Lista de Poemas

ALUCINADO

Nas ruas a passos largos, cabelos arrepiados, é madrugada, alameda assombrada, suor frio, olhos estatelados, uivos de cães vagabundos, galos cantam cadenciados. Passos mais apertados, o assobio dos ventos, o medo de olhar para trás por sentir que há desconhecida companhia, não há vigias, respiração ofegante, batimentos acelerados, já os passos descompassados. A sensação de ser apanhado a poucos metros do abrigo, a adrenalina no sangue, entrando em pânico, uma voz em silêncio fala contigo: _você está em perigo, corra! Não há vigor, a alma desfalece, padece a mente em pavor. Prostração, vendo o abrigo, iminente ataque, todo encolhido, de olhos fechados, paralisado, um toque no ombro, terrível assombro. Olá amigo, amigo tudo bem?

Ipatinga, 13/04/2019
Erimar Santos.
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SUAS ARMAS

A face da lua resplandecente, clareia a noite seu ambiente, se move tranquilo meio ausente, no silêncio. Luz, suas armas, suas descargas. A vastidão da metrópole onde as janelas têm olhos e as paredes têm ouvidos, passa despercebido. É longo o caminho, sempre sozinho, flui na escuridão. Sabe os segredos, conhece os medos dos covardes, é cauteloso, zeloso, e não chama a atenção. Sem rastros, imperceptível, abstrato, compaixão inconcebível, sem lágrimas, sem risos, gélido e implacável. Não há identidade comprovada, se vive e se move em meio ao nada. But he is not a killer. Su trabajo es limpiar las calles. Ratos com bons tratos que infestam a cidade, canalhas que engordam uma sociedade irmanada. A vil capacidade estruturada. Um estampido num canto de uma rua calada, denuncia uma ocorrência, é sua incumbência, sentidos em alerta, com a hostilidade flerta. Suas armas são descargas indolores, uma luz que converte o transgressor, se o alvo é atingido, morrem o ódio e o rancor, e o coração é convertido a propagar o que é o amor.
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OCIOSIDADE

Dois olhos em uma cara vadia, estampados numa cabeça vazia, numa mente em um cérebro ocioso, dita um corpo que a preguiça procria.

Mais um ser que não se avalia, incapaz de algo produzir pela sua energia, consumindo diariamente o precioso tempo da vida, como se tudo fosse folia.
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FALTAM GESTOS E ATITUDES

Seria hipocrisia não falar de amar, essa dificuldade tanta que os seres humanos têm em se manifestar, seria hipocrisia dizer que não há determinados interesses em que não há amor, mas a ideia de se unir o útil ao agradável, de se tornar uma união favorável. Seria inevitável sofrer se se doar por amar alguém pelas exigências muitas vezes cegas de quem recebe carinho e compreensão e nunca se sinta satisfeito, ainda todavia diz que há reciprocidade. Será hipocrisia e maldade levar o outro ao sofrimento dizendo que o ama. Hipocrisia é amor de cama, se satisfaz e diz que ama, mas aliás nunca reclama porque o amor é apenas mais uma transa, trama ou drama.
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MEDITAÇÃO

A paixão do eremita no cume de um monte se exercita, é tudo tão estranho ao cosmopolita pela vida viajada, sempre com os pés na estrada.

Jamais feche os olhos ao mudo ou desvie a sua audição, seria no mínimo absurdo se o mudo ficasse surdo ou não tivesse a visão.
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NOVA TERRA

A vivência é a constância dos dias onde os homens se embriagam da vida, e na velhice essa constância é inibida.

Sei que bem vivo estou, que um dia chegará a morte, sei que medo não terei, feliz morrerei.

A morte dirá: este está contente, vejo em seu semblante o descanso. Não mais afligido serei, minhas dores, manso neste mundo deixarei.

A minha sorte alcancei, da morte não voltarei a este mundo, dormirei um sono profundo até o despertar e uma nova terra verei.
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LAMENTAÇÃO

Não há tréguas, já andei léguas,
Escalei montes e cruzei mares.

Fujo às pressas dos rumores,
Intrépidos que vêm de longe.

Deles o rosto não se esconde,
O temor se expande em águas.

O terror é apregoado em tábuas,
Os joelhos se derramam lentos.

A justiça vem aos quatro ventos,
Na terra há imensas desolações.

Um fogo que derrete os corações,
Exércitos de incontáveis multidões.

São iguais enxames de acrídeos,
Que infestam verdes plantações.

