Poemas neste tema
Céu, Estrelas e Universo
Rose Ausländer
Novos sinais
Novos sinais
queimam
no firmamento
mas
sem expectadores
que os apontem
e
meus mortos
calam fundo
Neue Zeichen
brennen
am Firmament
doch
sie zu deuten
kommt kein Seher
und
meine Toten
schweigen tief
queimam
no firmamento
mas
sem expectadores
que os apontem
e
meus mortos
calam fundo
Neue Zeichen
brennen
am Firmament
doch
sie zu deuten
kommt kein Seher
und
meine Toten
schweigen tief
666
Vasko Popa
Caracol estrelado
Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
891
Pedro Casariego Córdoba
Esta solidão
esta solidão é filha de uma altura equivocada
eu tenho o vício dos céus
sou o único proprietário
do ar ossudo e dos pássaros fáceis
os ossos azuis do céu
formam um espaço grande e delicado
e se partem em tormenta
e descem em água
para acabar em lápide sem nome
o vermelho das minhas mãos é um mistério
porque brota de rios brancos que se inclinam como lápides
através da tela metálica
cabisbaixa a erva daninha rouba o início do outono
no outono os ladrões de céu
carregam silêncio no bico e tumba nas asas
agarro-me à tela metálica
e não tenho dinheiro
as mulheres redondas sempre têm dinheiro
mas quando olham para o alto a celebrar uma cama nova
alguém obstrui o céu com uma navalha de ar
agarro-me à tela metálica
e não tenho mulher redonda
eu tenho o vício do céu porque tenho medo
porque sou covarde
mulher inteira nada tenho a oferecer desamarrote minha tormenta
AJANTA É ÀS 6.
EUSOU O GARÇOM.
:
ESTASOLEDAD / esta soledad es hija de una altura equivocada / yo tengo elvicio del cielo / soy el único propietario / del aire huesudo y delos pájaros fáciles // los huesos azules del cielo / forman unespacio largo y delgado / y se quiebran en tormenta / y bajan en agua/ para acabar en lápida sin nombre // el rojo de mis manos es unmisterio / porque brota de ríos blancos que se inclinan como lápidas// a través de la tela metálica / cabizbaja la mala hierba roba elprincipio del otoño // en otoño los ladrones del cielo / llevansilencio en el pico y tumba en las alas // me agarro a la telametálica / y no tengo dinero / las mujeres redondas siempre tienendinero / pero cuando miran hacia lo alto para celebrar una cama nueva/ alguien impide el cielo con una navaja de aire // me agarro a latela metálica / y no tengo mujer redonda // yo tengo el vicio delcielo porque tengo miedo / porque soy cobarde // mujer entera nopuedo darte nada plancha mi tormenta / LA CENA ES A LAS 6. / YO SOYEL CAMARERO.
728
João Apolinário
os zeros relativos
Reduzo
o espaço
ao limite
do zero
nasce
o mundo
___
Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser
concreto
____
Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência
Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido
____
Uma única
pétala
gera
um universo
de formas
em órbita
____
Tomo o ar
que respiro
e dou vida
aos deuses
invento a sombra
____
Do mar
faço a planície
para as estrelas
fecundarem a noite
os dinossauros
cantam
____
E da vida
faço este delírio
de batráquios
em fuga
roendo horizontes
____
Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero
outro zero
começa
____
Depois
do ouro
velho
queremos
o vermelho
o espaço
ao limite
do zero
nasce
o mundo
___
Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser
concreto
____
Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência
Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido
____
Uma única
pétala
gera
um universo
de formas
em órbita
____
Tomo o ar
que respiro
e dou vida
aos deuses
invento a sombra
____
Do mar
faço a planície
para as estrelas
fecundarem a noite
os dinossauros
cantam
____
E da vida
faço este delírio
de batráquios
em fuga
roendo horizontes
____
Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero
outro zero
começa
____
Depois
do ouro
velho
queremos
o vermelho
1 049
Jean-Joseph Rabearivelo
O boi branco
Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus cornos;
mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem em nossos desertos.
