Poemas neste tema
Outros
Mário Faustino
Romance
Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sonho vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena.
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
Publicado no livro O Homem e Sua Hora (1955). Poema integrante da série I - Disjecta Membra.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sonho vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena.
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
Publicado no livro O Homem e Sua Hora (1955). Poema integrante da série I - Disjecta Membra.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
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2
Casimiro de Abreu
No Lar
Terra da minha pátria, abre-me o seio
Na morte — ao menos ................
GARRETT.
I
Longe da pátria, sob um céu diverso
Onde o sol como aqui tanto não arde,
Chorei saudades do meu lar querido
— Ave sem ninho que suspira à tarde. —
No mar — de noite — solitário e triste
Fitando os lumes que no céu tremiam,
Ávido e louco nos meus sonhos d'alma
Folguei nos campos que meus olhos viam.
Era pátria e família e vida e tudo,
Glória, amores, mocidade e crença,
E, todo em choros, vim beijar as praias
Por que chorara nessa longa ausência.
Eis-me na pátria, no país das flores,
— O filho pródigo a seus lares volve,
E consertando as suas vestes rotas,
O seu passado com prazer revolve!
Eis meu lar, minha casa, meus amores,
A terra onde nasci, meu teto amigo,
A gruta, a sombra, a solidão, o rio
Onde o amor me nasceu — cresceu comigo.
Os mesmos campos que eu deixei criança,
Árvores novas... tanta flor no prado!...
Oh! como és linda, minha terra d'alma,
— Noiva enfeitada para o seu noivado! —
Foi aqui, foi ali, além... mais longe,
Que eu sentei-me a chorar no fim do dia;
— Lá vejo o atalho que vai dar na várzea...
Lá o barranco por onde eu subia!...
Acho agora mais seca a cachoeira
Onde banhei-me no infantil cansaço...
— Como está velho o laranjal tamanho
Onde eu caçava o sanhaçu a laço!...
Como eu me lembro dos meus dias puros!
Nada m'esquece -... e esquecer quem há de?..
— Cada pedra que eu palpo, ou tronco, ou folha,
Fala-me ainda dessa doce idade!
Eu me remoço recordando a infância,
E tanto a vida me palpita agora
Que eu dera oh! Deus! a mocidade inteira
Por um só dia de viver d'outrora!
É a casa!.. as salas, estes móveis... tudo,
O crucifixo pendurado ao muro...
O quarto do oratório... a sala grande
Onde eu temia penetrar no escuro!...
E ali... naquele canto... o berço armado!
E minha mana, tão gentil, dormindo!
E mamãe a contar-me histórias lindas
Quando eu chorava e a beijava rindo!
Oh! primavera! oh! minha mãe querida!
Oh! mana! — anjinho que eu amei com ânsia —
Vinde ver-me, em soluços — de joelhos —
Beijando em choros este pó da infância!
Imagem - 00300004
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro I.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: Poema composto de 2 partes, cada uma com 13 quadras, datado de Indaiaçu, 185
Na morte — ao menos ................
GARRETT.
I
Longe da pátria, sob um céu diverso
Onde o sol como aqui tanto não arde,
Chorei saudades do meu lar querido
— Ave sem ninho que suspira à tarde. —
No mar — de noite — solitário e triste
Fitando os lumes que no céu tremiam,
Ávido e louco nos meus sonhos d'alma
Folguei nos campos que meus olhos viam.
Era pátria e família e vida e tudo,
Glória, amores, mocidade e crença,
E, todo em choros, vim beijar as praias
Por que chorara nessa longa ausência.
Eis-me na pátria, no país das flores,
— O filho pródigo a seus lares volve,
E consertando as suas vestes rotas,
O seu passado com prazer revolve!
Eis meu lar, minha casa, meus amores,
A terra onde nasci, meu teto amigo,
A gruta, a sombra, a solidão, o rio
Onde o amor me nasceu — cresceu comigo.
Os mesmos campos que eu deixei criança,
Árvores novas... tanta flor no prado!...
Oh! como és linda, minha terra d'alma,
— Noiva enfeitada para o seu noivado! —
Foi aqui, foi ali, além... mais longe,
Que eu sentei-me a chorar no fim do dia;
— Lá vejo o atalho que vai dar na várzea...
Lá o barranco por onde eu subia!...
Acho agora mais seca a cachoeira
Onde banhei-me no infantil cansaço...
— Como está velho o laranjal tamanho
Onde eu caçava o sanhaçu a laço!...
