Lista de Poemas

Do avarandado das culpas e seus melindres

na varanda das culpas
resta o veredito
de que o fato resiste
a qualquer artifício
e de não ser ato
mas interna condolência
a culpa apenas medra
num desvão da consciência
em que mesmo objeto
o sujeito desdiz sua presença

nenhuma culpa se presta
a consertar por si a existência
359

Paisagem lunar e circunstância

a lua
justa no céu
corta a noite
como se fora
uma exata foice
e nova, desmaia
nos ombros de um infinito
em que naufraga
todos os navios de mim
que das pupilas saltam,
viajantes dos portos gerais
das cidades da alma.
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poema a Lane num sono qualquer de sua vida

I

assim anoitecida
carregas no gesto
todas as tardes
por não seres noite
nem por isso
deixas de escurecer meu peito
com o alegre burburinho das estrelas

II

navego teu sono
como uma jangada morna
de sonhos tanto como velas

III

e se resmungas
teu lençol é uma bandeira tangida
pelos grandes ventos
na noite em que me constróis

IV

teu sono
tem a concisão de um sonho
que amarrotas nos lábios
adredemente amanhecidos
113

Das léguas razões dos meus enfados

Nas ruas da vida
como ser exato
se todas as léguas
cabem nos meus passos?
Como não cabê-las
nos desvãos do mundo
explodindo em tudo o coração
navegante urgente desses rumos?
como não sabê-las
estradas de mim mesmo
na direção exata do povo
a que me coube tê-lo?

É que a humano
sempre se permite
amanhecer todas as manhãs
por que se grite
e é de tê-las avulsas
como tempos recatados
das razões de nós mesmos
que tenhamos projetado
3 411

Possibilidade

inverto.

sou aquilo

que nem me conheço.
 
invento.

sou o contrário
do meu medo.
 
intento.

ouso amar-me 
como me invento.
3 238

Poeminha humanitário

que ilusão

a droga sonha tudo
eu não

e objeto e inimigo
não me distingo

das rédeas

em que não me dirijo
a droga

é um interstício

entre mim

e todos meus indícios
homem

nada me proclama

o atestado de sujeito
ou de quem ama
 
a droga

resulta inumana

nada do que é sujeito
lhe reclama

apenas um inteiro indício
de que a vida

nem é chama
3 159

Das andanças do povo

A multidão
contrita
laça o peito da história
na avenida

o que lhe tange
é o favor da lida
de criar futuros
e entorná-los pela vida.
3 462

Versos diagonais em torno da usança do viver

a ansiedade
é só um destempero
de quem faz do futuro
um medo

a dúvida
é só um lapso
das certezas que se traz
fora dos braços.

3 164

dos olhares e tanto

que se admita:

ao homem é dado o olho
e a vista

e no entanto

não se permita

que o olhar seja maior
que a coisa dita

porque em sê-lo

o olho desvirtua

o que apenas verbo
desabita a rua

é que aos olhares

não se admite

que sejam reticências

de algum alvitre

porque em tê-los luz

em compreensão exata
nada lhes retire

o aval da prática

que consolida o olho
enquanto instrumento
de medir a vazão

de todo pensamento
 
ao olho

nunca reste
a noção
 de que retrata

tão somente perscrute

o que indaga

e se pousa na língua

como verbo inflacionado

há que perdurar um tanto

na condição de projeto incalculado
 
 
ao olho

em todas as vias

resta uma feição de atalho
da alegria

porque baldio

mesmo reticente

o olho é janela

de inventar a gente
 
ao olho

em desoras
cumpre um tempo

de demoras

pois ao restar na face
como farol incauto
o olhar demonstra avessos
dentro da alma
 
ao olho contudo

é dada a serventia

de inventar-se em noites
mesmo dia.
 
eis a razão:

o olho deve sempre caber
na palma da mão.
3 234

Das configurações do viver

estar velho cedo
quando tarde
é brincar de anoitecer a liberdade
é fingir-se de um tempo
que entorna as manhãs
como cachoeiras de saudade
e derrama pelos ombros
o peso exato da vontade

viver é só remar
todos os mares que se sabe.
3 571

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.