Poemas neste tema
Relações e Família
Corrêa de Araújo
Carta
Quisera escrever-lhe com uma letrinha
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um "eternamente sua",
mas quem sabe se você me quererá para
sempre?
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
redonda e bonita de aluna
de Escola Normal.
Ia dizendo que sinto saudades, mas não
é bem isso. O que sinto é uma agonia
dolorosa, porque a gente sabe que
não dá para matar.
Ia dizendo que o amo,
mas é assim que se entrega uma vida?
Ia terminando com um "eternamente sua",
mas quem sabe se você me quererá para
sempre?
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
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Maria Helena Nery Garcez
Romantismo
Venho das ruas molhadas e desertas.
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
Dos reflexos polícromos da noite iluminada
e sem estrelas.
Dou-me conta agora de nem ter ligado para o céu,
toupeira que se contenta com as luzes das poças.
Ah! a vontade de estar só, num rochedo,
a ver o mar alto, cinzento e conturbado.
Desde que partilhei uma flor amarela
estarei me tornando romântica?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988
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Corrêa de Araújo
Ato de Contrição
Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
1 711
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Alice Ruiz
Drumundana
e agora maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
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Alice Ruiz
Drumundana
e agora maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24)
NOTA: Paródia do poema "José", do livro POESIAS (1942), de Carlos Drummond de Andrad
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Pedro Kilkerry
Vinho, 1909
Alma presa da Grécia, em prisão de turquesa!
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!
Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!
Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...
Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 198
Vibre a Vida a cantar nessas taças à Vida,
Como, dentro do Sangue, a Alma da Natureza
— Num seio nu, num ventre nu, — ferve incendida!
Vinho de Cós! e quente! a escorrer sobre a mesa
Como um rio de fogo, onde vela perdida,
Braço branco, embalada à flor da correnteza,
Floresce ao sol, floresce à luz, floresce à Vida!
Oh! benvinda; benvinda essa vela que chega!
Nau de rastro que traz a ilusão de uma grega
Descerrando à Volúpia a clâmida aquecida...
Vinho de Cós! vinho de Cós! e os nossos olhos
De Virgílios a errar entre vagas e escolhos,
Argonautas de Amor sobre os mares da Vida!
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisão de Kilkerry. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 198
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Cora Coralina
Ô de Casa!
(...)
Acontecia à noite, alta noite com chuva, frio ou lua clara,
passantes com cargueiros e família darem: "Ô, de casa..."
Meu avô era o primeiro a levantar, abrir a janela:
"Ô de fora... Tome chegada."
O chefe do comboio se adiantava:
"De passagem para o comércio levando cargas, a patroa perrengue,
mofina, pedia um encosto até "demanhã".
Mais, um fecho para os "alimais".
Meu avô abria a porta, franqueava a casa.
Tia Nhá-Bá, de candeia na mão, procurava a cozinha,
acompanhada de Ricarda sonolenta. Avivar o fogo, fazer café, a praxe,
Aquecer o leite. Meu avô ouvia as informações. Não especulava.
Oferecia acomodação, no dentro, quarto de hóspedes.
Quase sempre agradeciam. Se arrumavam ali mesmo no vasto alpendre
[coberto
Descarregavam as mulas, encostavam a carga.
Tia Nhá-Bá comparecia, oferecia bacião de banho à dona, e aos
[meninos,
quitandas.
Aceitavam ou não. Queriam, só mais, aquele encosto,
estendiam os couros, baixeiros, arreatas, se encostavam.
Meu avô franqueava o paiol. Milho à vontade para os animais de sela,
[de carga.
Eles acendiam fogo, se arranjavam naquele agasalho bondoso,
[primitivo.
Levantávamos curiosas, afoitas, ver os passantes.
Acompanhá-los ao curral, oferecer as coisas da casa.
Ajoujavam os cargueiros, remetiam as bruacas nas cangalhas.
Faziam suas despedidas, pediam a conta das despesas.
Meu avô recusava qualquer pagamento — Lei da Hospitalidade.