Enfraquecendo-as feito pulgões,
Na minha alma o uivo de canídeos.
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ONDAS DE UMA INFÂNCIA PERDIDA

Vai-se um barco ao mar, se vai uma vida a sonhar, nas ondas que vêm e que vão, no balanço do tempo que se constrói um ladrão. Um filho que nasceu, uma história que se criou, num barco que se afundou, pelas ondas encapeladas, são relatos de vidas frustradas. Uma paixão ironizada por uma educação descabida, desencadeada por uma mãe despercebida, o pai era louco, vida totalmente bandida. O crescimento e a criação de forma desfavorecida, desigualdade social, oportunidades banidas. Um ser precoce abraçado pelo mal, por promessas ilusórias, busca real por coisas fatais, jamais satisfatórias. A perda do pai, brutal e inesperada, a entrega da mãe na esbórnia desenfreada, lançada a sorte, se alimentando à mão armada. Correria, herança criminal paternal herdada, fazendo alianças, territorialidade ampliada. Na atividade, efeito suicida, distante da área protegida, fuga alucinada. Sem medo, guardando os segredos que levam à culpa, disputas, para a guerra sempre encontra desculpas. A identidade preservada pela vida impopular, fama de quebrada. Essas tretas são danadas, acabam saindo por entre os dedos, impossível manter as mãos fechadas, por mais que cerre os dentes sempre a boca não permanece calada. E a língua de veneno se move inquietada pela inveja de parceiros que a muitos janeiros andavam de mãos dadas. Hoje a parada é grande, a informação já foi passada, se acertar esse trabalho, se aposenta como barão, além de deixar bem a maioria dos irmãos. Favelas, redutos, vielas, fortalezas de cabras putos, bandidos são muitos, mas poucos resolutos. Desce agora, corra e ataque, cerque, renda, com piedade não se mate, pilhe e despoje a contento e não pare, seja vento. A carga já foi tomada, dinheirada, dinheirada, saia do campo aberto, já soou a sirene, logo a polícia estará por perto. Trabalho perfeito, tudo como planejara, a alma lavada, o orgulho estreito, com gana bate forte no peito, olho no olho quero o meu e tem de ser do meu jeito. Não acredita em fada, é quem comanda a parada, se tem boca malvada a conversa é mudada. Traído não teve tempo pra nada, o sonho de barão foi acordar na enseada, com os olhos vendados e a boca amordaçada. Os seus inimigos queriam a sua vida tirada, e o prêmio do roubo dividiriam a bolada, portanto tudo tem o seu preço, desde a criancice o engano foi seu berço, na vida de ladrão não conseguiu verdadeiro apreço. Foi deixado para morrer à própria sorte, enganado, nos muitos amigos há sempre um judas, traidor que a alma do próximo desnuda. Desta vez muito alvoroço se fez na cidade, houve buscas incessantes, investigações para elucidar toda a verdade, ninguém escapa, a justiça anda e veste capa, tem olhos vivos e audição de morcegos, os traidores que deem as caras a tapas porque terão terríveis desassossegos. Um a um foram sendo trazidos, fechados nas grades, outros para os jazigos, se acabou a cambada de falsos amigos bandidos.
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PREDADOR E A PRESA

O predador espreita a sua presa
Indefesa, pelo medo desfalece
É traiçoeiro, ataca de surpresa
Esperançoso pelo que o apetece.

Na calada, na surdina é vigilante
Seus sentidos apurados, aguçados
Sua vítima paralisada um instante
Seus instintos friamente calculados.

Se é fuga, terror, tortura ou morte
O predador mantém a expectativa
Se a caça alcançará boa ou má sorte
Porque a sua grande boca, saliva, saliva.
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SEM PIEDADE

Os dentes foram todos quebrados ao morder o bastão da impiedade, a língua foi arrancada por testemunhar mentirosamente, os olhos furados ao ignorar a injustiça. O coração arrancado, os braços amputados, não tem alma mais, humano ou desumano tanto faz, as mãos sujas, os pés ligeiros, o sangue inocente derramado, vulpinismo, culpado e condenado, é sabido, mas não encontrado, é fugido, demonizado. Quem viu ficou horrorizado, maldito ventre que pariu tanta maldade.
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Comentários (3)

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parabéns
parabéns

amei parabéns

Bárbara Pinardi
Bárbara Pinardi

Olá, Erimar. Tudo bem? Gostaria de pedir autorização para usar o seu poema https://www.escritas.org/pt/n/t/119320/o-sabio-homem-e-o-grande-rio

lagazaz

Belo poema

1971