Lista de Poemas

Escrita e liberdade

Quando teus exércitos chegaram
A escrita estava pronta
A estrada estava dada
Sem temor
se fez a história
Não há prisões para a palavra
Ela canta, ela voa, ela sangra
Na palavra me faço e me refaço
Na escrita perdôo, crio e transbordo!
A palavra liberta !

Em 06 de setembro de 2020.
584

Delírios poéticos

Um pai falou para a filha que cabeça de vento é quem vive a inventar estórias
e que a cabeça do escritor Jorge Amado era cheia de vento 
A menina quis conhecer o autor cabeça de vento e leu toda a sua obra
Da leitura concluiu:
- como o vento é imaginativo !
E até hoje ela sonha em ser cabeça de vento. Todas as manhãs respira com  prazer a brisa do mar e agradece-lhe por aconduzí-la à escrita que tanto ama.
E o pai, embora desconfiado da ingenuidade da filha, rir-se de soslaio
Os dois levam a vida a imaginar,  a contar  e a escrever  estórias fascinantes
- E o vento ?
Preencheu mais um espaço 
por meio de uma matáfora.

456

Angústia

Um nó doído
contido na garganta
que se desloca
e nos atravessa inteiros
Uma dor que sangra
sem tréguas
nas entranhas
gestando um grito
contido  lá no peito
Um silêncio
que fala para dentro
a emitir palavras
sem nenhum efeito
Um sentimento
assim tão oceânico
com tanta força
a afetar os nervos
tudo que faz
é tornar-se desengano
Para quem vive
as causas e os seus efeitos
480

Bagagens, viagens e sonhos

Olhou para a mala
contou os dias no calendário
e começou a separar objetos
Pôs tudo em cima da cama
para nada esquecer
Nada deveria faltar
A cada instante lembrava algo a mais
e quanto mais acrescia à bagagem
mais objetos lembrava
Indagava-se amiúde sobre as necessidades
mas questionava as próprias escolhas
Imaginava prevenir-se dos imprevistos
Supria as demandas por antecipação como se a vida fosse previsível
A certo instante
reavaliou seus pesos
ao entender que viajar
exige leveza
e assim seguiu
Sua bagagem?
Somente os próprios sonhos!
584

O indizível dos afetos



Um amuleto encontrei
que a tudo se adequa
e por isso me acompanha
em dias alegres e tristes
Amigo, amiga tem nome

Dá-me paz e emoção
força e inspiração
segurança e proteção
afeto e aconchego
À noite ou à luz do dia

É dádida que todos almejam
Seu nome tem cinco letras
e vale mais que milhões
Amiga e amigo são 
e me fazem companhia
e comigo compartilham o pão

No uno e no divisível
no dito e no indizível
Na parte e no todo
quando juntos somos nós
e somos  também amor.
592

Plenitude de si



Viver é ser capaz de se recompor a cada pôr-do-sol
e se as sombras da noite não  refrescarem a alma
mergulhar sem medo no labirinto  de si 
até a plenitude.
600

O tempo e o rio

O rio assemelha-se ao tempo
as vezes corre lento
as vezes apressado
Em seu natural correr
desenha o próprio traçado
As vezes sobe 
As vezes desce
As vezes enche até vazar
As vezes escasseia
Faz correnteza
derruba barreiras
estagna
Corre em várias direções 
e abraça o mar
em seu desaguar 

E o tempo? 
Qual é o seu movimento?
As vezes é absoluto
As vezes é relativo
As vezes acelera
Segue e altera seu ritmo
no eterno acontecer 

O tempo também descansa 
para se reinventar
ou se afoba 
e volta a acelerar
Tempo de saudades
dos que se encantaram
Tempo do amor
do nascer
do encontrar-se
de casar
e  de se reinventar! 

E ainda que  o tempo seja dono de si
fala-se em "dar tempo ao tempo",
em busca de um crédito 
para amadurecer
ou de se superar
para esquecer ou
para lembrar
para criar, procriar e amar
(....)

O tempo é contínuo e descontínuo
O tempo implica em devir, vir e no que se foi.

633

Haicai



Se a morte é
a vida está além
e além será





560

Desiderato


Maria contou uma história
tão tristinha !
No enredo da Maria as fadas não viajavam

As fadas habitavam somente os castelos reais

Tereza contou uma história
fantasiosa
muitos tesouros existiam em sua história

Os tesouros foram deixados num Castelo de Caça no Vale do Loire

Joaquim conta que Severino amava uma princesa linda e misteriosa
mas ela não podia ver ninguém

A bela princesa vivia isolada na torre do Castelo de Marfim

As histórias de Maria, Tereza e Joaquim estavam num livro tão gasto nas bordas
e tão amarelado
que Maria, Tereza e Joaquim ao lê-lo
seguravam-no com muito cuidado
para não desfolhá-lo

Estórias de livros assim sobrevividos 
são contadas por muitas marias, terezas e Joaquins, como a do enredo da Donzela Teodora,
impressa e divulgada em folhetos e em Folhetins, espalhados nas feiras livres
e narradas ao vento pelo mundo afora.   
   
598

Círculo amoroso

Os teus abraços
são circunferências que
me acolhem tão docemente
e de tal modo
a fazer-me crer que o tempo
é só nosso.
Ao cruzarmos o olhar
atravessas o meu continente
percorres trilhas e adentras
as madrugadas livres
a envolver-me
o corpo.
Lembrá-lo assim tão amoroso
me põe aconchegada
a essa força infinda
que nos mantém em uníssono
nessa travessia.
Fátima Rodrigues
Em 23 de julho de 2020
567

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Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente.
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