Como eu me lembro dos meus dias puros!
Nada m'esquece -... e esquecer quem há de?..
— Cada pedra que eu palpo, ou tronco, ou folha,
Fala-me ainda dessa doce idade!
Eu me remoço recordando a infância,
E tanto a vida me palpita agora
Que eu dera oh! Deus! a mocidade inteira
Por um só dia de viver d'outrora!
É a casa!.. as salas, estes móveis... tudo,
O crucifixo pendurado ao muro...
O quarto do oratório... a sala grande
Onde eu temia penetrar no escuro!...
E ali... naquele canto... o berço armado!
E minha mana, tão gentil, dormindo!
E mamãe a contar-me histórias lindas
Quando eu chorava e a beijava rindo!
Oh! primavera! oh! minha mãe querida!
Oh! mana! — anjinho que eu amei com ânsia —
Vinde ver-me, em soluços — de joelhos —
Beijando em choros este pó da infância!
Imagem - 00300004
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro I.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: Poema composto de 2 partes, cada uma com 13 quadras, datado de Indaiaçu, 185
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Paulo Leminski
quando eu tiver setenta anos
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Poema integrante da série Caprichos e Relaxos.
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Cantadas literárias, 13
então vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
Poema integrante da série Caprichos e Relaxos.
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Cantadas literárias, 13
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2
Paulo Leminski
Sujeito Indireto
Quem dera eu achasse um jeito
de fazer tudo perfeito,
feito a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto,
de ser, mim, indireto sujeito.
Poema integrante da série Distraídos Venceremos.
In: LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 199
de fazer tudo perfeito,
feito a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto,
de ser, mim, indireto sujeito.
Poema integrante da série Distraídos Venceremos.
In: LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 199
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Alphonsus de Guimaraens
XVII - Serenada
A HENRIQUE MALTA
Da noite pelos ermos
Choram violões.
São como enfermos
Corações.
Dorme a cidade inteira
Em agonia...
A lua é uma caveira
Que nos espia.
Todo o céu se recama
De argêntea luz...
Uma voz clama
Por Jesus.
A quietude morta
Do luar se espalma...
E ao luar em cada porta,
Expira uma alma.
Passam tremendo os velhos...
Ide em paz,
Ó evangelhos
Do Aqui-Jaz!
Toda a triste cidade
É um cemitério...
Há um rumor de saudade
E de mistério.
A nuvem guarda o pranto
Que em si contém...
Do rio o canto
Chora além.
De sul a norte passa,
Como um segredo,
Um hausto de desgraça:
É a voz do medo...
Há pela paz noturna
Um celestial
Silêncio de urna
Funeral...
Pela infinita mágoa
Que em tudo existe,
Ouço o marulho da água,
Sereno e triste.
Da noite pelos ermos
Choram violões...
São como enfermos
Corações.
E em meio da cidade
O rio corre,
Conduzindo a saudade
De alguém que morre...
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série As Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 219-220- (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Da noite pelos ermos
Choram violões.
São como enfermos
Corações.
Dorme a cidade inteira
Em agonia...
A lua é uma caveira
Que nos espia.
Todo o céu se recama
De argêntea luz...
Uma voz clama
Por Jesus.
A quietude morta
Do luar se espalma...
E ao luar em cada porta,
Expira uma alma.
Passam tremendo os velhos...
Ide em paz,
Ó evangelhos
Do Aqui-Jaz!
Toda a triste cidade
É um cemitério...
Há um rumor de saudade
E de mistério.
A nuvem guarda o pranto
Que em si contém...
Do rio o canto
Chora além.
De sul a norte passa,
Como um segredo,
Um hausto de desgraça:
É a voz do medo...
Há pela paz noturna
Um celestial
Silêncio de urna
Funeral...
Pela infinita mágoa
Que em tudo existe,
Ouço o marulho da água,
Sereno e triste.
Da noite pelos ermos
Choram violões...
São como enfermos
Corações.
E em meio da cidade
O rio corre,
Conduzindo a saudade
De alguém que morre...
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série As Canções.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 219-220- (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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Arménio Vieira
Ser tigre
Mar! Mar!
Mar! Mar!
Quem sentiu mar?
Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes
Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia
Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar
Mar!
Raiva-angústia
de revolta contida
Mar!
Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos
Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado
Mar!
O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
Não soa,
porque não respira.
É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.
Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
Porém existe,
por isso espera.
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será
quando for tempo disso.
Mar! Mar!
