Lista de Poemas

Silêncio

Quero louvar-te, meu amor,
Na mais antiga linguagem.
Louvar-te com despudor,
Louvar-te sem ter imagem.
Louvar-te além da mensagem.

Quero louvar-te, meu amor.

Quero louvar-te com calma
Ardente, como uma vela
Que te possa aquecer a alma.
Louvar-te em linguagem bela.
Linguagem que o amor revela.

– Quero louvar-te em silêncio.
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parafuso [prosa]

Fitei-o de soslaio dentre os demais que fixavam cantoneiras à parede. Ele, destoante, intrigou-me. Aproximei-me para examiná-lo.
                   Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
                   Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
                   Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
                   Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
                   Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
                   O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
                   E por que haveria de ser diferente?
                   Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
                   Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
                   E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
                   Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
                   Mas a elas não há peça de reposição.
                   O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
                   O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
                   E a ausência dói eternamente.
                   E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
                   E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.
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coisas

O eco gentil da risada,
A brisa que não significa nada...

Os sonhos mais descontentes,
As nuvens que passam indiferentes...

Conjecturas impossíveis,
O ardor ante os estilhaços plausíveis...

O bom sabor da indecência,
O desbravamento da inconsciência...

A linda flor que não amei,
A busca pungente do eu que não sei...

As noites ébrias de fome,
Uma voz que me chame pelo nome...

O vasto saber dos sábios,
O Sol que decora meus secos lábios...

O revisitar das idades,
E a lua que me mata de saudades...

Contra as costelas aperto com força
– Das mais sutis às dolorosas coisas –,
 Mesmo o que um dia me deixou insano.

Deixo que se infiltre no meu coração
– O beijo ou a dor de qualquer sensação
Que me relembre que inda vivo,

Humano.
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Eros I

De um brinde rouco de taças vazias
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.

De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...

E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,

Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
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Migalha

Tem muito de ti
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.

Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.

Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.

E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
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Cinzas Ao Vento

Apanhei as memórias remanescentes
De um amor que há muito se findou
E as incendiei,
Até que não restasse mais nada
Além das cinzas,
As quais soprei em direção ao esquecimento

Ah, mas que tolo eu fui
Ao crer que lograria êxito o meu intento
Afinal, em meio às idas e vindas
Dos vendavais da vida,
As cinzas sempre retornam com o vento
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Soneto do Seminarista

Em memória de Machado de Assis.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!

Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!    
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!

E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,

Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
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Quantas Mortes Tem a Vida?

Quanto mais hei de morrer
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?

Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?

Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.

Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
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Rasga-me, Mata-me... Mas Ama-me

Se tua preocupação é rasgar-me,
Querida, não tenhas tanto receio
No incerto âmago do teu seio.
Rasga-me. Mais que isso – mata-me.

Morrerei sem pudor.
Pior seria morrer de muito temer
E, por não aceitar sofrer,
Baldar a chama de um amor.

Rasguemo-nos mutuamente
Bailemo-nos na mesma chama
Livra-te do receio, e me ama...
Mata-me de amar intensamente.
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a vida é súbita

súbitas foram todas as flores
pelos caminhos colhidas,
e nunca palpáveis à distância:
no ponto em que surgiram,
existiram,
e traduzidas não cessaram.

nem foram catalogados
em futurologias
os cantos das aves submersas
em folhas de verde silêncio,
que imprescindíveis
e imprevisíveis
o fogo dos poentes sustentaram.

agora,
a sombra encobre
a encruzilhada.
o silêncio não acalanta,
a voz não chega à superfície,
e entre as pedras espalhadas
pelos incompreensíveis poros
que distam presente e memória,
resquícios de riso
buscam o riso,
porém se quebram e calam.

aves com asas de faca
rodeiam a morta flor
delimitada
dentro da palavra flor.
o desperdiçado pólen
pesa sobre a mão
que conteve a abelha.
a cidade é grande,
mortalmente pragmática.
é fácil perder 
as flores.

mas a poeira nas botas
remete à permanência da estrada.
entre uma pedra e outra pedra,
súbitas são as flores.

mas o coração sabidamente vermelho
pulsa alinhado
às cores das pétalas.
súbitos são os pássaros.

a mim,
desaprendido do ofício da alegria,
não seja, talvez, tempo
de desprender-me do ofício
da esperança.
a vida é súbita,
entre a inflorescência e a semente arruinada,
lampeja e desaparece,
e então regressa,
sempre à espera de nascer.
uma centelha rompendo
um caminho sem luz.

velha vida, lembrança da vida futura,
porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
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Comentários (4)

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sthefany

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi

Belos textos.