Le boeuf-blanc
Cette constellation en forme de croix est-elle l’Étoile du Sud?
Je préfère l’appeler Boeuf-blanc, comme les Arabes.
Il vient d’un parc s’étendant au bord du soir
et s’engage entre deux voies lactées.
Le fleuve de la lumière ne l’a pas désaltéré,
et le voici qui boit avidement au golfe des nébuleuses.
Etant un éphèbe aveugle dans les régions du jour,
il n’a pu rien y caresser avec ses cornes;
mais, maintenant que des fleurs naissent aux prairies de la nuit
et que la lunes les broute en bondissant comme une taure,
ses yeux recouvrent la vue, et il paraît plus fort que les boeufs bleus
et les boeufs sauvages qui dorment dans nos déserts.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 092
Inge Müller
Lua lua nova tua segadeira
Lua lua nova tua segadeira
Ceifa-nos tempo qual relva
E nós nos erguemos no céu
Em fina areia de ampulheta.
Segue seu caminho a estrela
Nós buscamos nossa vereda
Quando ela própria se deita
Passe então por cima dela.
(N.T.: Por questões sonoras, mudei os verbos nos últimos dois versos da primeira para a terceira pessoa.)
:
Mond Neumond deine Sichel
Mäht unsre Zeit wie Gras
Wir stehn aufrecht im Himmel
Auf dünnem Stundenglas.
Der Stern geht seine Wege
Wir suchen unsern Weg
Wenn ich mich niederlege
Geh über mich hinweg.
Ceifa-nos tempo qual relva
E nós nos erguemos no céu
Em fina areia de ampulheta.
Segue seu caminho a estrela
Nós buscamos nossa vereda
Quando ela própria se deita
Passe então por cima dela.
(N.T.: Por questões sonoras, mudei os verbos nos últimos dois versos da primeira para a terceira pessoa.)
:
Mond Neumond deine Sichel
Mäht unsre Zeit wie Gras
Wir stehn aufrecht im Himmel
Auf dünnem Stundenglas.
Der Stern geht seine Wege
Wir suchen unsern Weg
Wenn ich mich niederlege
Geh über mich hinweg.
849
Juan L. Ortiz
Sim, as escamas do crepúsculo...
Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado
Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...
Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...
Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...
Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....
(tradução de Idelber Avelar)
:
Sí, las escamas del crepúsculo...
Juan L. Ortiz
Sí, las escamas del crepúsculo
en el filo, último?, de Noviembre sobre el río:
o el éxtasis de los velos de Noviembre
fluyendo hasta la noche, y más allá?...
increíble de ecos
y de fugas y pasajes
de no se sabe ya
qué despedida o qué llamado...
Sí, el fluido profundo, sobre oro,
que nimba la barranca
e inscribe místicamente un árbol alto,
y radia, hasta cuándo?,
unos vagos pétalos de iris...
Sí, sí,
el verde y el celeste, revelados,
que tiemblan hacia las diez porque se van
y en la media tarde se deshacen o se pierden
en su misma agua fragilísima...
Sí, sí, sí...
Pero vino la luz, estaba sólo la luz
detrás de las persianas de la mañana íntima:
vino la criatura eterna, el sentimiento de las estrellas,
la eucaristía de los mundos, el alma primera
antes, antes del prisma,
con esa flauta blanca, inefablemente blanca, siempre impuesta
sobre el caos…
Vino la luz, vino la niña esencial,
imposiblemente pura de las hojas y de sus propias alas,
hasta un olvido lleno de ella
como de la mirada, única, de un estío nunca visto…
541
Leopoldo María Panero
Nascimento de Jesus
Os cavalos em vento se transformam
o deserto entre minhas mãos nasce
o medo é Jesus Cristo entre meus olhos
estrela que no nada jaz
O medo diante da neve se ajoelha
o medo diante da escuridão é o nada
uma mulher que entre os homens nasce.