Quem sentiu mar?
Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes
Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia
Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar
Mar!
Raiva-angústia
de revolta contida
Mar!
Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos
Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado
Mar!
O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
Não soa,
porque não respira.
É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.
Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
Porém existe,
por isso espera.
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será
quando for tempo disso.
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Arménio Vieira
Ser tigre
Mar! Mar!
Mar! Mar!
Quem sentiu mar?
Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes
Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia
Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar
Mar!
Raiva-angústia
de revolta contida
Mar!
Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos
Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado
Mar!
O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
Não soa,
porque não respira.
É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.
Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
Porém existe,
por isso espera.
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será
quando for tempo disso.
Mar! Mar!
Quem sentiu mar?
Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes
Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia
Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar
Mar!
Raiva-angústia
de revolta contida
Mar!
Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos
Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado
Mar!
O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
Não soa,
porque não respira.
É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.
Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
Porém existe,
por isso espera.
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será
quando for tempo disso.
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Olegário Mariano
Cigarra
Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.
Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra...
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra
Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.
Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,
Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.
E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade...
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!
Publicado no livro Evangelho da Sombra e do Silêncio: versos (1911/1912).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.
Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra...
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra
Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.
Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,
Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.
E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade...
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!
Publicado no livro Evangelho da Sombra e do Silêncio: versos (1911/1912).
In: MARIANO, Olegário. Toda uma vida de poesia: poesias completas, 1911/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. v.
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Basílio da Gama
Canto Quarto
(...) Não faltava,
Para se dar princípio à estranha festa,
Mais que Lindóia. Há muito lhe preparam
Todas de brancas penas revestidas
Festões de flores as gentis donzelas.
Cansados de esperar, ao seu retiro
Vão muitos impacientes a buscá-la.
Estes de crespa Tanajura aprendem
Que entrara no jardim triste, e chorosa,
Sem consentir que alguém a acompanhasse.
Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu, que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co'a vista, e teme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota, e interna
Parte de antigo bosque, escuro, e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins, e rosas.
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira, e o temor. Enfim sacode
O arco, e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!
(...)
Imagem - 00200004
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
Para se dar princípio à estranha festa,
Mais que Lindóia. Há muito lhe preparam
Todas de brancas penas revestidas
Festões de flores as gentis donzelas.
Cansados de esperar, ao seu retiro
Vão muitos impacientes a buscá-la.
Estes de crespa Tanajura aprendem
Que entrara no jardim triste, e chorosa,
Sem consentir que alguém a acompanhasse.
Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu, que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co'a vista, e teme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota, e interna
Parte de antigo bosque, escuro, e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins, e rosas.
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira, e o temor. Enfim sacode
O arco, e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!
(...)
Imagem - 00200004
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
4 345
2
Casimiro de Abreu
Os Meus Sonhos
I
Como era belo esse tempo
De tão doces ilusões,
De tardes belas, amenas,
De noites sempre serenas,
De estrelas vivas e puras;
Quadra de riso e de flores
Em que eu sonhava venturas,
Em que eu cuidava de amores.
(...)
II
Sonhei que o mundo era um prado
Lindo, lindo, matizado
Das flores do meu jardim;
Sonhei a vida uma estrada
De gozos entrelaçada,
De gozos que não têm fim.
Esses sonhos de magia
Criei-os na fantasia
À meiga luz do luar,
E quando conta segredos
Na rama dos arvoredos
Na brisa que beija o mar.
(...)
III
Mentira, tudo mentira!
Os meus sonhos... ilusões!
As cordas da minha lira
Já não soletram canções,
A mente já não delira,
E se louco num momento
Revolvo no pensamento
Esse passado de amores...
Se triste o peito suspira...
Eu ouço um eco da terra
Bradar-me com voz que aterra:
— Mentira, tudo mentira!
Foram sonhos. Eram lindos,
Eram lindos... mas passaram!
E desses sonhos já findos
Só lembranças me ficaram.
Só lembranças bem saudosas
Dessas noites tão formosas
Em que os sonhos despontaram,
Só lembranças desses sonhos,
Desses sonhos que passaram!...
Hoje vivo, se é que é vida
Andar co'a fronte pendida
Calado e triste a cismar;
E nessa imensa tristeza,
Nessas horas d'incerteza
Em que adormece o luar,
Em que toda a natureza
E' silêncio, amor e paz,
Eu sinto a alma saudosa
Perguntar com voz queixosa:
— Lindos sonhos, onde estais?!
