificação e contexto básico

Ruy Belo, nome completo Ruy Ventura dos Santos Belo, foi um poeta português. Nasceu em 19 de fevereiro de 1931, em Rio Moinhos, concelho de Aljustrel, Baixo Alentejo. Faleceu em 10 de agosto de 1987, em Lisboa. É considerado um dos vultos maiores da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Infância e formação

Nasceu numa família de camponeses, num contexto rural de dificuldades económicas. A sua infância e juventude foram marcadas pela pobreza e pela vida no campo. Iniciou os seus estudos em Aljustrel e mais tarde no Liceu Passos Manuel, em Lisboa, onde se licenciou em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1956. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Tubingen e Munique (Alemanha).

Percurso literário

O seu primeiro livro, "Aquele Grande Rio Eufrates", foi publicado em 1959. A sua obra, embora não extensa, revela uma evolução notável, passando por fases distintas. Colaborou ativamente em diversas publicações culturais e literárias, como a revista "Távola Redonda" e "O Tempo e o Modo". Foi também professor de liceu e, posteriormente, diretor da revista "Litoral". A sua atividade literária sempre esteve ligada a um profundo questionamento existencial e espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Ruy Belo exploram temas como a fé, a dúvida, a solidão, o tempo, a morte, o amor, a relação com Deus e com a pátria. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem que transita entre o coloquial e o erudito, o quotidiano e o transcendente. Utiliza frequentemente o verso livre, mas também recorre a formas mais tradicionais. A sua poesia é marcada por uma ironia subtil, um humor melancólico e uma capacidade ímpar de transformar o banal em algo profundo e universal. "O Problema do Ser em Fernando Pessoa" (1966), "Homem de Palavra" (1970), "Transportes e Pedras" (1970), "Paisagem com Mevlana" (1973) e "Toda a Terra" (1985) são algumas das suas obras mais significativas. A sua obra final, "Aquele Grande Rio Eufrates", é considerada um marco na poesia portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ruy Belo viveu em Portugal durante o regime ditatorial do Estado Novo, a Guerra Colonial e a Revolução de 25 de Abril de 1974. Estes acontecimentos históricos, embora não sejam o foco explícito da sua obra, permeiam o seu questionamento sobre a condição humana, a liberdade e a esperança. Foi um poeta que dialogou com a tradição literária portuguesa, mas que também se inseriu nas correntes de renovação poética do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ruy Belo teve uma relação complexa com a religião, oscilando entre a fé e a dúvida. Esta dualidade é um tema central em sua obra. Foi professor, tendo também desempenhado funções em instituições culturais. A sua vida pessoal, muitas vezes marcada pela melancolia e pela procura de sentido, reflete-se na intensidade e na profundidade da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha tido uma obra publicada relativamente restrita em vida, Ruy Belo conquistou um lugar de destaque na literatura portuguesa. A sua poesia tem vindo a ser cada vez mais reconhecida e estudada, sendo apreciada pela sua autenticidade e pela capacidade de tocar em questões universais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Na sua obra, Ruy Belo dialoga com a tradição poética portuguesa, especialmente com Fernando Pessoa e a poesia de inspiração religiosa. A sua influência é notória em gerações posteriores de poetas que se identificam com a sua sinceridade, a sua exploração da fé e do quotidiano, e a sua linguagem depurada. Deixou um legado de uma poesia que apela à reflexão sobre os grandes mistérios da vida.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Ruy Belo tem sido objeto de diversas análises críticas, que destacam a sua dimensão existencial e espiritual. A sua capacidade de expressar a dúvida religiosa e a busca por Deus, aliada a uma linguagem direta e evocativa, torna a sua obra um campo fértil para interpretações filosóficas e teológicas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ruy Belo era conhecido pelo seu humor, por vezes ácido, e pela sua capacidade de observação do quotidiano. Era também um grande apreciador de música e arte. A sua relação com o Alentejo, região onde nasceu, é uma constante inspiração na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ruy Belo faleceu precocemente, aos 56 anos, vítima de uma doença prolongada. A sua morte deixou um vazio na poesia portuguesa, mas a sua obra continua a ser publicada e redescoberta, mantendo viva a sua memória e a sua voz poética.

Poemas

193

Córdoba Lejana y Sola

Nesta cidade aonde fomos jovens
colhemos hoje na praça
raios do último sol
Qual criança que ousaria ainda
nascer em nossos olhos?
Entrar-nos-ia ainda hoje a rua em casa
como quando eram possíveis todos os regressos?
Extingue-se-nos já na boca a tarde
Em que país ouvimos estes sons cair?
Vai longe o tempo em que andávamos
perto dos pássaros
Prometiam os olhos futuras estrelas
morriam-nos no rosto todos os poentes
Agora só a noite virá
estender um manto sobre a nossa agitação
E a tua palavra há-de planar em nossa alma
como qualquer folha de plátano na tarde
Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 53 e 54 | Editorial Presença Lda., 1984
1 921

Miséria e grandeza

Nem uma só pegada nos deixaste
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos

Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes




Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
883

Jerusalém, Jerusalém... ou Alto da Serafina

Que importa que morramos se a tarde é de sol
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
698

Variações sobre O Jogador do Pião (VII)

Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
Passa o proprietário e já não reconhece
talvez o operário inútil sob a messe



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 121 | Editorial Presença Lda., 1984
1 138

Imaginatio locorum

Era uma vez talvez algum país de sinos
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos

Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez

Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso

Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma

Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)

Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz

Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória

Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha

Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo

E a alegria é uma casa demolida




Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
1 269

Ante um retrato de Madame de Pompadour

Ai daquelas altivas marquesas
nas páginas da história reclinadas
Nunca cruzei na rua os olhos com os vossos
à superfície do tempo
Quem hoje isolará dos dias o vosso sorriso?

Não são vossas as mãos que abrem as janelas
e deixam cair pássaros na rua
dos panos que empregais para limpar o pó
Não repetis o milenário gesto de vir
pela manhã deixar o lixo à porta
Vós que abríeis antes os lençóis da aurora
como as tendas de salomão erguidas
no planalto da nossa admiração
vejo-vos em tardes rubras brilhar
sobre um altivo mar de esquecimento
Ai que foi feito de todas essas grandes marquesas?



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 51 e 52 | Editorial Presença Lda., 1984
998

Variações sobre O Jogador do Pião

Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 120 | Editorial Presença Lda., 1984
996

Andamento final de poema

o civil e redondo sacrifício de quem raivosamente tem
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
829

Variações sobre O Jogador do Pião (III)

Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
riscada entre parede e tronco - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que esta pobre vida para sempre seja
- Vê lá! - tão bem coberta que nem Deus a veja



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 119 | Editorial Presença Lda., 1984
954

Ode do homem de pé

"O que vês, escreve-o"
Apoc., I,11

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra

Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
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Comentários (4)

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Lourenço Mutarelli
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Muito obrigado. Muito obrigado

Cigana
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Amei darling

adad
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tambem

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