:
NACIMIENTO DE JESÚS
Los caballos en viento se mudan
el desierto entre mis manos nace
el miedo es Jesuscristo entre mis ojos
como una estrella que en la nada yace.
El miedo ante la nieve se arrodilla
el miedo ante lo oscuro es una nada
como una mujer que entre los hombres nace.
754
Robin Blaser
Romance
o oposto de significado não é
insignificância, o que estas grandes
palavras significam em meio ao pânico, bem,
pânico significa coração.....antes de
formarmos isso, era Pã, meu querido
e chumaços de plantas.....antes de
o planejarmos ou beijarmos, antes
de sonharmos as folhas ou as
consequências históricas, antes
do oceano em pinturas e tormentas, antes
da água por toda parte, bêbados e
bronzeados, deter-nos, antes da
rocha de nosso espírito, antes dos degraus
e fontes e fragmentos, antes
de cães e gatos e vilas, as
pegadas infindáveis, antes da doçura
e montanhas, antes do paraíso
e jardins murados, antes
de ruas e manufatura, carros
e luxúria, depois das estrelas
e constelações serem prováveis, nós
o descobrimos
(tradução de Ricardo Domeneck)
610
Giacomo Leopardi
XXXVII - Ouve, Melisso
ALCETA
Ouve, Melisso: vou contar-te um sonho
Desta noite que me retorna à mente
Ao remirar a lua. Eu estava
À janela voltada para o prado,
Olhando o alto: e eis que de repente
A lua se destaca; e pareceu-me
Que quanto mais se aproximava caindo,
Mais crescesse ao olhar; até que veio
A dar um golpe em meio ao prado; e era
Grande que nem um balde, e de centelhas
Vomitava uma névoa, estrilando
Tão forte como quando um carvão vivo
Entra na água e se apaga. Desse modo
A lua, como disse, em meio ao prado
Se apagava embaçando pouco a pouco,
E os relvados queimavam ao redor.
Então mirando o céu vi que restava
Como um lampejo ou rastro, como um nicho,
O ponto abandonado; de tal sorte
Que fiquei frio por dentro; e ainda temo.
MELISSO
E bem deves temer, que coisa fácil
Foi a lua cair em teu relvado.
ALCETA
Será? Não vemos amiúde estrelas
Caindo no verão?
MELISSO
Há tantos astros,
Que pouco dano é cair um ou outro
Deles, e mil restarem. Mas sozinha
Está no céu a lua, que ninguém
Nunca avistou cair senão em sonho.
(O assombro noturno, Recanati, 1819)
:
XXXVII - "ODI, MELISSO"
ALCETA
Odi, Melisso: io vo' contarti un sogno
Di questa notte, che mi torna a mente
In riveder la luna. Io me ne stava
Alla finestra che risponde al prato,
Guardando in alto: ed ecco all'improvviso
Distaccasi la luna; e mi parea
Che quanto nel cader s'approssimava,
Tanto crescesse al guardo; infin che venne
A dar di colpo in mezzo al prato; ed era
Grande quanto una secchia, e di scintille
Vomitava una nebbia, che stridea
Sì forte come quando un carbon vivo
Nell'acqua immergi e spegni. Anzi a quel modo
La luna, come ho detto, in mezzo al prato
Si spegneva annerando a poco a poco,
E ne fumavan l'erbe intorno intorno.
Allor mirando in ciel, vidi rimaso
Come un barlume, o un'orma, anzi una nicchia,
Ond'ella fosse svelta; in cotal guisa,
Ch'io n'agghiacciava; e ancor non m'assicuro.
MELISSO
E ben hai che temer, che agevol cosa
Fora cader la luna in sul tuo campo.
ALCETA
Chi sa? non veggiam noi spesso di state
Cader le stelle?
