Aprendizados do amor
Aprendizados do amor
Esquecer?
Talvez fosse bom esquecer tudo que foi ensinado, exceto o que foi aprendido lá na dor da ignorância. Lá onde o aprender salva!
Ter apreço por aqueles aprendizados singelos, amalgamados na vida, como os aprendizados de parteiras que, com voz suave e mãos ligeiras, abrem caminhos para um ser vir ao mundo.
Incorporar o saber amoroso da mãe, que combina ingredientes vários para saciar a fome de uma criança, que dela depende em sua função materna.
Falo do afeto que transborda pelas bordas do prato. Mas, sobretudo, dos afetos que transbordam no abraço e nas lágrimas que vêm do riso e da dor.
Cato palavras como cato feijão, ha dúvidas se as escolho correto.
Escolho ? contém colho, e é bom saber que as palavras são plantadas e colhidas em mim.
Quem disse que pequi é melhor que cana-de-açúcar?
Fiquei em dúvida! Gosto de ambos.
Chorei quando li sobre o calvário do Frei Caneca.
Talvez me compadeça em demasia de um passado que o Brasil não memoriza, pois em muitos dos humanos plantaram a pós verdade. E isso causa incômodo, e o dito no confronto não ecoa. Perde-se no vazio.
Carrego esse fardo!
Mas, também a musicalidade e a poesia.
Em conta-gotas me vem à música e a poesia,
para depois essas artes me inundarem como as águas de Belo Monte fizeram com as terras indigenas. Embora com efeitos incomparáveis.
De forma absoluta, intermitente, esmagadora, fico plena de letras.
O Rio Cariús nem se fala! Tomo banho em suas águas diariamente, enquanto ele banha com amor as vazantes que o entornam.
Quando acordo, rio dos sonhos bobos que me atravessam e conto aqui para meia dúzia de leitores, cujos olhos cansados se entretem, mas ficam a indagar sobre a veracidade dos versos.
Queria conversar por outros canais com cada um desses leitores e, além disso. escutar os seus próprios versos.
Talvez lêssemos juntos os conselhos do Rilke, e caminhando à beira mar recitariamos
"Vou-me embora pra Pasárgada".
Fátima Rodrigues, expedicionários, João Pessoa, Paraiba. BRASI, em 10 de abril de 2024.
Palavras em gozo e em agonia
É difícil dizer sobre o dizer
À mim basta o prazer da escuta poética
Lá se vão os sons
deslizando em meus ouvidos
fazendo-se em melodias e em porvir
atravessando o cérebro, a garganta e a desaguar em pleno ar
Sons, letras e memórias flutuam
às margens da superfície
onde se criam e recriam
Lá se vai a bagagem sonora em movimentos
que se opõem do bendito e ao maldito
Ressonâncias dialogam ensimesmadas
Palavras e sons seguem nos subterrâneos e veredas
criam possibilidades
inventam sentidos. distopias e utopias
comunicam e ocultam, libertam e coisificam
manifestam e assimilam, negam e afirmam
O dizer não tem receita
tanto se mantem como se desvia
Palavras ? Transmutam-se-em dores e em alegrias que se conectam na espiral de nós, para além dos contornos da vida.
Fátima Rodrigues
Expedicionários. João Pessoa., Paraiba, Brasil em 28 de julho de 2023.
Perto de ti
Perto de ti sou leve como a brisa
me aqueço em tua pele
e me entrego em demasia
Perto de ti me enterneço sem fim
sucumbo aos teus delirios
até me perder de mim
Perto de ti floreio como a primavera
e por assim ser rodopio ao teu redor
liberto como um beija-flor
Perto de ti tudo é festivo
e eu sussurro em teus ouvidos
Mil odes de amor
Perto de ti os teus braços me aquecem
e os meus em ti anelo
para que não fujas de mim
Em sendo assim
finjo ser o teu sopro
e tu a minha vida
num círculo amoroso sem fim.
O pacto da palavra
O pacto da palavra
Fátima Rodrigues
Uma afiada lâmina
a percorrer os nervos
e a resvalar a pele
a contra-pêlo
Um mar de sons, metáforas e de vazios
põem a palavra fustigada
em desafio
Confrontos que põem a nu
metáforas, hipérboles e oxymoros
desvelam os seus
subterrâneos por inteiro
E quando o verso cânone
entoa a rima mensageira
a musicalidade no ar vagueia
Eis que apaziguada
a palavra faz-se encanto
a espraiar o seu famoso canto
Nos palcos
Nas catedrais
E nas colheitas
É assim que ela alimenta a vida
e fortalecida segue as mulheres paridas
a vicejarem para além dos madrigais
Alvissareira e ciente ela resiste
regozijada nas mãos dos que a afagam
e que a imortalizam por toda a sua vida.
