Lista de Poemas

Carta aos desafetos

Soube por terceiros que me vês de um jeito obtuso. Sobre isso nada tenho a dizer. O olhar é teu. Eu também tenho o meu sobre as pessoas e o mundo.
Sou um ser humano como tantos outros à deriva de olhares generosos, críticos e, por vezes, tolos assim como o teu.
Em mim não há qualquer esforço em parecer a ti nem a ninguém diferente do que sou. O teu jeito de me ver não tem qualquer importância, pois, em razão das nossas incompatibilidades, julgo melhor mantermos o distanciamento. Contudo te asseguro que ao tomar distância de pessoas inconvenientes o faço em respeito ao  que sou, e nesse gesto  existe um egoísmo que é guiado por uma espécie de intuição, que me sopra aos ouvidos, clamando por  precaução e paz.
A vida, como a entendo e aprecio, exige partilha. Desconheces esse valor.  Demanda também respeito, fraternidade e lealdade, e isso não faz parte do teu cabedal de valores.
Não consegues enxergar o essencial, no sentido posto por Saint-Exupéry. Esse atributo é invisível aos olhos das aves de rapina, visto que dirigem o olhar a um só objetivo, a sua satisfação imediata, e para isso guardam toda a sua acuidez visual e auditiva.
O essencial exige uma ausculta  ao coração. Sem ética não é possível ter essa sensibilidade para o essencial.
Sigamos nossas estradas. Elas nos levarão ao nosso próprio encontro, e a constatação do que somos, disso não há como fugirmos. Como bem disse Hamlet: "ser ou não ser, eis a questão".
Ficas com teu fardo que dos meus eu já me livrei.

Fátima Rodrigues
Em julho de 2014
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Tropeços de nós


Tropeços com as palavras
nos assustam e nos compõem
O pensamento que nos parece liberto
num lapso freia
Estarrece bruscamente
E eis que aquela eloquência
se embaraça na mente
O chão move-se
As certezas desmoronam
Nos reviramos ao avesso
para dar conta de algo
que nos parece a morte
O pensamento aniquilado
navega em águas turvas
Recolhe-se na escuridão
Como salvá-lo de tantas sandices?
Pensar, pensar, pensar?
Saem faiscas desse hiato
situado entre a fala e o silêncio
Há em nós algo que nos une
e nos separa, em fragmentos
Desde a Grécia Antiga
O pensar se revela
em abstrações e epistemes
O todo e a parte
o ser e o outro
A matéria e as representações
E nós?
Como juntarmos esses pedaços a nós somados em idealizações?
Qual é a verdade? A nossa verdade?
O tempo de cada um trará respostas
Aos que se permitirem
Melhor é não ser !

João pessoa, 22 de maio de 2020.
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Haicai



Já não via paisagem
Só rostos sem expressão
tempos de opressão
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Lições de um cajueiro, lições de vida (crônica)