MELISSO
Egli ci ha tante stelle,
Che picciol danno è cader l'una o l'altra
Di loro, e mille rimaner. Ma sola
Ha questa luna in ciel, che da nessuno
Cader fu vista mai se non in sogno.
(Lo spavento notturno, Recanati, 1819)
.
.
.
1 035
Hilda Machado
Cabo Frio
Nuvens passageiras
miragens peregrinas enfunadas pelo Nordeste
queda de folhagem
muda retórica
O Sudoeste dá rédeas à repulsa
nuvens erráticas devoram rivais
Orfeu despedaçado por bacantes drapejadas de vapor
Em dia sem vento
a falta de engenho permite
purezas de sabão e macieiras em flor
talco no chão do banheiro
sorvete marca Aristófanes
Mas quase sempre ele pisa seus véus
Duas mãos de cinza desmaiado
sobre fundo esmaltado é perícia
renda
luxo magnífico e corrupto
realização elegante de algum mandarim
leque de plumas de avestruz tintas de rosa
levemente agitado diante da luz
(poemas publicados originalmente na revistaInimigo Rumor)
1 742
Adão Ventura
Encantamento
Você agora
é arco-íris
sol
de Três Barras
cristal
de São Gonçalo do Rio das Pedras
- Um caminhão transporta estrelas
do Pico do Itambé
- Um raio corta de fora a fora
os céus do Serro
é arco-íris
sol
de Três Barras
cristal
de São Gonçalo do Rio das Pedras
- Um caminhão transporta estrelas
do Pico do Itambé
- Um raio corta de fora a fora
os céus do Serro
1 193
Oswaldo Osório
Cavalos de silex
ainda estávamos em guerra quando fomos à lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
1 173
Sebastião Uchoa Leite
Fragmentos Cósmicos
Todo sistema tende
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 310
Sebastião Uchoa Leite
Perguntas a H P Lovecraft
Por que sempre as cidades ciclópicas com altas torres de cantaria
negra? Por que formas e cores inimagináveis vindas do espaço, vozes
estaladas ou zumbidas e os cheiros insuportáveis? Por que ventos
frios e pesadelos que são reais? Por que o ignoto nos repugna e por
que o fascínio do repulsivo? Por que mundos perdidos no tempo
anterior ao homem? Por que os Antigos eram sempre superiores, mas
repelentes? Por que algo, sempre, deve calar-se? Por que os reinos
informes da infinitude? Por que sempre as substâncias viscosas e
verdes? Por que Aqueles são ameaçadores? Por que as coisas se
evaporam? Por que a incógnita nos causa horror?
1989
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
negra? Por que formas e cores inimagináveis vindas do espaço, vozes
estaladas ou zumbidas e os cheiros insuportáveis? Por que ventos
frios e pesadelos que são reais? Por que o ignoto nos repugna e por
que o fascínio do repulsivo? Por que mundos perdidos no tempo
anterior ao homem? Por que os Antigos eram sempre superiores, mas
repelentes? Por que algo, sempre, deve calar-se? Por que os reinos
informes da infinitude? Por que sempre as substâncias viscosas e
verdes? Por que Aqueles são ameaçadores? Por que as coisas se
evaporam? Por que a incógnita nos causa horror?
1989
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 094
Tite de Lemos
como algum astro mestre
como algum astro mestre
apontado nos mapas celestes
um rayito de sol
tostando a testa dos homens sós
como um barco à deriva
uma lady, uma dona, uma diva
uma lasca de noz
no agridoce metal da sua voz
um afago nos ramos mais altos das árvores
uma rosa na sala das armas
como um vitral
infiltrado de luz natural
aeroplano em céu noturno
a letra a de aurora, puro ouro
O ouro. Para Antonio Carlos Jobim
In: LEMOS, Tite de. Corcovado Park. Pref. Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poesia brasileira)
apontado nos mapas celestes
um rayito de sol
tostando a testa dos homens sós
como um barco à deriva
uma lady, uma dona, uma diva
uma lasca de noz
no agridoce metal da sua voz
um afago nos ramos mais altos das árvores
uma rosa na sala das armas
como um vitral
infiltrado de luz natural
aeroplano em céu noturno
a letra a de aurora, puro ouro
O ouro. Para Antonio Carlos Jobim
In: LEMOS, Tite de. Corcovado Park. Pref. Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poesia brasileira)
1 158
Mário Faustino
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo
...
