Lista de Poemas
chronos
ao redor dos anéis de saturno, outra vez.
do alto deste ponto, me avisto noutro ponto.
de lá, porém, eu não me avisto. estou ocupado demais
amando as coisas que já não amo,
brincando em castelos de areia agora desfeitos,
dormindo à sombra de uma luz antiga.
sorrio: somos iguais. neste instante, noutro instante,
também me vê quem não me vejo.
ele que também sorri de meus oásis
enquanto se prepara para a morte.
unidos pelo ponteiro e separados por suas voltas
– um estalido familiar, à meia noite, anuncia: é tudo real.
de rosa em jasmim
este, que é um símbolo herdado,
falas, de fato, do amor
que algum poeta, há mil anos,
morreu sem ter confessado
pérola
vindo de quaisquer dos lados,
o deserto nos impele
a oásis já desvendados.
em meio às areias dele,
nadamos, insaciados,
supondo águas que vertem
tão somente no passado;
então, vem o tempo: e corta,
antes do gole, a visão;
e resta, da imagem torta,
quando se impõe a razão,
só uma ilusão natimorta
dentro da concha da mão
dois dísticos
esta recordação vai me exceder
eu vou morrer e não vou esquecer
II
por intermédio da memória de quem fomos
viveremos sempre sendo mais do que somos
partes
é que somos compostos.
somente através de regressos
amamos e vivemos.
o tempo nos fere e nos divide.
despedimo-nos de nós mesmos e das coisas
a cada mínimo instante,
e, no entanto, jamais abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala.
apertando-a contra o peito, sangramos.
e mal percebemos que é por meio dela
que vamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível,
mas a reminiscência do beijo, nos lábios,
permanece - e assim, em nós, o anseio de revivê-lo,
de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
sim: para cada história em nós decepada,
uma busca incessante em nós se elabora.
traços vagos no meio da noite
nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos.
e mal percebemos que vivemos.
o tempo consome-se em música
e a poeira cintila como estrelas à luz de um novo dia.
lugar
e não ao campo,
é que provarás da liberdade.
do que é esconderijo
nenhum lar nasce,
eis a áspera verdade.
não te trarão promessas as árvores,
nem nascerão prelúdios de fantasias
nos rios profundos onde te espelhas.
nem brotará da terra o amor,
nem mesmo paz ou conclusão
surgirão sob as estrelas.
mas aguça bem o teu anseio e vê:
verdor, frescor, sementes e lumes
derramam uma realidade inteira
sobre um renovado campo sem finalidade:
pertencimento, possibilidade,
liberdade verdadeira.
e já nem saberás, de repente,
como foi que chegaste
àquele lugar...
o habitarás, simplesmente:
um lugar menos mundo, no mundo,
e mais lar.
descobrir
mas o que me mantém vivo
é a íntima perspectiva
de descobrir algo novo
a cada ínfimo dia.
é saber que a grande noite
pode não ser maior que
as estrelas que ali estão,
contanto que eu assim as busque
e as perscrute, atentamente.
que sequer é necessário
ir tão longe para ver
que ainda há muito pra ver.
é saber que, como há estrelas,
e insetos, e aves, e sapos,
há também canções mais belas
em algum lugar, dormentes,
as quais posso despertar
e trazer até quem sou,
promovendo a integração,
a meu mundo, de um novo ar
de renovado perfume
ou sufocante verdade,
de qualquer modo bastando
por ser, sobretudo, a vida.
sim - o que me mantém vivo
é a íntima perspectiva
de descobrir, amanhã,
uma canção polonesa,
um novo sabor ou cheiro,
um país dentro de um bairro,
ou o segredo dos pássaros
(estes tais dinossaurinhos).
ou, ainda, algo menor:
um silêncio, um pensamento,
uma sensação sem nome
de serenidade ímpar.
não é o sonho de viver
quando já não for meu tempo.
nem o anseio de conter
algo eterno, a que repilo.
é o mero o prazer de andar
de um ponto ao outro, observando
o quanto for observável
no instante único que é tudo,
e atestar que ali há muito,
há tanto, tanto que não
conheço! e que desconheço
em meu desconhecimento!
é a recordação do espanto
buscando ressuscitar,
para outra vez afirmar
o privilégio da alma.
