Silêncio
Quero louvar-te, meu amor,
Na mais antiga linguagem.
Louvar-te com despudor,
Louvar-te sem ter imagem.
Louvar-te além da mensagem.
Quero louvar-te, meu amor.
Quero louvar-te com calma
Ardente, como uma vela
Que te possa aquecer a alma.
Louvar-te em linguagem bela.
Linguagem que o amor revela.
– Quero louvar-te em silêncio.
Eros I
De um brinde rouco de taças vazias
Ecoam no ar as mais sutis poesias,
Que precipitam em gotas de ardor
E queimam nossas carnes sem pudor.
De âmago esparramado pelo chão,
A brasa forjou, num só coração,
Um selvagem violino que geme
Ao toque macio da mão que freme...
E, à medida que avança a sinfonia,
As cordas emaranham, e o arco pende.
Enquanto a madrugada, em carmesim,
Contempla a bagunça desta euforia
E quais são nossas almas, já não entende...
– Pois não mais distingue você de mim.
coisas
O eco gentil da risada,
A brisa que não significa nada...
Os sonhos mais descontentes,
As nuvens que passam indiferentes...
Conjecturas impossíveis,
O ardor ante os estilhaços plausíveis...
O bom sabor da indecência,
O desbravamento da inconsciência...
A linda flor que não amei,
A busca pungente do eu que não sei...
As noites ébrias de fome,
Uma voz que me chame pelo nome...
O vasto saber dos sábios,
O Sol que decora meus secos lábios...
O revisitar das idades,
E a lua que me mata de saudades...
Contra as costelas aperto com força
– Das mais sutis às dolorosas coisas –,
Mesmo o que um dia me deixou insano.
Deixo que se infiltre no meu coração
– O beijo ou a dor de qualquer sensação
Que me relembre que inda vivo,
Humano.
despedida
Não digas nada. Contempla
O luzir dos olhos tristes
Em que outrora viste estrelas.
Aperta contra teu peito
A essência da despedida,
E aceita, também, o aperto.
Despede-te calmamente;
Desenlaça a sombra e a deixa
Partir pela madrugada.
E afaga teu coração,
Bem como um dia afagaste
O pranto de quem te amou.
Dorme, que a aurora não tarda.
Rasga-me, Mata-me... Mas Ama-me
Se tua preocupação é rasgar-me,
Querida, não tenhas tanto receio
No incerto âmago do teu seio.
Rasga-me. Mais que isso – mata-me.
Morrerei sem pudor.
Pior seria morrer de muito temer
E, por não aceitar sofrer,
Baldar a chama de um amor.
Rasguemo-nos mutuamente
Bailemo-nos na mesma chama
Livra-te do receio, e me ama...
Mata-me de amar intensamente.
Soneto do Seminarista
Em memória de Machado de Assis.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!
Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!
E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,
Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Quantas Mortes Tem a Vida?
Quanto mais hei de morrer
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?
Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?
Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.
Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
Migalha
Tem muito de ti
No pouco de mim.
Tu és começo e fim
Do que escrevo aqui.
Cada rouca rima
Dedico-te, a um traço
Ou, quiçá, um abraço
– Mesmo uma lágrima.
Todas as memórias doces
São dóceis fragmentos
Do que me fosses.
E cada poema meu
Não passa de migalha
De um sorriso teu.
Cinzas Ao Vento
Apanhei as memórias remanescentes
De um amor que há muito se findou
E as incendiei,
Até que não restasse mais nada
Além das cinzas,
As quais soprei em direção ao esquecimento
Ah, mas que tolo eu fui
Ao crer que lograria êxito o meu intento
Afinal, em meio às idas e vindas
Dos vendavais da vida,
As cinzas sempre retornam com o vento
de rosa em jasmim
e quando falas da flor,
este, que é um símbolo herdado,
falas, de fato, do amor
que algum poeta, há mil anos,
morreu sem ter confessado