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo-
ária de pranto, advento de borrasca,
o mar sem remo tolda os horizontes,
Bóreas tem asco deste canto e vai-se —
a este, o meio. O mar, alto e bifronte,
o mastro verga ao peso de seus astros,
tudo perdura e passa, Vasco e pano,
a hora atordoada, a ponte, o gado —
estado, tempo insone, maremoto
o peixe em seu sepulcro, o céu doloso,
piso estelado, fulcro de tormentos,
nasce de baixo um feixe, um arco, um pasto —
inviolável ave, procelária,
próxima de seu cume, vela e prumo,
alemar, terraquem, céu soto e supra,
solto esqueleto alado, escuma e sulco,
protelado corcel e corolário
do mar e dor do ar e surto e fumo,
esquálido estilete, flecha e rumo,
esquálido estilete flecho e rumo.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo-
ária de pranto, advento de borrasca,
o mar sem remo tolda os horizontes,
Bóreas tem asco deste canto e vai-se —
a este, o meio. O mar, alto e bifronte,
o mastro verga ao peso de seus astros,
tudo perdura e passa, Vasco e pano,
a hora atordoada, a ponte, o gado —
estado, tempo insone, maremoto
o peixe em seu sepulcro, o céu doloso,
piso estelado, fulcro de tormentos,
nasce de baixo um feixe, um arco, um pasto —
inviolável ave, procelária,
próxima de seu cume, vela e prumo,
alemar, terraquem, céu soto e supra,
solto esqueleto alado, escuma e sulco,
protelado corcel e corolário
do mar e dor do ar e surto e fumo,
esquálido estilete, flecha e rumo,
esquálido estilete flecho e rumo.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 235
Carlos Felipe Moisés
Lagartixa
para Margarida
O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se esconde o dorso
e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina
já não é: limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada
de dentro.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza
tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo
insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge
para o céu aberto.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se esconde o dorso
e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina
já não é: limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada
de dentro.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza
tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo
insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge
para o céu aberto.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
855
Nelson Ascher
Voz
Ninguém jamais
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra
como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
— cordas vocais —
propõe que além da
canção, com elas,
a mente aprenda
(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 47
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra
como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
— cordas vocais —
propõe que além da
canção, com elas,
a mente aprenda
(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 47
1 073
Alphonsus de Guimaraens Filho
Canção da Estrela Polar
Na estrada do Acaba-Mundo,
somente a estrela polar.
Vi a morte: fui ao fundo.
Na estrada do Acaba-Mundo,
nenhum mar.
Nenhum mar? Nenhum deserto.
Nenhum sopro, nem luar.
Longe, os anjos. Muito perto
o mundo, a meus pés aberto.
Nenhum mar.
Volta e meia a estrela ria.
De mim? De ti? Do luar?
O luar não existia.
Eu morrera. E a noite fria...
Somente a estrela polar.
Publicado no livro Poesias (1946).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 80. Poema integrante da série Nostalgia dos Anjos, 1939/1944
somente a estrela polar.
Vi a morte: fui ao fundo.
Na estrada do Acaba-Mundo,
nenhum mar.
Nenhum mar? Nenhum deserto.
Nenhum sopro, nem luar.
Longe, os anjos. Muito perto
o mundo, a meus pés aberto.
Nenhum mar.
Volta e meia a estrela ria.
De mim? De ti? Do luar?
O luar não existia.
Eu morrera. E a noite fria...
Somente a estrela polar.