é o que me mantém vivo.
a íntima perspectiva
de descobrir algo novo
a cada ínfimo dia.
viajar
e não quaisquer viagens: viagens independentes e perenes.
você, escritor, cria uns percursos através das palavras
e involuntariamente dá à luz certos percursos ocultos
(a que outros, que não você, possivelmente encontrarão depois),
e mal se dá conta do que faz
enquanto consuma a cada linha teu esforço e intento,
sem qualquer garantia de alívio ou precisão.
e então, uma vez concluída a obra,
é que você vê, se olhar bem, que ela está menos concluída que nunca.
subitamente,
ela é uma viagem. e é como um filho:
a tua participação foi essencial para que ela existisse,
e entanto ela não te pertence. ela está lá, se desenvolvendo à parte de ti,
no desamparo do mundo, sem esperança. existindo.
viajando e conduzindo outros a viagens sempre imprevisíveis e distintas,
se renovando sempre e desabrochando outros caminhos
que outrora estiveram dormentes
em suas entranhas absurdas.
acaso há mais doce favo de poesia do que isto?
viajo outra vez.
precisão
aproveitar o tempo, ter propósito.
e cedo aprendi que é recomendável
optar por ver somente as boas coisas
que flutuam sobre as calçadas sujas
que, sem ver, pisamos, pelo bom pão.
bem sei – é verdade! – que é preciso
rir, de olhos fechados, do diferente,
envenenando-se, sábado, à mesa,
jogando cartas e se diluindo.
e farrear, fazer sexo, ter filhos!
e recuperar-se, enfim, no domingo.
sofrer humilhações, furtar-se ao óbvio,
engolir sapos que que à fome não matam
só pra depois poder comer o básico
no intervalo entre o isto e o nada;
sim, incontestavelmente é preciso.
bem sei. trago comigo o protocolo
debaixo do braço e no peito oco.
só de algo não estou certo: ...preciso?
presença
sim, na tua presença,
que me ficou impresso em tua ausência,
desse jeito, independente...
e que a mim regressa sempre
por através de caminhos distintos.
mesmo a luz que me rege se rende
à tua figura amorfa remanescente:
mesmo que não estejas,
permanece a tua sombra,
e tudo à tal sombra se dá.
talvez porque de mim fiz uma casa a nós,
em um passado em que ainda era possível sonhar:
agora, sou uma casa sem lar,
de janelas quebradas e vivas
situada em uma rua deserta.
uma casa a que não se demole por pena,
e que se faz abrigo de fantasmas.
os mais lindos fantasmas.
os mais incompletos fantasmas.
as paredes frias compostas de silêncio,
emoldurando a porta,
e nela um cadeado – como um milímetro que separasse,
por eternidade,
dois lábios que se pertencessem.
talvez porque de mim fizeste teu deleite,
e me insinuaste teus segredos
em meus recantos menos nobres,
eternamente ardentes e incônscios,
apaixonados pela sombra à ausência da figura,
apaixonados e tristes,
porque não entendem que a vida se transforma.
talvez porque a cidade permanece a mesma,
e toda ela já nos viu passar:
esta cidade que fala demais
com casas e árvores repetidas,
com palavras repetidas,
inquiridora, galeria de espelhos.
esta cidade
que me traz de volta estes lugares
a que ainda te projeto através dos olhos,
assim como uma luz de lanterna
que denunciasse uma rosa no escuro:
uma rosa murcha,
tão murcha
e humilde,
e contrita, como se esperasse, talvez,
que lhe descesse de um céu turvo
o milagre de um perdão definitivo.
uma rosa tão murcha...
mas
tão bonita.
de qualquer maneira, é certo:
há algo no que foi tua presença
que resiste imenso, monumental,
e simples.
há algo.
resta algo.
e por isso retornas a mim repetidas vezes.
trazendo, sempre, nos teus olhos ilusórios,
a chave do cadeado,
a água para a sede dos abismos,
a possibilidade de suturar os lugares que sangram;
sem que para tanto necessites dar um passo,
sem que seja necessário um gesto.
sim, algo...
e eu estou triste,
e respiro profundamente
e escrevo desatentamente:
não é preciso atenção,
pois tua mão me calça a minha mão, agora, e me guia
através destas linhas inúteis
em direção a você – talvez na contramão de todo o resto.
em direção a esta duradoura presença
que não compreendo.
essa presença
tão distante
que só assim a ouso buscar,
e ainda assim tão presente
que não buscar se faz impossível.
algo
que chora
na casa vazia.
Comentários (4)
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
Belos textos.