Então um eco medonho
Responde por cada sonho
C'um gemido... e nada mais!
(...)
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Como era belo esse tempo
De tão doces ilusões,
De tardes belas, amenas,
De noites sempre serenas,
De estrelas vivas e puras;
Quadra de riso e de flores
Em que eu sonhava venturas,
Em que eu cuidava de amores.
(...)
II
Sonhei que o mundo era um prado
Lindo, lindo, matizado
Das flores do meu jardim;
Sonhei a vida uma estrada
De gozos entrelaçada,
De gozos que não têm fim.
Esses sonhos de magia
Criei-os na fantasia
À meiga luz do luar,
E quando conta segredos
Na rama dos arvoredos
Na brisa que beija o mar.
(...)
III
Mentira, tudo mentira!
Os meus sonhos... ilusões!
As cordas da minha lira
Já não soletram canções,
A mente já não delira,
E se louco num momento
Revolvo no pensamento
Esse passado de amores...
Se triste o peito suspira...
Eu ouço um eco da terra
Bradar-me com voz que aterra:
— Mentira, tudo mentira!
Foram sonhos. Eram lindos,
Eram lindos... mas passaram!
E desses sonhos já findos
Só lembranças me ficaram.
Só lembranças bem saudosas
Dessas noites tão formosas
Em que os sonhos despontaram,
Só lembranças desses sonhos,
Desses sonhos que passaram!...
Hoje vivo, se é que é vida
Andar co'a fronte pendida
Calado e triste a cismar;
E nessa imensa tristeza,
Nessas horas d'incerteza
Em que adormece o luar,
Em que toda a natureza
E' silêncio, amor e paz,
Eu sinto a alma saudosa
Perguntar com voz queixosa:
— Lindos sonhos, onde estais?!
Então um eco medonho
Responde por cada sonho
C'um gemido... e nada mais!
(...)
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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2
Alex Polari
Sobre Nossas Companheiras nos Amarem
Elas compõem um imenso partido
de elos partidos, correntes quebradas
partidas sustadas, idas sem volta.
Elas estão presas a uma liberdade forçada
e às vezes retornam a esses muros
quando as luzes da cidade
apenas se extinguem.
Cada uma delas traz em si uma marca:
o conhecimento que o espelho não reflete
o amor semiclandestino do corpo que não sua
o gemido da carícia que se esconde.
Cada uma delas traz em si um medo
de grade que fraciona os orgasmos
do cadeado que divide as sensações
do outro que floresce no próprio luto
daquele que espreita no antigo leito
do reverso da moeda da própria sorte.
Cada uma delas conhece uma dúvida:
da vida anterior que não se repete
do teor imprimido aos novos passos
da espera que continua sendo essencial.
Elas têm dúvidas sobre a liturgia
dos corpos sacramentados pelos anos
das penas excessivas com que os tribunais
condenam nossas ereções inúteis
das garantias necessárias por uma dedicação difícil.
Elas têm toda a razão em suprir a carência
de sexo e de projetos
mas sabem no fundo
que o maior sentimento possível
mora numa enxovia
sombria e úmida.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
de elos partidos, correntes quebradas
partidas sustadas, idas sem volta.
Elas estão presas a uma liberdade forçada
e às vezes retornam a esses muros
quando as luzes da cidade
apenas se extinguem.
Cada uma delas traz em si uma marca:
o conhecimento que o espelho não reflete
o amor semiclandestino do corpo que não sua
o gemido da carícia que se esconde.
Cada uma delas traz em si um medo
de grade que fraciona os orgasmos
do cadeado que divide as sensações
do outro que floresce no próprio luto
daquele que espreita no antigo leito
do reverso da moeda da própria sorte.
Cada uma delas conhece uma dúvida:
da vida anterior que não se repete
do teor imprimido aos novos passos
da espera que continua sendo essencial.
Elas têm dúvidas sobre a liturgia
dos corpos sacramentados pelos anos
das penas excessivas com que os tribunais
condenam nossas ereções inúteis
das garantias necessárias por uma dedicação difícil.
Elas têm toda a razão em suprir a carência
de sexo e de projetos
mas sabem no fundo
que o maior sentimento possível
mora numa enxovia
sombria e úmida.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
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2
Machado de Assis
Noivado
Vês, querida, o horizonte ardendo em chamas?
Além desses outeiros
Vai descambando o sol, e à terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubesce,
Traz no rosto um véu mole e transparente;
No fundo azul a estrela do poente
Já tímida aparece.
