Lista de Poemas

Da urbana rendição do sentimento

agrária,
a cidade trafega
as urbanas lembranças
de suas terras

urbana,
a natureza navega
os latifúndios que constroi
nos ombros da terra

o homem,
em agrária urbanidade,
constrange a franja do peito
em espaços que nem sabe
e a vida é só um trejeito,
uma máscara da cidade
313

Pequena alusão à vida

minha direção é o tempo
nas ranhuras do cansaço,
o futuro é apenas o invólucro
de todos os meus passos.
tudo que me leva
é a certeza incontida
de construir meus abraços
para enfeitar a vida

o povo é só o motivo
que me deixa nessa lida.
220

da dosimetria do poema em franca síntese

sobre o poema
resta a palavra
e uma certa ilusão
nos verbos de que trata
o poeta só amplia
a dosimetria da fala
e léguas são palmos
nos infinitos da alma

sobre o poema
resta a vastidão
dos metros que se tenha
nos palmos do coração
362

Dos galopes da vida em rasa alusão

as rédeas
do juízo
não as uso
é que as selas das palavras
montadas a prumo
adestram as estradas
e todos os rumos

as rédeas da vontade
não as invoco
é que o desembestar da vida
é um galope sólido
que tange todas as razões
no sentido de nós próprios.
187

Sobre a angústia e sua estadia

a angústia
pulsa intensa
nos vincos que quebra
da paciência
e larga-se no peito
como uma estrada
que desenha desvios
nas viagens da alma

tudo que lhe teima
é uma alegria mascarada
nos carnavais que a tristeza
constrói como cilada
186

da construção permanente do devir

sonhos são
exatamente
um desejo arquivado
no peito da gente

em sono
construindo futuros
dei-me a desconstruir
todos os muros

e era um tempo
tão sempre
que eu me deixei 
p'ra depois
376

A temporal exaustão dos futuros

a saudade do futuro
desmonta o presente
como se o tempo vivesse
no passado da gente

e o passado futuro
montado nos neurônios
sonha com outros tempos
com o presente nos ombros
437

Poema preferencial à massa

quando indivíduo
assim subtraído
vem-me à face a razão
de não ser compreendido
porque tenha da vida
uma tão dessemelhança
que não me cobre coerência
qualquer desvão da esperança

quando indivíduo
assim desencantado
vem-me a razão à face
de não me ser amado
porquanto tenha do amor
uma crua transigência
de parecer-me pacato
num mar de insolência

quando indivíduo
assim tão tático
vem-me à face a estratégia
de sentir-me armado
porquanto tenha da arma
uma visão avara
que diz-me nexo de tudo
e desconvoca a alma

quando indivíduo
trançado em desatinos
vem-me ao riso a razão
de parecer-me irresolvível
porquanto possa jogar-me
no dorso das consequências
e parecer-me mais crível
apesar das aparências

quando indivíduo
assim contrariado
vem-me à morte a razão
de parecer-me um fardo
jogado em jeito morno
mas de intensa frialdade
e que nunca me convence
dos metros de minha idade

quando coletivo
eis-me indivíduo
guardados metros de mim
na longidão de meus sentidos
porquanto cerzido à massa
venha-me sempre a razão
de parecer-me soldado
com minha vida na mão

quando coletivo
eis-me solucionado
na contradição infinita
de todos os meus fardos
porquanto mágoas carregue
elas trazem-se tão cruas
que jogam-se em meu peito
e perdem-se nas ruas

quando coletivo
eis-me amado
nos vãos mais largos das ruas
e nas praças em que me trago
porquanto seja urbano
de uma rural compostura
no grave abraço que o povo
constrói na sua postura

quando coletivo
íntimo da liberdade
queiram-me morrer em praças
nas quais eu sempre caiba
porquanto minha carne
ultrapasse um mero músculo
e esconda na história
aquilo por que me custo

da massa
tem-se a impressão
de um jornal estendido
nas costas da nação
que ocupa em suas páginas
a grave contradição
de quem empunha as praças
com a fome nas mãos

e tem-se resolvida
na irresolução
dos futuros que repete
em cada contradição
porquanto passada não use
a mesma geometria
que diz-lhe soma de uns
e viés das maiorias

mas seja concatenada
como a calda das usinas
que se quer rio de mel
nessa profunda oficina
que apenas não é a soma
de um açúcar inconsumido
mas a simples composição
de vários infinitos

da massa
tem-se a impressão
de uma rosa vermelha
cravada na escuridão
porquanto flor já não seja
tenha-se sempre à vontade
em ser planta do mundo
semente da liberdade

da massa enfim
tenha-se a certeza
de que mesmo gasta a manhã
ganha-se a tarde inteira 



 

156

das intifadas do pensamento em vazão profana

há em tudo uma razão frequente
que constata a vã e tal medida
que joga os sonhos pelas gentes
como retratos de anseios indormidos

e é de tê-los assim impunemente
nos cachos de sono em que se agitam
e transeuntes da vida que não queiram
e passageiros das mortes que não lidam

e é de armá-los como fogueiras
em peitos e coxas, em sorrisos
e é de truncá-los pela vida
numa vasta desmedida

e é de vivê-los pelos cantos
em desculpas embrulhados
vergonhas que se queiram vias
de aparentar algum recato

e é de arrumá-los na cabeça
em compleição de cada intento
e morrê-los em gritos
e chorá-los em medos

há em tudo uma razão frequente
amordaçado o vão de quem se via
como parte de um sonho em simetria
com as medidas que não se pressente

e é de tê-los invernosos
nos sóis a pino
e senti-los quentes
como o frio

e é de desarmá-los pelas salas
em verbos que não se delatem
embrulhados em palavras que não sejam
a exata compreensão do que é tarde

e é de aturá-los navegantes
marinheiros de mares consentidos
grandes como as confissões
que deixamos postas em cabides

há uma razão
de lavrar os sonhos de uma saída
de tudo que a gente sente
e que não consente como a vida

e é de tê-los amanhecidos
quando noturnos ainda em nosso jeito
na estranha dialética que decide
a inexata franja do peito

e é de tê-los nus
no pensamento
lua destemperada 
do que eu sinto

e é de tê-los useiros
e vezeiros da emoção
intifada que se prega
no meio do coração
414

das contrafações viventes e mortais

heurístico por natureza
agradeça à vida
por tudo aquilo
que seja e não seja

e nem me despeço da morte
com incertezas
por sabê-la parente à vida
com uma nesga de tristeza

menos porque pareça
uma vida invertida
mas por quere-la presente
quando não mais querida
393

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.