Os camaradas já tinham feito o almoço lá deles. Já tinha madrugado
para as restantes cinco léguas. Convidava-se a demorar mais na volta.
Despediam-se em gratidão e repouso.
Era assim no antigamente, naqueles velhos reinos de Goiás.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
Acontecia à noite, alta noite com chuva, frio ou lua clara,
passantes com cargueiros e família darem: "Ô, de casa..."
Meu avô era o primeiro a levantar, abrir a janela:
"Ô de fora... Tome chegada."
O chefe do comboio se adiantava:
"De passagem para o comércio levando cargas, a patroa perrengue,
mofina, pedia um encosto até "demanhã".
Mais, um fecho para os "alimais".
Meu avô abria a porta, franqueava a casa.
Tia Nhá-Bá, de candeia na mão, procurava a cozinha,
acompanhada de Ricarda sonolenta. Avivar o fogo, fazer café, a praxe,
Aquecer o leite. Meu avô ouvia as informações. Não especulava.
Oferecia acomodação, no dentro, quarto de hóspedes.
Quase sempre agradeciam. Se arrumavam ali mesmo no vasto alpendre
[coberto
Descarregavam as mulas, encostavam a carga.
Tia Nhá-Bá comparecia, oferecia bacião de banho à dona, e aos
[meninos,
quitandas.
Aceitavam ou não. Queriam, só mais, aquele encosto,
estendiam os couros, baixeiros, arreatas, se encostavam.
Meu avô franqueava o paiol. Milho à vontade para os animais de sela,
[de carga.
Eles acendiam fogo, se arranjavam naquele agasalho bondoso,
[primitivo.
Levantávamos curiosas, afoitas, ver os passantes.
Acompanhá-los ao curral, oferecer as coisas da casa.
Ajoujavam os cargueiros, remetiam as bruacas nas cangalhas.
Faziam suas despedidas, pediam a conta das despesas.
Meu avô recusava qualquer pagamento — Lei da Hospitalidade.
Os camaradas já tinham feito o almoço lá deles. Já tinha madrugado
para as restantes cinco léguas. Convidava-se a demorar mais na volta.
Despediam-se em gratidão e repouso.
Era assim no antigamente, naqueles velhos reinos de Goiás.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
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Inácio José de Alvarenga Peixoto
De açucenas e rosas misturadas
De açucenas e rosas misturadas
não se adornam as vossas faces belas,
nem as formosas tranças são daquelas
que dos raios do sol foram forjadas.
As meninas dos olhos delicadas,
verde, preto ou azul não brilha nelas;
mas o autor soberano das estrelas
nenhumas fez a elas comparadas.
Ah, Jônia, as açucenas e as rosas,
a cor dos olhos e as tranças d'oiro
podem fazer mil Ninfas melindrosas;
Porém quanto é caduco esse tesoiro:
vós, sobre a sorte toda das formosas,
inda ostentais na sábia frente o loiro!
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
não se adornam as vossas faces belas,
nem as formosas tranças são daquelas
que dos raios do sol foram forjadas.
As meninas dos olhos delicadas,
verde, preto ou azul não brilha nelas;
mas o autor soberano das estrelas
nenhumas fez a elas comparadas.
Ah, Jônia, as açucenas e as rosas,
a cor dos olhos e as tranças d'oiro
podem fazer mil Ninfas melindrosas;
Porém quanto é caduco esse tesoiro:
vós, sobre a sorte toda das formosas,
inda ostentais na sábia frente o loiro!
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
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Augusto Frederico Schmidt
V (Sonetos)
Noites, estranhas noites, doces noites!
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.
Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.
A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.
Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda: não mudei!
Publicado no livro Pássaro cego (1930).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.
Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.
A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.
Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda: não mudei!
Publicado no livro Pássaro cego (1930).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
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2
Ilka Brunhilde Laurito
Comunhão
Já que me sinto muito digna
de me assentar à tua mesa,
não quero migalhas, não,
eu quero o pão inteiro.
