Lista de Poemas
Silêncio
Quero louvar-te, meu amor,
Na mais antiga linguagem.
Louvar-te com despudor,
Louvar-te sem ter imagem.
Louvar-te além da mensagem.
Quero louvar-te, meu amor.
Quero louvar-te com calma
Ardente, como uma vela
Que te possa aquecer a alma.
Louvar-te em linguagem bela.
Linguagem que o amor revela.
– Quero louvar-te em silêncio.
Na mais antiga linguagem.
Louvar-te com despudor,
Louvar-te sem ter imagem.
Louvar-te além da mensagem.
Quero louvar-te, meu amor.
Quero louvar-te com calma
Ardente, como uma vela
Que te possa aquecer a alma.
Louvar-te em linguagem bela.
Linguagem que o amor revela.
– Quero louvar-te em silêncio.
166
parafuso [prosa]
Fitei-o de soslaio dentre os demais que fixavam cantoneiras à parede. Ele, destoante, intrigou-me. Aproximei-me para examiná-lo.
Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
E por que haveria de ser diferente?
Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
Mas a elas não há peça de reposição.
O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
E a ausência dói eternamente.
E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.
Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
E por que haveria de ser diferente?
Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
Mas a elas não há peça de reposição.
O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
E a ausência dói eternamente.
E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.
145
coisas
O eco gentil da risada,
A brisa que não significa nada...
Os sonhos mais descontentes,
As nuvens que passam indiferentes...
Conjecturas impossíveis,
O ardor ante os estilhaços plausíveis...
O bom sabor da indecência,
O desbravamento da inconsciência...
A linda flor que não amei,
A busca pungente do eu que não sei...
As noites ébrias de fome,
Uma voz que me chame pelo nome...
O vasto saber dos sábios,
O Sol que decora meus secos lábios...
O revisitar das idades,
E a lua que me mata de saudades...
Contra as costelas aperto com força
– Das mais sutis às dolorosas coisas –,
Mesmo o que um dia me deixou insano.
Deixo que se infiltre no meu coração
– O beijo ou a dor de qualquer sensação
Que me relembre que inda vivo,
Humano.
A brisa que não significa nada...
Os sonhos mais descontentes,
As nuvens que passam indiferentes...
Conjecturas impossíveis,
O ardor ante os estilhaços plausíveis...
O bom sabor da indecência,
O desbravamento da inconsciência...
A linda flor que não amei,
A busca pungente do eu que não sei...
As noites ébrias de fome,
Uma voz que me chame pelo nome...
O vasto saber dos sábios,
O Sol que decora meus secos lábios...
O revisitar das idades,
E a lua que me mata de saudades...
Contra as costelas aperto com força
– Das mais sutis às dolorosas coisas –,
Mesmo o que um dia me deixou insano.
Deixo que se infiltre no meu coração
– O beijo ou a dor de qualquer sensação
Que me relembre que inda vivo,
Humano.
189
Eros I
De um brinde rouco de taças vazias
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.
De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...
E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,
Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.
De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...
E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,
Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
170
Migalha
Tem muito de ti
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.
Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.
Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.
E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.
Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.
Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.
E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
615
Cinzas Ao Vento
Apanhei as memórias remanescentes
De um amor que há muito se findou
E as incendiei,
Até que não restasse mais nada
Além das cinzas,
As quais soprei em direção ao esquecimento
Ah, mas que tolo eu fui
Ao crer que lograria êxito o meu intento
Afinal, em meio às idas e vindas
Dos vendavais da vida,
As cinzas sempre retornam com o vento
De um amor que há muito se findou
E as incendiei,
Até que não restasse mais nada
Além das cinzas,
As quais soprei em direção ao esquecimento
Ah, mas que tolo eu fui
Ao crer que lograria êxito o meu intento
Afinal, em meio às idas e vindas
Dos vendavais da vida,
As cinzas sempre retornam com o vento
850
Soneto do Seminarista
Em memória de Machado de Assis.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!
Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!
E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,
Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!
Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!
E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,
Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
218
Quantas Mortes Tem a Vida?