Como um bafo suavíssimo da noite,
Vem sussurrando o vento,
As árvores agita e imprime às folhas
O beijo sonolento.
A flor ajeita o cálix: cedo espera
O orvalho, e entanto exala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma;
Como uma sombra austera.
Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que o amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desde o teu sombrio e mudo asilo;
Encontrarás aqui o amor tranqüilo...
Que esperas? que receias?
Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte oposto
A lua, como lâmpada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os círios vão arder no altar sagrado,
Estrelinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de bálsamos rescende
A c'roa do noivado.
Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão contigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No entanto eu preparei teu leito à sombra
Do limoeiro em flor; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e mole alfombra.
Pelas ondas do tempo arrebatados,
Até à morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Firmes, entre o fragor da tempestade,
Gozaremos o bem que amor encerra,
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.48-49. (Biblioteca Luso-Brasileira. Série brasileira
Além desses outeiros
Vai descambando o sol, e à terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubesce,
Traz no rosto um véu mole e transparente;
No fundo azul a estrela do poente
Já tímida aparece.
Como um bafo suavíssimo da noite,
Vem sussurrando o vento,
As árvores agita e imprime às folhas
O beijo sonolento.
A flor ajeita o cálix: cedo espera
O orvalho, e entanto exala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma;
Como uma sombra austera.
Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que o amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desde o teu sombrio e mudo asilo;
Encontrarás aqui o amor tranqüilo...
Que esperas? que receias?
Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte oposto
A lua, como lâmpada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os círios vão arder no altar sagrado,
Estrelinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de bálsamos rescende
A c'roa do noivado.
Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão contigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No entanto eu preparei teu leito à sombra
Do limoeiro em flor; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e mole alfombra.
Pelas ondas do tempo arrebatados,
Até à morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Firmes, entre o fragor da tempestade,
Gozaremos o bem que amor encerra,
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.48-49. (Biblioteca Luso-Brasileira. Série brasileira
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2
Agostinho Neto
Antigamente era
Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom
Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança
A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos
Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo
Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo
E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados
Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
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2
Gulamo Khan
Mocambicanto I
céleres as águas
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.
Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico
uma timbila
canção guerreira
zambezeiam pela memória
das almadias do silêncio
nem o zumbido da cigarra
me entontece
nem o troar do tambor
me ensurdece
as vozes que são
sulcos das nossas esperanças
Oh pátria
mocambiquero-te
neste alumbramento
e amar-te
devo-o à carne e ao nervo
deglutidos em revolta.
Da enxada e do martelo
é o verso escrito na palma
da tua mão punho fechado
que nas alavancas das horas
faz refulgir o aço
analfabetamente parido
Cavador maldito
pronto a decepar o tronco
deste imbondeiro tão pária
carcomido pelas talecuas
sugadoras do seu sangue
e o veneno da nhoca cuspideira
queimando as migalhas bélicas
postadas de cócoras no caminho
dos simples
assim altivo ergues o teu nome
num pais ainda
de nadas e famélicos
desbravando os crápulas bem como os satanhocos.
Sei da Pátria
o nome erguido
a estrela tatuada
no corpo do Indico
uma timbila
canção guerreira
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Emílio de Menezes
O Meu Batismo
Quis alegre surgir pela manhã
Do dia de hoje a procurar alguém
Que quisesse a alegria honesta e sã
Que estas páginas trêfegas contêm.
Fugindo ao nosso eterno rã-me-rã
Busquei um nome que casasse bem
Aos gostos de uma folha folgazã
E a meu próprio aqui dou meu parabém!
Lembraram-me diversos, mas nenhum
Deles, não sei por que, pude achar bom
E quase estive a batizar-me Pum! —
Mas passa um automóvel. Pego o som:
— Fan-fan! — Fen-fen! — Fin-fin! — Fon-fon! Fun-fun!
De fan-fen-fin-fon-fun, quis ser Fon-Fon!
Fon-Fon, Rio de Janeiro, 1, abril, 1907.
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 1980. Poema integrante da série Esparsos e Inéditos
Do dia de hoje a procurar alguém
Que quisesse a alegria honesta e sã
Que estas páginas trêfegas contêm.
Fugindo ao nosso eterno rã-me-rã
Busquei um nome que casasse bem
Aos gostos de uma folha folgazã
E a meu próprio aqui dou meu parabém!