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 27 de janeiro de 2022.
Ora, as margens
Ora, as margens
Duas margens
Uma e outra À revelia
se olham Distantes
se encontram Seus olhares
em outros
pontos cruzam-se
Margeadas
seguem contornando vidas
Um grito da margem ecoa Alguém o proferiu
ao vento
Uma pessoa segue Allheia
à sua própria margem Segue
Tocada pelo sol
Segue
Nada há de extraordinário na margem
onde me encontro
No ordinário
a vida segue.
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 22 de janeiro de 2021.
O eu poético e o vir-a-ser
Quando nasci não teve anjos nem arcanjos a preconizar o meu futuro
Meu pai, apaixonado pelo saber, profetizou:
- Nasceu uma professora! carregarás bandeiras em dias de luta e receberás troféus em dias de glória!
Cresci com esse bordão na cabeça
e as palavras são a minha armadura,
não as abandono por nada!
De materiais puros vieram os dias de glória
nada em moeda!
Mal sabia que profecia no sertão é destino
Lá, muitas são as mulheres que silenciam
A sina se cumpre quando nela é dado crer
Em dias de chuva fico a pensar nas sementes que irão brotar livremente
assim como voam as gaivotas
Às sextas-feiras recomendo aos meus que atravessem fronteiras
Imagino um chão de estrelas a iluminar os meus passos
Segredo a eles:
- A Geografia não tem limites, e muito menos a imaginação,
obstinadamente eles tentam...
Sempre em torno do mais próximo horizonte
Carrego as dores e as alegrias do mundo
povoada pela maternidade,
sagrada somente para Maria
O amor de mãe me torna plena quando ciente me escuto
Admiro as mulheres que negam os homens por não se responsabilizarem
e entristecida me solidarizo com as que se encolhem
Por assim ser é que milhares de vidas me atravessam
Escolho as viagens subterrâneas
onde somente o ser dar-se conta e se entrega a tudo que a liturgia não recomenda.
Isso meu pai não preconizou
O meu eu é que por assim ser deságua num mar profundo.
Amo ser gauche na vida, mas se isso me bastasse não namoraria.
Nada fundei que tenha concretude
mas o que é o concreto ?
As abstrações são os meus pilares
simbolizo é com o coração, semeando sonhos.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil 05 de novembro de 2020.
Espelho d' água
A imagem refletida no riacho é transversa
e as sombras nele projetadas fazem arte
transmudam-se em bichos de toda natureza
Bruxuleiam
Quando calmo o riacho é regato
Nunca é recatado
e não se ata a nada
Segue toda a vida
Seu barulho arrulha
e embora se contorça não se embaralha
Ao desdobrar-se de si vira reta
e segue plano
Se o relevo se empertiga vira uma queda
Atravessa com força o despenhadeiro
e abraça a moça
despenteia-lhe os cabelos
Faz rodeios para brincar de nada
como criança
Sob a luz é reflexo
espelho fora dos eixos
Tremeluza !
Seus contornos são próprios
e seu chão tem bichos de pedras
gerações inteiras de seixos afogados
sob musgos
em formas surpreendentes
Quando seca vira apoio certo
pedra sobre pedra
Se inverter a rota
me entristece
Sigo é em frente
como diz um parente
Amo o que o compõe e o indefine
Me perco nessa Geografia
E não há lupa que o mostre igual
A sua grandeza é restrita
e sobeja em ser.
Fátima Rodrigues, expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
Percurso
Caminho
entre encontros e reencontros
que me aprazem e me curam
Do estar junto ao estar só
fendas se abrem
Ciência tenho
é nesses pontos indecifráveis
onde me humanizo
Onde tudo é mistérioso e provisório
me refaço e elaboro o viver
Lá, sou Eu e o outro
Ciente de mim me reencontro
na mais pura introspeção
Nesses interstícios
a solidão vira solitude
No diverso é que existo
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Em 14 de dezembro de 2020.