Publicado no livro Poesias (1946).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 80. Poema integrante da série Nostalgia dos Anjos, 1939/1944
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Gregório de Matos
Descreve um Horroroso Dia de Trovões
Na confusão do mais horrendo dia,
Painel da noite em tempestade brava.
O fogo com o ar se embaraçava,
Da terra, e ar o ser se confundia.
Bramava o mar, o vento embravecia,
A noite em dia enfim se equivocava,
E com estrondo horrível, que assombrava,
A terra se abalava, e estremecia.
Desde o alto aos côncavos rochedos,
Desde o centro aos altos obeliscos
Houve temor nas nuvens, e penedos.
Pois dava o Céu ameaçando riscos
Com assombros, com pasmos, e com medos
Relâmpagos, trovões, raios, coriscos.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
Painel da noite em tempestade brava.
O fogo com o ar se embaraçava,
Da terra, e ar o ser se confundia.
Bramava o mar, o vento embravecia,
A noite em dia enfim se equivocava,
E com estrondo horrível, que assombrava,
A terra se abalava, e estremecia.
Desde o alto aos côncavos rochedos,
Desde o centro aos altos obeliscos
Houve temor nas nuvens, e penedos.
Pois dava o Céu ameaçando riscos
Com assombros, com pasmos, e com medos
Relâmpagos, trovões, raios, coriscos.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Alberto de Oliveira
Os Amores da Estrela
Já sob o largo pálio a tenebrosa
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
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Afrânio Peixoto
Anch'io
Na poça de lama
Como no divino céu,
Também passa a lua.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Como no divino céu,
Também passa a lua.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
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Alphonsus de Guimaraens
XII - Noite de Luar
A MARINHO DE ANDRADE
Ó luar, dá-me na tua asa branca o seu beijo,
Dá-me a sua carícia, o seu amor e aquela
Doce luz que roubaste aos meigos olhos dela,
Que é toda a minha vida e todo o meu desejo.
Uma estrela falar-me uma noite assim veio,
Deixando na minh'alma um cristalino rasto:
"É impossível que o luar sendo assim puro e casto
Não lhe tenha roubado a brancura do seio!"
E tu ó luar, disseste assim risonho: "Deixa
Falar a estrela! Foi esse astro que, sonhando,
A luz branca do olhar lhe roubou, terno e brando,
Enquanto a noite vinha arrancar-lhe a madeixa"
Estrela, mentes? Luar, mentes também? Seria
Uma blasfêmia cruel dizer agora ao certo
Se de vós veio a luz que ela tem, ou se o aberto
Olhar que tendes, dela em gotas veio um dia...
Uma blasfêmia... Pois eu não posso dizer-vos
Se ela é do céu, ou se vós sois da terra, tanto
É o sensualismo que me vem do vosso pranto,
Tanta é a celeste luz que me vem dos seus nervos!
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 546-547. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
Ó luar, dá-me na tua asa branca o seu beijo,
Dá-me a sua carícia, o seu amor e aquela
Doce luz que roubaste aos meigos olhos dela,
Que é toda a minha vida e todo o meu desejo.
Uma estrela falar-me uma noite assim veio,
Deixando na minh'alma um cristalino rasto:
"É impossível que o luar sendo assim puro e casto
Não lhe tenha roubado a brancura do seio!"
E tu ó luar, disseste assim risonho: "Deixa
Falar a estrela! Foi esse astro que, sonhando,
A luz branca do olhar lhe roubou, terno e brando,
Enquanto a noite vinha arrancar-lhe a madeixa"
Estrela, mentes? Luar, mentes também? Seria
Uma blasfêmia cruel dizer agora ao certo
Se de vós veio a luz que ela tem, ou se o aberto
Olhar que tendes, dela em gotas veio um dia...
Uma blasfêmia... Pois eu não posso dizer-vos
Se ela é do céu, ou se vós sois da terra, tanto
É o sensualismo que me vem do vosso pranto,
Tanta é a celeste luz que me vem dos seus nervos!
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 546-547. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
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