Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Se a dor que dói em mim, assim doesse, doída, como um nada, a doer tanto, talvez doera só pelo interesse de que, por fim, não doeria o pranto.
Se a tua ausência já doeu bastante e doerá, por certo, eternamente, que doa, de uma vez, lacrimejante, qual doeriam lágrimas da mente.
E quando a tua dor em mim doía, tal qual doeram todas, vezes mil, deixei doerem por compreensão.
Assim vivo o dorido dia a dia, embora já me doam, dor gentil, as dores que eu bem sei que doerão.
Nilza Azzi
165
Abelha
Qual abelha da flor, querer-te-ia doce, meu doce amor, de tal doçura, que o mel que eu fabricasse fosse pura delícia ao paladar, fosse iguaria,
inesgotável fonte de ternura, e assim, chegar-me a ti, dia após dia, supondo que esse amor recriaria a luz que minha alma inda procura...
Então a cor dourada do meu mundo, em si traria um brilho esplandecente ─ a força criadora de uma aurora.
Mas isso é ilusão, sonho infecundo, é voz de um sentimento que não mente, mas baila ─ diz adeus ─ e vai embora!
Nilza Azzi
41
Pausas
Na fonte das certezas e dos medos escorrem meus silêncios, minhas pausas, enquanto uma esperança morre cedo e a minha solidão tem sombras rasas.
Esgotam-se as nascentes, calam vozes, permutam-se as vontades por promessas... As horas cada vez vão mais velozes e apontam as loucuras inconfessas.
Na rua um carro breca, em sobressalto, entendo que o perigo é sempre esperto. O som de uma buzina é qual arauto e o sonho me adverte de algo incerto.
O dia ─ mais um dia ─ vai ao meio e deixa em minha alma outro receio...
Nilza Azzi
161
A pira do amor
Tomou a si manter acesa a chama, velar o Amor, ferir a velha norma, ao transpassar a margem soberana e transgredir as regras tolas, mornas.
A solidão quer luz e tece o drama, na pira acesa, astuta plataforma! A confissão de eterno nos engana e o que partiu, inteiro não retorna.
Assim, Cupido tem nas suas flechas a ponta ardente, que nos fere a carne e sempre acerta o alvo que elegeu.
Em meu destino, sempre que as desfecha, atinge o alvo (não posso salvar-me!) e acende em mim o amor que é todo seu.
Nilza Azzi
69
A força de uma estrela
"A noite acendeu as estrelas porque
tinha medo da própria escuridão".
Mário Quintana
Um dia, o céu abriu o seu baú de cores e dele se evadiu um astro, inda pequeno, que percorreu o espaço em manto de sereno, banhado pelo amor das bênçãos superiores
e veio a aumentar a luz do lar terreno... De estirpe varonil, por graça dos Senhores, cresceu com galhardia e adquiriu valores, fulgiu com sua estrela e construiu seu reino.
Fadado a liderar, correto em seu papel, enfrenta sem temor a sua própria luta, acata esse poder, inato e necessário,
e sabe ser amigo, esplêndido e fiel. Que a luz do coração cintile resoluta, desejo com carinho, em seu aniversário!
Nilza Azzi
56
Atrás do vento
Agosto já vai longe e eu cansei de esperar... Enquanto setembro com jeito e com graça, desdobra-se em flores por tudo que passa e o vento carrega os perfumes, e o ar
recende as fragrâncias sutis, entrelaça, juntando buquês, num só e mesmo lugar, carrego comigo a missão de juntar as flores diversas que encontro na praça.
Nilza Azzi
33
Fina estampa
Foi a mentira seu estandarte, mas é a verdade o que o incomoda. Quando o egoísmo entra na roda, falha o juízo sempre e dessarte,
se fabricar mitos é moda, parece fácil, quase uma arte. Só não percebe tal disparate, algum otário que, nessa, roda.
De fato a vida imita a novela e chega-se a crer no mal impune – da personagem, mal falo dela.
O bom sujeito parece imune, mas tem perfil de um tagarela, sério sinal de seu mau costume.
Nilza Azzi
49
Esquecimento
Quis fazer uma quadra perfeita ancorada nas regras reais. Quando o Sol no horizonte se deita os teus braços me trazem a paz.
Quis fazer, mas perdi a receita, não sei mais como quadra se faz – se depende das linhas estreitas ou da pausa que encerra os finais.
Sem receita, meu verso capenga e não sabe por onde caminha, vai perdido, banal ladainha.
Este verso que agora definha, acabou por virar lenga-lenga, abatido, uma peça molenga.
Nilza Azzi
54
Fada
Ao ouvir essa voz, gentil, cortês, entre mil guardarei no mais secreto, no local onde a luz então se fez e, ao cegar-me, deixou-me sem afeto.
Essa voz murmurou, dizendo assim: –Se é um falso brilhante, quem repara? Nessa dança, que apenas cabe a mim, no “bandeide” nem pense, ó minha cara
a criança, ao crescer, terá seus calos... Destruí meus fantasmas, sobra então, um vazio, onde mora apenas nada.
Se há coragem, então venha tomá-los, os espaços e esqueça o que dirão. Traga junto uma estrela, minha fada.
Nilza Azzi
24
O amanhã
Como dizia Scarlet na tarde, terra nas mãos e lágrimas na face, vem novo dia, enquanto nos céus arde, de novo, o sol, e nada há que não passe.