Olhei para ele demoradamente e lembrei-me de quantas vezes estive sob a sua sombra e do quanto saboreei os seus frutos, senti o seu aroma, aparei no ar as suas folhas secas e admirei os seus frutos.
Sob o seu olhar atravessei desertos, transpus continentes, admirei mares e lugares. Por ali viajei, viajei, viajei.
Agora, as lembranças do seu aconchego acionam meus sentidos.
Ah! Que saudades daquele cheiro gostoso de fruta, misturado com o da terra molhada! Os dois juntos me aguçam por demais os sentidos!
Mas não são só os cheiros e os sabores que fortalecem os nossos laços, a sua simples presença nos instiga, pois muitos lugares em nossas vidas ele ocupa. Em minha memória ainda ecoam gritos infantis que em períodos recentes, à sua sombra, me traziam de volta à realidade.
- Mainha, Mainha, cadê tu?
Saía da sombra do cajueiro para receber abraços suados, e acolher alegrias, brincadeiras e traquinagens das minhas crianças e, as vezes, de seus amiguinhos.
Nesses momentos havia sempre alguém a "enredar" do outro, a contar uma descoberta, uma novidade, a querer ensinar um jogo, ou a cantar uma canção. Gostávamos muito de ouvir as músicas do álbum Os Saltimbancos, e quando me pediam música, e as minhas cordas vocais não ajudavam, recorríamos ao nosso acervo musical infantil. Os saltimbancos vinham à escuta em primeira mão:"Jumento não é. Jumento não é o grande malandro da praça. Trabalha, trabalha de graça..." .  E se após tantos folguedos ainda sobrassem energias, nos lançávamos às brincadeiras de esconde-esconde.
O cajueiro tudo testemunhava silencioso, e acolhedor e, quando chegava dezembro a sua safra de frutos era enorme, o que atraia a si os passantes da rua escritor José Vieira. Às vezes doávamos frutos, outras nem isso era necessário, pois eram retirados com ou sem a nossa permissão.
E nos períodos de safra quando a vovó Terezinha chegava para passar uns dias conosco, era certo que teríamos os deliciosos doces de caju nas modalidades compota e geléia. Que delícia!
Assim seguia a vida; a nossa e a do Cajueiro. O tempo transcorria a seu sabor e com ele se passaram as festas do ABC, a conclusão do Ensino Fundamental, as viagens pelo Brasil e pelo exterior, e o ingresso na universidade daqueles adolescentes em busca de seus sonhos.
As crianças travessas cresceram, voaram: Fortaleza, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Paris, etc.
Os tempos são outros.
Hoje ao observar o cajueiro vi as suas folhas amareladas, os seus galhos retorcidos e o seu tronco envelhecido, e isso me fez ficar atenta ao seu destino.
Onde anda o seu vigor? E aquela alegria que o mantinha sempre a brincar ao vento ?!
Com a nossa semi-ausência, vida de adultos, viagens, trabalho em demasia, idas e vindas ele deixou de produzir frutos. Faltam-lhe afagos? Sentirá falta dos ruídos infantis a sua volta?
Em sua aparência revela-se adoecido, cansado. E aí veio o veredicto do jardineiro:
- É melhor plantar outro cajueiro. Já expurguei seus galhos com defensivos naturais, já fiz podas e ele não melhora. Não vamos conseguir curar essas pragas.
Fiquei triste e pasma com essa observação.
De imediato descartei aquela ideia. Tirá-lo dali seria como se parte de nós fosse embora com ele. Pensava:
- E as nossas histórias que outrora ele tão bem testemunhara?
Precisaria de muitos dias e noites para registrar uma pequena fatia do que ele sabe.
Lembrei dos meus medos quando, o portão da garagem não era ainda automatizado, ao chegar em casa a noite, do trabalho, e ter que descer do carro para abri-lo manualmente.
Ele sempre estava lá corajoso e forte a amparar-me.
Aquela conversa com o jardineiro caiu nos seus ouvidos. Ao olhar para o seu tronco avistei seus olhos a marejarem, assim como nadavam em lágrimas os meus.
Abraçamo-nos e choramos esse nosso reencontro inusitado, que só o amor faz acontecer, e  ali mesmo selamos um acordo  em defesa da vida.
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O fazer-se mãe



Em meio às descobertas de mim, e
assombros do outro, eu me fiz mãe 

Em mim você fez morada 
Me habitou 

Em mim ficou acolhido(a)
Ninho de amor 

Num tempo longo de espera
te auscultei 

Aos nove meses tão vivaz
Você chegou 

Uma avalanche de sentimentos 
Me ocupou 

Lidar com as incertezas da vida
me alertou 

Era o núncio de um ser se fazendo
Oh! Que temor! 

Uma estrada que se faz perene
Se anunciou 

Ser mãe é um ponto de bifurcação, agora eu sei!
Escolha que não tem retorno, eu confirmei! 

Ser mãe é um fazer-se continuo, isso eu sei!
E se configura em devir permanente! Eu confirmei!


*Em homenagem às minhas amigas que vivenciam o exercício do materna.

Fátima Rodrigues, Expedicionários,  João Pessoa, Paraíba,  Brasil. Em 11 de maio de 2025.



