yuri petrilli

yuri petrilli

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n. 2000-12-26, Cerquilho SP

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três sonetilhos

I

este infinito instante
em que vives agora
basta apenas que pisques
e pronto: é memória

inda não dás por isto
à sombra das batalhas
mas o tempo que torna
as crianças grisalhas

é este mesmo que colhe
teus momentos dispersos
e te confunde os olhos

para te dar, enfim,
da vida, alguns versos,
dos sonhos, seus espólios.


II

abre os olhos e vê:
o tempo já passou.
apenas em você
o instante não murchou.

este lugar não é
o de quando eras outro.
se aqui ainda vives,
talvez estejas morto.

nem houve no intervalo
de tempo dos teus olhos
qualquer sonho ou excesso...

mas se passaram anos.
e é como se tivesses
vivido em retrospecto.


III

como aceitar que a mão
que a minha mão enlaça
é só minha outra mão
que o coração disfarça?

a memória é um tecido
assim dissimulado
que tanto nos engana
mesmo estando rasgado

ah, que doce a mentira
que em mim se acalora
quase fisicamente...

mas o tecido é falho.
e as minhas mãos se esfriam
melancolicamente...

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Poemas

169

Silêncio

Quero louvar-te, meu amor,
Na mais antiga linguagem.
Louvar-te com despudor,
Louvar-te sem ter imagem.
Louvar-te além da mensagem.

Quero louvar-te, meu amor.

Quero louvar-te com calma
Ardente, como uma vela
Que te possa aquecer a alma.
Louvar-te em linguagem bela.
Linguagem que o amor revela.

– Quero louvar-te em silêncio.
185

Eros I

De um brinde rouco de taças vazias
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.

De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...

E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,

Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
180

coisas

O eco gentil da risada,
A brisa que não significa nada...

Os sonhos mais descontentes,
As nuvens que passam indiferentes...

Conjecturas impossíveis,
O ardor ante os estilhaços plausíveis...

O bom sabor da indecência,
O desbravamento da inconsciência...

A linda flor que não amei,
A busca pungente do eu que não sei...

As noites ébrias de fome,
Uma voz que me chame pelo nome...

O vasto saber dos sábios,
O Sol que decora meus secos lábios...

O revisitar das idades,
E a lua que me mata de saudades...

Contra as costelas aperto com força
– Das mais sutis às dolorosas coisas –,
 Mesmo o que um dia me deixou insano.

Deixo que se infiltre no meu coração
– O beijo ou a dor de qualquer sensação
Que me relembre que inda vivo,

Humano.
198

despedida

Não digas nada. Contempla
O luzir dos olhos tristes
Em que outrora viste estrelas.

Aperta contra teu peito
A essência da despedida,
E aceita, também, o aperto.

Despede-te calmamente;
Desenlaça a sombra e a deixa
Partir pela madrugada.

E afaga teu coração,
Bem como um dia afagaste
O pranto de quem te amou.

Dorme, que a aurora não tarda.
168

Rasga-me, Mata-me... Mas Ama-me

Se tua preocupação é rasgar-me,
Querida, não tenhas tanto receio
No incerto âmago do teu seio.
Rasga-me. Mais que isso – mata-me.

Morrerei sem pudor.
Pior seria morrer de muito temer
E, por não aceitar sofrer,
Baldar a chama de um amor.

Rasguemo-nos mutuamente
Bailemo-nos na mesma chama
Livra-te do receio, e me ama...
Mata-me de amar intensamente.
729

Soneto do Seminarista

Em memória de Machado de Assis.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!

Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!    
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!

E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,

Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
237

Quantas Mortes Tem a Vida?

Quanto mais hei de morrer
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?

Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?

Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.

Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
247

Migalha

Tem muito de ti
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.

Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.

Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.

E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
641

Cinzas Ao Vento

Apanhei as memórias remanescentes
De um amor que há muito se findou
E as incendiei,
Até que não restasse mais nada
Além das cinzas,
As quais soprei em direção ao esquecimento

Ah, mas que tolo eu fui
Ao crer que lograria êxito o meu intento
Afinal, em meio às idas e vindas
Dos vendavais da vida,
As cinzas sempre retornam com o vento
860

de rosa em jasmim

e quando falas da flor,
este, que é um símbolo herdado,
falas, de fato, do amor
que algum poeta, há mil anos,
morreu sem ter confessado
22

Comentários (4)

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sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.