Tu e eu, massa e fermento
em ávido silêncio:
casca e miolo,
o bolo
e o seu recheio
Vem.
Estende os lençóis sobre esta
mesa
com cheiro de suor e de
alfazema.
E vamos trabalhar a noite
e o seu levedo
com as mãos,
a boca,
o corpo aceso,
para que a aurora nos en-
tregue,
ainda quentes,
as últimas fatias de amor
amanhecente
com gosto de café, de leite
e de manteiga.
Poema integrante da série Oficina Passionária.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
de me assentar à tua mesa,
não quero migalhas, não,
eu quero o pão inteiro.
Tu e eu, massa e fermento
em ávido silêncio:
casca e miolo,
o bolo
e o seu recheio
Vem.
Estende os lençóis sobre esta
mesa
com cheiro de suor e de
alfazema.
E vamos trabalhar a noite
e o seu levedo
com as mãos,
a boca,
o corpo aceso,
para que a aurora nos en-
tregue,
ainda quentes,
as últimas fatias de amor
amanhecente
com gosto de café, de leite
e de manteiga.
Poema integrante da série Oficina Passionária.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
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Álvares de Azevedo
O Lenço Dela
Quando a primeira vez, da minha terra
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.
Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.
Quantos anos contudo já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...
Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.
Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.
Quantos anos contudo já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...
Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Pedro Kilkerry
Essa, que paira em meus sonhos
Essa, que paira em meus sonhos,
Em meus sonhos a brilhar,
E tem nos lábios risonhos
O nácar do Iônio — Mar —
Numa fantasia estranha,
Estranhamente a sonhei
E de beleza tamanha,
Enlouqueci. É o que sei.
Ela era, em plaustro dourado
Levado de urcos azuis,
De Paros nevirrosado,
Ombros nus, os seios nus...
E que de esteiras de estrelas,
De prásio, opala e rubim!
Na praia perto, por vê-las
Vi que saltava um delfim
Que longamente as fitando
Alçou a cauda, a tremer
E outros delfins, senão quando
Aparecer.
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
Em meus sonhos a brilhar,
E tem nos lábios risonhos
O nácar do Iônio — Mar —
Numa fantasia estranha,
Estranhamente a sonhei
E de beleza tamanha,
Enlouqueci. É o que sei.
Ela era, em plaustro dourado
Levado de urcos azuis,
De Paros nevirrosado,
Ombros nus, os seios nus...
E que de esteiras de estrelas,
De prásio, opala e rubim!
Na praia perto, por vê-las
Vi que saltava um delfim
Que longamente as fitando
Alçou a cauda, a tremer
E outros delfins, senão quando
Aparecer.
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
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Aureliano Lessa
Êxtasis
Quando, após longa e pensativa pausa
— Eu te amo — dizem teus sonoros lábios,
Baixa do céu e pousa na minha alma
Uma nuvem de ofertas tão suaves;
Como de um sonho os mágicos eflúvios...
— Em êxtases me embebo, e nem meus lábios
Podem ao menos sussurar
— Eu te amo! —
A tua voz percorre as minhas veias,
Banha-me o coração, cerca minha alma.
Enleia-me a existência, e — teu escravo —
Sofro, gemo, desvairo, e quase expiro...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
— Eu te amo — dizem teus sonoros lábios,
Baixa do céu e pousa na minha alma
Uma nuvem de ofertas tão suaves;
Como de um sonho os mágicos eflúvios...
— Em êxtases me embebo, e nem meus lábios
Podem ao menos sussurar
— Eu te amo! —
A tua voz percorre as minhas veias,
Banha-me o coração, cerca minha alma.
Enleia-me a existência, e — teu escravo —
Sofro, gemo, desvairo, e quase expiro...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
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2
Junqueira Freire
À Morte de Garrett
No doce arranco
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.
E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.
Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.
Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.
Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.
Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
4 989
2
Silva Alvarenga
Madrigal III [Voai, suspiros tristes
Voai, suspiros tristes;
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.
Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.
Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).
In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.
Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.
Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).
In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
3 930
2
Fagundes Varela
Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
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2
Vladimir Maiakovski
IMPOSSÍVEL
Sozinho não posso carregar um piano e menos ainda um cofre-forte.
Como poderia então retomar de ti meu coração e carregá-lo de volta?
Os banqueiros dizem com razão: "Quando nos faltam bolsos, nós que somos muitíssimo ricos, guardamos o dinheiro no banco".
Em ti depositei meu amor, tesouro encerrado em caixa de ferro, e ando por aí como um Creso contente.
É natural, pois, quando me dá vontade, que eu retire um sorriso, a metade de um sorriso ou menos até e indo com as donas eu gaste depois da meia-noite uns quantos rublos de lirismo à toa.
Como poderia então retomar de ti meu coração e carregá-lo de volta?
Os banqueiros dizem com razão: "Quando nos faltam bolsos, nós que somos muitíssimo ricos, guardamos o dinheiro no banco".
Em ti depositei meu amor, tesouro encerrado em caixa de ferro, e ando por aí como um Creso contente.
É natural, pois, quando me dá vontade, que eu retire um sorriso, a metade de um sorriso ou menos até e indo com as donas eu gaste depois da meia-noite uns quantos rublos de lirismo à toa.
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William Shakespeare
Trabalhos de Amor Perdidos
Mas o amor, primeiro aprendido em uns olhos de mulher,
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é o amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteados com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
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2
Paulo Leminski
Amor, então,
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
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2
Martins Fontes
Balada Madrigalesca
À moda clássica, ao sabor
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
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2
Mafalda Veiga
Cada Lugar Teu
Sei de cor cada lugar teu
Atado em mim
A cada lugar meu
Tento entender o rumo
Que a vida nos faz tomar
Tento esquecer a mágoa
Guardar só o que é bom de guardar
Pensa em mim
Protege o que eu te dou
Eu penso em ti
E dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
Fica em mim que hoje o tempo dói
Como se arrancassem tudo o que já foi
E até o que virá
E até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei
Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve pra longe de nós
E que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto só
Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
Atado em mim
A cada lugar meu
Tento entender o rumo
Que a vida nos faz tomar
Tento esquecer a mágoa
Guardar só o que é bom de guardar
Pensa em mim
Protege o que eu te dou
Eu penso em ti
E dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
Fica em mim que hoje o tempo dói
Como se arrancassem tudo o que já foi
E até o que virá
E até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei
Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve pra longe de nós
E que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto só
Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
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2
Manuel Bandeira
A Canção Das Lágrimas de Pierrot
I
A sala em espelhos brilha
Com lustres de dez mil velas.
Miríades de rodelas
Multicores — maravilha! —
Torvelinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.
E rodam mais que confete,
Em farândolas quebradas,
Cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrette.
II
Pierrot entra em salto súbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decúbito.
A tez, antes melancólica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
Com tanta paixão diabólica,
Tanta, que se lhe ensangúentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essência vibra
Nas cordas que se arrebentam.
III
Seu alaúde de plátano
Milagre é que não se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
— Ai dele! e os cuidados matam-no.
Ai dele! que essa alegria,
Aquelas canções, aquele
Surto não é mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.
Fazendo à cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:
IV
— "Negaste a pele macia
"À minha linda paixão!
"E irás entregá-la um dia
"Aos feios vermes do chão...
"Fiz por ver se te podia
"Amolecer — e não pude!
"Em vão pela noite fria
"Devasto o meu alaúde...
"Minha paz, minha alegria,
"Minha coragem, roubaste-mas...
"E hoje a minh'alma sombria
"E como um poço de lástimas..."
V
Corre após a amada esquiva.
Procura o precário ensejo
De matar o seu desejo
Numa carícia furtiva.
E encontrando-o Colombina,
Se lhe dá, lesta, à socapa,
Em vez de beijo uma tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!...
Ele que estava de rastros,
Pula, e tão alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...
