Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo.
Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente. https://www.facebook.com/faatimarodrigues [email protected]
Atravessei ruas, becos, vielas não via e nem era avistada Senti as madrugadas geladas e o silêncio a contornar-me Um rio caudaloso se fez em mim de margem à margem Se fez pleno Sem barqueiro Só um imenso e angustiante vazio me invadia e eu pocurava urgente o calor de um abraço Encandeada atravessei desertos gelada atravessei pântanos e nem mesmo na multidão me encontrei Sobram desertos nesse amálgama que é a minha vida Mas em meu ser a graphia é generosa E os mapas ? Desnudam a terra Para além do que a vista alcança Não desnudam a mim onde o aço e o vazio se alternam numa valsa insana Ser é incongruente mas nada tenho a temer Na lua crescente me ergo incólume Na lua cheia me vejo em fragmentos A vida requer coragem. Hei de tê-la!
Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil 14 de março de 2021.
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Ler ou não ler?
Ler ou não ler?
Não me levem a mal, mas tenho piedade de quem não gosta de ler, pois não sabe o que é um nariz andante descrito por Nicolai Gogol; também não tem ideia dos sentimentos de "desassossego" de Fernando Pessoa; Jamais imaginou o que são os subterrâneos de Dostoiévski; e nem desconfia que uma mulher periférica, como Carolina Maria de Jesus, possa produzir poesia; Nunca imaginou existir uma terra como Pasárgada, do Bandeira; Não se encantou com a educação pela Pedra de João Cabral; Jamais pensou existir uma mulher tão única em seus infortúnios como Macabéa, de Clarice Lispector. ... Leitura é vida, é asas para a imaginação, é alento, entretenimento, é base para a resignificaçao da vida.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil, em 21 de novembro de 2020.
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Aprendizados do amor
Aprendizados do amor
Esquecer? Talvez fosse bom esquecer tudo que foi ensinado, exceto o que foi aprendido lá na dor da ignorância. Lá onde o aprender salva! Ter apreço por aqueles aprendizados singelos, amalgamados na vida, como os aprendizados de parteiras que, com voz suave e mãos ligeiras, abrem caminhos para um ser vir ao mundo. Incorporar o saber amoroso da mãe, que combina ingredientes vários para saciar a fome de uma criança, que dela depende em sua função materna. Falo do afeto que transborda pelas bordas do prato. Mas, sobretudo, dos afetos que transbordam no abraço e nas lágrimas que vêm do riso e da dor. Cato palavras como cato feijão, ha dúvidas se as escolho correto. Escolho ? contém colho, e é bom saber que as palavras são plantadas e colhidas em mim. Quem disse que pequi é melhor que cana-de-açúcar? Fiquei em dúvida! Gosto de ambos. Chorei quando li sobre o calvário do Frei Caneca. Talvez me compadeça em demasia de um passado que o Brasil não memoriza, pois em muitos dos humanos plantaram a pós verdade. E isso causa incômodo, e o dito no confronto não ecoa. Perde-se no vazio. Carrego esse fardo! Mas, também a musicalidade e a poesia. Em conta-gotas me vem à música e a poesia, para depois essas artes me inundarem como as águas de Belo Monte fizeram com as terras indigenas. Embora com efeitos incomparáveis. De forma absoluta, intermitente, esmagadora, fico plena de letras. O Rio Cariús nem se fala! Tomo banho em suas águas diariamente, enquanto ele banha com amor as vazantes que o entornam. Quando acordo, rio dos sonhos bobos que me atravessam e conto aqui para meia dúzia de leitores, cujos olhos cansados se entretem, mas ficam a indagar sobre a veracidade dos versos. Queria conversar por outros canais com cada um desses leitores e, além disso. escutar os seus próprios versos. Talvez lêssemos juntos os conselhos do Rilke, e caminhando à beira mar recitariamos "Vou-me embora pra Pasárgada".
Fátima Rodrigues, expedicionários, João Pessoa, Paraiba. BRASI, em 10 de abril de 2024.
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Eu sinto falta
Eu sinto falta
Das conversas num canto da sala... diante da mesa Agora? Nem o telefone toca, só sinaliza Eu sinto falta, em dias comuns, da mesa cheia de gente ruidosa, a recitar sonoras liras. Eu sinto falta da fila do circo, em dias de espetáculo era tudo tão alegre: cores, músicas, picadeiro
Eu sinto falta das reuniões da escola e dos dias festivos Quem dera eu pudesse... Rememoro as repetições cansativas... Dia das mães, dos pais, dos aniversários Lembro dos abraços regados a suor e lágrimas E o que falar dos preparativos para as viagens? Agora? Parece que a vida carece de sentido Se todos os dias são iguais, como fazer renascer novos sentidos?
Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 19 de fevereiro de 2024.
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Eu sinto falta
Eu sinto falta
Das conversas num canto da sala... diante da mesa Agora? Nem o telefone toca, só sinaliza Eu sinto falta, em dias comuns, da mesa cheia de gente ruidosa, a recitar sonoras liras. Eu sinto falta da fila do circo, em dias de espetáculo era tudo tão alegre: cores, músicas, picadeiro
Eu sinto falta das reuniões da escola e dos dias festivos Quem dera eu pudesse... Rememoro as repetições cansativas... Dia das mães, dos pais, dos aniversários Lembro dos abraços regados a suor e lágrimas E o que falar dos preparativos para as viagens? Agora? Parece que a vida carece de sentido Se todos os dias são iguais, como fazer renascer novos sentidos?
Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 19 de fevereiro de 2024.
