Lista de Poemas

Da fome em declarada substância

nos desvãos do homem
a fome ausculta
as bandeiras do desejo
e as vontades da culpa

a lembrança do pão
traspassa o universo
como um sonho quântico
em claro manifesto

a fome é um desacato
às veleidades do cérebro
o sistema apenas mata 
as humanidades que encerra
242

Transcendências e claros sentimentos

transcendo,
tudo que cometo
são os recados exatos
do que devo

a condição de ser
é um grave interesse
e postar a vida no tempo
é vivê-la em constante endereço
281

Quadra conceitual de verbos e indícios

o poema
é apenas o ofício
de contrapor-se o verbo
aos limites do infinito
152

Declaração de um amor desenfreado

eu saberei boiar nos teus olhos
como um náufrago amanhecido
e consumir todas as manhãs possíveis
na infinitude temporal do teu sorriso
e chorarei todas as tuas dores
navegante intenso do teu pranto
e morarei em todos teus adeuses
e nascerei em cada novo encontro
e enquanto as luas tremularem
outras luas eu trarei no peito
para jogar no colo do teu olho
que me saberá sempre a entendê-lo
minhas mãos serão bandeiras tuas
em qualquer vento que me pouses
e tuas mãos serão em cada encontro
os corrimãos da vida que me coube
e mesmo que não a paz
alguma calma te trarei nos braços
e em outras âncoras te farei contente
com a parte de mim que me sobrasse
eu te darei azuis
mesmo que a noite seja tanta
e mesmo que não tenhas estrelas
eu saberei conte-las no teu canto
e nunca porque seja assim
tão drasticamente consumido
acredites que eu em ti não seja
da largura exata do infinito
eu saberei morar no teu corpo
com a necessidade de um flagelado
e habitarás meu peito inteiro
com a certeza intacta dos abraços
eu saberei morar em teu desejo
inquilino frequente da vontade
e irei decompor-me em muitas almas
para que tenha tua alma em meu regaço
e até que eu tenha condição de mim
e circunstâncias de viver você
eu sonharei assim impunemente
as felicidades que em mim couberem
e caberei em cada palmo teu
nas léguas que constróis em cada sono
e dormirei em mim todo teu corpo
e habitarei em ti todo teu sonho
e morrerás em mim
quando eu morrer de ti 
com a certeza inequívoca
de que nunca morri.
208

Dos reversos tempos do amor

a noite partiu
dos olhos da amada
e deixou-se derramar
como madrugada

o tempo
embutiu seu enredo
e espalhou-se infinito
pelo vão dos dedos

nos edredons do abraço
o amor pousou inteiro
163

Das raízes infantis da esperança

desde menino
dei-me sempre à constância
de envelhecer
abraçado à esperança
o tempo
foi só uma insistência
das construções de mim
nessa permanência
170

Da luz em vida desgarrada

jogada no mundo
a luz planeja
todos os elétrons
em que esteja

dada ao palco
não habita coxias
antes discursa clarões
em franca sinergia

a luz como a vida
arquiteta o sonho claro
de estar sempre amanhecida
192

Memorial do frevo em caminhada

o frevo assim compassado
pelas ladeiras de Olinda
parece o povo tangendo
os contratempos da vida

inventando nos seus passos
os compassos da avenida
deixando pelos caminhos
uma saudade indecisa
que esquece todos os passados
pelos futuros que organiza

o frevo é um grande abraço
nas memórias em que se pisa
184

Trama verbal em ato corrente

a palavra é trama
o fato voa no verbo
como pássaro avulso
e derrama-se vocal
na displicência do uso

assim como um comício
espalha seu retrato
como se fossem virtuais
a natureza e o fato

é que a palavra pesa
na correnteza dos atos 
todas as concepções
e todos seus recatos 

ao homem resta falar
com todos seus recados

200

Soneto quase combatente

das vidas que se digam assim tão poucas
pelo muito que gastam pelos braços
estejam sempre unidas em cada esforço
inventando a fartura de seus abraços

e os trabalhos que matam suas forças
nos desvãos da exploração arquitetada
removam da manhã todas as horas
em que estejam assim tão declaradas

e o sol do futuro esteja urgente
caminhando nas ruas do presente
nos braços de quem luta a madrugada

e terçando as bandeiras que invente
nos sertões dessas almas se apresente
como o grande construtor da alvorada
141

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.