Travessias
Atravessei ruas, becos, vielas
não via e nem era avistada
Senti as madrugadas geladas
e o silêncio a contornar-me
Um rio caudaloso se fez em mim
de margem à margem
Se fez pleno
Sem barqueiro
Só um imenso e angustiante vazio
me invadia
e eu pocurava urgente
o calor de um abraço
Encandeada atravessei desertos
gelada atravessei pântanos
e nem mesmo na multidão me encontrei
Sobram desertos
nesse amálgama
que é a minha vida
Mas em meu ser
a graphia é generosa
E os mapas ?
Desnudam a terra
Para além do que a vista alcança
Não desnudam a mim
onde o aço e o vazio se alternam
numa valsa insana
Ser é incongruente
mas nada tenho a temer
Na lua crescente me ergo incólume
Na lua cheia me vejo em fragmentos
A vida requer coragem.
Hei de tê-la!
Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil
14 de março de 2021.
Ler ou não ler?
Ler ou não ler?
Não me levem a mal, mas tenho piedade de quem não gosta de ler,
pois não sabe o que é um nariz andante descrito por Nicolai Gogol;
também não tem ideia dos sentimentos de "desassossego" de Fernando Pessoa; Jamais imaginou o que são os subterrâneos de Dostoiévski; e nem desconfia que uma mulher periférica, como Carolina Maria de Jesus, possa produzir poesia;
Nunca imaginou existir uma terra como Pasárgada, do Bandeira;
Não se encantou com a educação pela Pedra de João Cabral;
Jamais pensou existir uma mulher tão única em seus infortúnios como Macabéa, de Clarice Lispector.
...
Leitura é vida, é asas para a imaginação, é alento, entretenimento, é base para a resignificaçao da vida.
Fátima Rodrigues, Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil, em 21 de novembro de 2020.
Aprendizados do amor
Aprendizados do amor
Esquecer?
Talvez fosse bom esquecer tudo que foi ensinado, exceto o que foi aprendido lá na dor da ignorância. Lá onde o aprender salva!
Ter apreço por aqueles aprendizados singelos, amalgamados na vida, como os aprendizados de parteiras que, com voz suave e mãos ligeiras, abrem caminhos para um ser vir ao mundo.
Incorporar o saber amoroso da mãe, que combina ingredientes vários para saciar a fome de uma criança, que dela depende em sua função materna.
Falo do afeto que transborda pelas bordas do prato. Mas, sobretudo, dos afetos que transbordam no abraço e nas lágrimas que vêm do riso e da dor.
Cato palavras como cato feijão, ha dúvidas se as escolho correto.
Escolho ? contém colho, e é bom saber que as palavras são plantadas e colhidas em mim.
Quem disse que pequi é melhor que cana-de-açúcar?
Fiquei em dúvida! Gosto de ambos.
Chorei quando li sobre o calvário do Frei Caneca.
Talvez me compadeça em demasia de um passado que o Brasil não memoriza, pois em muitos dos humanos plantaram a pós verdade. E isso causa incômodo, e o dito no confronto não ecoa. Perde-se no vazio.
Carrego esse fardo!
Mas, também a musicalidade e a poesia.
Em conta-gotas me vem à música e a poesia,
para depois essas artes me inundarem como as águas de Belo Monte fizeram com as terras indigenas. Embora com efeitos incomparáveis.
De forma absoluta, intermitente, esmagadora, fico plena de letras.
O Rio Cariús nem se fala! Tomo banho em suas águas diariamente, enquanto ele banha com amor as vazantes que o entornam.
Quando acordo, rio dos sonhos bobos que me atravessam e conto aqui para meia dúzia de leitores, cujos olhos cansados se entretem, mas ficam a indagar sobre a veracidade dos versos.
Queria conversar por outros canais com cada um desses leitores e, além disso. escutar os seus próprios versos.
Talvez lêssemos juntos os conselhos do Rilke, e caminhando à beira mar recitariamos
"Vou-me embora pra Pasárgada".