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A ira sem compaixão
A ira sem compaixão
Segurei a caneta como se fosse amolá-la e o papel como se fosse uma pedra. Pensei na pedra, sobre a pedra e com a pedra: rocha impenetrável que me ocupava mentalmente. Insisti em enfrentar a rocha mais dura, só para treinar a minha resistência. Como seria escrever na pedra quando nos acostumamos a escrever em belos e variados papéis e, sobretudo, na tela? A escrita me possuiu. Pensei em suar sobre a palavra, em moldá-la com formas e grafias para somente depois acariciá-la. - Carinho a vir ? - Sim! Pensava que, depois do esforço para demarcar um episódio tão cruel, a brisa soprada sobre o pó desnudaria as letras, os sons, os sentidos, a ideia. Um ato assim, violentamente amoroso, me possuia e me empurrava a traduzir as dores, a ausência, o desamparo. a guerra. Bombardeios, crianças desnudas, sangue jorrando, a fome doendo e na memória, não só na minha, na memória coletiva, assomaria o talmud, o torá, o hezbollah, o semitismo, o antissemitismo, o cristianismo e as explosões de ira. -De ondevirá tanta ira? Lembrei de Aquiles e da sua ira, de sua dor diante do cadáver de Patroclus, lembrei, também, da sua brutalidade incontrolável, sem esquecer da sua compaixão diante da dor do rei Príamo, que ansiava por dar um funeral digno ao seu filho Heitor. - E nós? Ainda temos compaixão?! - Que mundo pensamos para nós e para os que virão? Que os tiranos cessem com a sua ira sobre a Palestina para ceder lugar à vida e a paz.
Fátima Rodrigues. Expedicionários. João Pessoa. Paraiba, Brasil. 10 de novembro de 2023.
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A ira sem compaixão
Segurei a caneta como se fosse amolá-la e o papel como se fosse uma pedra. Pensei na pedra, sobre a pedra e com a pedra: rocha impenetrável que me ocupava mentalmente. Insisti em enfrentar a rocha mais dura, só para treinar a minha resistência. Como seria escrever na pedra quando nos acostumamos a escrever em belos e variados papéis e, sobretudo, na tela? A escrita me possuiu. Pensei em suar sobre a palavra, em moldá-la com formas e grafias para somente depois acariciá-la. - Carinho a doar? - Sim! Pensava que, depois do esforço para demarcar um episódio tão cruel, a brisa soprada sobre o pó desnudaria as letras, os sons, os sentidos, a ideia. Uma pulsão assim, violentamente amorosa, me possuia e me empurrava a traduzir as dores, a ausência, o desamparo. a guerra. Bombardeios, crianças desnudas, sangue jorrando, a fome doendo, e na memória, não só na minha, na memória coletiva, assomariam o talmud, o torá, o hezbollah, o semitismo, o antissemitismo, o cristianismo a biblia e as explosões de ira. -Virá de onde tanta ira? Lembrei de Aquiles e da sua ira, de sua dor diante do cadáver de Patroclus, lembrei, também, da sua brutalidade incontrolável, sem esquecer da sua compaixão diante da dor do rei Príamo, que ansiava por dar um funeral digno ao seu filho Heitor. - E nós? Ainda temos compaixão?! - Que mundo pensamos para nós e para os que virão? Que os tiranos recolham-se e retirem a sua ira em armas sobre a Palestina para ceder lugar à vida e a paz.
Fátima Rodrigues. Expedicionários. João Pessoa. Paraiba, Brasil. 10 de novembro de 2023.
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Contrasensos
Há um peso ali e uma leveza aqui, contrapostos? As vezes aqui, as vezes ali, contrapostos ? Palavras e atos, sintonizados? O peso sobrepesa sobre os ombros, sobre as pernas, sobre o dorso. Nos reviramos, nos acostumamos ou nos insubordinamos? O nós reúne o claro e o escuro, o senso e o contrassenso, o peso e a leveza. Achatados sobre o chão ou esmagados sobre as asas há nós contrapostos. - Como desatá-los? Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil. Em 16 de setembro de 2023
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O ser e o nada
Eu nunca me completo estou sempre em busca me desmanchando e me refazendo Não me aborreço com isso apenas fico curioso Os meus sentidos me dizem que não sou o meu artifice mas me sinto sempre fazendo coisas em consonância com o universo Pratiquei atos admiráveis e outros que esqueço para não sofrer Eles foram irrefreáveis Sossego quando a tardinha se despede dos raios solares porque a noite pertence aos deuses e eu aguardo-a para aninhar-me em seus braços A depender do que me enlaça sou imponderável! E é nesse momentâneo estado de ser que me faço outro Tenho muitos argumentos e dores O fim-do-mundo é sempre um horizonte Mas de que mundo falo? De qualquer um! Nada freia meus devaneios Sou fogo e cinza, água cristalina e lama Sou ora diamante, ora calcário O ser em mim é provisório e de resto me refaço do nada Nada pode ser o começo pode ser a síntese ou o caminho da liberdade.
Fátima Rodrigues ( expedicionários. João Pessoa, Paraiba, Brasil. Em 10 de setembro de 2023.)
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Vidas aprisionadas
Um quarto 1/4 Hum quarto ou uma cela? Um quarto aprisionado Um quarto sem medidas Um quarto apartado Um quarto dividido Um quarto enviesado Uma cela de 1/4 Uma "cabana" prá chamar de sua Nisso tudo há pessoas Cabeças e sentenças Um dia sem espaço, sem bigorna Uma noite sem cama, com sopa cola Colchões que transbordam gente no sistema Noite que traz pesadelos de sindicância Vidas que transcorrem no vazio do tempo e no escambo Isso tudo em 1/4 desmedido, no avesso de latifúndio onde o medo sangra.
Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil.
*Dedico aos pesquisadores e ativistas dos Direitos Humanos que lutam por justiça e dignidade para os encarcerados, sobretudo para as mulheres.