Lembraram-me diversos, mas nenhum
Deles, não sei por que, pude achar bom
E quase estive a batizar-me Pum! —
Mas passa um automóvel. Pego o som:
— Fan-fan! — Fen-fen! — Fin-fin! — Fon-fon! Fun-fun!
De fan-fen-fin-fon-fun, quis ser Fon-Fon!
Fon-Fon, Rio de Janeiro, 1, abril, 1907.
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 1980. Poema integrante da série Esparsos e Inéditos
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2
Geraldo Bessa-Victor
Ode à avó Capinha
Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
hoje que morreste (que tristeza a minha!),
relembro as histórias que tu me contavas
em manhãs de chuva, nas noites de lua...
(E meu ser, magoado, perde-se, flutua
como o sonho errante das almas escravas).
Minha avó Capinha, sou eu que te peço,
conta-me o romance, conta-me o sucesso
dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!),
quando tu dançavas belas batucadas,
pelas noites quentes de febris queimadas,
na velha sanzala que se incendiou...
Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
conta-me essa lenda daquela mocinha
negra, tão formosa, que numa manhã
engoliu um bago de feijão macunde
e ficou (que mágoa no meu ser se funde!)
para todo o sempre pequenina, anã.
Minha avó Capinha, hoje que morreste,
manda-me notícias da mansão celeste:
se também há ódios ou há só amor
(a descrença enorme do teu pobre neto!),
se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto,
ou um Deus existe sem raça nem cor.
hoje que morreste (que tristeza a minha!),
relembro as histórias que tu me contavas
em manhãs de chuva, nas noites de lua...
(E meu ser, magoado, perde-se, flutua
como o sonho errante das almas escravas).
Minha avó Capinha, sou eu que te peço,
conta-me o romance, conta-me o sucesso
dos teus dezoito anos (ai, onde eu estou!),
quando tu dançavas belas batucadas,
pelas noites quentes de febris queimadas,
na velha sanzala que se incendiou...
Minha avó Capinha, minha avó Capinha,
conta-me essa lenda daquela mocinha
negra, tão formosa, que numa manhã
engoliu um bago de feijão macunde
e ficou (que mágoa no meu ser se funde!)
para todo o sempre pequenina, anã.
Minha avó Capinha, hoje que morreste,
manda-me notícias da mansão celeste:
se também há ódios ou há só amor
(a descrença enorme do teu pobre neto!),
se há um Deus que é branco e outro Deus que é preto,
ou um Deus existe sem raça nem cor.
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2
Augusto dos Anjos
O Mar
O mar é triste como um cemitério;
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela imácula brancura
De ondas chorando n'um albor etéreo.
Ah! dessas vagas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; lá, só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!
Quando a cândida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solidão das fragas,
Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma,
Reflete a luz do sol que já não arde,
Treme na treva a púrpura da tarde,
Chora a Saudade envolta nesta espuma!
Pau d'Arco, 1902
O Comércio, 26-II-1902
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.209. (Ensaios, 32
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela imácula brancura
De ondas chorando n'um albor etéreo.
Ah! dessas vagas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; lá, só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!
Quando a cândida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solidão das fragas,
Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma,
Reflete a luz do sol que já não arde,
Treme na treva a púrpura da tarde,
Chora a Saudade envolta nesta espuma!
Pau d'Arco, 1902
O Comércio, 26-II-1902
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.209. (Ensaios, 32
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Oswaldo Osório
Nome de pão
ouso nosso pão e posso
ouso nosso pão e posso
ainda molecular a ideia
para dedos de haver esperança
ouso pensar
coragem e amar
e tanta coisa que é pão.
ouso nosso pão e posso
ainda molecular a ideia
para dedos de haver esperança
ouso pensar
coragem e amar
e tanta coisa que é pão.
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José Bonifácio, o Moço
O Infante
"Il fut un temps, un temps d'ivresse
Ou l'aurore qui vous caresse
Rayonnait sur mon beau printemps."
V. Hugo
Sempre, sempre a sorrir! — Fogem-te os anos
Em céu de amores, devassando encantos;
Falando sonhas —
Aqui a linda flor te dá perfumes,
Ali a aurora te sorri nas nuvens,
Cantam as aves.
Tens no cristal do lago um liso espelho,
No firmamento azul a imagem tua,
No céu teu berço;
Co'a estrela um riso vais trocar à noite,
E no correr veloz a borboleta
Vences audaz;
Teu pensamento é brisa buliçosa,
Que mansa adeja, — meiga vai beijando
As flores todas —.
Do passado não tens uma lembrança,
Nem um cuidado no futuro ao menos,
Lindo o presente!