A sala em espelhos brilha
Com lustres de dez mil velas.
Miríades de rodelas
Multicores — maravilha! —
Torvelinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.
E rodam mais que confete,
Em farândolas quebradas,
Cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrette.
II
Pierrot entra em salto súbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decúbito.
A tez, antes melancólica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
Com tanta paixão diabólica,
Tanta, que se lhe ensangúentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essência vibra
Nas cordas que se arrebentam.
III
Seu alaúde de plátano
Milagre é que não se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
— Ai dele! e os cuidados matam-no.
Ai dele! que essa alegria,
Aquelas canções, aquele
Surto não é mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.
Fazendo à cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:
IV
— "Negaste a pele macia
"À minha linda paixão!
"E irás entregá-la um dia
"Aos feios vermes do chão...
"Fiz por ver se te podia
"Amolecer — e não pude!
"Em vão pela noite fria
"Devasto o meu alaúde...
"Minha paz, minha alegria,
"Minha coragem, roubaste-mas...
"E hoje a minh'alma sombria
"E como um poço de lástimas..."
V
Corre após a amada esquiva.
Procura o precário ensejo
De matar o seu desejo
Numa carícia furtiva.
E encontrando-o Colombina,
Se lhe dá, lesta, à socapa,
Em vez de beijo uma tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!...
Ele que estava de rastros,
Pula, e tão alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...
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Sílvio Romero
VI - A Modinha
A festa fervia!... Que voltas ligeiras
Os corpos adestros lá davam sutis!...
Que risos, que galas, que formas faceiras
Das jovens matutas nos lindos perfis!...
Gemia a viola nos seus devaneios,
No ar se perdiam das cordas os sons...
Nos olhos quebrados, nos trêmulos seios
Que graças, que sustos, que mimos, que tons!...
Na dança em vertigem, as frontes pendidas,
Aos meigos requebros, volvia-se um par;
Dos trenos suaves, das notas sentidas
Nas almas caía sereno orvalhar...
E os olhos falavam de gozos celestes —
Brotados nos seios dos sonhos em flor: —
Cochichos, carinhos... ruídos de vestes...
Mas lá do recato sentia-se o olor.
Que doces sonidos de passos sonoros,
Que belas miragens revolvem-se então!...
Aos bons desafios dos peitos canoros
A dança redobra no seu turbilhão...
Recresce o baiano; nos seus refervidos,
Em tais rodopios um céu se desfaz...
Um céu de desejos, de sons, de gemidos,
De sonhos, de cismas que a vida nos traz...
Cansadas as notas, estanque a loquela,
Deixadas as danças, o par se assentou:
"Agora a modinha!..." "Sim, vamos a ela!..."
"Quem canta, que chegue!..." "Se querem eu vou!"
Disse um da festa: e, pondo os dedos trépidos
No violão que geme ao seu ardor,
Dá começo, ao depois que ledo o empalma,
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E cresce o canto alegre, suavíssimo
Como puras manhãs todas em flor...
O ruído do mundo lá se acalma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E das notas que vibra ali dulcíssimas
Sonora a voz do lúcido cantor,
Do belo e da saudade cabe a palma
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
São sonhos palpitantes, ameníssimos
Que ao peito nos imergem seu candor;
Transparece do céu a vida calma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor..."
Poema integrante da série Recordações.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
Os corpos adestros lá davam sutis!...
Que risos, que galas, que formas faceiras
Das jovens matutas nos lindos perfis!...
Gemia a viola nos seus devaneios,
No ar se perdiam das cordas os sons...
Nos olhos quebrados, nos trêmulos seios
Que graças, que sustos, que mimos, que tons!...
Na dança em vertigem, as frontes pendidas,
Aos meigos requebros, volvia-se um par;
Dos trenos suaves, das notas sentidas
Nas almas caía sereno orvalhar...
E os olhos falavam de gozos celestes —
Brotados nos seios dos sonhos em flor: —
Cochichos, carinhos... ruídos de vestes...
Mas lá do recato sentia-se o olor.