Fátima Rodrigues, expedicionários, João Pessoa, Paraiba. BRASI, em 10 de abril de 2024.
Eu sinto falta
Eu sinto falta
Das conversas num canto da sala... diante da mesa
Agora? Nem o telefone toca, só sinaliza
Eu sinto falta, em dias comuns,
da mesa cheia de gente ruidosa,
a recitar sonoras liras.
Eu sinto falta
da fila do circo, em dias de espetáculo
era tudo tão alegre: cores, músicas, picadeiro
Eu sinto falta
das reuniões da escola
e dos dias festivos
Quem dera eu pudesse...
Rememoro as repetições cansativas...
Dia das mães, dos pais, dos aniversários
Lembro dos abraços regados a suor e lágrimas
E o que falar dos preparativos para as viagens?
Agora? Parece que a vida carece de sentido
Se todos os dias são iguais, como fazer renascer novos sentidos?
Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 19 de fevereiro de 2024.
Eu sinto falta
Eu sinto falta
Das conversas num canto da sala... diante da mesa
Agora? Nem o telefone toca, só sinaliza
Eu sinto falta, em dias comuns,
da mesa cheia de gente ruidosa,
a recitar sonoras liras.
Eu sinto falta
da fila do circo, em dias de espetáculo
era tudo tão alegre: cores, músicas, picadeiro
Eu sinto falta
das reuniões da escola
e dos dias festivos
Quem dera eu pudesse...
Rememoro as repetições cansativas...
Dia das mães, dos pais, dos aniversários
Lembro dos abraços regados a suor e lágrimas
E o que falar dos preparativos para as viagens?
Agora? Parece que a vida carece de sentido
Se todos os dias são iguais, como fazer renascer novos sentidos?
Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraíba, Brasil em 19 de fevereiro de 2024.
A ira sem compaixão
A ira sem compaixão
Segurei a caneta como se fosse amolá-la e o papel como se fosse uma pedra. Pensei na pedra, sobre a pedra e com a pedra: rocha impenetrável que me ocupava mentalmente. Insisti em enfrentar a rocha mais dura, só para treinar a minha resistência. Como seria escrever na pedra quando nos acostumamos a escrever em belos e variados papéis e, sobretudo, na tela?
A escrita me possuiu.
Pensei em suar sobre a palavra, em moldá-la com formas e grafias para somente depois acariciá-la.
- Carinho a vir ?
- Sim!
Pensava que, depois do esforço para demarcar um episódio tão cruel, a
brisa soprada sobre o pó desnudaria as letras, os sons, os sentidos, a ideia.
Um ato assim, violentamente amoroso, me possuia e me empurrava a traduzir as dores, a ausência, o desamparo. a guerra.
Bombardeios, crianças desnudas, sangue jorrando, a fome doendo e na memória, não só na minha, na memória coletiva, assomaria o talmud, o torá, o hezbollah, o semitismo, o antissemitismo, o cristianismo e as explosões de ira.
-De ondevirá tanta ira?
Lembrei de Aquiles e da sua ira, de sua dor diante do cadáver de Patroclus, lembrei, também, da sua brutalidade incontrolável, sem esquecer da sua compaixão diante da dor do rei Príamo, que ansiava por dar um funeral digno ao seu filho Heitor.
- E nós? Ainda temos compaixão?!
- Que mundo pensamos para nós e para os que virão?
Que os tiranos cessem com a sua ira sobre a Palestina para ceder lugar à vida e a paz.
Fátima Rodrigues.
Expedicionários. João Pessoa. Paraiba, Brasil. 10 de novembro
de 2023.
A ira sem compaixão
Segurei a caneta como se fosse amolá-la e o papel como se fosse uma pedra. Pensei na pedra, sobre a pedra e com a pedra: rocha impenetrável que me ocupava mentalmente. Insisti em enfrentar a rocha mais dura, só para treinar a minha resistência. Como seria escrever na pedra quando nos acostumamos a escrever em belos e variados papéis e, sobretudo, na tela?
