yuri petrilli

yuri petrilli

n. 2000 BR BR

@petrillipoesia no instagram

n. 2000-12-26, Cerquilho SP

Perfil
45 279 Visualizações

três sonetilhos

I

este infinito instante
em que vives agora
basta apenas que pisques
e pronto: é memória

inda não dás por isto
à sombra das batalhas
mas o tempo que torna
as crianças grisalhas

é este mesmo que colhe
teus momentos dispersos
e te confunde os olhos

para te dar, enfim,
da vida, alguns versos,
dos sonhos, seus espólios.


II

abre os olhos e vê:
o tempo já passou.
apenas em você
o instante não murchou.

este lugar não é
o de quando eras outro.
se aqui ainda vives,
talvez estejas morto.

nem houve no intervalo
de tempo dos teus olhos
qualquer sonho ou excesso...

mas se passaram anos.
e é como se tivesses
vivido em retrospecto.


III

como aceitar que a mão
que a minha mão enlaça
é só minha outra mão
que o coração disfarça?

a memória é um tecido
assim dissimulado
que tanto nos engana
mesmo estando rasgado

ah, que doce a mentira
que em mim se acalora
quase fisicamente...

mas o tecido é falho.
e as minhas mãos se esfriam
melancolicamente...

Ler poema completo

Poemas

121

galhos

Minha alma está de tal modo perdida, hoje,
Enquanto fita as vinhas de jardins idos,
Que o crisântemo do presente me foge
Pelas mãos, entre meus dedos exauridos.

Ao pé do nada feito maravilha
Pelo estúpido grilhão de uma memória,
Faço da melancolia que fervilha
Uma lã, com qual teço e distorço a história.

Sim... E fico a esmo, sozinho, a imaginar,
Nas vinhas empedernidas, a brotar,
Os perfumes dos sorrisos e seus ecos...

Aqui, sob a árvore suspensa no abismo,
Choro sem chorar, e, sobretudo, eu cismo
Em sonhar flores onde há só galhos secos...
60

parafuso [prosa]

Fitei-o de soslaio dentre os demais que fixavam cantoneiras à parede. Ele, destoante, intrigou-me. Aproximei-me para examiná-lo.
                   Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
                   Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
                   Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
                   Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
                   Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
                   O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
                   E por que haveria de ser diferente?
                   Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
                   Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
                   E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
                   Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
                   Mas a elas não há peça de reposição.
                   O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
                   O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
                   E a ausência dói eternamente.
                   E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
                   E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.
161

memória

Estive hoje escutando, no rádio,
Uma canção que há muito não escutava.

E enquanto a melodia rolava pelos ares,
Eu a sentia
E assistia, quase sem perceber,
De dentro da minha cabeça,
Uma algazarra de crianças
Brincando de bola em um pedaço de asfalto
Estranhamente familiar.

Uma algazarra familiarmente estranha.

De repente, compreendi.
Dentre as crianças, estava eu.

Tratava-se não de uma sensação feita vivência na imaginação,
Estas, saudosas, que por vezes sentimos por intermédio do desejo;

Tratava-se, sim,
De uma vivência longínqua feita imaginação na sensação.

E estava de tal forma empoeirada
Que se perdeu no tempo enquanto realidade passada,
Integrando-se à memória
Como nunca houvesse sido qualquer outra coisa.

Depois disso, quis ficar ouvindo rádio o dia inteiro
No anseio de desenterrar outras.

Sempre pasmo com essas coisas
Dos confins de não sei onde em mim,
Que ocasionalmente são resgatadas por músicas
Dos confins de dez anos atrás.

Estas pequeninas manifestações da alma...
49

o parquinho revisitado

Salta o garotinho do balanço.

Ele vem até mim,
Me apanha pelo braço,
E me leva a passear ao redor
Dos brinquedos do parquinho.

Vejo as velhas gangorras,
Balanços, gira-giras que rangem,
Escorregadores, casinhas...
E ouço as velhas risadas.

O garotinho também me mostra
A sua nova bola de capotão,
Sua camisa amarela, e suas chuteiras...

Depois ri do próprio sonho futebolístico.

O garotinho
Revive
Diante
Dos meus olhos.

E eu, ao fitar, de súbito, seus cabelos louros,
Seu sorriso banguela,
E suas roupas encardidas,

Entristeço-me
Ao atestar que
Um dia
Já fui feliz.
32

despedida

Não digas nada. Contempla
O luzir dos olhos tristes
Em que outrora viste estrelas.

Aperta contra teu peito
A essência da despedida,
E aceita, também, o aperto.

Despede-te calmamente;
Desenlaça a sombra e a deixa
Partir pela madrugada.

E afaga teu coração,
Bem como um dia afagaste
O pranto de quem te amou.

Dorme, que a aurora não tarda.
168

poema inútil

Nada vale o calendário
Quando passado o dia
Outro vem e o repete.

Tampouco vale o relógio
Quando às seis da tarde
Sinto as três da madrugada.

Quando as valias se fecham
No píncaro das tintas opacas,
Que é da suposta realidade?

Que é deste leque fechado
Que, pela moldura da janela,
Me infiltra o pensamento?

Que é de tudo e de todos?
Que é de nada, e de mim?
Que importa o quê? Importará jamais?

De nada valho – eu, figura
Dum vitral que me pintei,
Estacionado e sem gesto.

A fumaça do cigarro sobe...
E, junto a ela, sobem os meus sonhos,
Fitando, do alto, a cidade vazia.
89

coisas

O eco gentil da risada,
A brisa que não significa nada...

Os sonhos mais descontentes,
As nuvens que passam indiferentes...

Conjecturas impossíveis,
O ardor ante os estilhaços plausíveis...

O bom sabor da indecência,
O desbravamento da inconsciência...

A linda flor que não amei,
A busca pungente do eu que não sei...

As noites ébrias de fome,
Uma voz que me chame pelo nome...

O vasto saber dos sábios,
O Sol que decora meus secos lábios...

O revisitar das idades,
E a lua que me mata de saudades...

Contra as costelas aperto com força
– Das mais sutis às dolorosas coisas –,
 Mesmo o que um dia me deixou insano.

Deixo que se infiltre no meu coração
– O beijo ou a dor de qualquer sensação
Que me relembre que inda vivo,

Humano.
197

EROS II

Sabíamos mutuamente, amor:
Nenhuma ternura havia em nosso enlace.
Nada, senão a frágil carne sem pudor,
Sob o escuro do quarto, num disfarce.

De antemão, sabíamos do torpor
Que deveria haver em nossas faces.
Não me amaste. Mas... Deste desamor,
Confesso-te: desejei que me amasses.

Foi num instante em que te vi, e sangrei...
Vi-te olhos, alma; e em te buscar, teimei,
Sabendo já que estavas decidida...

E ao meu coração restou o vão açoite,
Pois sei que a tive somente uma noite,
E tu me tens e terás toda a vida...
228

Eros I

De um brinde rouco de taças vazias
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.

De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...

E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,

Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
179

À Toa na Noite

Eu passeava pelas noites mortas,
Vendo teu rosto surgir nas janelas
Das velhas casas de paredes tortas
Que descansavam sob a luz d’estrelas...

Eu passeava pelas noites baças,
Ouvindo, ao lado, o som dos teus passos;
E me aquecia nos postes das praças
Do lume gelado dos teus abraços...

Eu imaginava, em meus míseros sonhos,
– Estes algozes às vezes risonhos –
Uma viva cor para a opacidade.

E eu me cansava... E assistia sozinho
Teu perfil de adeus seguindo caminho...
Desaparecendo em meio à cidade...
192

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.