Que doces sonidos de passos sonoros,
Que belas miragens revolvem-se então!...
Aos bons desafios dos peitos canoros
A dança redobra no seu turbilhão...
Recresce o baiano; nos seus refervidos,
Em tais rodopios um céu se desfaz...
Um céu de desejos, de sons, de gemidos,
De sonhos, de cismas que a vida nos traz...
Cansadas as notas, estanque a loquela,
Deixadas as danças, o par se assentou:
"Agora a modinha!..." "Sim, vamos a ela!..."
"Quem canta, que chegue!..." "Se querem eu vou!"
Disse um da festa: e, pondo os dedos trépidos
No violão que geme ao seu ardor,
Dá começo, ao depois que ledo o empalma,
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E cresce o canto alegre, suavíssimo
Como puras manhãs todas em flor...
O ruído do mundo lá se acalma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
E das notas que vibra ali dulcíssimas
Sonora a voz do lúcido cantor,
Do belo e da saudade cabe a palma
"Às belas por quem minh'alma
Empalidece de amor!..."
São sonhos palpitantes, ameníssimos
Que ao peito nos imergem seu candor;
Transparece do céu a vida calma
"Nas belas por quem minh'alma
Empalidece de amor..."
Poema integrante da série Recordações.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
2 089
2
Zalina Rolim
Cuidados Maternais
Expor minha filhinha ao sol ardente —
Mamãe diz que é um perigo:
Quero sentar-me ao delicioso abrigo
Deste arbusto virente.
A sombrinha de seda cor-de-rosa
Torna a luz tão suave!...
No arvoredo palpita um ninho de ave
Sob a fronde cheirosa.
Meio-dia. Um barulho de água viva
Cortando o fresco atalho
Do bosque, em fino leito de cascalho,
Marulhoso deriva.
Minha filhinha, a todo o encanto alheia,
Descansa em meus joelhos;
E nos seus lábios doces e vermelhos,
Leve sorriso ondeia.
Pesa-lhe o sono; já entreabre a custo
Os olhos sonolentos,
E adormecê-la assim exposta aos ventos,
Causa-me grande susto.
Tão melindrosa e frágil! Pobre anjinho!
Traz-me em perpétuo anseio...
Quem me dera escondê-la no meu seio
Em faixas de carinho!...
E conservá-la assim — meu sonho eterno —
No íntimo do peito,
E de amor construir-lhe o níveo leito
No coração materno!...
In: ROLIM, Zalina. Livro das crianças. Pref. Gabriel Prestes. Boston: C. F.ammett, 1897. p.15-16. (Série D. Vitalina de Queiroz). Poema integrante da série 1a. Parte: A Sinhô
Mamãe diz que é um perigo:
Quero sentar-me ao delicioso abrigo
Deste arbusto virente.
A sombrinha de seda cor-de-rosa
Torna a luz tão suave!...
No arvoredo palpita um ninho de ave
Sob a fronde cheirosa.
Meio-dia. Um barulho de água viva
Cortando o fresco atalho
Do bosque, em fino leito de cascalho,
Marulhoso deriva.
Minha filhinha, a todo o encanto alheia,
Descansa em meus joelhos;
E nos seus lábios doces e vermelhos,
Leve sorriso ondeia.
Pesa-lhe o sono; já entreabre a custo
Os olhos sonolentos,
E adormecê-la assim exposta aos ventos,
Causa-me grande susto.
Tão melindrosa e frágil! Pobre anjinho!
Traz-me em perpétuo anseio...
Quem me dera escondê-la no meu seio
Em faixas de carinho!...
E conservá-la assim — meu sonho eterno —
No íntimo do peito,
E de amor construir-lhe o níveo leito
No coração materno!...
In: ROLIM, Zalina. Livro das crianças. Pref. Gabriel Prestes. Boston: C. F.ammett, 1897. p.15-16. (Série D. Vitalina de Queiroz). Poema integrante da série 1a. Parte: A Sinhô
1 635
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