A escrita me possuiu.
Pensei em suar sobre a palavra, em moldá-la com formas e grafias para somente depois acariciá-la.
- Carinho a doar?
- Sim!
Pensava que, depois do esforço para demarcar um episódio tão cruel, a
brisa soprada sobre o pó desnudaria as letras, os sons, os sentidos, a ideia.
Uma pulsão assim, violentamente amorosa, me possuia e me empurrava a traduzir as dores, a ausência, o desamparo. a guerra.
Bombardeios, crianças desnudas, sangue jorrando, a fome doendo, e na memória, não só na minha, na memória coletiva, assomariam o talmud, o torá, o hezbollah, o semitismo, o antissemitismo, o cristianismo a biblia e as explosões de ira.
-Virá de onde tanta ira?
Lembrei de Aquiles e da sua ira, de sua dor diante do cadáver de Patroclus, lembrei, também, da sua brutalidade incontrolável, sem esquecer da sua compaixão diante da dor do rei Príamo, que ansiava por dar um funeral digno ao seu filho Heitor.
- E nós? Ainda temos compaixão?!
- Que mundo pensamos para nós e para os que virão?
Que os tiranos recolham-se e retirem a sua ira em armas sobre a Palestina para ceder lugar à vida e a paz.
Fátima Rodrigues.
Expedicionários. João Pessoa. Paraiba, Brasil. 10 de novembro
de 2023.
Contrasensos
Há um peso ali e uma leveza aqui,
contrapostos?
As vezes aqui, as vezes ali,
contrapostos ?
Palavras e atos,
sintonizados?
O peso sobrepesa sobre os ombros,
sobre as pernas,
sobre o dorso.
Nos reviramos,
nos acostumamos ou
nos insubordinamos?
O nós reúne o claro e o escuro,
o senso e o contrassenso,
o peso e a leveza.
Achatados sobre o chão
ou esmagados sobre as asas
há nós contrapostos.
- Como desatá-los?
Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil. Em 16 de setembro de 2023
O ser e o nada
Eu nunca me completo
estou sempre em busca
me desmanchando e me refazendo
Não me aborreço com isso apenas fico curioso
Os meus sentidos me dizem que não sou o meu artifice
mas me sinto sempre fazendo coisas
em consonância com o universo
Pratiquei atos admiráveis e outros que esqueço para não sofrer
Eles foram irrefreáveis
Sossego quando a tardinha se despede dos raios solares
porque a noite pertence aos deuses
e eu aguardo-a para aninhar-me em seus braços
A depender do que me enlaça sou imponderável!
E é nesse momentâneo estado de ser que me faço outro
Tenho muitos argumentos e dores
O fim-do-mundo é sempre um horizonte
Mas de que mundo falo?
De qualquer um! Nada freia meus devaneios
Sou fogo e cinza, água cristalina e lama
Sou ora diamante, ora calcário
O ser em mim é provisório
e de resto me refaço do nada
Nada pode ser o começo
pode ser a síntese
ou o caminho da liberdade.
Fátima Rodrigues ( expedicionários. João Pessoa, Paraiba, Brasil. Em 10 de setembro de 2023.)
Vidas aprisionadas
Um quarto
1/4
Hum quarto ou uma cela?
Um quarto aprisionado
Um quarto sem medidas
Um quarto apartado
Um quarto dividido
Um quarto enviesado
Uma cela de 1/4
Uma "cabana" prá chamar de sua
Nisso tudo há pessoas
Cabeças e sentenças
Um dia sem espaço, sem bigorna
Uma noite sem cama, com sopa cola
Colchões que transbordam gente no sistema
Noite que traz pesadelos de sindicância
Vidas que transcorrem no vazio do tempo e no escambo
Isso tudo em 1/4 desmedido,
no avesso de latifúndio onde o medo sangra.
Fátima Rodrigues. Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil.
*Dedico aos pesquisadores e ativistas dos Direitos Humanos que lutam por justiça e dignidade para os encarcerados, sobretudo para as mulheres.