Solidão
Se a solidão te abraça
nos dias mornos de outono
na primavera florida
e nas madrugadas de inverno
acolhe-a como a um poema
a uma flor
ou a um manto
nas voltas que a vida dá
Convide-a a ficar pertinho
aconchegue-a nos teus braços
com as dores e lembranças
tesouros tão bem guardados
que se escondem nos diários
nos sonhos e pesadelos
escutas a voz que a ti chega
nas voltas que a vida dá
Se ela te deixar insone
se te sentires contrito
não a retenha em si
divide-a como puder
no campo
em casa
ou nas urbes
nas voltas que a vida dá
Divide-a com os que virão
contigo dialogar
pois mesmo se a lua míngua
ou se ela brilha inteira
e até mesmo se os amantes
vagueiem quase a ermo
a solidão faz a curva
nas voltas que a vida dá
nos prados e nas montanhas
nos mares e continentes
nos ares e nas cavernas
no espaço cibernético
também nas almas cativas
onde se instala e penetra
ela se apoia e prossegue
nas voltas que a vida dá
Almas em desdita a atraem
que lucidez ela tem !
atrapalhar os amores?
seria mais que insano
por isso escolhe o que é próprio
Para poder indagar
sobre a vida e o ser
nas voltas que a vida dá
Mas se o teu coração sangra
se a falta te acompanha
se isso te interessa
o teu ato em si confessa
e a solidão vê a fundo
de modo que só a entende
quem com ela vaga incerto
nas voltas que a vida dá.
Autora: Fátima Rodrigues
João Pessoa, 07 de abril de 2020.
Os sertões de todos os nós
Os sertões de todos os “nós”
Quando os portugueses chegaram no Brasil
eles não descobriram nada.
Os espanhois já haviam estado por aqui,
mas o verbo descobrir foi posto à prova por uns e outros.
No continente africano e em outros continentes o fato se repetiu.
Como explicar um ato inaugural em civilizações tão avançadas como a dos Incas, Aztecas e Maias ?
Eles estavam lá com suas tecnologias e sua história!
Melhor dizendo: estavam cá!
Aqui no sul, o nosso norte, como bem propôs o artista uruguayo Joaquin Torres García.
Podemos falar de encontros de outros
que deu origem a uma certa invenção dos sertões.
Sobre isso leio, leio, leio a perder de vista,
e quando estou quase a entender adormeço exaurida.
No dia seguinte retomo a minha bendita saga.
Sertam está lá na Carta de Caminha,
refere-se o escrivão aos interiores.
E nós, pessoas comuns fomos nomeando esses nossos interiores
com ações e sonhos ao infinito.
Temos sertão até dentro de nós,
a extravasar a nossa alma,
a secar os nossos rios de lágrimas.
A contar nossa epopeia.
A nos fazer sonhar com um paraíso
aonde jorraria leite e mel, à moda de Dom Sebastião
Sertão de dentro
Sertão de fora
Como dizia Capistrano de Abreu
Um dia ainda seremos um imenso Portugal
Idealiza Chico Buarque, o compositor.
Mas, enquanto as idealizações não se concretizam
morremos de toda espécie de violência, e muitas vezes de tristeza.
Há suicídio indígena nas aldeias e nas beiras de rodovia
Com seus olhares impotentes mirando as suas terras originárias.
Isso, quando a morte não nos chega de improviso
como ocorreu com Macabea personagem de Clarice Lispector
Estória que imita a vida de nordestinas,
presas ao seu destino?
Destino como afirmam alguns sobre Édipo-rei na tragédia grega?
Suicídio indígena é destino?
Eles ocorrem em demasia.
Será destino ?
Aniquilados estão os indígenas com o seu manifesto contra o agronegócio
Mas não esqueçamos da Necropolítica de todo dia,
da Transamazônica à Belo Monte
Nem da dizimação de crianças e jovens negras nas periferias.
Na cinelândia
No aterro do flamengo
na Candelária (....)
Tudo isso é validado do alto da nossa insana filosofia terraplanista.
Digo nossa porque envolve alguns
Da minha parte acredito na existência de um analfabetismo político
em registro ao que nos legou Bertold Brecht
E os sertões?
Melhor interpretá-lo antes que se transforme em desertos verdes.
Em imensos canteiros do agro pop
com seus fertilizantes artificiais, agrotóxicos e colheitadeiras gigantes.
Parafraseando o dramaturgo ateniense Sófocles
o Brasil clama aos brasileiros: decifra-me ou vos devoro!
Fátima Rodrigues – em 04 de outubro de 2020.