Quanto mais hei de morrer
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?
Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?
Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.
Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?
Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?
Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.
Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
234
Rasga-me, Mata-me... Mas Ama-me
Se tua preocupação é rasgar-me,
Querida, não tenhas tanto receio
No incerto âmago do teu seio.
Rasga-me. Mais que isso – mata-me.
Morrerei sem pudor.
Pior seria morrer de muito temer
E, por não aceitar sofrer,
Baldar a chama de um amor.
Rasguemo-nos mutuamente
Bailemo-nos na mesma chama
Livra-te do receio, e me ama...
Mata-me de amar intensamente.
Querida, não tenhas tanto receio
No incerto âmago do teu seio.
Rasga-me. Mais que isso – mata-me.
Morrerei sem pudor.
Pior seria morrer de muito temer
E, por não aceitar sofrer,
Baldar a chama de um amor.
Rasguemo-nos mutuamente
Bailemo-nos na mesma chama
Livra-te do receio, e me ama...
Mata-me de amar intensamente.
710
a vida é súbita
súbitas foram todas as flores
pelos caminhos colhidas,
e nunca palpáveis à distância:
no ponto em que surgiram,
existiram,
e traduzidas não cessaram.
nem foram catalogados
em futurologias
os cantos das aves submersas
em folhas de verde silêncio,
que imprescindíveis
e imprevisíveis
o fogo dos poentes sustentaram.
agora,
a sombra encobre
a encruzilhada.
o silêncio não acalanta,
a voz não chega à superfície,
e entre as pedras espalhadas
pelos incompreensíveis poros
que distam presente e memória,
resquícios de riso
buscam o riso,
porém se quebram e calam.
aves com asas de faca
rodeiam a morta flor
delimitada
dentro da palavra flor.
o desperdiçado pólen
pesa sobre a mão
que conteve a abelha.
a cidade é grande,
mortalmente pragmática.
é fácil perder
as flores.
mas a poeira nas botas
remete à permanência da estrada.
entre uma pedra e outra pedra,
súbitas são as flores.
mas o coração sabidamente vermelho
pulsa alinhado
às cores das pétalas.
súbitos são os pássaros.
a mim,
desaprendido do ofício da alegria,
não seja, talvez, tempo
de desprender-me do ofício
da esperança.
a vida é súbita,
entre a inflorescência e a semente arruinada,
lampeja e desaparece,
e então regressa,
sempre à espera de nascer.
uma centelha rompendo
um caminho sem luz.
velha vida, lembrança da vida futura,
porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
pelos caminhos colhidas,
e nunca palpáveis à distância:
no ponto em que surgiram,
existiram,
e traduzidas não cessaram.
nem foram catalogados
em futurologias
os cantos das aves submersas
em folhas de verde silêncio,
que imprescindíveis
e imprevisíveis
o fogo dos poentes sustentaram.
agora,
a sombra encobre
a encruzilhada.
o silêncio não acalanta,
a voz não chega à superfície,
e entre as pedras espalhadas
pelos incompreensíveis poros
que distam presente e memória,
resquícios de riso
buscam o riso,
porém se quebram e calam.
aves com asas de faca
rodeiam a morta flor
delimitada
dentro da palavra flor.
o desperdiçado pólen
pesa sobre a mão
que conteve a abelha.
a cidade é grande,
mortalmente pragmática.
é fácil perder
as flores.
mas a poeira nas botas
remete à permanência da estrada.
entre uma pedra e outra pedra,
súbitas são as flores.
mas o coração sabidamente vermelho
pulsa alinhado
às cores das pétalas.
súbitos são os pássaros.
a mim,
desaprendido do ofício da alegria,
não seja, talvez, tempo
de desprender-me do ofício
da esperança.
a vida é súbita,
entre a inflorescência e a semente arruinada,
lampeja e desaparece,
e então regressa,
sempre à espera de nascer.
uma centelha rompendo
um caminho sem luz.
velha vida, lembrança da vida futura,
porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
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Comentários (4)
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seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
Belos textos.