 

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Dar-se conta

"Dar-se conta" ?
É caminhar sozinho ou mesmo na multidão em busca de  si
É se permitir transbordar em afetos como transbordam as enchentes dos rios
É deixar as lágrimas inundar os olhos em sua tradução 
É aceitar o não saber como
uma grande lição 
É acolher e ressignificar o que te atravessa, sem omissão 
É acalentar os teus desejos, ainda que eles te pareçam irrealizáveis
É não se deixar subjugar a tirania
"Dar-se conta" é estar atento a si e faz parte dos desafios do ser.
Dê-se conta! 

Maria de Fátima Ferreira Rodrigues.  Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em  10 de abril de 2025.

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O plágio entre nós

O plágio me assusta
No plágio alguém se oculta
Ele é desconstrução !
De um edifício 
sem alicerce  e sem vão
O plágio dá agonia !
Nos que pensam à luz da noite e do dia
O plágio ti desterra
do ato da criação 
Enquanto houver poesia
o plágio será obscurantismo e prisão. 

Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil em01 de maio de 2025.

115

Tergiversar para versar

Eu tergiverso, tu tergiversas, ele e ela tergiversam
Tergiversamos e versamos,
ao nos enredarmos na versatilidade
dos versos, curtos e longos,
alexandrinos e bárbaros e, também nos agalopados
Há em acréscimo os poemas que criastes  e que nem foram nomeados.
- Que são poemas ? 
-Terras imaginárias desfilam de suas entranhas
Então, o melhor é degustá-los!
"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei"
- Quem não quer essa ventura ?
Oh! poeta! Ter linguagem para versar é magnifico!
Encantada fico com as trovas  
que chegam ao mundo cantando,  desafiando, e promovendo encontros, reencontros e amores.
Se a boca é a saída dos sons
disse um dentista,  a língua é o órgão mais independente do corpo.
E a laringe? Indaga alguém.
No popular: "falar é fôlego" !
Vê-se que a palavra se reinventa na boca do povo.
E, em seu território, tudo "faz sentido"!
Há quem se julgue sábio e sábia, e nem desconfia do inconsciente!
E eu, ciente da minha impotência, confesso: 
Tergiverso para ganhar tempo, e  aprender a versar.

Expedicionários  João Pessoa   Paraíba, Brasil em 23 de março de 2025.











 

163

Nos ares da vida



Gosto de tocar os meus pés no arco de si e da vida
Ali volto aos ares da natureza...háblto deixado de lado pela força do tempo!
No tocar da pele 
sinto  o leite materno acariciando o meu rosto.
A memória levanta vôo nesse toque,
que é pura imaginação 
Dou-me conta dos apocalipses anunciados e estremeço: guerras, medo, terror
Retroceder em minha humanidade é uma blasfêmia que me nego a assumir.
Volto ao arco dos pés e da vida.
Me vejo liberta, e nessa viagem de afetos, sou corpo, matéria e alma viva.
Renuncio à pressa: sou plasma numa órbita infinda.
Meu lugar é indizível, meu desejo é o meu tesouro,  ser é incognoscivel, é próprio!
Expedicionários, João Pessoa, Paraíba,  Brasil, em 35 de fevereiro de 2025.
 

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No trânsito da memória

Não faço propósito
Sou livre!
Ando de cabeça erguida
a captar cheiros e paisagens
Costumo dirigir aos que sofrem ora a minha compaixão, ora a minha admiração
pois descobri que a dor percebida pode ser vencida
Oro!
não é oração que se repita
são sons  que se acumulam e se deslocam 
a socorrer-me em palavras  
Os sentidos desses sons me libertam
Não faço propósito
Se fizesse teria contratempos
O ônibus que não passa
O amigo que não chega
O corpo que espera o abraço
O intelecto que vagueia
O compromisso que me espera
Quero aprender a amanhecer 
a entardecer e a viver
Quero entender a transitoriedade
Acatá-la como a metafísica maior
Porque a vida não é eterna 
e é preciso degustá-la
Reinventar o tempo livre é meta
Pois,  ao final, o que nos resta são os feitos que nos aprazem
E, para além do vivido, vale acolher
a matéria viva
no trânsito da memória.

Fátima Rodrigues expedicionarios, 
João Pessoa, Paraiba, Brasil em 24 de julho de 2024














 

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Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente.
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faatimarodrigues@yahoo.com.br