Ai! meus anos corridos não mais voltam!...
Dai-me um dia, meu Deus, da infância minha,
Um dia só! —
No ar a borboleta — a flor no prado,
No lago meu baixel — nos lábios riso,
Morrer depois!
Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.27-28. (Poesia, 5
Ou l'aurore qui vous caresse
Rayonnait sur mon beau printemps."
V. Hugo
Sempre, sempre a sorrir! — Fogem-te os anos
Em céu de amores, devassando encantos;
Falando sonhas —
Aqui a linda flor te dá perfumes,
Ali a aurora te sorri nas nuvens,
Cantam as aves.
Tens no cristal do lago um liso espelho,
No firmamento azul a imagem tua,
No céu teu berço;
Co'a estrela um riso vais trocar à noite,
E no correr veloz a borboleta
Vences audaz;
Teu pensamento é brisa buliçosa,
Que mansa adeja, — meiga vai beijando
As flores todas —.
Do passado não tens uma lembrança,
Nem um cuidado no futuro ao menos,
Lindo o presente!
Ai! meus anos corridos não mais voltam!...
Dai-me um dia, meu Deus, da infância minha,
Um dia só! —
No ar a borboleta — a flor no prado,
No lago meu baixel — nos lábios riso,
Morrer depois!
Publicado no livro Rosas e Goivos (1848).
In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. p.27-28. (Poesia, 5
1 483
2
Abgar Renault
Depois
Para onde irão depois as coisas que aprendi?
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série O Rio Escuro.
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série O Rio Escuro.
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2
Álvaro Moreyra
Temperatura
Quando eu era mais moço tive na vida um
sorriso para tudo.
Tive?
Ainda tenho.
Mas hoje o meu sorriso é como o sorriso das
bailarinas.
Um sorriso na ponta dos pés, que espia o público
e que às vezes nem está sorrindo.
Dura enquanto dura a dança...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
sorriso para tudo.
Tive?
Ainda tenho.
Mas hoje o meu sorriso é como o sorriso das
bailarinas.
Um sorriso na ponta dos pés, que espia o público
e que às vezes nem está sorrindo.
Dura enquanto dura a dança...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
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Tomás Antônio Gonzaga
Lira XIX
Enquanto pasta alegre o manso gado,
minha bela Marília, nos sentemos
à sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
na regular beleza,
que em tudo quanto vive nos descobre
a sábia Natureza.
Atende como aquela vaca preta
o novilhinho seu dos mais separa,
e o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara,
como a ruiva cadela
suporta que lhe morda o filho o corpo,
e salte em cima dela.
Repara como, cheia de ternura,
entre as asas ao filho essa ave aquenta,
como aquela esgravata a terra dura,
e os seus assim sustenta;
como se encoleriza,
e salta sem receio a todo o vulto,
que junto dele pisa.
Que gosto não terá a esposa amante,
quando der ao filhinho o peito brando
e refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando
disser consigo: "É esta
de teu querido pai a mesma barba,
a mesma boca e testa."
(...)
Que prazer não terão os pais, ao verem
com as mães um dos filhos abraçados;
jogar outros a luta, outros correrem
nos cordeiros montados!
Que estado de ventura:
que até naquilo, que de peso serve,
inspira Amor doçura!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Parte I (1792).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
minha bela Marília, nos sentemos
à sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
na regular beleza,
que em tudo quanto vive nos descobre
a sábia Natureza.
Atende como aquela vaca preta
o novilhinho seu dos mais separa,
e o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara,
como a ruiva cadela
suporta que lhe morda o filho o corpo,
e salte em cima dela.
Repara como, cheia de ternura,
entre as asas ao filho essa ave aquenta,
como aquela esgravata a terra dura,
e os seus assim sustenta;
como se encoleriza,
e salta sem receio a todo o vulto,
que junto dele pisa.
Que gosto não terá a esposa amante,
quando der ao filhinho o peito brando
e refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando
disser consigo: "É esta
de teu querido pai a mesma barba,
a mesma boca e testa."
(...)
Que prazer não terão os pais, ao verem
com as mães um dos filhos abraçados;
jogar outros a luta, outros correrem
nos cordeiros montados!
Que estado de ventura:
que até naquilo, que de peso serve,
inspira Amor doçura!
Publicado no livro Marília de Dirceu: Parte I (1792).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
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Tobias Barreto
Por Que Volto?
Por que volto? A razão é muito simples:
Não posso mais sofrer tamanho exílio,
Pois a vida bucólica e campestre
Só me agrada... nos versos de Virgílio.
1887
Publicado no livro Dias e Noites (1925). Poema integrante da série Parte I - Gerais e Naturalistas.
In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.128. (Obras completas
Não posso mais sofrer tamanho exílio,
Pois a vida bucólica e campestre
Só me agrada... nos versos de Virgílio.
1887
Publicado no livro Dias e Noites (1925). Poema integrante da série Parte I - Gerais e Naturalistas.
In: BARRETO, Tobias. Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. p.128. (Obras completas
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Odylo Costa Filho
O Oratório de Djanira
(...)
2. OFERTÓRIO
Djanira apresenta seus santos.
Vestidos de ouro e luar sobre o traço aberto da madeira,
o mesmo lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.
São cinco homens e quatro mulheres, pois
a Mãe de Deus aparece sob duas imagens:
a da Imaculada Conceição, que foi como ela nasceu,
e a de Nossa Senhora do Bom Parto, que zela pelas outras nascenças.
Aqui encontrarás, se tiveres nos olhos o coração,
os caminhos da santidade pelos desertos da solidão.
Bento, que lia, e Pedro, que chorava,
com o galo que cantou três vezes, o sudário que enxugava as lágrimas,
e o bastão que governa a Igreja;
Antônio, que trouxe nos braços o Menino;
Matias, o primeiro a ser escolhido pelo povo de Deus e o primeiro a
[sofrer o martírio,
e São José de Botas — as mesmas botas que calçou quando buscou
[refúgio no deserto e nas árvores do Egito.
Entre as mulheres estão Teresa, que sofreu no amor divino
as angústias e o gozo do amor físico,
Rita, que tem a chave dos impossíveis e se dói dos limites da nossa
[condição,
e Sant'Ana, que sempre ensina no livro à filha predestinada para o
[sopro de Deus e a resignação com as Sete Dores.
Piedoso ou carregado de culpas, ajoelha-te ao lado de Djanira e reza
[com ela,
para que todos os barcos cheguem a bom porto,
as crianças brinquem de roda na noite leve,
as casas descansen tranquilas na paisagem,
mar azul, chão de ervas mui verde, olhos d'água, caminhos no morro,
e todas as almas vejam a nudez de Deus no paraíso,
não o Deus que mede, na luz impalpável, etérea,
sem contorno, sem forma e sem limite,
mas o pobre Deus que acabou de nascer Homem,
deitado nas palhas do velho presepe.
Poema integrante da série Arca da Aliança.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
2. OFERTÓRIO
Djanira apresenta seus santos.
Vestidos de ouro e luar sobre o traço aberto da madeira,
o mesmo lenho em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.
São cinco homens e quatro mulheres, pois
a Mãe de Deus aparece sob duas imagens:
a da Imaculada Conceição, que foi como ela nasceu,
e a de Nossa Senhora do Bom Parto, que zela pelas outras nascenças.
Aqui encontrarás, se tiveres nos olhos o coração,
os caminhos da santidade pelos desertos da solidão.
Bento, que lia, e Pedro, que chorava,
com o galo que cantou três vezes, o sudário que enxugava as lágrimas,
e o bastão que governa a Igreja;
Antônio, que trouxe nos braços o Menino;
Matias, o primeiro a ser escolhido pelo povo de Deus e o primeiro a
[sofrer o martírio,
e São José de Botas — as mesmas botas que calçou quando buscou
[refúgio no deserto e nas árvores do Egito.
Entre as mulheres estão Teresa, que sofreu no amor divino
as angústias e o gozo do amor físico,
Rita, que tem a chave dos impossíveis e se dói dos limites da nossa
[condição,
e Sant'Ana, que sempre ensina no livro à filha predestinada para o
[sopro de Deus e a resignação com as Sete Dores.
Piedoso ou carregado de culpas, ajoelha-te ao lado de Djanira e reza
[com ela,
para que todos os barcos cheguem a bom porto,
as crianças brinquem de roda na noite leve,
as casas descansen tranquilas na paisagem,
mar azul, chão de ervas mui verde, olhos d'água, caminhos no morro,
e todas as almas vejam a nudez de Deus no paraíso,
não o Deus que mede, na luz impalpável, etérea,
sem contorno, sem forma e sem limite,
mas o pobre Deus que acabou de nascer Homem,
deitado nas palhas do velho presepe.
Poema integrante da série Arca da Aliança.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
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